Ode à alegoria

Faço parte de um grupo de amigos que se senta há vários anos na mesma mesa. Os nossos objectivos são nobres: beber uns copos, dizer umas larachas e resolver os problemas do mundo e da humanidade no meio de debates e discussões que, por vezes, fazem com que nos zanguemos e em que, muitas vezes, dizemos coisas surpreendentemente profundas, tendo em conta a nossa reduzida ambição.

No café que frequentamos, há outros clientes que acabam por ouvir o que dizemos, porque, confesso, falamos um bocado alto. De outras mesas chegam-nos, com relativa frequência, vozes simpáticas e, de vez em quando, há um ou outro provocador que passamos a ignorar, porque, já se sabe, pode acontecer que, num estabelecimento como este, haja sempre quem tenha mau vinho ou maus fígados.

Não pertenço a este grupo desde o princípio. Trouxe-me um amigo. Aqui encontrei outros amigos e, desde então, rio-me, zango-me, discuto, provoco, sou provocado e aprendo muito. Sinto-me bem aqui. Foi, aliás, nesta mesma mesa, que atingi vários momentos de realização pessoal, o que diz muito do poder de uma mesa de café ou de um grupo de amigos.

De vez em quando, passa-nos pela cabeça transformar esta nossa mesa noutra coisa mais ambiciosa, em que fizéssemos mais do que conversar, como se conversar fosse pouco e como se não resolvesse tanta coisa. Podíamos ser uma associação cultural e recreativa. Desportiva seria mais difícil, a não ser que o jogo da moedinha passe a ser modalidade olímpica.

Como acontece entre amigos, há sempre um que traz outro. Se fôssemos uma agremiação com sede e tudo, teríamos de esperar pela próxima reunião da direcção, mais o pagamento da jóia e a primeira quota, tem aqui o recibozinho e já pode vir à primeira assembleia geral. Sendo como somos, puxamos mais uma cadeira, tentamos pôr o novato à vontade e fala cada um na sua vez ou falamos por cima um dos outros, quando o assunto é mais polémico.

É o melhor dos mundos? Não, como qualquer família, zangamo-nos, dizemos coisas que não devemos e, depois, lambemos as poucas feridas e sentamo-nos outra vez à mesa e chegamos a correr o risco de falar sobre futebol, o que é raro, porque é o único assunto que alguns conseguem levar perigosamente a sério.

E será democrático? Também não, mas nem tudo na vida precisa de ser democrático, como lembrou o Jorge. Se alguém se sentar à mesa e meter demasiado nojo, há um movimento natural de rejeição. Um grupo de amigos não é, efectivamente, democrático. Se o fosse, não seria um grupo de amigos.

Aqui há tempos, alguém perguntou se se podia sentar, que até conhecia um ou outro que estava sentado connosco. Como somos, modéstia à parte, um grupo simpático, arranjámos lugar. Em pouco tempo, o novato começou a sentir-se incomodado com comentários que vinham de outras mesas. Aconselhámo-lo a desvalorizar, que eles acabariam por se calar. Ignorou-nos. Ainda assim, lá lhe arranjámos um lugar virado para a parede, porque não somos todos iguais, e poderia fingir que não ouvia.

Depois, começou a fazer exigências e críticas, a perorar sobre as suas muitas virtudes (ausentes, portanto, de todos os outros) e que queria ver os documentos da fundação do grupo e que tinha de ser tudo decidido por maioria, com acta circunstanciada. Apesar da bonomia generalizada que nos caracteriza, mesmo os mais pacientes começaram a demonstrar desagrado. Não quis saber de conselhos, ignorou explicações acerca da natural dinâmica de um grupo de amigos. Agora, como ninguém lhe liga, cheio de si, continua convencido de que nos está a dar lições, ainda que relegado para um canto da mesa. A vida tem destas coisas e os cafés também: as pessoas fazem muitas confusões.

Comments

  1. A. Pedro Correia says:

    Num café que eu frequento, há um caso semelhante. Só que o coitado, como precisa desesperadamente de atenção e ninguém lhe liga, deu em falar sozinho.

    • António Fernando Nabais says:

      Coitado. E ainda deve entreter-se a “clicar” em polegares para baixo em blogues.

  2. Nightwish says:

    De facto, é ridículo, se não está bem, embirra, não se enquadra e já ninguém lhe liga só faz figuras tristes.

  3. Pedro Marques says:

    Não percebi a quem se refere. Mas gosto muito de o ler, acredito no seu trabalho e adorava que um dia destes pudesse surpreender-me com as suas respostas às minhas perguntas.

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