Lettres de Paris #50


On peut pas céder au peur

dizia um comentador francês, a viver em Berlim, há pouco na BFMTV, o único canal, dos 20 e tal que tenho aqui, todos franceses. Vejo habitualmente este canal porque é uma espécie de TSF, estão sempre a dar notícias. Liguei a televisão já passava das nove da noite. estava a passar a ferro e a aborrecer-me, como de costume, com tal tarefa e decidi ligar a televisão. Comecei a ouvir qualquer coisa sobre atentados mas pensei que era sobre os atentados em França dos últimos anos. Depois percebi que tinha sido hoje, há poucas horas, em Berlim e prestei mais atenção. Reconheci a igreja que tinha achado tão bonita e comovente – já se sabe que eu gosto de igrejas – da única vez que estive em Berlim, há 8 anos, numa viagem que ficou marcada pela perda da minha mala pela TAP e pelo facto de ter tido de comprar roupa nova porque a mala andou extraviada 5 dias. Lembrei-me que tinha ido mandar fazer a bainha de dois pares de calças ali a um centro comercial, perto da Kaiser-Wilhelm-Gedächniskirche, uma igreja luterana que nunca foi reconstruída completamente, exatamente para preservar a memória da destruição de que o ser humano é capaz.
As fotos de hoje são dessa igreja, em Berlim, mesmo que a carta seja escrita de Paris. Dessa igreja que achei comovente exatamente por estar parcialmente destruída. Que achei comovente por causa das suas figuras muito simples, de pedra. E que hoje voltei a achar comovente, de outra maneira, ou talvez da mesma, quando a vi nas imagens da BFMTV. Muitas imagens da destruição que o camião provocou no mercado de natal em frente à igreja, na Breitscheidplatz. Das ambulâncias. Muitos comentadores que falavam do ataque aos símbolos. A igreja, o mercado de natal, a época do ano justamente. Mas os símbolos não morreram, nem ficaram feridos, apenas as pessoas, tristemente. Muitos comentários a articular o presumível (foi sempre assim que se lhe referiram, e bem, creio eu) com o que se passa na Síria, por exemplo. Com os refugiados e o alegado recrutamento que os jihadistas fazem entre eles.
Naturalmente muitas comparações com os atentados em França, nos últimos anos, especialmente com o atentado em Nice, em 14 de julho de 2016, em que morreram 84 pessoas. Creio que estas comparações são inevitáveis e os atentados nos países da Europa comovem-nos a todos, europeus. A BFMTV passou a noite praticamente toda com notícias, e diretos de Berlim, e comentadores sobre o assunto. Dedicou 5 minutos ao assassinato do embaixador da Rússia, em Ancara. E mais outros 5 ao que acontece em Alep com as evacuações e a situação dos civis, sem comida, nem água, ao frio. As comparações aqui não são, portanto, aparentemente inevitáveis. A Síria é lá longe. O costume, nestas coisas. Presumo que seja normal, não se trata de desumanidade da nossa parte, suponho, apenas de proximidade e, provavelmente, quase de certeza, de identidade e identificação.
Por essa identidade e por essa proximidade e por essa identificação, os comentadores da BFMTV referiram-se à zona da Breitscheidplatz como sendo os Champs-Elysées de Berlim e aos mercados de natal que, nesta altura, povoam várias praças e locais de Paris. Eu mesma vos contei sobre o mercado de natal, gigante, numa parte dos Champs Elysées, da Place de la Concorde até ao Grand Palais. Tive de o atravessar contrariada, pois não gosto de mercados de natal, nem de grandes ajuntamentos (exceção feita às manifestações). Mas hoje, depois de ver as notícias e ouvir os comentadores na televisão pensei no mercado de natal dos Champs Elysées que tive de atravessar outro dia, era um fim de semana, havia milhares de pessoas, todas bem dispostas, a comer algodão doce e maçãs caramelizadas, a andar nos carrosséis. E pensei no horror que seria um camião vir por ali fora e levar muitas daquelas pessoas, que estavam só na sua vida, a distrair-se um bocadinho da vida quotidiana, à sua frente. O horror, seguramente.
Se pensarmos bem pode acontecer em qualquer parte, aliás, tem acontecido em qualquer parte. Um dos comentadores, como disse, enfatizou que não podemos ceder ao medo. ‘On peut pas céder au peur’, disse ele, assim mesmo. Paris está cheio, como creio também ter já contado, de soldados e polícias armados até aos dentes que patrulham estações de comboio, estações de metro, lugares muito turísticos, mas a sua presença não faz senão manter o medo. Quem tenha trabalhado alguma vez com o conceito de risco, compreenderá bem o que estou a dizer. A excessiva segurança aumenta o sentimento de vulnerabilidade. Eu só penso nos atentados de Paris, no perigo que pode ser estar num mercado de natal nos Champs Elysées, por exemplo, quando vejo estes soldados com armas enormes, a caminharem muito devagar entre as pessoas, como se fossem figurantes num filme de guerra. Quando não os vejo não me lembro de nada e caminho pelas ruas e pelos sítios todos sem me lembrar do perigo.
Se nos lembrássemos do perigo a qualquer instante cederíamos seguramente ao medo. Ao medo de tudo. É verdade que o perigo existe. Está em toda a parte. Já sabemos. Não apenas o perigo do terrorismo, mas toda a espécie de perigos. O terrorismo talvez seja apenas mais um perigo moderno, com o qual não contávamos ou não estávamos habituados a lidar, com tanta frequência como agora. Um perigo que também nós, europeus, próximos, ajudámos a criar com os nossos pactos, as nossas intervenções, as nossas políticas externas e mesmo o nosso desinteresse e o nosso descaso face aos que estão ‘lá longe’. ‘On peut pas céder au peur’, mas também não podemos viver todos os dias como se não vivêssemos, como se fossemos prisioneiros dos nossos sofisticados mecanismos de segurança que pouco mais farão que amplificar o medo a que não podemos ceder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comments

  1. Venho desejar a todos um bom Natal

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s