Maria, entre o despejo e a morte, escolheu a morte

Rita Silva

A 6 de Março Maria suicidou-se. Dia em que iria ser despejada por prestações em atraso ao banco, agentes de execução de uma ordem de despejo e militares da GNR encontraram-na em casa sem vida…

O que enfrentava Maria, será sempre difícil de saber, mas podemos, pelo menos, tentar avaliar algumas questões, duríssimas, que se colocam perante uma situação tão violenta como esta.

O sentimento de culpa de quem contraiu uma dívida e não a paga. Responsabilizada por ter contraído um crédito e parecer que é uma escolha sua comprar casa – apesar de toda a política ter direcionado, senão obrigado, as pessoas a fazê-lo, pois o arrendamento não era (nem é) alternativa. Ter assinado um contrato que atribui toda a responsabilidade a quem o assinou (e aos fiadores, muitas vezes familiares, com tudo o que isso implica). Não honrar o pagamento de um crédito é motivo de censura, mesmo que o que se ganha deixe de ser suficiente para pagar. Quem não pague as suas dívidas é culpado, assim prevê a sociedade disciplinadora da dívida, por onde tudo hoje passa. [Read more…]

A ordem obtusa das coisas

Foto: Rui Manuel Fonseca

Foto: Rui Manuel Fonseca

A Infraestruturas de Portugal (IP) não dava que falar desde a sua festa de apresentação, em 2015, quando gastou 130 mil euros em leitão, espetadas de fruta e nos serviços de um humorista que os funcionários presentes classificaram como tendo “roçado o ordinário”. Cortesia do contribuinte, naturalmente.

Volta a dar que falar este mês ao tornar pública a intenção de despejar o sem-abrigo que vive debaixo de uma ponte, na freguesia de Geraz do Lima, em Viana do Castelo. João Dias, 47 anos, operário da construção civil desempregado, viúvo, construiu uma barraca com estacas de madeira cobertas com plásticos pretos. É lá que dorme, guardado pelos cães, Nico e Pintinhas. A casa afunda-se no lamaçal e a água já lhe teria entrado na cama improvisada se não fosse o auxílio de Luís Lima, de 75 anos, habitante de Geraz, que foi ajudá-lo a levantar a cama. Esta semana apareceu a GNR para identificar João Dias e notificá-lo da ordem de despejo. A IP quer que o sem-abrigo saia. Para onde, não é um problema seu, claro. [Read more…]

“Quem semeia miséria colhe raiva”

Em Barcelona, e desde o início desta semana, as ruas ardem, literalmente, de descontentamento. Há perseguições policiais, dezenas de detenções, caixas de multibanco destruídas, contentores incendiados, barricadas. Consequências da decisão do autarca Xavier Trias que ordenou o despejo de Can Vies, um centro social gerido por iniciativa popular. Num edifício ocupado desde 1997, organizaram-se, ao longo dos últimos anos, oficinas de teatro, debates, apresentações de livros, peças de teatro, concertos, jantares comunitários, e até um jornal de bairro: “La Burxa”. Can Vies tem sido um lugar emblemático daquilo a que se vai chamando “movimentos alternativos”, uma espécie de laboratório onde várias gerações foram construindo utopias e dando corpo a projectos sociais com impacto directo na vida da gente de um bairro operário, o de Sants, com grande tradição de associativismo e múltiplas cooperativas.

Ora, uma “escola de militância”, como alguns lhe chamaram, transcende as suas quatro paredes, e o despejo foi sentido como uma afronta às gentes de Sans. O rastilho de Can Vies incendiou o bairro, em seguida a cidade, e os tumultos já chegaram às vizinhas Lleida, Tarragona e Girona. [Read more…]

A câmara do Porto tem vergonha de si mesma

A companhia de teatro Seiva Trupe foi despejada de madrugada.

Sim, podemos

Apesar da carga policial, os vizinhos de Aurelia Rey, de 86 anos, conseguiram, pela segunda vez, impedir a execução da sua ordem de despejo. Foi hoje, na Galiza.

Despejadas por não terem respondido a um inquérito

Ferem sempre mais as injustiças que atingem aqueles que conhecemos, é sabido. O Jornal de Notícias conta hoje que a Câmara Municipal do Porto deu ordem de despejo a duas idosas moradoras no bairro do Cerco do Porto (um dos maiores bairros camarários da cidade), apesar de ambas terem as rendas em dia, por não terem respondido aos inquéritos obrigatórios que a autarquia realiza. Se isto é verdade (e digo “se” porque me parece que até para a escala Rui Rio isto é de mais), parece-me de uma prepotência desmesurada e gostava de ouvir juristas a pronunciarem-se sobre esta matéria.

A notícia, que me indignaria sempre, indigna-me ainda mais porque uma das despejadas chama-se Ilda Cabral e para todos os antigos alunos da Escola do Cerco do Porto continua a ser a D. Ilda, a mais afectuosa auxiliar de todas as escolas por onde passei, sempre atenta às injustiças e cúmplice das nossas brincadeiras. Quem por lá passou lembra-se dela, de certeza.

Se entre os miúdos que ela viu crescer houver, e há de certeza, quem se tenha feito jurista, este é o momento de se chegarem à frente.

PSD/Porto, aproveitem esta deixa

Esta foto demonstra bem como os/alguns responsáveis da CMP pensam que se reabilita uma cidade.
Primeiro manda-se abaixo (como no Aleixo) e expulsam-se as pessoas (como no Mercado do Bom Sucesso), depois arranja-se uma PPP (como no Palácio de Cristal) para construir de novo.

Podem argumentar o que quiserem mas para mim a fontinha resume-se a isto:
1. O estado central e municipal demitiu-se das suas funções ao deixar uma escola abandonada durante 5 anos.
2. Um conjunto de pessoas resolveu utilizar esse espaço público abandonado para criar um projecto social.
3. A CMP achou que o melhor era tirá-los de lá e deixar tudo outra vez abandonado.

Depois ainda vem com tangas de que querem recuperar a cidade…

Como diz o Pedro Figueiredo “No fundo, temos sido em geral demasiado complacentes e tolerantes para com a CMP. É caso para dizer: CMP Filhos-da-Puta, Rui Rio Fascista / Não perdem por nova okupação! …”

PS: Este é o momento ideal para um certo PSD (vereadores, deputados municipais, …) que não se revê nestas posturas pidescas de Rui Rio se demarcar e começar a mostrar porque razão hão-de ter o voto dos portuenses nas próximas eleições.

Em luta pela Escola da Fontinha


A zona da Escola da Fontinha, situada paredes-meias com a rua de Santa Catarina, parecia estar a viver um Golpe de Estado. Eram 5 ou carrinhas do Corpo de Intervenção e dezenas de Polícias armados até aos dentes.
Os activistas da Fontinha, como se pode ver pelo pequeno filme que fiz, eram extremamente perigosos…

Câmara comunista desaloja Cáritas

Hoje todos os telejornais vão abrir assim:

Uma câmara de maioria comunista mandou desalojar a Cáritas Diocesana de um edifício propriedade do município, depois de se recusar a negociar a sua permanência em virtude de “ter em estudo um projecto social para aquele local“.

Esta atitude causou a indignação da população e da hierarquia católica, revoltada esta com o que classifica como “um ataque à religião e à livre iniciativa da sociedade civil em prol dos mais desfavorecidos”.

Um porta-voz do governo lamentou a impossibilidade de intervir neste caso, mas garantiu: “em breve tomaremos as medidas legislativas adequadas para impedir que um autarca possa violar desta forma vários preceitos constitucionais“.

Entretanto e no decorrer da desocupação, um morador local, utente dos serviços prestados pela Cáritas, regou-se com gasolina, mas a rápida intervenção policial evitou o pior.

Rui Rio é um democrata

Formado no país de Hitler, Rui Rio é um adepto do rigor e da exigência. Tem-no demonstrado ao longo de quase 12 anos de mandato, período durante o qual a cidade do Porto se desenvolveu extraordinariamente e se assumiu como a capital do norte e de todo o noroeste peninsular.
A par deste crescimento exponencial, Rui Rio tem dado provas de ser um democrata emérito, como o atesta o despejo, sem aviso prévio, da Escola da Fontinha. Uma atitude compreensível face ao espírito e à letra da lei. A verdade é que ainda não chegámos à Madeira. Se queriam ocupar um espaço vazio que depois disto vai continuar vazio, os marginais em questão deviam ter cumprido as regras vigentes. É assim a democracia. Da mesma forma que quem diz mal de Rui Rio não tem direito a subsídios, quem dá vida a um espaço morto não tem também direito à existência.
Portanto, repitam comigo: Rui Rio é um democrata de mão cheia. Rui Rio tem virtudes cívicas e éticas que deixam qualquer um assombrado. Rui Rio gosta do 25 de Abril. Rui Rio não tem saudades de Salazar. Rui Rio é um amante da liberdade.
Repitam estas frases muitas vezes e lamentem o facto de hoje não ser dia 1 de Abril. É que seriam mentiras mesmo muito giras.

As cabecinhas ocas da Igreja Católica

Duas bestas da pior espécie – Virgílio Antunes, actual Bispo de Coimbra, e o padre Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima – mantêm uma acção em Tribunal contra uma mulher acamada de 80 anos que vive num anexo que foi oferecido à Igreja pela sua irmã. A condição era que a deixassem viver ali até morrer. E deixaram, mas logo que morreu deram ordem de saída à outra irmã. A idosa acamada diz que não sai porque não tem para onde ir. Como retaliação, a Igreja cortou-lhe a luz e a água.
Estamos habituados a ver a Igreja Católica, há muitos séculos, como uma das mais hediondas instituições de que há memória na história da Humanidade. Papas, bispos e padres católicos distinguiram-se, desde muito cedo, como alguns dos maiores criminosos de sempre.
É por isso que este episódio não devia constituir qualquer admiração. Mas que fazer? A mim, um ateu mais cristão do que muitos católicos, a maldade humana surpreende-me sempre. E ainda mais quando essa maldade é perpetrada por seres malignos e perversos que batem no peito e que dizem falar em nome de Deus contra os ditos hereges.
Quanto à idosa acamada, que acreditou um dia que a Igreja Católica era uma instituição de bem, que peça um milagre a Nossa Senhora de Fátima.