Liberalizem os despedimentos…

e deixem à solta os filhos da puta.

Estava eu a almoçar num local que frequento com alguma regularidade quando, por força da proximidade e do volume da conversa, fui obrigado a ouvir o que se passava na mesa ao lado. Estavam dois indivíduos entre garfadas quando um deles recebeu um telefonema. Faço apenas um resumo do essencial, mas a totalidade dos pormenores, cada frase, todos os sentidos, eram do género do que se segue:

-….

– Ai é? E quem era o responsável?

-…

-Não sabes? Então, se queres mostrar quem manda, despede um já hoje. Um qualquer, ao calhas.

-…

– Ao calhas, sim, se queres mandar despede já um. Ou dois. Assim os gajos percebem quem manda.

-…

– Não queres despedir os portugueses? Então despede brasileiros, dois ou três de uma vez.

-…

-Quais? Os que te apetecer. Dizes aos gajos “meu amigo, você já foi ao SEF? Não? Então rua”.

-…

-Têm data marcada para ir ao SEF, estão à espera do dia agendado? Então aproveita agora, dizes “já devia ter ido” e pões os gajos a andar. Depois agarras em dois dos que ficarem e dás uma gratificação de 50 euros a cada um. Esses ficam do teu lado. Vem nos livros: há sempre uns que são neutros, uns que estão contra ti e uns que ficam do teu lado, esses são aqueles que te dão o poder. Agarras já nos que gostas menos e andor. Eu dei-te o poder, não foi para me vires pedir para resolver estes problemas. Desenrascas-te e mostras logo que tu é que mandas. Se não fizeres isso, não me venhas pedir ajuda quando der para o torto. Não se pode ser simpático com seres humanos, tens que os tratar abaixo de cão. Estes gajos são animais, é isso que tens que perceber.

-…

O telefonema ainda continuava quando me levantei, paguei e disse ao homem, em voz alta, que era um asqueroso. Ia na soleira da porta quando chegou a resposta.

– Asqueroso és tu.

Nem me virei. Com esta resposta tenho a certeza que a pessoa do outro lado ouviu. O que fez a seguir, não sei. Provavelmente era apenas mais um cobarde asqueroso e seguiu os conselhos do chefe, eventualmente, até, com excesso de zelo.

Deixem os filhos da puta à solta e verão. Como dizia o primeiro sem perceber que se auto-retratava “estes gajos são animais”. Pois é. E é isso que temos que perceber.

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    Caro Pedro Correia,

    Não sendo fácil fazer as comparações, sem ser mal interpretado, sou forçado a fazê-las, porque tive a experiência própria.

    Em 1969, trabalhava eu como desenhador gráfico, fui despedido, por ter feito exigências que estavam de acordo com o contrato de trabalho. Isto é, eu desenvolvia, já, trabalho do que se considerava ser um “oficial”, e continuava a receber como “aprendiz”.

    Quando me fui queixar ao sindicato, o que aconteceu foi que o responsável pelo atendimento —já não me lembro do nome; embora eu saiba que ficou na mesma função, depois do 25 de Abril—, a primeira coisa que fez foi avisar, o meu patrão, do que se estava a passar, de forma a que ele pudesse compor o ramalhete e apurar a argumentação para manter o despedimento.

    Fui para tribunal, e, numa reunião, digamos que de tentativa de conciliação, depois de me ouvir, o Juíz perguntou-me se eu queria ser reintegrado ou se queria receber a indemnização.
    Como nessa altura não faltava trabalho, e eu sabia que, se fosse reintegrado, a retaliação acabaria por vir, disse que já tinha emprêgo, e acabei por ser indemnizado.

    Quando a testemunha da entidade patronal começou a depôr —testemunha que não presenciara o que quer que fôsse—, o Juíz olhou para mim; à espera do que eu dizia. E eu disse, simplesmente, que aquele senhor não presenciara nada. Como a testemunha se propusesse continuar, o Juís mandou-o calar, ameaçando-o de o põr fora da sala. De seguida, mandou que ele me pagasse, uma vez que o funcinário já ia preparado para o caso.

    Isto aconteceu, como calculará, no período em que o primeiro-Ministro era Salazar; numa altura em que se vivia, realmente, com grande dificuldade, mas em que as empresas eram tidas como suportes de responsabilidade social; para despedir um funcionário… a coisa tinha muitos quindins, porque o Estado protegia, sempre, o trabalhador, independentemente da discussão que possamos ter sobre o valor dos salários; porque; como sabe, o mundo deu muitas voltas e as sociedades sofreram grandes transformações.

    Aquilo que quero deixar reflectido não é o meu apoio à filosofia salazarista, mas à ideia de que havia pormenores que talvez fôsse interessante terem sido preservados. Passou-se de um regime em que o Estado controlava tudo, para um regime em que o Estado é quase tortalmente controlado; em que os privados podem fazer o quer e lhes apetece, desde que lhes pareça dar lucro.

  2. Pisca says:

    A asquerosos deste calibre só há uma forma de negociar, com um barrote no focinho bem assente, não entendem outra forma

  3. sniper says:

    Asqueroso ?? Penso que esse adjectivo é pomposo demais, verme é o termo exacto e os vermes perniciosos esmagam-se para estrume.


  4. Então tu estás a almoçar com um monte de merda ao lado, e não chamas logo a ASAE?

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