S.L. Benfica – FutAventar #2

Guimarães é terra que usa o que não é seu – o berço, diz-se, é Viseu, mas eu, que de bola nada sei, desconfio. Que a bola bateu na mão, bateu. Mas, sendo bom o que é Nacional, como é que se considera penalty quando uma bola é enviada pelo jogador do Porto a menos de um metro do defesa madeirense e, por acaso foi bater na mão. Cá está a prova de como o que é Nacional afinal não é assim tão bom e razão tem o nosso João, o Alberto. Sim! Esse. O que diz que o primeiro dá mau nome aos Socialistas madeirenses.
Voltando aos de Guimarães, procuraram defender o castelo, mas o que faltou no ataque ao Paquete da madeira, voltou ao minuto 90 – o GOLO do MAIOR CLUBE DO MUNDO!

Ao minuto 90, marca o golo da vitória

Ao minuto 90, marca o golo da vitória

Em dois jogos, o Benfica já leva quase 90 mil pessoas nas bancadas e está tudo no bom caminho. Até o penalty a favor do Porto!

FutAventar – F.C. Porto#3 – O Douro

Eu não sei se os meus colegas de blogue conhecem o Douro.

Eu tive o privilégio de o conhecer nos anos oitenta graças a ter conquistado o coração de uma duriense. Desde essa altura que, num caso e noutro, o meu coração ficou aprisionado. Ao longo dos anos fui viajando por alguns lugares. Mas nada se compara ao Douro, aquele Douro justamente Património da Humanidade. Mesmo que a palavra Património seja um pouco deslocada da realidade. O Douro não é Património de ninguém, nem da Humanidade. O Douro é a mais universal das democracias, é o verdadeiro poder do Proletariado. É do Homem com h grande. É de todos e não é de ninguém. Confesso que não sei se existe Paraíso e Inferno, deixo isso para os entendidos mas se o Paraíso existe eu já o conheço, é o Douro. O Douro que caminha entre Barca de Alva e a Régua. É aquele que se encontra nos livros de Torga. É o que serpenteia pela estrada entre Folgosa e Valença do Douro, entre o Pinhão e a Quinta de Ventozelo e desta até S. João da Pesqueira. É o Douro da paisagem natural com mão do Homem, quente e seco, verde e castanho, do pó e do xisto, das mãos repletas de calos e de enormes sulcos que marcam anos e anos de vida enleados entre as videiras. É o Douro. O Douro do meu restaurante preferido (ESTE), do meu hotel de eleição (ESTE). O meu Douro.

No último fim-de-semana regressei ao Douro. Já não o via há muito, muito tempo. Já tinham passado talvez um quinze dias antes da última visita, uma eternidade. Fui matar saudades para o Pinhão. Se a viagem Pinhão – Valença do Douro – Castanheiro do Sul – Paredes da Beira – Penedono é absolutamente transcendente, imaginem fazê-la de noite, uma coisa indescritível que, valha a verdade, nunca antes tinha realizado. Foi de cortar a respiração. Se o Douro é o que é de dia, de noite é já coisa do divino. Não vos vou maçar muito mais com o Douro até por um motivo simples: qualquer descrição pecará sempre por defeito, o melhor mesmo é calçar os tamancos e “bute” para a estrada. Um roteiro? Ainda é cedo para vos guiar, terão de esperar. Em breve, em breve.

Deixo-vos com umas fotos tiradas no Pinhão. Aliás, vou-vos deixar com três fotos, tantas quantos os golos do Porto hoje, frente ao Nacional. Outra obra-prima da Humanidade este meu Porto e nem seria de esperar outra coisa. Senão reparem, onde desagua este belo pedaço de água a que chamam “de Ouro”?

No Porto, meus caros, sempre o Porto e a água é azul e branca a sua representação de pureza. Azul e Branca. Três bolas a zero. Pois.

vintage+agosto+jeep 095

vintage+agosto+jeep 133

vintage+agosto+jeep 161

Santarém: Capital do Gótico (II)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)


Santarém foi feita pelo Homem, que moldou a natureza aos seus próprios interesses. A cidade é também obra do rio. Um rio «gigante», no dizer de Vítor Serrão, que ajudou a construir uma plataforma natural articulada com sete colinas sinuosas. Uma especificidade orográfica difícil de encontrar transformou Santarém numa cidade «sui generis».
Santarém foi, desde sempre, uma terra a todos os níveis ilustre. No dizer de Afrânio Peixoto, a história de Santarém confunde-se com a história de Portugal. A história de Santarém pois é a história da pátria.
No princípio, aquela terra seria pouco menos do que inexpugnável. Daí a visita que recebeu de grande parte dos povos que atingiram a região ocidental da Península Ibérica. Dos fenícios aos muçulmanos. Dos primeiros, ficaram os vestígios de actividades ligadas à indústria, na colina das Portas do Sol. Dos últimos, a devastadora acção da conquista, mas mais ainda a sua actividade comercial e a toponímia.
Na época romana, Scallabis foi capital de um dos três distritos em que se dividia a Lusitânia (os outros eram Mérida e Beja). A subida posterior do nível das águas do Tejo poderá ter estado na base do desaparecimento de muitos dos monumentos dessa época. Os romanos influenciaram a cidade até hoje. A sua actual configuração denuncia ainda, de certo modo, o urbanismo romano, acima de tudo rectilíneo.
As fontes parecem fazer crer que Santarém, na época romana, bárbara e muçulmana, foi um importante centro cultural. Desde o nascimento de Cornellius Bochum, autor de uma «Crónica do Mundo», passando pela presença do bispo João Biclarense, na época visigótica, e do moçárabe Ibn Bassam. Em todos estes momentos, a cultura, as artes e as letras desempenharam papel de relevo no contexto ibérico.
Em 1147, Santarém foi definitivamente conquistada aos mouros. Já mudara de nome nessa altura. A lenda relaciona o facto com o milagre de Santa Eirena ou Iria, cujo corpo, martirizado em Tomar, foi ter a Scallabis. Recaredo, rei godo convertido a Cristo, logo tratou de (re)baptizar a povoação.
Com a ocupação cristã, Santarém conquistou um período de grande esplendor. Aquela «fonte mágica de atracção cultural» encantou mesmo poetas, escritores e até os primeiros monarcas portugueses. D. Afonso Henriques fez questão de a ter para si, D. Afonso III elegeu-a como a sua predilecta, D. Dinis escolheu-a para morrer. Ainda D. Pedro I, que ali mandou matar os assassinos de Inês de Castro, e Leonor Telles, que ali se refugiou.
Para lá das escolhas reais, Santarém esteve em momentos fundamentais da história de Portugal. Do século XII ao século XIV, por dezasseis vezes ali se reuniram as cortes. Enumerar seria fastidioso, mas as de 1273 e as de 1418 não terão sido por certo as menos importantes.
Aqui se cantaram, tanto nas cortes dos reis como nas ruas do povo, as melancólicas cantigas de amigo e de amor e as irónicas cantigas de escárnio e maldizer. Tradições musicais que os jograis trouxeram e que perduraram pelos séculos fora até chegarem aos dias de hoje.
Aqui se tomaram decisões importantes relativas aos Descobrimentos portugueses. Daqui partiram muitos das ilustres personagens que fizeram a história marítima portuguesa. Aqui se cortou, com o machado e a força do braço, a madeira que ia servir para fazer as caravelas da conquista e da descoberta.
Em 1491, morre na Ribeira de Santarém o infante D. Afonso, príncipe herdeiro e filho único de D. João II. Os reis não voltam lá com a frequência de outrora, a vila entra em declínio e os palácios ficam arruinados. Só os conventos se salvariam. Mas na perda da independência do século XVI e na Restauração que se lhe seguiu, os santarenos mostraram que não tinham morrido e honraram os seus pergaminhos.
As Invasões Francesas, entre 1807 e 1810, não vão fazer mais do que acentuar a desolação provocada por uma vila que perdera as suas características mais nobres. O século XIX foi o século das revoluções, mas em Santarém foi o das destruições. Quanto aos terramotos dos séculos anteriores, já tinham dado uma ajuda.
Quanto às guerras civis, ilustraram bem a nobreza e o carácter de uma cidade que, apesar de tudo, nunca se submeteu à tirania e à baixeza de ideais. O liberalismo triunfou, Sá da Bandeira e Saldanha entraram impantes na cidade, D. Pedro subiria ao trono mais curto da história da lusa pátria.
Em 1881, é inaugurada a ponte D. Luís, para Almeirim. O comboio estabelece uma ligação rápida com Lisboa. A partir de 1900, a população cresce rapidamente, a vila, feita cidade desde 1886, segue um rumo ao progresso e começa a crescer em altura, mas respeitando, na maior parte das vezes, projectos e traçados antigos que, em alguns dos casos, remontavam à época romana.
De Santarém partiu a revolução, no heróico dia 25 de Abril de 1974, por assim dizer o mais importante dia do nosso século XX. Aqui levantou o bravo capitão Salgueiro Maia a força da coragem, com o único objectivo de libertar o povo português da opressão em que vivia. Sem motivações políticas, sem escusos intuitos, sem nenhum tipo de ambição a não ser a do patriotismo. Como foi diferente o nosso capitão de todos quantos, a seguir, tomaram em suas mãos a governação de Portugal. Como foi desaproveitada a lição que Salgueiro Maia deu.
Tudo isto junto confere a Santarém um lugar único nas cidades portuguesas. Pode não ser a mais bonita de todas, pode não ter tanta história como as outras, mas é indubitavelmente uma cidade única. Por todas as razões, das quais a localização geográfica se assumiu desde sempre como a principal e modeladora de todas as outras. Criando o tal «espírito de lugar» de que Jorge Custódio falou e que já muitos outros, desde a Idade Média, sentiram.
«O contraste paisagístico entre o planalto e a planície; a relação das diversas e diferentes áreas que se constituíram ao longo dos tempos, quer no planalto, quer na margem direita do rio Tejo; a geomorfologia do terreno, articulada pela descontinuidade oferecida pelos vales profundos – autênticas ribeiras correndo em direcção ao rio, cobertos de vegetação ripícola; as encostas verdejantes que ligam harmonicamente as partes baixas com as altas; a área planáltica edificada donde sobressaem os volumes dos telhados e as torres das igrejas. Tudo se organiza num todo, onde o rio, o vegetal e o planalto, com o edificado, se fundem numa síntese natural e urbana.» (José Augusto Rodrigues)
A candidatura a Património Mundial da Humanidade poderá ser uma forma de reabilitar o conjunto urbano de Santarém e de preservar a unidade histórica e artística do seu centro. Tarefa sempre difícil, ainda mais numa cidade que chegou a ter catorze conventos e trinta e seis igrejas. Nesses monumentos, os que subsistiram, e em todos os outros, estão presentes os mais variados estilos artísticos e arquitectónicos. Mas de quantos aqui marcam presença, um deles ultrapassa todos em qualidade e em quantidade. O gótico, obviamente, com a força e a pujança que recebeu quando chegou da Europa. Santarém, a Capital do Gótico.
Santarém, a cidade, é mesmo o que há de mais importante neste concelho de vinte e oito freguesias e neste distrito de concelhos. Concelho que nem sempre foi o mesmo, que já teve uma configuração diferente, que hoje alberga no seu seio povoações que já foram municípios independentes até há não muito tempo, como Pernes ou Alcanede.
Mas nada faria sentido se não existisse a sede do concelho, se não existisse Santarém. Daí o destaque para a cidade das sete colinas. De onde Santarém continua a observar a lezíria. E atrás dela, a humanidade que aí vem.

Portugal… de 18 em 18 dias

Tirei uns dias da semana passada para conhecer melhor uma região do nosso país. A região de Basto, algures ali pelo parque do Alvor, entre Mondim e Vila Real.

Monte Farinha, Mondim de Basto

Monte Farinha, Mondim de Basto

Mondim é a Terra falada anualmente pela chegada da Volta à Srª da Graça e que me permitiu algumas experiências fantásticas. Em contacto com um agricultor local fiquei a saber algo que me impressionou. No dia seguinte ao jantar que tivemos, o senhor Joaquim tinha que se levantar cedo porque tinha que ir regar os campos. Até aqui, nada de extraordinário. O meu problema com as manhãs não é, sei há muito, extensivo ao mundo rural.

P8210159

Fiquei depois a saber que a água em causa, sai de uma nascente na serra para uma presa (tanque) onde é retida durante a noite. Depois, pela manhã, bem cedo, é altura de lhe permitir dar vida às plantas. Acontece que estas duas acções – prender a água à noite e permitir a sua liberdade durante o dia é responsabilidade de um agricultor, neste caso concreto, de dezoito em dezoito dias. Nos outros 17 dias irá regar ou não em função da água que primeiro vai passar por outros terrenos, chegar ou não aos seus.

E esta situação, para mim surpreendente é extensiva a todas as outras localidades e resulta de uma organização secular que vem sendo transmitida de geração em geração.

Perante esta situação tão extraordinária aos olhos de um Homos-urbanis tentei perceber como se percebe o futuro por aquelas terras. Qual futuro? Responderam-me! Não há futuro. Só gente velha a tratar a terra em condições impossíveis e um futuro que foge ainda mais depressa com as auto-estradas que se aproximam.
Simplesmente, não há futuro! Só passado!

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Na viagem solitária
entre dilema e decisão
não há estrada nem caminho
não há tempo nem razão
não há nuvem nem há vento
que tenha a força da paixão.

                         (adão cruz)

(adão cruz)

CARTA ABERTA A BARACK OBAMA (3)

CARTA ABERTA A BARACK OBAMA (3)

Meu caro amigo Obama, é uma vergonha nos tempos de hoje uma pinochetada destas nas Honduras. Que grande passo atrás no difícil caminho do mundo para a conquista da paz e da justiça! No fundo, gostaria de acreditar que pensa como eu. Mesmo assim, acredito que há uma grande diferença entre si e uma boa parte do povo americano desta América. Esta América, feita da mesma matéria de Bush, Rumsfeld e Condoleeza, pouco se choca com as adversidades dos outros povos do mundo, a quem considera, estou convencido, pouco mais do que um enxame de moscas. Está-lhe na massa do sangue, na sua deficiente formação, alheia a qualquer cultura social internacionalista, na incapacidade do correcto entendimento do mundo, na dificuldade em libertar-se de uma configuração mental atravancada de mitos e preconceitos, e enformada de viciosos esquemas consuetudinários, mediaticamente mantidos e programados. Torna-se claro que o cérebro de muitos não funciona com neurónios humanos mas com uma espécie de fios de enferrujados.
O vergonhoso golpe das Honduras e as subreptícias manobras na Colômbia, onde está a nascer uma perigosa situação de beligerância, nem chegam a beliscar a mente do povo americano, e são motivo, quando muito, para uma gargalhada entre duas cervejas. O derrube de um presidente democraticamente eleito e a sua substituição por um punhado de golpistas serventuários do imperialismo não abrem os olhos a ninguém. Perante tão vergonhoso escândalo, os meios de comunicação social, na sua crónica servidão do poder, caíram em pesado silêncio, levando o mundo a assobiar para o lado.
Não permita que a alegria da sua eleição se converta em lágrimas de tristeza.

(Continua).

                        (adão cruz)

(adão cruz)

QUADRA DO DIA

Não há planta mais daninha
Neste campo de trabalhos
Do que a planta dos loureiros
Carregada de bandalhos.

ARRANCOU A RENTRÉE POLÍTICA

.
CDS É O PRIMEIRO
.
.
Lampião que vai à frente, ilumina duas vezes, diz o povo, muitas vezes com razão.
Assim poderá pensar o CDS/PP, que agora arranca a sua campanha para as Legislativas e as Autárquicas, com um comício em Aveiro.
Sobre a “rentrée” já falei antes, há uns dias, aqui.
Na Praça do Peixe, quando fizer o seu discurso, Portas vai privilegiar as questões económicas e a segurança. Serão as suas bandeiras nas campanhas que se avizinham. O ataque cerrado ao ainda nosso Primeiro, será mais um dos tópicos que estará sempre presente nos seus discursos.
Este arranque temporão, pode dar-lhe os frutos que necessita para ter um resultado similar ao que teve nas eleições Europeias, e assim a possibilidade de ser de novo um partido de poder, em coligação com o PPD/PSD.
Durante os últimos quatro anos e meio, foi o partido mais interventivo do centro-direita, no combate ao partido do governo, mais parecendo, Paulo Portas, o líder da oposição. Estará na hora de lhe darem os votos que realmente merece.

.

Cartazes das Autárquicas (Stª. Maria da Feira)

psfeira

PS, Santa Maria da Feira
Imagem enviada pelo nosso leitor, Gastão Pinto

A família Simpson mudou para Angola

Uma das mais famosas famílias do mundo acaba de ganhar mais um espaço em África. Obama? Não, não é a família do presidente dos EUA. É, sim, a família Simpson.

Consta que vão fazer as malas e rumar da nuclear Springfield para a menos poluída África, em concreto para  Angola, conta o jornal britânico Daily Mail.

simpsons_angola_2308

A agência de publicidade Executive Center decidiu encomendar uma promoção animada da família de Homer, Bart e companhia, alterando-os em termos de cor, indumentária e estilo, de forma a ficarem num registo africano.

O sofá está lá, tal como o comando da televisão. O quadro mostra agora uma cena de savana africana e o candeeiro deu lugar a um conjunto de som ao melhor nível do gosto africano.

Independentemente de tudo, e mesmo sabendo que é apenas uma campanha de promoção dinamizada por uma empresa, este é mais um claro sinal de que Angola está a ganhar crescente importância económica e um lugar de maior destaque no mercado mundial.

Tenho a certeza que os Simpsons não se mudariam, ainda que de forma provisória, se não fosse assim.

Antologia de pequenos contos insólitos: O Peão

Apresentamos um conto do grande escritor norte-americano Ray Bradbury (1920), autor de livros de ficção-científica, sendo The martian chronicles, 1950 – «O Mundo Marciano», na edição portuguesa, o mais conhecido. Escreveu também «Fahrenheit 451», adaptado ao cinema por François Truffaut. «O Peão» é extraído de «S is for space» (1970). Uma noite, ao sair de um restaurante em Los Angeles, apeteceu-lhe passear a pé. Um polícia mandou-o parar, perguntando o que fazia ele andando pela cidade. Nessa mesma noite escreveu «O Peão».
ray
Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de Novembro, pousar os pés sobre o sólido passeio de cimento, pisar as fendas com ervas, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as ruas banhadas pelo luar nas quatro direcções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só. Tomada uma decisão definitiva, escolhido um caminho, começaria a andar, soltando baforadas de ar congelado à sua frente, como o fumo de um cigarro. Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com as suas janelas escuras; era como caminhar por um cemitério, pois só leves clarões de luz fantasmagórica eclodiam por detrás das janelas. Súbitos e cinzentos espectros pareciam surgir sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-túmulo estava ainda aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, os pés sem fazer ruído no pavimento irregular. Há muito que, prudentemente, passara a usar sapatos de ténis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam a sua caminhada com latidos, se usasse calçado com sola de couro, as luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, toda uma rua se alvoroçar com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de Novembro.
Nesta noite, em particular, tomara a direcção Oeste, rumo ao mar, invisível. Havia um frio cristalino no ar que cortava o nariz e fazia os pulmões arder por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava com prazer o calçado macio empurrando delicadamente as folhas de Outono, assobiava frio e baixinho, entre dentes, arrancando ocasionalmente uma folha de passagem, examinando o desenho esqueletal, à luz de um raro candeeiro público, enquanto caminhava, aspirando seu odor ferruginoso.
— Ó da casa — murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava. — O que passa hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Para onde estão correndo os “cow-boys”, e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?
A rua silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, no meio de uma planície. Fechou os olhos, e permaneceu imóvel, gelado. Podia imaginar-se no meio de uma planície, numa pradaria americana, sem ventos, inverno, sem qualquer casa num raio de mil milhas – só leitos secos de rios, como aquelas ruas.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando o relógio de pulso — Oito e meia? Hora de uma dúzia de episódios de assassínios? Um concurso? Um musical? Um comediante tropeçando e caindo do palco?
Terá ouvido um murmúrio de risos, vindo de uma das casas brancas ao luar? Hesitou, mas continuou, quando nada mais aconteceu. Tropeçou numa irregularidade maior do passeio. O cimento estava a desaparecer, sob flores e mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa passeando, nunca, nem uma só vez. Chegou a um cruzamento deserto, onde duas avenidas principais atravessavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insectos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo dos tubos de escape, corriam para casa, nas mais diversas direcções. Mas agora, estas estradas, eram como os leitos de rios secos no Verão, banhados pelo luar.
Virou numa rua secundária, de regresso a casa. Estava a um quarteirão de chegar, quando, subitamente, um carro solitário dobrou a esquina e fez incidir um forte cone de luz branca sobre ele. Deteve-se, aturdido, como uma borboleta, atordoado pela luz, mas por ela atraído.
Uma voz metálica advertiu-o:
— Fique onde está! Não se mova!
Parou.
— Levante as mãos!
— Mas… – disse ele.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões de habitantes, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava a desaparecer; não havia necessidade de polícia, excepto este carro solitário vagueando pelas ruas desertas.
— O seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte nos seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode considerar um escritor.
— Sem profissão — disse o carro-patrulha, como que falando sozinho. A luz mantinha-o fixado como um espécime de museu, com uma agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer-se assim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Já não se vendiam livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-túmulos, à noite, pensou. Os túmulos, mal iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas se sentavam como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca tocando o seu íntimo.
— Sem profissão — chiou a voz fonográfica. – O que está a fazer cá fora?
— A passear — disse Leonard Mead.
— A passear?
— Só a passear — disse, simplesmente, percorrido por um arrepio.
— Passeando, passeando, passeando?
— Sim, senhor.
— Indo para onde? Para quê?
— Para apanhar ar. Passeando para ver.
— A sua morada.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E não há ar na sua casa; o senhor não tem ar condicionado, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela visora, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção crepitante, que em si era já uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas escuras e silenciosas.
— Ninguém me quis — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas passeando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para apanhar ar, ver, e simplesmente pelo prazer de andar.
— Já fez isso muitas vezes?
— Todas as noites, há anos.
O carro-patrulha estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Olhe lá, eu não fiz nada!
— Entre.
— Protesto.
— Sr. Mead.
Avançou como um homem subitamente embriagado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para o interior. Como esperava, não havia ninguém no ass
en
to dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma pequena cela escura, com grades. Cheirava a aço rebitado e a anti-séptico forte; um intenso odor higiénico, metálico. Nada era macio, ali dentro.
— Se tivesse uma esposa que lhe desse um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde me vai levar?
O carro hesitou, ou melhor, houve um zumbido abafado, como se a informação, algures, fosse dada por cartões perfurados, e olhos eléctricos — Ao Centro Psiquiátrico de Pesquisa sobre Tendências Regressivas.
Entrou. A porta fechou-se com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, a meio à noite, com os faróis acesos.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias, como leitos de rios secos, afastando-se, deixando as ruas vazias, com os seus passeios vazios, sem som nem movimento, na fria noite de Novembro.(1)

(1) Extraído de E de Espaço © 1978 by Hemus-Livraria Editora Ltda -Título original: S is for Space © 1966 by Ray Bradbury.

Santarém, Capital do Gótico


O facto de me ter tornado, de repente e contra minha vontade, uma figura de culto da blogosfera, obriga-me a ver o que se escreve por aí com um olhar diferente. Há coisas que me fazem sorrir, algumas outras que me fazem rir a bandeiras despregadas.
Anda por aí um gentil rapazola com umas ideias assaz estranhas sobre o património edificado de Santarém. É um mocinho arrojado, com qualidades, e muito me desgostou, há umas semanas atrás, que tenha anunciado o seu abandono da blogosfera. Talvez porque não tenha havido uma única alma caridosa a pedir-lhe para não ir embora, decidiu regressar. Fico contente, caso contrário não teríamos estes momentos de boa disposição.
No entanto, penso que devo intervir perante os dislates que têm sido escritos pelo simpático garoto. Não é por nada. É que, por uma questão de idade e de estatuto, devo-lhe esta pequena ajuda. Afinal, ninguém gosta de ver os outros a cometer erros, e a mim não me custa nada dar a mão a quem precisa.
Assim sendo, passarei a publicar, a partir de amanhã, alguns excertos da obra «Santarém: Capital do Gótico», por mim publicada, em 2004, sob o Alto Patrocínio da Câmara Municipal de Santarém. A parte relativa ao património edificado, como é óbvio, é aquela que, neste contexto, mais interessa. Dedico-a, com sincera amizade, ao esforçado ganapo.

DEUS COMO PROBLEMA OU A COMPLEXA SIMPLICIDADE DA EVIDÊNCIA (14)

Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (14)

Os que comem tudo e não deixam nada, os que movem os cordéis de todas as marionetas deste mundo, os que fazem a fome para que não lhes falte a fartura têm casas de ouro, férias para descansar de não fazer nada, hospitais de luxo, o céu garantido aqui na terra e lá em cima, nas primeiras filas que o Vaticano sempre lhes reservou durante séculos. No meio deste cenário parece nascer, por vezes, um raio de luz… encarnando o arrependimento divino em pessoas como Leonardo Boff e tantos outros, mas logo surgem da sombra vigilantes cardeais e papas como João Paulo II e Bento XVI, de mãos dadas com as catedrais do dinheiro, a representar uma Igreja retrógrada e absolutista, fortemente entrosada com os poderes opressores, na cruzada contra toda e qualquer Teologia da Libertação, contra toda e qualquer filosofia política de amor, fraternidade e solidariedade para com os condenados da terra.
Não, José Saramago, venha o diabo e escolha. Mas o Deus de cá e o Deus de lá têm-se mostrado bastante diferentes.
Meu caro Saramago a quem muito considero, corroídos o discurso crítico e o cérebro, quase só nos resta, como diz e muito bem, ficarmos todos loucos ou então…acreditar em Deus. (Fim).

                          (adão cruz)

(adão cruz)

A ARTE (3)

A ARTE (3)

Aqui chegados, embora por caminhos muito simplistas, não é difícil compreender que esta criação mental gerada a partir das coisas e da Natureza, transformadas pelo mundo interior do artista e plasticamente traduzidas em beleza por mãos ensinadas quer geneticamente quer de forma adquirida, só ganha vida se correr pelas suas veias o sangue da poesia. Por isso eu digo que a poesia é a alma de qualquer obra de Arte. A poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, e seja qual for essa forma, plástica, literária ou musical, só é expressão artística se contiver dentro de si a essência poética, essa mágica, nobre e sublime forma de expressão da vida. Arte e beleza são uma espécie de irmãs gémeas. A beleza pode considerar-se a corporização da Arte. A beleza reflectida à nossa volta não é mais do que a imagem do espelho que reflecte a Arte contida dentro de nós mesmos, como organização estética do nosso interior e da nossa vida. É ela que nos faz imaginar, pensar, sonhar e criar. A falta da apreensão da beleza e a ausência da reacção emotiva da sua percepção leva a que tudo à nossa volta seja inestético, desadequado e agressivo, daí decorrendo uma construção negativa do nosso mundo interior. A falta de apreensão ou a degradação do conceito de beleza implica uma igual degradação da forma de sentir e de existir, por perda do nosso interesse estético sobre o mundo e as coisas, e do mundo e das coisas sobre nós próprios. Sem este impacto estético não há forma simples e positiva de ver a vida e entender a Arte. (Continua).

                 (adão cruz)

(adão cruz)

TIREM AS CONCLUSÕES QUE ENTENDEREM

Afinal quem são os piratas?

Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê este artigo, a Marinha Real Inglesa – e navios de mais 12 nações, dos EUA à China – navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilões de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos “ocidentais” estão rotulando como “uma das maiores ameaças do nosso tempo” têm uma história extraordinária a contar e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.
O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde deitar todo o lixo nuclear do planeta.
Exactamente isso: lixo atómico. Mal o governo se desfez (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que deitavam ao mar contentores e barris enormes. A população do litoral começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebés malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes.
Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: “Alguém está deitando lixo atómico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos.” Parte do que se pode rastrear leva directamente a hospitais e indústrias europeias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de “descarregá-los” e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse “negócio”, ele suspirou: “Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação nem prevenção”.
Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma das suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus stocks naturais de pescado pela sobre-exploração e, agora está sobre explorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de Atum, camarão e lagosta; que são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.
Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 Quilómetros ao sul de Mogadishio, declarou à Agência Reuters: “Se nada for feito, acabarão com todo o peixe de todo o litoral da Somália”.
Esse é o contexto do qual nasceram os “piratas” somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos como meio de extrair deles alguma espécie de compensação.
Os somalianos chamam-se “Guarda Costeira Voluntária da Somália”. A maioria dos somalianos conhece-os sob essa designação. [Matéria importante sobre isso, em The Armada is not a solution”.] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional”.
Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gangsters misturados nessa luta – por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos lideres dos piratas, Segule Ali, disse: “Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam o nosso peixe.” William Scott entenderia perfeitamente.
Porque os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (entre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e se intrometeram no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo… imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.
A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século IV AC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou “o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares.” O pirata riu e respondeu: “O mesmo que você, fazendo-se senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador. ”Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália – mas… quem é o ladrão?
Autor: Um cidadão do mundo

Adeus Morais e Castro

Morreu hoje o actor Morais e Castro, que em 2006 comemorou 50 anos de carreira. Vítima de cancro.

moraisecastro_2808

José Armando Tavares de Morais e Castro nasceu em Lisboa a 30 de Setembro de 1939. Actor e encenador, Morais e Castro era também licenciado em Direito pela Universidade de Direito de Lisboa, tendo igualmente exercido a profissão de advogado.

Foi dirigente do Partido Comunista Português (PCP), que serviu desde muito cedo, e era casado com a actriz Linda Silva. Fez a estreia com o Grupo Cénico do Centro 25 da Mocidade Portuguesa, ainda estudante do secundário. A sua estreia a nível profissional foi no Teatro do Gerifalto,em A Ilha do Tesouro.

Em 1958 estreou-se na televisão intrepretando “O rei veado”, de Carlo Gozzi, realizado por Artur Ramos.

Em 1968, com Irene Cruz, João Lourenço e Rui Mendes, fundou o Grupo 4, no Teatro Aberto, levando à cena autores como Peter Weiss, Brecht, Peter Handke e Boris Vian.

Já em 1985 integra o elenco da comédia Pouco Barulho, com Nicolau Breyner, passando depois pela Companhia Teatral do Chiado. Com Mário Viegas fez o imortal À espera de Godot, de Samuel Beckett.

Em 2004, dirigido por Joaquim Benite, interpretou O fazedor de teatro, de Thomas Bernard, com a Companhia de Teatro de Almada, que lhe valeu a Menção Honrosa Crítica nesse ano.

Nas décadas de 1980 e 1990 participou em diversas novelas e séries portuguesas de televisão. Um dos sucessos mais populares ocorreu entre 1996 e 1998, com as As lições do Tonecas, ao lado de Luís Aleluia.

Entrevista de Morais e Castro à SPA.

Pobre demagogia / Rica ignorância

O PS está de cabeça perdida e promete coisas rídiculas todos os dias. Agora, depois de ter aumentado todos os impostos, vem dizer que os ricos podem pagar mais impostos. Poder podem, mas na verdade de pouco serve. Nas mais valias e nos rendimentos de capital onde a taxação tem margem, teríamos uma fuga para países mais atractivos. Nos rendimentos de trabalho já pagam 42% não se vê bem por onde é que se aumenta.

Mas há saídas que o PS conhece muito bem mas que nunca aceitou. Levantar o segredo bancário para saber se a bota dá com a perdigota. Taxar o consumo de bens de luxo e saber se os sinais exteriores de riqueza condizem com os rendimentos declarados.

Não permitir que a mesma pessoa receba uma pensão do Estado, por velhice ou invalidez e,ao mesmo tempo, o mesmo Estado pagar-lhe um vencimento chorudo numa qualquer empresa pública nossa, muito nossa. Não permitir que quem está reformado receba milhares de euros por mês muito mais que a maioria dos trabalhadores portugueses, que trabalham no duro.

Não distribuir subsídios a agricultores que vivem em Cascais e não fazer contratos ruinosos para o Estado com a Liscont da Motta/Engil do Sr. Jorge Coelho e entregar obras e compra de bens sem concurso público, entregando-os de mão beijada aos amigos, como se viu agora com os 40 milhões de contos em projectos para as escolas.

Antes de querer mais dinheiro para esbanjar é necessário saber gastar com critério e ter imaginação e conhecimentos que o levem a perceber que os ricos que ganham dinheiro por criar riqueza e postos de trabalho são bem vindos.

Os amigos que vivem à nossa conta à mesa do orçamento, esses é que deviam ser taxados!

A 100%!

LOGICAMENTE

Li mais jornais durante estas curtas férias. Sempre gostei de ler jornais. Não só pela curiosidade das notícias, mas também pela necessidade de encontrar algo de novo, de novidade. Mas os jornais estão uma chachada. Chega-se sempre ao fim com a sensação amarga de tempo perdido. E pela primeira vez comecei a comprar “de vez em quando”. A maior parte das crónicas e artigos não passa de banalidades. Sem qualquer profundidade literária, política, social, filosófica ou científica. Uma inutilidade total. Umas coisas escritas por pessoas que nem conheço, outras por pessoas que conheço mas que não me merecem credibilidade. Crónicas e artigos sempre metidos dentro da forma, das regras, dos carris, da órbita, sem evidenciarem qualquer impulso ou tendência a furar a casca do ovo. Nunca ultrapassando a fronteira para além da qual, logicamente, não serão publicados. Claro que este “logicamente” quer dizer censura.
Aqui há uns anos atrás, fui publicando vários artigos em alguns jornais. Bons tempos! Hoje nada me publicam. Eu sei o que valho e o que não valho. E sei que muito do que escrevo vale mais do que muito do que leio. Simplesmente, o que escrevo atreve-se a ultrapassar, muitas vezes, a tal fronteira para além da qual, logicamente, não publicam. E quando os amigos me dizem: – então, pá, há muito que não vejo nada teu nos jornais -, eu respondo: – prefiro escrever e meter dentro da gaveta do que escrever e meter dentro da forma -.

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Não esperes por mim nessa ilha
que me disseram ser o teu corpo
não olhes ao longe o despontar das velas
que não chegam.
As nuvens no céu dos meus braços
hão-de ser a chuva
na secura do teu beijo.

                 (adão cruz)

(adão cruz)

QUADRA DO DIA

É um exemplo muito mau
P’ra quem reza todo o dia
A santa igreja a roubar
E a ensinar pedofilia.

Isto é de génio

O artista de rua Kurt Wenner faz coisas brilhantes, ao estilo de três dimensões, em giz, como esta…

flying-carpet_1465882i

ou esta…

fountain2_1465880i

Isto é arte! (ponto de exclamação). E brilhante.

O ponto e a minha exclamação de protesto

Dois anos e qualquer coisa na adolescência a ler, distribuir e mesmo escrever panfletos onde no mínimo a oração final berrava 3 ou 4 patetices revolucionárias destacadas com o pontinho de exclamação (tipo: Estudantes! ao Lado do Povo! e sob a Direcção da Classe Operária!) tiveram como efeito um ódio ao dito que ainda não me passou, nem passará!

Nas dezenas de teclados que já destruí garanto que o 1 foi a única utilização da tecla segunda da primeira linha das teclas a sério onde meti o dedo.

Vivia eu muito bem com esta opção de género, pontual, quando algumas almas refrescaram a estação insurgindo-se contra o uso do dito ponto, que pode ser tão inútil, e chato, como os emoticons, eroticons, ou lá como se chama aos bonecos.

Se por via do tal trauma não podia estar mais de acordo, há contudo uma utilização do ! que me parece indispensável, inultrapassável e insubstituível, levando a que o apelo à sua abolição me leve a exclamar, com um simples final parágrafo: censura não, meus senhores.

Citando por exemplo Apollinaire:

“- Agora… agora… agora… vou vir-me… Ah! Oh! Oh!…”

e podendo ir por aí fora, desbragadamente, a literatura erótica precisa, aliás depende, do ! e das reticências, sendo um facto que baixando a qualidade literária o seu uso passa a abuso, ou seja a mesma frase ficaria assim:

“- Agora… agora… agora… vou vir-me… Ah!!!!!!!! Oh!!!!!!! Oh!!!!…”

numa versão mais pindérica. Convém lembrar que a net democratizou a produção deste tipo de textos, hoje ao alcance de qualquer um que se proponha narrar as suas proezas, em particular as que não cometeu mas tem pena.

Como não alinho em teorias de conspiração não diviso aqui a mão invisível das campanhas anti-masturbação que por aí andam mas, e usando uma frase batida, relembro que “os adultos necessitam de livros eróticos como as crianças de contos de fadas”. Além disso, o dito ! é o sinal ortográfico mais fálico que temos, e isto anda tudo ligado, pois anda.

Os símbolos a quem os trabalha

http://www.cm-santarem.pt/santarem

O especialista em Estudos Orientais Paulo Pinto anda às avessas com a simbologia escalabitana:

Ai o convento de Santa Clara é que é o “símbolo” de Santarém? Terá patente ou alvará? Muito me conta, nunca vi isso escrito em lado nenhum, a não ser naquele blogue de iluminados e figuras de culto

Bastava-lhe abrir a página da C. M de Santarém, e nem precisava de ler: é o Convento de S. Clara que a encabeça.

Devo dizer que se fosse de Santarém seleccionava outra igreja, maneirista e não gótica, mas reconheço aos povos o legítimo direito à escolha do símbolo que lhes dá na gana. E como é evidente no simbólico raras vezes conta a qualidade e real importância do monumento: Coimbra e Porto ostentam as suas torres que comparadas com outras arquitecturas que possuem não valem uma nota de rodapé.

Eu se escrevesse sobre Malaca, ou Montaigne, no mínimo lia umas coisas sobre o assunto, e antes. Mas cada um é como cada qual, e numa coisa estamos de acordo: tudo está bem quando acaba bem.

Cartazes das Autárquicas de tempos idos


Aveino Ferreira Torres, candidato independente, Amarante (Autárquicas/2005)
via Autárquicas em Cartaz

Santarém

Convento de Santa Clara (Santarém)

Convento de Santa Clara (Santarém)

“Primeiro, Santarém não tem “por símbolo um templo da arquitectura mendicante”. Que eu saiba, os candidatos ao título são as Portas do Sol, a Torre do Relógio ou a rosácea da Igreja da Graça (que é dos agostinhos). Não é o Convento  de S. Francisco.”

Pois não. É o Convento de Santa Clara. E as clarissas são uma ordem mendicante. A arrogância do jugular Paulo Pinto é directamente proporcional à sua ignorância em História da Arte. Já o tinha demonstrado, escusava de se repetir, sobretudo para rebater um texto que não percebeu.

Benfica – Poltava: Bater em mortos

O comentário do adepto virá já a seguir, estou em crer. Para mim, a vitória folgada do Benfica sobre o Poltava, na Taça Europa, é positiva, porque são mais dois pontos para o futebol português. Pode ser que, da próxima vez, o segundo classificado da Liga (o Sporting) tenha acesso directo à Champions. E que o terceiro classificado, o Benfica, seja cabeça-de-série na Liga Europa.
Quanto ao jogo de hoje, foi bom, mas admitam lá, amigos lampiões, aquilo foi bater em mortos…

Eu gostava de ter escrito….

ISTO mas não tenho arte para tanto, confesso (foi graças ao Blasfémias que o li). Aqui fica uma amostra para abrir o apetite:

“Em vez de terem pensado nesse “simples, meridiano e claro facto” que é o futuro do País, deixaram-se perder nas questiúnculas internas, nos ódios pessoais e nas jogatinas de aparelho. Nas merdas, perdão, nas tretas do costume, em suma”.

Cartazes das Autárquicas (Valongo)

DSC05141
Afonso Lobão, PS, Valongo.

Sou como um rio


Segundo o «Jornal de Notícias», «Sou como um rio», dos Delfins, era a música que acompanhava Elisa Ferreira, ontem, em campanha pelos bairros sociais do Porto. Rio, estão a perceber? Será que é para interpretar literamente?
Estes socialistas do Porto são uns pândegos!

Apontamentos & desapontamentos: Tele-cunha ou tele-política?

Há cerca de um ano ou dois houve um problema na RTP com o jornalista José Rodrigues dos Santos, tendo mesmo a administração instaurado um processo na sequência de declarações que Rodrigues dos Santos prestou à revista Pública sobre irregularidades cometidas na nomeação da correspondente em Madrid, Rosa Veloso. A jornalista, tendo, segundo é voz corrente, ficado em quarto lugar no concurso interno, terá passado à frente dos três primeiros classificados. Rodrigues dos Santos, na altura (2004) director de informação, demitiu-se do cargo por entender que fora desautorizado, pois a nomeação competia à direcção editorial. Quando deu a entrevista à revista do Público, o assunto criou alguma agitação, a Alta Autoridade para a Comunicação Social (depois substituída pela ERC), aconselhou a administração a não repetir a ingerência. O assunto morreu. O processo disciplinar a Rodrigues dos Santos foi arquivado em Janeiro do ano passado e a Rosa Veloso lá está em Madrid, impante na sua gloriosa incompetência. Tudo em águas de bacalhau, desfecho tão típico da «comédia à portuguesa». Porque será que as coisas se passam assim? Talvez tudo não tenha passado de uma vulgar «cunha» metida, segundo também se diz, pelo ex-ministro do PS António Arnaud ou até de uma recomendação do substituído, o Cesário Borga, que fora chefe da jornalista quando ela, em 1981, entrou para a RTP como estagiária. Também já ouvi dizer que tudo não havia passado de uma embirração com a pobre da Rosa, embirração em que a Judite de Sousa teria tido algum papel. Oxalá seja só isso, porque «cunhas», «tachos» e «empenhocas», (tal como as «embirrações») são instituições nacionais. Tão erradas, injustas e estúpidas como os touros de morte em Barrancos – que, com apenas 80 anos, já são consideradas como fazendo parte das tradições populares – mas muito mais antigas. Como tal, respeitemo-las.

Deixemos pois o «diz-se» e analisemos objectivamente a Rosa como profissional. Façamos de conta que ficou em primeiro lugar no tal concurso. Não é uma novata, tem 28 anos de profissão. Portanto, inexperiência não pode alegar e devia saber que os idiomas são instrumentos de trabalho, principalmente para os correspondentes. A RTP tem tido, e tem, belíssimos profissionais como correspondentes, tais como Carlos Fino que falava o russo com fluência, como Evgueni Mouravitch, cujo português é impecável, o poliglota António Esteves Martins, Paulo Dentinho, Vítor Gonçalves, todos são correspondentes com qualidade. Rosa Veloso fala mal o castelhano, misturando-lhe termos e construções frásicas de português, começa a esquecer-se do português, misturando-lhe termos e a sintaxe do castelhano, a sua fala começa a deslizar para um «portunhol» ridículo, bom para ir de compras, mas inaceitável numa correspondente. .Vasco Lourinho, o antecessor de Cesário, que, segundo julgo saber vivia em Madrid quando, ainda no antigamente, foi convidado para ser correspondente da RTP, falava muito bem o castelhano e esquecera o português. Cesário Borga, era discreto, pelo menos seguiu o conselho de Eça de Queirós a respeito das línguas estrangeiras e, sem esquecer o seu português, sempre falou sempre orgulhosamente mal o castelhano – o que, apesar de tudo, era uma posição mais aceitável.

Por exemplo, deu nas vistas a teimosia da Rosa em pronunciar «Valadolid», sabendo-se que Valladolid se pronuncia Valhadolid (ao contrário de Alhambra que se deve pronunciar Alambra). Em suma, a quem a ouve e vê, como é o meu caso, dá a ideia de que não prepara as reportagens, ou que as prepara em cima do joelho o que, frequentemente, dá em rematada trapalhice – lembremo-nos da ida de Mariano Gago a Espanha em que ela o tratou sistematicamente por ministro da Indústria, tendo ele que esclarecer que o seu ministério não era o da Indústria, mas si o da Ciência Tecnologia e Ensino Superior. Então, como jornalista portuguesa não teria obrigação de saber que tal ministério nem existe em Portugal? E quanto ao idioma: terá ao menos Rosa Veloso estudado um pouco de castelhano ou ter-se-á limitado a inscrever o idioma no currículo, como quase toda a gente faz? Há uns cursos intensivos no Instituto Cervantes, para além dos que se ministram nas Faculdades de Letras geralmente englobando língua e literatura. Terá ela frequentado algum destes cursos? Se sim, tal saber não transparece. Mas isto nem é o mais importante.

Porque até aqui, cunhas, incompetência, enfim, não digo como os brasileiros «tudo bem», mas não são coisas a que não estejamos habituados. E se (aqui entram os fantasmas) não foi uma tele-cunha e se é um caso (mais um) de tele-política? É isto que me preocupa, porque incompetentes sempre os houve naquela casa, ombreando olimpicamente com os «assim-assim» e com grandes profissionais, que também os houve e há.

Porque pior do que a incompetência da Rosa Veloso é a sua posição subserviente relativamente ao estado espanhol – cidadã de uma República, ela não tem que se referir a Juan Carlos como «sua majestade», basta dizer «o rei» nem que referir a ETA como «organização terrorista», basta que diga «movimento separatista» para apenas referir duas expressões muito utilizadas pela senhora. É uma jornalista, uma correspondente estrangeira, tem é de ser independente e analisar objectivamente a realidade, não é súbdita de «su majestad» nem adversária política da ETA. Sem desrespeitar o estado espanhol do qual é hóspede, tem sobretudo de respeitar as muitas sensibilidades de quem a escuta e vê. Os telespectadores, os contribuintes portugueses, é que são os seus patrões e não o rei ou o PSOE. Alguns deles não gostam de reis (sobretudo de reis que se comportaram como criados de quarto de ditadores ranhosos), podem aprovar ou não aprovar os métodos da ETA, mas compreendem a legítima aspiração dos bascos à independência; há os que adoram e os que detestam o PSOE… e por aí fora.

http://tv1.rtp.pt/noticias/player.swf

A toda essa gente anónima que lhe paga o vencimento, a Rosa Veloso tem de respeitar, portanto tem de ser poupadinha nos adjectivos e nas tontas considerações bebidas em jornais espanhóis de cuja leitura apressada parece decalcar as reportagens, se assim se lhes pode chamar. Não vão os comentários e adjectivos agradar ao PSOE e desagradar a muitos portugueses. Mas não, do alto da sua incompetência, a Rosa arremessa-nos as suas ideias sobre os factos, esquecendo-se do que lhe ensinaram sobre objectividade no curso de jornalismo, sobre a inconveniência de misturar factos com opiniões pessoais; opiniões que a muitos de nós nos importan un pepino.

Em suma, não foi por acaso que ela ficou em quarto lugar no concurso, valendo-lhe para ser nomeada segundo a vox populi uma cunha. A irregularidade parece ter existido. Só uma vulgar cunha? Ou será porque Madrid é um lugar estratégico e convêm lá ter alguém devidamente domesticado, não propriamente um jornalista, o que só serviria para atrapalhar, mas uma caixa de ressonância do PSOE? Ou do PP, se for o caso. Lembremos que, quando da alegada nomeação fraudulenta, embora o governo português fosse do PSD, Zapatero ganhara nesse ano, no Março anterior, as eleições legislativas. Coincidência.? Talvez. Mas acho que a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) devia interessar-se pelo caso.

Coisa que, todos sabemos, nunca acontecerá.