O fascismo de sempre que nunca mais

Sarah Adamopoulos

«Não fomos nós que escolhemos o tempo para governar. Foi o tempo que nos escolheu.» – Pedro Passos Coelho no congresso do PSD na Madeira hoje mesmo

Uma das palavras de indignação gritadas com angústia e revolta pelos manifestantes no passado dia 14 de Novembro em frente à Assembleia da República foi a que sem demoras acusou de fascismo os governantes que mandaram a polícia bater nas pessoas, e depois persegui-las pelas ruas de Lisboa. Fascistas, chamaram-lhes os manifestantes, horrorizados com as formas da repressão policial que ali aconteceu, enquanto várias emissões em directo faziam do apedrejamento (realizado por dezena e meia de putos revoltados da vida que a polícia poderia ter facilmente detido) e da reacção desproporcionada da polícia o melhor espectáculo mediático a que podiam aspirar naquele dia de protesto.

Estavam certos: vivemos dias de fascismo, com um Estado capturado por um grupo de pessoas sem capacidade política para governar, pois a política é por definição um diálogo, arte que desconhecem – e se dúvidas houvesse bastaria atentar nas múltiplas propostas de alteração ao Orçamento que num ápice esvaziaram de relevância, votando disciplinadamente contra o povo. Fascismo sim, e escusam de vir com as comparações do passado, nas suas formas mais absolutamente duras do século em que vários ditadores entregaram a outros tantos Estados o poder absurdo e criminoso sobre a vida dos cidadãos desses países.

E escusam também de vir com a retórica das inevitabilidades e dos dedos apontados ao PS do nosso descontentamento. Nada nesses argumentos retiram fascismo ao que hoje vemos nas acções do Governo autoritário e repressivo de Pedro Passos Coelho. Não nos representa, e já nem sequer os que votaram neles, porventura acreditando na social-democracia dos PSDs ou na virtuosa cristandade social católica dos CDSs. Não nos representam, e desde logo pelas razões objectivas de um sistema eleitoral que permitiu que fossem eleitos grandemente graças à abstenção – terrível e subvertido benefício para que a sua acção política no passado contribuiu de forma decisiva.

Governam pela força, com a cumplicidade do actual presidente da República, ex-primeiro-ministro responsável por alguns dos mais inaceitáveis momentos da vida portuguesa dos anos anos Noventa, e de que é exemplo a mão castigadora que em Novembro de 1993, com Manuel Dias Loureiro a mandar nas polícias e Manuela Ferreira Leite na Educação Nacional, varreu da escadaria do Parlamento e depois agrediu com iguais modos fascistas os estudantes que protestavam contra a introdução do pagamento de propinas no Ensino superior público.

Foi por esses (demasiados) anos de PSD que o Estado social começou a ser desmantelado, ao arrepio da Constituição, já então relegada para o plano simbólico que hoje continua a ser-lhe atribuído – com a anuência da generalidade dos expert legalistas e demais eloquentes juristas da nossa vasta praça de boys e outros subidores de vidas. Enquanto isso, nas academias hoje vedadas aos que não podem pagar as propinas, ensinam-se os nobres valores absolutos que a realidade da prática política relativiza ao mais abjecto grau de desrespeito por essa Lei ainda dita fundamental.

Eis o verdadeiro estado do Estado reprodutor das composições sociais que eternizam os ciclos de pobreza no Portugal do fascismo eterno – o que sobrevive naquele recanto obscuro dos espíritos ocultamente movidos pelas vitórias do passado que os julgamentos que nunca se fizeram dos crimes do Estado Novo autorizam.

Comments

  1. Luis says:

    “…a política é por definição um diálogo, arte que desconhecem…”

    Um dos grandes falhanços deste governo, eleito pela maioria dos eleitores que votaram e que, hoje, mais do que nunca, já não corresponde de todo a esse voto maioritário dos cidadãos votantes.

    E aguenta-se, aguenta-se, como diz o banqueiro….à espera que o líder do maior partido da oposição espera, numa oposição violenta, que o poder lhe caia no regaço em 2015 quando o país estiver de rastos e empobrecido.

    Talvez nessa altura a onda do “os políticos são todos iguais e a política é que nos trouxe aqui” seja tão forte que….

  2. Maquiavel says:

    Aparte o já costumeiro culpar da abstençäo (como se a abstençäo näo fosse apenas e só voto tácito no vencedor), certeiro. Até demais!

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