Uma questão de distribuição

Quando falha a distribuição da riqueza, mais cedo ou mais tarde acabamos por ter distribuição de sacrifícios.

Vivemos hoje os chamados “tempos difíceis”, porque nos tempos da aparente abundância nunca esta foi por via da distribuição da riqueza. Pelo contrário: concentrou-se o esbanjamento e distribuiu-se endividamento.

Veja-se como os salários baixos foram durante décadas um chavão para o nosso progresso. Num país dito da Europa, alicerçávamos a nossa competitividade nos salários baixos. Depois, para colmatar a falta de dinheiro para se comprar aquilo que era dado como imprescindível para se ser feliz, fosse na televisão fosse na casa do vizinho, abriram-se os cordões da bolsa do financiamento e tudo pôde comprar aquelas coisas para as quais poucos tinham rendimento. Agora que as ilusões de felicidade do crédito fácil estouraram na cara de toda a gente, há que refazer contas à vida e lá vamos no fado dos sacrifícios.

Mister é saber como são distribuídos os sacrifícios, pois que sendo mal distribuídos acontece como na má distribuição da riqueza: muitos empobrecem e alguns engordam.

Em Portugal a regra é aumentar impostos sobre o trabalho, como agora se vê agora com a sobretaxa extraordinária do IRS, ou aumentar o IVA.

De fora ficam juros e dividendos de aplicações financeiras, juros bancários, etc. Porque, dizem, mexer nisso seria prejudicar a poupança. Como se a perda de rendimento das pessoas não importasse um prejuízo à poupança.

Decididamente, os rendimentos do trabalho que há décadas têm sido sacrificados em nome de uma competitividade que parece ter apenas beneficiado alguns, continuam a pagar as favas.

(Texto publicado no semanário famalicense “Opinião Pública” a 27/07/2011)

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