A ajuizar por desfechos de cimeiras, reuniões dos Ministros de Negócios de Estrangeiros, dos congéneres das Finanças dos países da UE, ou mais estritamente do Eurogrupo, a crise económica e financeira, sobretudo a que impende sobre países da Zona Euro parece, de facto, um epifenómeno. Não há problemas e tudo o que se passa são efeitos de alucinações da parte podre de povos europeus. Os irracionais, coitados, atrevem-se a reclamar contra vidas precárias, sem emprego, sem rendimento e carentes de alimentos. A “sopa dos pobres” não os contenta. Ingratos!
Toda essa turba de cretinos, de Espanha, Grécia, Itália, Irlanda e Portugal – outros da Bélgica e da própria França ainda estão amestrados – toda essa turba, dizia, apenas sofre de delírio febril. São hábeis artífices de auto-vitimização social. Por incapacidade patológica, ainda não aprenderam, uns, que as remunerações de trabalho têm de ser reduzidas e outros a perder o emprego, a caminhar entre a pobreza e a miséria, sem se indignarem.
Gente ilustre, esclarecida e até genial da Europa, como Angel Merkel e Sarkozy, com empenho, rigor e saber ilimitado, na reunião deste último Domingo, 23/10, acabou, mais uma vez, por rejeitar marchar ao ritmo de quem diz que precisa. Com mais ou menos indignados e as notações das agências de rating a cair para os países mais fragilizados, é imperativo que esses povinhos – Especialmente aí do Sul, periféricos e subdesenvolvidos – dizem eles – esperem, desesperem ou desapareçam, emigrando para um país emergente ou, se preferirem, para as terras do além.-
Os problemas desses cidadãos, consideram eles, não são críticos. “Os milhões de europeus lá do Sul, se se sentem atingidos, não nos convencem a trabalhar e decidir ao Domingo, a não ser para tratar da recapitalização da banca”.
Domingo é dia santo, para católicos e protestantes, mesmo para agnósticos e ateus, e a Sra. Merkel é filha de um pastor luterano – filha de um pastor alemão, diz-se por piada – e a numerosa comitiva interrompeu os trabalhos para fazer um ‘xixi’, à maneira do menino da ‘Manneken Pis”.
Vão, pois, esvaziar a bexiga até 4.ª feira e então regressam. Mas atenção, mija grosso quem manda e mija fino ou é mijado quem obedece e a Sra. Merkel advertiu que, mesmo na 4.ª feira, é possível que não surjam soluções definitivas.
Nesta problemática de ordem ordinária e urinária, são deveras oportunas as palavras do nosso primeiro-ministro, Passos Coelho: “O Estado não tem intenção de nacionalizar bancos, mas se isso vier a acontecer, será um accionista silencioso”. Quer dizer, com os bancos o Estado reterá a urina ou, quando muito, mijará baixinho, muito baixinho e sem ruído. Justamente ao estilo tradicional das circunstâncias.






De facto, não há paciência para esses subdesenvolvidos do Sul, que só querem viver à custa dos seus “Estados gordos”. Sofrimento para cima deles, para expiarem os seus pecados contra o sistema (aqui, os nossos queridos governantes batem palmas e pedem bis).
A questão é que há o risco dos problemas deles virem a “contagiar” os bem comportadinhos do Norte. Claro que não se trata de as suas “saudáveis” economias também serem vulneráveis a uma crise que é global; isto é apenas um “contágio” do tipo viral…
Só que essas cabecinhas iluminadas estarão a chegar (finalmente) à conclusão de que eles e os seus queridos bancos acabarão sempre por ter de abrir os cordões à bolsa, ajudando efectivamente os países com dificuldades de financiamento ou “perdoando” as dívidas que eles, fatalmente, não poderão reembolsar se persistirem em aplicar as medidas que lhes são impostas.
E agora, depois de todas essas patranhas que andaram a impingir aos seus domesticados eleitores (o mito da “raça superior” tem raízes mais fundas do que podemos imaginar), como vender-lhes agora esta?
Comparada com isto, a questão da “recapitalização dos bancos” não será mais do que um problema a resolver num círculo de amigos, o que poderá explicar o espectáculo de “galinhas tontas” a que estamos a assistir.
Parece-me que esta interpretação terá pernas para andar mas, infelizmente, é apenas um palpite.
Claro que tem.