A greve virada do avesso com Allende e no Portugal de hoje

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Confesso ter sido grevista, mas de greves viradas do avesso. Não foi por acaso, como narro noutros textos, que organizei sindicatos quando morava no Chile, mais de 40 anos antes destes dias de greve em Portugal. Sindicatos rurais e industriais. Todos eles contra os proprietários dos meios de produção que pagavam mal, às vezes até esqueciam esse pagamento, despediam a seu prazer, contratavam à sua laia, o operariado para eles era apenas força de trabalho. Força de trabalho não como a definida por Karl Heinrich Pembroke Marx, essa que ele associava à mais-valia dos proprietários dos meios de produção. Era simplesmente força de trabalho, usada para todo serviço. A Revolução Francesa não tinha passado pela América Latina, nem por Portugal, se passara, foi rapidamente esquecida. A liberdade de procurar meios de produção, não existia, porque esses meios eram raros e escassos.

A fraternidade, apenas nas Missões que pessoas como os membros da minha família organizavam para converter os trabalhadores em servos obedientes e submissos à divindade, porém, ao patrão que, aos olhos dos que nada tinham, era o seu representante na terra. Sei-o por ter participado em missões de católicos nas terras da nossa família, mas eu ia falando de forma diferente, mesmo na sua presença, à dos padres missionários. Referia como o trabalho era mal pago, como não havia leis de protecção aos trabalhadores, como a divindade não punia os transgressores donos, mas sim aos que produziam as mercadorias. Os sacerdotes católicos não entendiam o meu discurso, talvez por ser filho de patrão, pareciam não ouvir o que eu dizia. A igualdade, manifestava-se em tirar o chapéu para cumprimentar os que iam à Missa e comemoravam todos os rituais. Rituais que indigitaram em mim e na minha querida irmã, uma ideia. Se estes católicos falavam tanto de caridade e havia tanta gente sem casa nem tecto para se agasalhar, um domingo qualquer sem pedir licença ao sacerdote oficiante da Missa, bem sabia eu que era da minha ideologia, e falei de forma enternecedora sobre a caridade e como podiam ganhar a vida eterna se oferecessem as terras, que não usavam, aos sem-abrigo. Gostaram das minhas palavras, acabada a cerimónia convidei-os a visitar essas terras que, com a minha irmã, tínhamos trabalhado tanto, encontravam-se cheias de pessoas sem casa. Tornei a falar, falou também o povo e as lágrimas escorregavam pela cara de familiares e amigos: todos os santos que tinham assistido à missa, acompanharam-me, viram o que sempre ignoraram, e ofereceram hectares de terra sem pagamento nenhum. Avisado como era, eu tinha aí um notário, e a escritura foi feita em meia hora. Perguntei aos pobres rotos chilenos qual seria o nome da população. Agradecidos como estavam, queriam pôr o nome dos, até esse dia, donos das terras baldias. De imediato falei e em frente dos donatários, expliquei ao povo que isso não era correcto porque perdiam a glória eterna. Deixamo-los sós para decidirem o nome, que constaria em acta, e a minha irmã querida e eu, passámos a perder a eternidade. Essa eternidade já pedida por nós muitos anos antes.

Os anos passaram, o Dr. Salvador Allende foi eleito Presidente da República e, como sabemos, passados um ano e alguns meses, com a cumplicidade de Richard Nixon, Presidente dos EUA e do Prémio Nobel da Paz, Henry Kissinnger, acordaram a Central de Inteligência Norte Americana ou CIA para começar o derrube do primeiro Presidente socialista marxista, eleito por sufrágio universal. Começaram as greves da burguesia: marchavam em imensos grupos pelas alamedas mais elegantes da capital do Chile e de outras cidades elegantes, concertados como estavam, batendo com colheres de pau, de aço, de prata, em tachos vazios e a gritar: nada temos para comer. A manha dos antes nomeados dos USA, era pagarem aos camionistas que transportavam as mercadorias de consumo por terra – planificação que nunca entendi, se o Chile tem uma costa imensa e caminhos-de-ferro, nunca usados para o comércio por acordos entre produtores e camionistas transportadores de mercadorias. Foram pagos pelos veneráveis salvadores do mundo dos EUA para pararem e não transportarem bens de consumo a sítio nenhum. Nada tínhamos para comer.

Donde, entre estudantes, docentes, profissionais, alugámos transportes, usámos os nossos próprios meios de locomoção e carregávamos sacos de batatas, de arroz, beterrabas, açúcar, bens essenciais para a higiene das casas e do corpo e outras matérias, como óleo, azeite, sabão. Não estávamos habituados, mas o nosso empenhamento era tão grande, que com a colaboração de camponeses da reforma agrária de Allende carregávamos os tractores e reboques para o transporte. Mas, era impossível. Ser camionista transportador é umas das profissões que desconheciamos. O próprio Presidente da República colaborou nesta tentativa, para combater a greve da burguesia.

Nem por isso tivemos sucesso. A greve é um direito dos trabalhadores e não do patronato, que não sabe o que fazer, excepto chegarmos a casa desfeitos de cansaço.

Esta greve virada do avesso, teve sucesso. Nós, colaboradores, tivemos campo de concentração após o assassínio de Sua Excelência, Presidente da República e de todos os chilenos que optaram pela greve final: não queriam ser reféns dos revoltados para serem usados para cambalhotas políticas… Sua Excelência morreu pela sua própria mão.

As greves são do povo, não da burguesia. A burguesia usa dinheiro e poder para reclamar… e matar.

Diz a lei Nº 65-77, de 26 de Agosto, em Portugal: Artigo 1º
Direito à greve

1 – A greve constitui, nos termos da Constituição, um direito dos trabalhadores.

2 – Compete aos trabalhadores definir o âmbito de interesses a defender através da greve.

3 – O direito à greve é irrenunciável.

E assim é que se ganha ou perde. Será que os nossos legisladores apoiam a greve como correm estes dias em Portugal?

Raul Iturra

20 de Outubro de 2012

lautaro@netcabo.pt

Comments

  1. Marão says:

    Este escrito já tem uns anitos. Foi no tempo da picareta falante. Sem tirar nem pôr, e agora?

    -Sociedade Portuguesa hoje
    Analfabetismo funcional; in(cultura)/ignorância; apatia cívica/irresponsabilidade; ilusão/aparato/ostentação; irracionalidade/inversão de valores; indigência mental/anestesia colectiva; ensino postiço e inconsequente; autoridade tolhida e envergonhada; justiça sinuosa e selectiva; responsabilidades diluídas e baralhadas; mediocridades perfiladas e promovidas; capacidades trituradas e proscritas; sofisma institucionalizado.

    -Quês e porquês
    Maleita atávica e condicionamento manipulado pelos poderes instalados; negligência paralisante no dever de participação; vício embriagante na desculpa cómoda do dedo acusador sempre em riste. Culpar D. Sebastião, o padeiro da esquina ou dirigentes de ocasião é nossa mestria e sina nossa. Culpados somos todos nós, acomodados na obsessão estéril de celestiais direitos. Também é com a nossa apatia pelos valores de intervenção e cidadania, que somos conduzidos repetidamente para o conhecido pantanal. Os nossos governantes são o reflexo e extensão da gente que somos, mas valha a verdade em escala cujo grau de refinamento, incapacidade e subversão de interesses colectivos ultrapassa os limites da decência. Que qualquer governante em vez de esbracejar governe e em vez de iludir assente, invertendo essa carga em desequilíbrio e remetendo para as calendas a política de feirola de contrafeitos.

    -Receituário extraviado
    Cabe cultivar que ao cidadão comum não deve competir apenas votar ciclicamente em deputados acorrentados pela disciplina partidária. Na sociedade como nos bancos da escola, acautelar conceitos/aulas de civismo e cidadania, o que é liberdade, democracia, educação e compostura. A televisão pública como veículo que molda, não pode servir só para futebol, novelas e propaganda oficial. Não basta compor a rama, é preciso cavar a terra e aconchegar os tomates. Por hora o circo ameaça continuar, mas que o tempo (grande mestre) se encarregue de nos despertar enquanto é tempo. A nós, suporte colectivo de tragédias e façanhas, competirá sobretudo intervir responsável e interessadamente no que a todos diz respeito, não concedendo carta branca ao desbarato para o traçado do caminho, ao círculo restrito de políticos abengalados.

    • Raul Iturra says:

      Não sei quem é o comentador. Ocultar o nome permite dizer o que se quer sem comentar o meu texto. Com todo, agradeço a sua paciência de ler o meu ensaio. O que diz era precisamente meu alvo: desejo evitar que no meu país Portugal, aconteça o que passava no Chile, até à entrada do Presidente Allende ao Poder, sacrificado como foi por ocupar-se da educação, do povo e a sua saúde. A literacia incrementou e a saúde também porque as escolas recebiam alimentos para os mais carenciados. Como bem sabe o meu anónimo comentador, o orçamento para saúde baixou em 17%. Qualquer governo deveria incrementa-lo, os hospitais estão em decadência e o desemprego e a falta de comida matam e enfraquecem, bem como o orçamento do ensino, com o objetivo do povo ser ignorante para não se defender nos seus sindicatos. A falta de Educação Cívica é o primeiro que é retirada por qualquer ditadura. A nossa é o governo, que da primeiro conta dos seus fatos à União Europeia e, a seguir, apenas informa à Assembleia. Como tem maioria, pode fazer como entenda, colocando de parte ao povo e a sua soberania. Não temos um PM, temos um rei absoluto, como era no Chile até Allende reparar que um PR é apenas um representante de povo, com o povo, para o povo. Os seus discursos, se os procura na Net, suas aulas eram para multidões de trabalhadores, para ensinar aos que nada sabem qual é a lei que corresponde ao que e como deve ser tratado uma fábrica ou indústria, os investimentos, a poupança e gestão dos bens recebidos a seguir o seu retiro da alta burguesia.
      O seu comentário devia ser um ensaio para ser publicado na Net ou num livro, caso ainda não o tenha feito. Duvido: escreve bem e é possível entende-lo com facilidade.
      Agradece a sua paciência de tanto pensar para comentar o meu ensaio
      RI
      lautaro@netcabo.pt

  2. Maquiavel says:

    Foi por se ter visto isso no Chile que em Portugal se ilegalizou o lock-out (greve dos patröes) logo após a Revoluçäo de Abril!

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