o trabalho que custa ser académico

Ser académico, é essa luta permanente por saber e ter cargos, especialmente se, comparado com a geografia da sociedade semelhante à da terra, há muitas pessoas para o mesmo cargo. Não há apenas rijas entre camaradas, bem como se fala mal do rival para desprestigiar sua ética, a sua moral, o seu saber e, assim, ganhar o sítio apetecido. Quem concorre a um sítio académico, anda sempre pelas ruas da amargura, seja famoso e sabido, ou apenas um leito de livros, sem pesquisa, que lê para ensinar depois. Lê qualquer autor que lhe parece ser adequado. O escreve um texto para publicar, que dá tristeza.

Bem dizia o meu muito cedo desaparecido amigo Pierre Bourdieu, que desde o dia que escrevera o seu texto Homo Academicus, 1984, Éditions de Minuit, Paris, por ter denunciado estas concorrências, mais ninguém falava com ele. Excepto os membros do seu seminário, onde eu ensinava e ele, no meu, enviado aos seus assistente, que ficavam sempre na minha casa. Perguntava-se Pierre se o sociólogo era capaz de entender objectivamente esse mundo no qual trabalhava e do qual era o seu era o seu prisioneiro. A resposta está no livro e na tese da Doutora Maria Eduarda do Cruzeiro,

que, nos anos 80 do século passado, orientamos e examinamos em conjunto. Uma excelente pesquisa e um belo texto saíram dessas mãos e cabeça. Teve o mais alto valor, mais um motivo para Pierre Bourdieu ser desvalorizado e eu como ele. Na vida académica, quem mais sabe, esse punhado pequeno de pessoas, é sempre afastado e aos pontapés.

A preparação de um académico, é sempre feita na, continuado com a comparação geográfica, em um Paine do Chile, metáfora que indica que é uma passagem muito estreita que nem todos têm o valor de passar. Ou, como Pierre, não desejam prestar provas por considerar esse facto uma burocracia desnecessária. O que interessava ao menino Kabila, etnia da Algéria onde se criou e aprendeu todo o que depois teorizou. No meu caso, prestei todas as provas por ser um eterno estrangeiro no país que estiver: devia demonstrar a minha mais-valia. Nem por isso éramos mais valorizados. Ao menino Picunche por adopção, etnia da cordilheira onde realizei o que considero a minha melhor pesquisa, a que me dera mãos prazer e justificara o meu ensino e textos, todos queriam vê-lo fora já. Infelizmente, assim aconteceu…

Para ser académico é necessário, antes, saber ler e escrever. Não é metáfora, é ironia por existir pessoas que ano após ano repetem a mesma matéria e lêem os mesmos livros: isso não é saber ler e escrever. A seguir, estudar os cursos preparatórios que o Pierre e eu fizemos em casa até onde a lei permitia. A nossa pedagogia aprendeu a ser digna e dignificante, sem ter que transpirar por um valor a mais que os nossos pais e docentes em casa não precisavam de dar, tanto líamos e estudávamos, que a voz de ordem passou a ser: para e anda a brincar. Ouvidos moucos…A leitura era o nosso maior prazer e a escrita, o presente para a sociedade. Aprendemos a não tropeçar com o saber nem com as letras escritas, esse manjar dos deuses. O Pierre tinha uma escrita difícil para que o mundo não pensar que as ciências sociais eram uma imitação da vida. Criou conceitos novos, juntos os meninos já adultos, emitiram textos e definiram novos conceitos. Até ele falecer. Bem como eu ficar doente após cinquenta anos de intenso trabalho na academia.

Palavras que devemos a Aristóteles e os seus liceus onde ensinava rapazes na Grécia antiga, em que a mulher era uma escrava da casa. Como tantas outras.

Ser académico é um trabalho duro: as leituras, as investigações, esse fornecer conceito novos retirados da nossa investigação, prestar provas desde o Bacharelato ou licenciatura. Para quem quer correr mais, as pós-graduações, os livros bem escritos, esse permanente estudar e debater com os colegas o com os nossos discentes, que fadigava mas permitia saber mais, de nosso próprio espólio e imaginário, sem estar sempre a citar autores esotéricos. Normalmente, os estudantes deixam para o fim as leituras recomendadas no curso que estudam, e suam essa liberdade que se atribuem na vida.

Inventei, com o Pierre, Jack Goody e outros, as sessões de tutórias, como explicara antes no ensaio Ser académico, publicado ontem à noite. Par quem quer correr, o campo é largo e não rende lucro. As provas são muitas e os examinadores, tiranos de Midas. Eis porque poucos se apresentam à corrida académica, por ser difícil a preparação e a sua prática. Especialmente pelas rivalidades de pares, faculdades e universidades: cada uma pensa ser a melhor. De facto, há as famosas, raras e que precisam de muito trabalho da parte do candidato.

Mais nada digo. Todos sabemos das dificuldades de se preparar para ser uma mente brilhante, mentes, conceito criado por mim no meu texto de 1990c: A construção social do insucesso escolar, editado pela antiga Escher, hoje Fim de Século. Quem ler esse livro, pode perceber as dificuldades da vida académica, se é feita no sítio investigado e se faz como os outros fazem, sem perguntas que permitam imiscuir-se na vida dos outros, mas com observação e um pequenos caderno de notas, para mão esquecer nomes e actividades que, a seguir, são passadas ao papel das máquina de escrever – o computador foi criado muito depois de nos começarmos a redigir as nossas observações, que passariam a ser livros, a seguir.

Quem queira saber mais, leia os livros citados, viva com os seres estudados e analisados e nunca comente em frente deles, o que observou. Eis a real preparação do trabalho académico, que não tem horas, nem férias nem divertimentos. Este é o trabalho que custa ser académico…não aulas nem provas, mas a capacidade para o convívio com outros, essa amizade que permite ao outro nos contar a sua vida, alegrias e tristezas e nada querem saber das nossas por nós considerar-nos trigo maduro…

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    Peço desculpa, mas vou deixar-lhe uma pergunta —ou mais:
    É possível ser académico e ser discreto?… Por que razão o Senhor gasta todo o seu tempo e os seus textos —estou a exagerar, eu sei— a realçar a sua posição de académico e as relações privilegiadas com figuras de relêvo, as quais, possivelmente, nem gostariam, porque interpretariam isso como o seu método de autopromoção?… Porque razão os objectivos de um académico deveriam contemplar, com ênfase, a ocupação de cargos?

    Peço desculpa, repito, mas, a inteligência e o saber e os galardões não são coisa para ser apregoada; são para serem usados nos momentos em que é necessário. Por estes dois últimos textos que li, se me precipitasse, diria que os seus professores, apesar de figuras de relêvo, não lhe teriam assinalado as traves mestras da Vida, que ultrapassam as paredes das universidades e toda e qualquer cátedra.

    Possivelmente, quando o Senhor se dispuser a escrever sobre assuntos de interesse, verá, talvez, que uma ou outra pessoa os comentará, tentando, consigo, estabelecer diálogo. Por agora, o Senhor está exactamente a representar um papel que era —e ainda é— muito português, e que, a pouco e pouco, felizmente, vai caindo em desuso: a necessidade de mostrar os títulos e as insígnias.

    Ora, este tipo de postura nem é de académico nem, muito menos, de pessoa do Mundo: E vou dizer-lhe mais —com todo o respeito, repito—, os seus escritos acaba por desvalorizar os estabelecimentos de ensino por onde o Senhor diz ter passado —não foi, seguramente, em Cambridge, que o Senhor aprendeu a adoptar este tipo de discurso.

    Ao contrário do que possa pensar, a minha observação não é de pessoa que o inveja, porque, como aceitará, há muitos outros académicos, catedráticos, inclusive. A minha observação pretende alertá-lo para um posicionamento que não o favorece e que impedirá que as pessoas se aproximem e o leiam.

    Deixo-lhe, para terminar, uma sugestão: deite cá para fora o que aprendeu, o que viu; as suas interpretações do estado do mundo, da Humanidade; exponha as suas ideias… Vai ver que todos acabarão por reconhecer que o Senhor tem mérito e é de utilidade.

    Termino pedindo, uma vez mais, desculpa.


    • Caro Rodrigo Costa,
      A resposta ao seu comentário a foi enviada por e-mail. Agradeço o seu comentário e a sua paciência de ler textos que não gosta. Caro Rodrigo Costa,
      Começo por agradecer a sua paciência por ler e comentar o meu texto. O que o meu comentarista não reparou que o texto é uma ironia, além de ser um texto certo e verdadeiro. Ironia, porque ser académico é a profissão mais pesada de entre todas as que existem; e porque temos que concorrer com pessoas que todo o sabem. Sim, gosto de ser académico, mas o não exibo: narro.
      Não é preciso pedir desculpas. Temos, finalmente, a liberdade de opinar, essa que durante 50 anos nos fora negada.
      Agradeço a sua simpatia, mas não me curte as asas da liberdade de ironizar com a realidade!
      Cumprimenta e agradece
      Raúl Iturra
      lautaro@netcabo.pt

  2. Raul Iturra says:

    Caro Carlos Costa, colega no Aventar e, de certeza, na docência. Acabo de rever os textos que estão perto do comentado, aos que não faz referências. É pena, há textos polivalentes, mas foi apenas a um e pela primeira vez na vida. Defendo-me: não galardões a serem exibidos, é pura e simples narrativa…Se lê-se e comentar outros textos ou livros meus, outro galo cantaria!
    Agradece e cumprimenta
    Raúl Iturra, que rememora o seu passado, por ter sido jubilado faz dois dias…
    lautaro@netcabo.pt

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