Sermão de António aos pseudo-governantes

Talvez Deus perdoe a Agostinho Caridade ter-se feito passar por padre, talvez até o seja aos Seus olhos benignos, porque, em última análise, é dEle que desce o sacerdócio. Veja-se como do nome ao apelido o arguido dos homens tinha já tudo para ser um homem de Deus, como tudo nela pressagiava já a natureza levítica. Note-se como era belo o seu verbo, característica eventualmente transmitida por via sanguínea, já que o progenitor havia estudado para padre. Mas, enfim, se o próprio Messias sofreu às mãos dos homens, é justo que Agostinho se dirija, agora, ao calvário.

Pergunto-me, entretanto, se um homem que parece um padre e fala como um padre e é condenado por, afinal, não o ser, o que deveria acontecer a alguém que fala como um governante e que parece um governante e, todavia, desgoverna? Qual deveria ser o destino de quem, subindo ao púlpito da governação, gastou dinheiro alheio, tal como fez Agostinho Caridade? O que deveria acontecer a quem prometeu que não aumentaria impostos, comprando, assim, votos, para em seguida faltar ao prometido, uma vez investido de poder?

Dir-me-ão que se chega ao governo graças à escolha do povo, mas em lado nenhum está escrito que o voto popular é prova de honestidade passada ou garantia de seriedade futura, como já defendeu o Presidente da República ou como deseja Alberto João Jardim. Pergunto-vos, então, irmãos: vale mais um verdadeiro sermão de um falso padre ou a  palavra ignóbil de um governante verdadeiro? Em verdade vos digo que são insondáveis os caminhos da justiça humana. Amém.

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