Dívida pública: um casamento de inconveniência

Para mim, que percebo tanto de Economia como muitos economistas, ou seja, nada, é aceitável a ideia de que os cidadãos de um país tenham de pagar as dívidas contraídas por esse mesmo país, tal como, de certo modo, deverá acontecer entre cônjuges num casamento com comunhão de adquiridos.

Recorrendo, ainda, à imagem do matrimónio, o modo como a história da dívida pública está a ser-nos contada pelos governantes poderia corresponder a qualquer coisa como um marido, depois de gastar o dinheiro comum em jogos de azar e em jantares com amigos, acusar a mulher de ter arruinado o casal por causa de um vestido que comprou há dois meses. O marido, representando, aqui, o governo, criticaria, então, a mulher, usando a frase da moda: “Tens andado a viver acima das nossas possibilidades.” Já se sabe que a pobre esposa será obrigada a contribuir para o pagamento da dívida, mas, a não ser que seja destituída, não admitirá que lhe atirem à cara culpas que não tem.

Tal como a esposa vilipendiada, até posso admitir que sou obrigado a pagar as asneiras de outros. Agradecia, no entanto, que não me dissessem que a gestão continuamente danosa de instituições como hospitais, meios de comunicação ou Segurança Social, a destruição sistemática do tecido produtivo ao longo de vários anos, as parcerias de lucros privados e prejuízos públicos, a nacionalização de um banco à custa dos contribuintes ou o desperdício sempre infindável e actual dos delírios madeirenses se devem ao facto de eu ter vivido acima das minhas possibilidades.

É claro que qualquer esposa tem, sobre mim, a grande vantagem de poder recorrer ao divórcio ou de usar uma frigideira como arma de arremesso. Mesmo não tendo escolhido o valdevinos com que me obrigam a viver, não só tenho de pagar o dinheiro que ele me gasta como ainda tenho de o ouvir dizer que a culpa é minha. Para além disso, não tenho força suficiente para atirar frigideiras para São Bento ou para Paris.

Comments

  1. Guillaume Tell says:

    Por sí então havia divórcio, o marido saía de casa, compensava-o por o que gastou a mais e você desembolsava o valor do vestido e lá se desenrascava sozinho.
    Portanto se sigo a vossa lógica você é a favor do desaparcimeto do Estado! Ui isso já não é liberalismo já estamos no libertarianismo! Felicito-o, há pouca gente assim em Portugal, ou que se assume libertária a esse ponto!

    • António Fernando Nabais says:

      Está enganado, caro Guillaume. Sou uma mulher séria que acredita no casamento: bastar-me-ia, no mínimo, que o meu marido me pedisse desculpa e que me dissesse que, de agora em diante, ia modificar o comportamento. Para isso, o meu querido marido teria de seguir conselhos de outros, que as más companhias dos últimos trinta e tal anos só mo têm levado por maus caminhos. E eu sempre a pagar e cada vez mais.

      • Guillaume Tell says:

        E pode me dar o favor de dizer quem são as tais companhias. Porque agora ele é bem obrigado a fazer o que lhe pede o vosso banqueiro (lógico é a ele que lhe deve dinheiro). Depois tem a companhia dos tais que lhe dizem de não pagar nada (acabar na rua portanto), nos que lhe dizem de vender a mobília mas de manter os mesmos hábitos ou com poucas diferenças (tipo jogar só o Totoloto e passar a comer meia dose nas jantaradas) e os outros que lhes dizem de parar de viver assim e assumir as suas responsabilidades.

        Se me diz que deve ouvir os últimos (e mais que ouvir, fazer em grande parte o que lhe dizem) então parto do princípio que concorda com o que digo e aí poderemos começar uma discussão séria e sobre o quê essencial fazer (e parar de estarmos constantemente a falar do que devia ter sido feito, ou do que APARENTEMENTE deve ser feito)

        (Se bem a precebo quando o seu marido a batia há mais de 38 anos átras era melhor comportado? LOL)

        • António Fernando Nabais says:

          Ó Guillaume, você bem tenta acertar na maçã, mas nem na árvore. Não ouvi, nunca, ninguém dizer que não devemos pagar a dívida (Francisco Louçã disse, claramente, na campanha, que é preciso pagar, por exemplo). Por outro lado, parece-me que anda bem enganado: estes rapazes que mandam no meu marido só querem que ele continue a esmifrar-me. Mesmo desconfiando, acredito que isto só vai pela esquerda.
          Se não se importa, mesmo não tendo apreciado a violência a que fui sujeita durante 48 anos, corrijo-o: o que deveria tger escrito no parágrafo final era: “Se bem a percebo quando o seu marido lhe batia há mais de 38 anos era mais bem comportado?”

          • Guillaume Tell says:

            “estes rapazes que mandam no meu marido só querem que ele continue a esmifrar-me”
            Há que distinguir o triunvirato dos bancos. Os bancos têm interesse em que o seu marido continue a esbanjar dinheiro (nomeadamente em projectos “sociais”), mas é a ele de saber dizer não e parar de vez de reclamar dinheiro para o casino, ou mesmo para ir ao ginásio, que é certo lhe faz bem à saúde mas que na conjuntura actual bem pode ir a correr fora.

            “Mesmo desconfiando, acredito que isto só vai pela esquerda.”
            Mais esquerda… quer dizer mais esquerda liberal (sim aquela que sabe reduzir o peso do Estado, dar mais liberdade aos indíviduos, e não só sexual, como os socais democratas alemães), porque não é com a esquerda conservadora do BE e do PCP que lá vamos (nem com o PS actual, ou anterior). Nem com a direita conservadora álias, que ainda ocupa muito espaço dentro do PSD, do CDS, da Presidência da República, das câmaras…
            (Mais uma coisa, eu também antes da crise de 2009 também pensava que era com mais esquerda conservadora que lá iriamos. Porque será que é precisamente a partir de 2009 que passei a pensar “liberal”… curioso não é)

            “Se não se importa”
            Não, não. Álias obrigado é corrigindo que se progride.

            “mesmo não tendo apreciado a violência a que fui sujeita durante 48 anos”
            Pois não aprecio-o não é. Então porquê que ainda desculpa os abusos. Está bem agora não bate, mas traz dívidas a casa. Não vê que ele tem de mudar do tudo ao tudo e tem que a deixar em paz. Mas você continua a reclamar por ele. Saía mais de casa, fará-lhe sentir muito melhor. Vai ver.

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