Contos proibidos – Memórias de um PS desconhecido. «Bastava olhar para ele [Mário Soares] para ver que nada tinha que ver com o socialismo da classe operária»

(continuação daqui)

Desde o lançamento da ASP que os socialistas portugueses encontravam imensas dificuldades em ser reconhecidos em termos de igualdade pelos seus congéneres europeus e o acolhimento político e logístico aos dirigentes portugueses – com excepção da ocasional foto protocolar em reuniões internacionais – estava longe de ser solidário e, muito menos, caloroso. Enquanto exilado, o líder do movimento socialista português
nunca seria recebido oficialmente, nunca participaria em nenhuma conferência de imprensa conjunta, em nenhuma conferência de líderes ou reunião bilateral pública com nenhum dos dirigentes da Internacional Socialista. Não há registo de declarações conjuntas de Soares com nenhum dos «amigos» acima mencionados e não se conhece um único acto conjunto, nem sequer um simples almoço, que revele aquela intimidade.
À excepção de Mitterrand, jamais conseguiria encontrar nos escritos de Palme, Kreisky, Brandt ou Wilson, nem tão-pouco nas suas biografias, uma única referência ao líder português comprovativa daquela autoproclamada amizade. E estes são os exemplos da família socialista. Em contraste, por exemplo, Felipe González, apesar de pertencente a uma geração mais jovem, é frequentemente referenciado por todos eles. No seu livro de memórias, o ex-chanceler alemão e presidente da Internacional Socialista, Willy Brandt, diz mesmo que «com o jovem Felipe González [sentiu] uma forte ligação desde o princípio». A situação de desconsideração pelo nosso esforço, enquanto dirigentes políticos no exílio, era tal que Mário Soares chegaria a ter mesmo momentos de desespero com os seus «anfitriões» do Partido Socialista Francês que, apesar de estar na oposição e ser, na cena internacional, um partido relativamente insignificante, raramente o recebia e só em casos excepcionais se encontrava com o então secretário das relações internacionais, Robert Pontillon. E, apoio material, nem vê-lo! Por outro lado, como já se disse, para além da foto ou aperto de mão protocolares, os contactos do líder português faziam-se de uma posição humilde e algo humilhante com funcionários dos partidos da Internacional ou, como grande conquista, com os secretários das relações internacionais desses partidos. Estes exemplos de falta de solidariedade eram generalizados, mas para isso é evidente que contribuía o conhecimento dos partidos «estabelecidos» da exiguidade da nossa influência na sociedade portuguesa, que contrastava, no tamanho, com o radicalismo à francesa dos dirigentes da Acção Socialista.
Os socialistas europeus tinham a sensação de que o recém-nascido movimento socialista português era uma criação artificial pequeno-burguesa ou, como diria mais tarde o conhecido e radical ex-ministro britânico, Tony Benn, referindo-se ao líder do PS, «bastava olhar para ele para ver que nada tinha que ver com o socialismo da classe operária».
As dificuldades eram tais, que os poucos financiamentos teriam que ser
arrancados quase à força. Perante um pedido de ajuda para o núcleo da Acção Socialista que acabara de ser constituído em Londres, o primeiro núcleo devidamente organizado no exílio, o Partido Trabalhista respondia lamentar, mas não estar «em posição de poder contribuir para a manutenção duma sede. Contudo, se conseguirem obter um espaço talvez possamos contribuir com uma máquina de escrever, estantes, secretárias, etc., de que nós próprios já não necessitemos».
No mesmo ano, Bernt Carlsson, secretário internacional do partido irmão da Suécia escrevia a Mário Soares em Paris: «que a direcção [do PSD sueco] considerou o o seu pedido de ajuda financeira de 15 de Outubro, 1971. Foi decidido dar uma contribuição de 10000 coroas suecas»,tendo, após novo pedido de Mário Soares, no ano seguinte, o referido funcionário anunciado uma nova «contribuição de 10000 coroas suecas».
Mesmo assim esta fonte, que tendo em conta os valores cambiais da altura, e as contribuições dos outros partidos, era extremamente solidária, parece ter secado. Manuel Tito de Morais escrever-me-ia em Novembro de 1973, pedindo-me para «ir a Estocolmo falar ao Carlsson. Ficou de se encontrar [com ele] aqui em Roma mas não deu sinal de vida, depois de ter recusado a ajuda material que lhe pedíramos. Devias
vê-lo e falar também ao Schori, não para pedir nada mas para manter o contacto, falar nos nossos assuntos e veres se descobres a razão do afastamento que se verifica».
Estávamos assim bem longe do tempo em que bastava pegar no telefone e falar com o Brandt, o Palme ou o Kresiky. E, se as quantias que o PSD sueco enviava para Paris a Mário Soares eram generosas em relação ao tamanho da ASP e das nossas expectativas, elas eram, na realidade, insignificantes se comparadas com o financiamentosueco a outras organizações consideradas importantes. A título de comparação, bastaria dizer que na altura o apoio financeiro da Suécia à luta da FRELIMO era 7500 vezes superior ao enviado a Mário Soares, para Paris. Após divulgação pelo The Times de Londres, a 10 de Julho de 1973, do massacre de Wiriyamu relatado pelo padre católico Adrian Hastings, o ministro sueco dos Negócios Estrangeiros do governo de Olof Palme, Krister Wickman, anunciaria que o aumento da ajuda sueca à FRELIMO seria aumentado de 3 para 5 milhões de coroas. O malogrado ex-primeiro-ministro da Suécia tinha, aos 22 anos e enquanto secretário da União de Estudantes Suecos, promovido uma colecta a favor de bolsas de estudos para estudantes africanos. Um dos primeiros a serem beneficiados, já no ano de 1949, fora exactamente o fundador da FRELIMO, Eduardo Mondlane, de quem Palme viria a tomar-se grande amigo.

Ainda o esquecimento

Continuação daqui

Sem as bases históricas correctas e uma extensa pesquisa (seria preciso regressar a tempos até anteriores à 1.ª Guerra Mundial), é difícil perceber como uma única pessoa, um artista frustrado, conseguiu montar um esquema maléfico, de tal modo aliciante ao ponto de levar consigo milhões de seguidores numa rota de colisão com a própria Humanidade, deixando uma marca tão profunda e duradoura no Mundo Moderno, atingindo proporções à escala planetária e que ainda hoje é sentida. Tudo parece sempre centrado numa única pessoa, Hitler, que juntamente com um punhado maléfico de controladores, conseguiu fazer uma lavagem cerebral a uma nação inteira com único objectivo de aniquilar judeus.

Na realidade, ao longo dos tempos, uma visão “holywoodesca” da situação, contribui com uma perspectiva muito redutora, extremamente centrada no conflito armado (talvez até em demasia e ainda assim não totalmente reveladora), deixando quase sempre de parte o enfoque sobre os pilares que sustentaram uma ideologia que teve tanto de perverso como de eficaz.

Não resisto a deixar mais alguns excertos do prefácio de “A Deportação”. Faço-o por várias razões. Tão ou mais importante que o conflito militar e as batalhas, os horrores da guerra e o sangue derramado, é também tudo o que lhe serviu de base, o sofrimento civil e os pilares que permitiram que uma mentalidade tão deturpada pudesse nascer e fortalecer-se ao ponto de ter, obrigatoriamente, que se expandir para fora do seu próprio território e acima de tudo, de ter poder para o fazer. Também, porque noto as incríveis semelhanças, ainda que para já mais ténues, entre tempos tão distantes como os que precederam a  2.ª Guerra Mundial e os de hoje em dia, nomeadamente depressão económica, aproveitamento político duma situação social instável, desemprego crescente e propaganda. Costuma-se dizer que a História se repete. Fico na dúvida se serão apenas reminiscências de um passado que já se tornou longínquo ou raízes de um qualquer futuro próximo.

Excertos de “A Deportação”, 1970

“A origem de todo este mal encontra-se em Hitler. Mas Hitler não estava só. A derrota tinha momentaneamente desarmado os Senhores da Guerra sem ter reduzido as suas ambições nem despertado os seus escrúpulos. Impacientes e vigilantes, eles aguardavam. Por Senhores da Guerra não devemos apenas entender o alto comando mortificado, mas também aqueles que vivem da guerra e da preparação para ela, o grande capital e a grande indústria, o “Herren Klub” de Hugenberg, os Krupp, os Thyssen e os outros.”

(…)

“Sem poder sobre o povo, tinham de agir por interposta pessoa. Um aventureiro demagogo começava então a fazer-se ouvir. Disfarçada com umas pinceladas de “socialismo” e o pretexto de servir os interesses e a honra da raça germânica, a doutrina que ele pregava era a mesma deles. Mas deram-lhe ouvidos. Tinha a audiência que lhes faltava. Eles tinham o dinheiro que fazia falta a Hitler. Ao apoiarem a sua empresa, pensavam que esse agitador se tornaria um instrumento dócil nas suas mãos. O “socialismo”, para ele, mais não era do que uma palavra de apresentação de que nem ele nem os outros faziam o menor caso. Não foi inteiramente assim que as coisas se passaram. Guindado ao Poder pelo seu ascendente popular e pelos Senhores da Guerra, Hitler instalou-se nele. Mas que importava, se eles tinham tudo a ganhar com isso? Já tinham fornecido os estandartes e as botas envernizadas; passaram a fornecer também as armas e depois os tanques e os aviões. Era Hitler que reinava, mas quem prosperava eram eles. O mais seguro poder é o que permanece invisível: Hitler caiu e eles sobreviveram.”

(…)

“Em 1929, escrevia Hitler no Angriff, de Goebbels: “Quando a propaganda impregnou de uma ideia um povo inteiro, bastará um punhado de homens para a organização poder extrair disso as consequências desejadas”. Quatro anos mais tarde, ao ser chamado ao Poder pelo velho marechal Hinderburg, ele não tardou a mostrar a que é que chamava “um povo inteiro” e o que é que entendia por “uma ideia”: um povo inteiro subjugado à mais feroz das tiranias em nome de uma ideia que não passava de uma impostura estúpida e sedutora. O pangermanismo sempre fez receita. A propaganda tinha cumprido bem a sua tarefa. Não era já de um punhado de homens que o Führer dispunha, mas de centenas de milhares ébrios de orgulho, carregados de ódio, mentalmente fanatizados pelo mito da superioridade da “Raça dos Senhores”, e aos quais tudo era prometido, tal como tudo era permitido. Todos os que vegetavam, todos os que a inveja roía, todos os que se viam num desemprego sem esperança, todos os que não comiam o suficiente, e também todos os cobardes que preferiam matar a sujeitar-se a morrer, toda essa gente sem distinção, infelizes misturados com a escória, era convidada para a grande carniça. Os jovens sentiam-se objecto dos seus particulares cuidados. Ele definia-os assim: “Uma juventude fortemente activa, dominadora, brutal, eis o que desejo. Quero ver no seu olhar aquela centelha de orgulho e de independência que transparece nos olhos dos animais selvagens. Não quero nenhum adestramento intelectual. Para os meus jovens, o conhecimento constitui uma ruína.”

(…)

“A solidariedade era uma das formas da Resistência [nos campos de concentração]. Até aos últimos meses da guerra era praticamente impossível preparar uma verdadeira revolta armada. Não só o estado de esgotamento físico e moral dos deportados não permitia que se encarasse a hipóteses de um levantamento, mas também a delação que grassava, praticada abundantemente por todos os indivíduos duvidosos de que falei, misturados na multidão dos outros, tornava difícil a menor combinação. Tanto mais que certos detidos, que não eram dos tais cadastrados duvidosos, mas que eram fracos de espírito, se submetiam à “lei” dos campos em vez de lhe oporem uma recusa total; acreditavam esses que, ao denunciar o “delinquente” ou o suspeito, realizavam uma espécie de acto cívico, que, de resto, logo era recompensado com uma ração melhorada ou uma isenção do serviço de faxina.”

(…)

“Apesar da quase impossibilidade de se estabelecer qualquer combinação, de se organizar, de encontrar armas, 1944 e 1945 assistiram, no entanto, a verdadeiras revoltas, as primeiras das quais foram, que eu saiba, as dos campos judeus de Treblinka, em Agosto de 1943, de Sobibor, em Outubro de 1943, do Sonderkommando de Auschwitz, em Outubro de 1944, e de Mauthausen, em Fevereiro de 1945. Revoltas selvaticamente reprimidas, mas que provam a inabalável recusa de submeter-se, recusa transformada em acção, que não foi inútil, uma vez que era possível combater sem esperança de vencer.”

(…)

“Não há que perdoar àqueles que não são culpados. Seria grave injustiça fazer recair sobre o povo alemão, como um todo, a responsabilidade moral de um mal cujo nascimento, nas condições históricas em que se debatia, ele não discerniu. Quando mediu o perigo, já era demasiado tarde para lhe deter o crescimento, tendo sido ele a primeira vítima, ainda que muitos dos seus filhos tenham começado por se mostrar os sustentáculos de uma tal situação, para dela virem depois a sofrer, por sua vez, as mortais consequências. Mas quantos, no resto do mundo, se mostraram mais clarividentes, mesmo já com a guerra à porta? Seria ainda injusto atribuir aos jovens alemães de hoje a culpa de alguns dos seus pais, crimes de uns, cegueira de outros, esquecendo todos aqueles (e inúmeros são…) que sofreram e pereceram sob o terror e todos os que resistiram em condições ainda piores do que as que nós conhecemos. Uma tal maldição seria nada menos do que um genocídio moral, uma forma in
si
diosa de racismo, e a aplicação do princípio, detestável entre todos, da responsabilidade colectiva, um dos mais odiosos fundamentos do “direito” hitleriano.”

(…)

“Quem não vê, hoje, que a impunidade e o esquecimento fazem ainda fermentar certos espíritos nostálgicos de uma ditadura restaurada de que eles seriam os chefes todo-poderosos. E que, ao dirigirem-se de novo aos frustrados, aos descontentes, aos jovens mal informados do que aconteceu, eles encontram uma audiência iludida? E isto não apenas na Alemanha, mas por toda a parte onde o ódio troa ou a violência mina.”

Contos proibidos: Memórias de um PS desconhecido – Mário Soares e Samora Machel

(continuação daqui)

Em circunstâncias que descreverei noutros capítulos, eu teria a grande honra de conhecer em 1983 o então presidente de Moçambique, Samora Machel. Era injustamente conhecido em Portugal pelas «anedotas» racistas que o transformavam sempre
no «intérprete vítima», ignorando totalmente os seus grandes dotes humanos. Acontece que Samora Machel gostava de contar ele mesmo «histórias» sobre os portugueses e às vezes, com grande sentido de Jair play, transformava-se a si próprio na «vítima»da anedota. Uma noite, numa conversa que teve comigo em Maputo, satisfaria a minha curiosidade sobre pormenores da transição dizendo-me, meio a sério meio a brincar, que, quando assumiu o poder pela primeira vez, uma das suas primeiras medidas foi só sair à rua com pelo menos o dobro dos motards da escolta policial que o antigo governador colonial utilizava. Para a população – diria perante o meu ar de divertido espanto – era um sinal de que o novo presidente moçambicano era duas vezes mais importante que o ex-governador colonial! Ora vem esta maravilhosa história a propósito da imagem que, no nosso país, se «vendeu» com êxito à empobrecida população, farta do seu longo isolamento internacional. A ideia, a partir do momento que se sabe que os portugueses querem seguir um destino comum ao dos seuscongéneres europeus, de que quem tinha amigos ricos na Europa era rei! Chegar-
-se-iam mesmo a descrever relações internacionais sem o menor sentido de modéstia e das proporções, tendo o líder socialista afrnnado até ser «evidentemente… amigo pessoal do Schmidt, do Willy Brandt, do Callagham, do Olof Palme, do Yoergensen,
do Kreisky, do Mitterrand, etc. Posso pegar em qualquer momento no telefone e falar com eles». Mesmo que fosse verdade em 1979 e que, com excepção de Mitterrand, Mário Soares conseguisse falar com qualquer desses «amigos pessoais» numa linguagem comum,
esta afirmação visava o mesmo objectivo dos motards de Samora Machel.
A realidade era contudo muito diferente, sobretudo, antes do 25 de Abril de 1974!

Contos Proibidos: Memórias de um PS desconhecido. Mário Soares – Da colagem ao PCP ao exílio dourado

(continuação daqui)

Na realidade, a incapacidade dos socialistas e dos democratas portugueses para se organizarem e manterem relações com os seus congéneres europeus, após o desalento em que caíram com as divisões da I República, permitiram a quase «exclusiva» implantação do Partido Comunista e inviabilizaram o estabelecimento de um regime democrático em Portugal, em 1945. E, não obstante a grande desilusão da chamada «oposição democrática» portuguesa perante a opção dos vencedores da Guerra, nem a vitória de Clement Attleel e dos trabalhistas britânicos, em 1945, valeu aos socialistas portugueses. É que, se os havia, ninguém no resto da Europa sabia onde estavam.
Mesmo assim, em 1973, a consciência do seu passado de relações subalternas em relação aos comunistas e a evidência dos maus resultados a que esse relacionamento conduzira Portugal anteriormente não seriam motivos suficientes para demover a direcção do ainda jovem movimento socialista de um acordo com o Partido Comunista.
Mário Soares, desiludido com as promessas da «primavera marcelista» e com o resultado da CEUD nas eleições de 1969, iniciaria uma longa viagem à volta do Mundo, acabando por se exilar em França, em 1970, após garantida a sua sobrevivência económica enquanto «consultor» do grupo económico de Manuel Bullosa (2).
Neste país acabaria por ser profundamente influenciado pela plataforma unitária que Mitterrand viria a estabelecer com Marchais, passando então a ser o principal defensor de um acordo entre os socialistas portugueses e o Partido Comunista, segundo o
modelo francês e a que chamaria «contrato político». E, sem grandes consultas ao seu pequeno grupo político, este contrato transformar-se-ia num «pacto de governo», após reunião «clandestina» dos dois partidos que teve lugar em Paris, em Setembro desse ano. Do qual, por sua vez, só não resultou um programa de acção comum, porque o PC desconfiava das expectativas que os fundadores da ASP tinham manifestado em relação à chamada «primavera marcelista» e estava convencido de que os socialistas
não tinham o menor peso no que eles consideravam ser o «conjunto do movimento democrático» português.
De facto, o único trunfo dos socialistas era o terem sido admitidos, um ano antes, na Internacional Socialista. Organização que a União Soviética pretendia penetrar, apesar das «críticas» às suas características «social-democratas»!
Mas o PCP, embora seguindo as superiores directivas do PCUS3em matéria de política externa, estava desfasado da realidade nacional e preferiria desenvolver a sua relação de domínio sobre o MDP/CDE, em detrimento do potencial e das «virtualidades» da aliança desejada por Soares. Mas, para o líder socialista, sob fogo cruzado da propaganda do regime e da extrema-esquerda, o acordo com o PC seria uma credencial preciosa que dissiparia algumas dúvidas no seio da Internacional Socialista. Dúvidas semelhantes às que existiam em relação a François Mitterrand. O acordo de Soares com o PC jamais seria, contudo, um acordo honroso para os socialistas, dada a evidente subalternidade em que se colocavam. Tão-pouco vinha ao encontro da orientação seguida pela esmagadora maioria dos partidos «irmãos» da Europa. Mas, apesar disso, Soares desenvolveria todos os esforços para o dar a conhecer junto dos parceiros da IS, pedindo-me mesmo que o traduzisse para sueco, o divulgasse e o mostrasse ao Partido Social-Democrata Sueco.
Em Lisboa, também Mário Soares tinha, desde o início da década de 60, estabelecido contactos com um funcionário da embaixada da Dinamarca, simpatizante do Partido Social-DemocrataDinamarquês, Axel Buus I e com um funcionário da embaixada dos
Estados Unidos, de nome Diego Ascensio. Um outro contacto internacional do início dos anos 60, que provaria vir a ter grande utilidade para a carreira de Mário Soares, foi a amizade que estabeleceu com Marvin Howe, jovem correspondente itinerante do
NewYork Times em Lisboa e na capital marroquina, Rabat. Depois de algumas menções na imprensa internacional, Marvin Howe conseguiria junto de um grupo de «liberais» norte-americanos, seus amigos, que se reclamavam das tradições de Norman Thomas,
juntar alguns correspondentes estrangeiros no Overseas Press Club de Nova Iorque com quem Soares comentaria os seus pontos de vista sobre a política colonial de Marcello Caetano. E, graças à assustadora mediocridade e provincianismo dos governantes de então, Mário Soares, ainda em Nova Iorque, seria aconselhado a não regressar a Portugal.
O governo português conhecia de antemão as suas posições sobre a guerra colonial, mas desconhecia por completo o funcionamento da comunicação social internacional, confundindo telegramas das agências noticiosas com campanhas antiportuguesas na imprensa internacional. Marcello Caetano não se conteve e, deixando cair a última máscara de tolerância e de abertura que evidenciara quando tomara posse pouco mais de um ano antes, mandou instaurar um processo-crime ao dirigente socialista. A verdade é que, apesar do empenho de Marvin Howe, os telegramas dos correspondentes que participaram na dita «conferência de imprensa» do Overseas Press Club pouco eco teriam então na imprensa internacional. Segundo o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Franco Nogueira, revelaria ao historiador José Freire Antunes, Marvin Howe «não era ainda uma correspondente, mas uma principiante».
Tal não corresponde, contudo, à verdade. Tendo em conta que sobre ela já na altura recaíam suspeitas «de ser uma conexão da CIA» 4 e conhecidas as ligações de grandes órgãos de comunicação social americanos com os serviços secretos como viria a ser
confirmado pela Comissão de Inquérito a que presidiu o congressista norte-americano Edward Boland, então, não só ela não seria uma principiante, como seria mesmo uma grande profissional e foi por obra e graça dos seus esforços que Mário Soares começou
a ser conhecido da imprensa internacional. Foi, aliás, através «dos seus textos públicos e das suas recomendações à margem do jornalismo, que a CIA – pouco atenta à oposição portuguesa durante os anos de Johnson – aprendeu a soletrar o nome de Mário Soares». De qualquer modo, foi a partir das iniciativas da correspondente do New York Times e, em particular, de uma carta que ela enviaria ao «Special Assistant to the President», Bill Moyers3, em Outubro de 1965, que Mário Soares iniciaria uma série de contactos com um dos membros da delegação da CIA em Lisboa. Mário Soares refere-se a esses contactos no seu livro Portugal Amordaçado como contactos com «um secretário da embaixada americana em Lisboa» mas tudo leva a crer que já se trataria de Diego Ascencio, que o então chefe de informações da PIDE Álvaro Pereira de Carvalho, identificaria como sendo «um dos membros da pequena estação da CIA em Lisboa». Ascencio seria uma das relações mais precisosas de então de Soares e ainda hoje continuam a manter relações de amizade.
Não admira, portanto, que ainda hoje muitas pessoas continuem a ter uma imagem distorcida do que uma certa imprensa difundiria em tons dourados, após 1974, sobre os chamados contactos internacionais dos socialistas portugueses e do Partido Socialista.
Com as incessantes romarias políticas do pós 25 de Abril e a constante exibição de grandes figuras da cena política europeia e norte-americana, como Harold Wilson, James Callaghan, Olof Palme, Willy Brandt, Bruno Kreisky e, entre muitos mais,
Edward Kennedy, ficar-se-ia com a ideia de que estes não só protegiam e apoiavam a Acção Socialista Portuguesa com mundos e fundos como recebiam, de braços abertos, os seus dirigentes no exílio ou na clandestinidade. Nada poderia ser mais diferente, se
bem que esta «distorção da história» tivesse então algo de premeditado.

(2) Manuel Bullosa
fo
i um dos principais empresários portugueses de antes do 25 de Abril. Era dono do Crédito Predial Português, Sacar e Banco Franco-Português, de Paris.

Santarém, Capital do Gótico (Fim)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

Património moderno: Do manuelino ao barroco

A chegada do manuelino decorreu em Santarém com naturalidade. Para além da própria evolução artística, o grande terramoto de 1531 contribuiu largamente para essa situação, ao levar à ruína muitos dos monumentos da cidade. Mais tarde, viria o barroco, sobretudo nas decorações exteriores, e o caminho para o romantismo, já na fase seguinte.
A igreja de Santa Maria de Marvila está classificada como monumento nacional em 27 de Agosto de 1917. Encontra-se no largo de Marvila, no local onde existiu o bairro da antiga medina islâmica. Chamou-se inicialmente Santa Maria de Santarém, o que prova que a sua fundação foi anterior às restantes igrejas da cidade. Aliás, deve ter havido uma transformação directa de templo muçulmano em templo cristão.
Segundo Jorge Custódio, o seu nome deriva do topónimo árabe marvila, território onde existiram outrora algumas mesquitas muçulmanas. Quanto à tradição, diz que a igreja deve o seu nome a uma imagem de Nossa Senhora das Maravilhas oferecida por S. Bernardo ao templo primitivo, corria então o século XII. Outra lenda diz que um touro de fogo, no ar, profetizou que D. Afonso Henriques iria conquistar Santarém. Um sucesso fabuloso, uma maravilha. Diz a tradição que, de maravilha, resultaria o topónimo Marvila.
Os cronistas atribuem a fundação da igreja a D. Afonso Henriques. Em 1244, a igreja passou a integrar uma colegiada com o seu nome, muito beneficiada com rendimentos e privilégios por parte de D. Aires Vasques, bispo de Lisboa. Data dessa época a construção da igreja, em estilo gótico, que apagou todos os vestígios do edifício anterior.
Dessa reconstrução, pouco resta hoje em dia. A igreja foi totalmente reformada nos inícios do século XVI ao longo de dois reinados, o de D. Manuel I e o de D. João III, contando para tal com o patrocínio de D. Francisco de Almeida, vice-rei da Índia, que deixou em testamento mil cruzados. As obras ficariam concluídas cerca de 1530. É deste período o portal manuelino, com elementos naturalistas, os alçados laterais com janelas de arco quebrado ou os arcos de acesso ao coro e à capela baptismal. De resto, os elementos habituais nos monumentos manuelinos abundam: emblemas de D. Manuel I, cruz da ordem de Cristo, esferas armilares, escudo das cinco quinas. No século seguinte, viria a receber o revestimento azulejar dos muros parietais.
De resto, sabe-se muito pouco sobre aquele que projectou e dirigiu a reconstrução manuelina do templo. A ligação a Lisboa ou à «vulgarização e popularização dos modelos eruditos da Batalha» (Pedro Dias) pode ser encarada como muito provável, dada a proximidade geográfica desses dois centros da arte e cultura portuguesa do século XVI.
A partir daqui, a igreja de Santa Maria de Marvila tornou-se o centro espiritual da cidade de Santarém. Para além da localização, junto a uma Praça Nova que recebeu muitas atenções durante a época manuelina, a capacidade económica da sua colegiada e a forte ligação ao padroado real justificaram que assim tivesse acontecido.
Templo de planta longitudinal, composta pelo corpo das naves rectangular e por cabeceira tripartida escalonada, a que se adossam dois corpos rectangulares. A fachada principal é em empena, com dois pisos vazados por portal de arquivoltas trilobadas. Sobre o arco cruzeiro, dois óculos de diâmetro diferente. O portal, também nitidamente manuelino, é ladeado de pilares escalonados. Alguns pormenores zoomórficos da decoração do portal estão relacionados com o processo expansionista então em curso, caso de um pequeno leão presente no lado esquerdo e outros animais e grifos. Contígua à nave lateral esquerda, uma torre sineira que no século XIX substituiu a antiga torre medieval.
Quanto ao interior, é composto por três naves de cinco tramos, sendo que a nave central é mais elevada do que as outras. Dividem as naves arcos plenos clássicos, assentes sobre doze grossas colunas com capitéis jónicos. Todas são cobertas por tecto de madeira de três planos. As capelas, que se ligam às naves por arcos triunfais, são cobertas com abóbadas de cruzaria polinervadas. Tanto na capela-mor como nas capelas laterais, as imagens da época manuelina aparecem com alguma frequência. Na capela-mor, de abóbada polinervada, com o símbolo manuelino como fecho das nervuras, merece destaque retábulo em talha branca e dourada, de estilo nacional. Sobre o sacrário, uma imagem de Cristo crucificado, indo-portuguesa, em marfim, com cruz revestida a tartaruga. O púlpito, em mármore, é de forma quadrada, com colunas compósitas formando as guardas. Na sacristia, o tecto está decorado com ornatos a azul e a vermelho, datados de 1690, e um silhar de azulejos seiscentistas. Na capela-mor, encontra-se uma tela de Fuschini, pintor da Ajuda, alusiva à Assunção da Virgem. Esta pintura substitui o retábulo maneirista que se perdeu durante as Invasões Francesas.
Para além da estrutura e decoração quinhentistas, a igreja conserva um valioso património azulejar seiscentista, executado em 1617, 1620, 1635 e 1639 em enxaquetado azul e branco e em composições de tapete azul e amarelo. O epíteto de «catedral do azulejo» justifica-se bem pelos 1200 metros quadrados de área coberta por azulejos, correspondentes ao espantoso número de 65 mil placas cerâmicas. É na parte superior das paredes da nave que é empregue o maior padrão azulejar – 12 x 12 metros, conhecido pelo nome de padrão rico de Marvila.
A igreja conta ainda com imaginária diversa, entre as quais se destacam quadros de devoção mariana, duas pias de água benta, lajes tumulares com inscrições e ainda mobiliário e paramentos vários. Em termos tumulares, uma palavra para a diversidade de estratos sociais aqui sepultados, que vão de elementos de cavaleiros a licenciados, a homens do e até a uma escrava negra.
No fundo, um dos principais monumentos da cidade, do concelho e do país, no qual Jorge Custódio, no tamanho, nos assentos corridos, no tipo de colunas e seus capitéis, encontra algumas semelhanças com a sinagoga de Amsterdão.
A igreja do Hospital de Jesus Cristo, ou de Nossa Senhora de Jesus do convento do Sítio, encontra-se no largo Cândido dos Reis. É monumento nacional desde 8 de Fevereiro de 1923. Pertenceu inicialmente à ordem franciscana e foi construído no local onde, anteriormente, existira a ermida de Santa Maria Madalena e o paço dos arcebispos de Lisboa.
O arcebispo D. Miguel de Castro doou os paços entre 1582 e 1605 à ordem Terceira de S. Francisco, que anteriormente estava instalada em Vale de Mourol. A construção terá decorrido entre 1615 e cerca de 1730. Pelo meio, um conjunto de obras aos solavancos – primeiro a área conventual, depois a capela-mor e o transepto da igreja e só nos anos 30 do século XVIII o corpo da igreja e o coro. Apesar de prolongado no tempo, o traço primitivo do arquitecto responsável foi respeitado. Depois da extinção das ordens religiosas, em 1834, instalou-se aqui o hospício João Afonso, razão pela qual passou a ser conhecida pelo nome de igreja do Hospital.
É um dos melhores exemplos da arquitectura portuguesa chã, inspirada no figurino maneirista filipino. Fachada maneirista, de modelo semelhante à igreja de S. Vicente de Fora, está dividida em três registos, que se desenvolvem de forma simétrica, e tem duas torres laterais inscritas. No plano central, o pórtico, que revela a simbologia dos franciscanos. Em alguns pormenores desta frontaria, o barroco já se vai fazendo anunciar de forma tímida.
Templo de planta em cruz latina, com uma única nave, transepto e capela-mor rectangular, tão pronunciada como a própria nave. Todo o edifício é coberto de abóbada de berço. No cruzeiro do transepto, curto, assenta uma cúpula. De cada lado da nave, quatro capelas que c
om
unicam entre si. O coro evidencia-se pela pintura do tecto, de 1723, que teve como autor António Simões Ribeiro, discípulo de Baccarelli.
Destaque-se ainda o imponente retábulo da capela-mor. Lavrado em pedra, pertenceu à antiga capela de D. Gil Eanes da Costa. Ao centro, a tela de S. Nicolau de Tolentino, pintada por Diogo Teixeira. Num altar lateral, quatro tábuas maneiristas dos finais do século XVI, vindas do convento de Santa Clara, representando A Apresentação da Virgem Maria no Templo, a Visitação, a Adoração dos Pastores e Cristo Deposto da Cruz.
O edifício conventual, com o seu claustro contemporâneo, foi ampliado em meados do século XIX para albergar o hospital de Jesus Cristo. Anexa à igreja, a capela barroca da ordem Terceira de S. Francisco, totalmente revestida de talha dourada. São catorze as telas alusivas aos irmãos terceiros. Cenas relativas aos franciscanos podem ainda ser vistas no silhar de azulejos azuis e brancos fabricado pelo ceramista Manuel de Oliveira.
A igreja de S. Nicolau, situada no largo Ramiro Nobre, freguesia de S. Nicolau, é monumento nacional desde 7 de Janeiro de 1947. Para além do próprio edifício, há no seu interior outros elementos classificados: os túmulos de Fernão Rodrigues Redondo e de João Afonso são monumentos nacionais desde 16 de Junho de 1910, assim classificados como forma de impedir a sua transferência para Lisboa; o oratório na fachada testeira é valor concelhio desde 12 de Setembro de 1978.
Terá existido um primeiro templo, pré-gótico, e depois um gótico. Sabe-se da sua existência pelo menos a partir de 1261, data em que pregadores e menores dos conventos de Santarém já o visitavam. Destruído parcialmente por um incêndio no ano de 1600, a reconstrução, iniciada em 1613, foi feita sob a direcção de Baltazar Álvares e radicou na transformação do anterior edifício. Foi neste século que se construiu o oratório colocado na fachada nascente – uma caixa envidraçada, sobrepujando uma janela gradeada assente sobre mísulas.
Igreja de planta longitudinal, cuja fachada principal é de cinco panos, separados por pilastras. No pano central, rasga-se uma porta encimada por frontão quebrado, no qual se inseriu um nicho para ali ser colocada a imagem de S. Nicolau, e por um óculo medieval. Um frontão barroco remata a fachada. A torre sineira é encimada por pináculos.
O interior é composto por três naves de cinco tramos, separadas por quatro arcos de volta perfeita sobre colunas toscanas. Cobertura de tecto em madeira de caixotão de três panos. Cabeceira com capela-mor abobadada. De cada lado, foram abertas oito capelas , posteriores à fase maneirista do templo. A pintura de brutescos nas colunas e a decoração de azulejos dos lambris, de padrão pouco vulgar em Santarém, pertence à campanha maneirista das obras, enquanto que o revestimento das paredes de estuque marmoreado e pintado, também pouco comum, pertence aos trabalhos do século XIX.
Na primeira capela lateral do lado sul, está sepultado João Afonso de Santarém, uma das mais importantes figuras do século XVI. Foi conselheiro de D. João I e fundador do Hospital de Jesus Cristo, que dotou com uma importante verba da sua herança. Também por testamento, instituiu uma capela para igreja para ali ser sepultado. Um túmulo manuelino, posterior portanto à morte dos tumulados. Está classificado como monumento nacional.
É constituído por arca rectangular com tampa piramidal e face decorada. Na face da arca, ao centro, o escudo é ladeado por cartelas e tem caracteres góticos inscritos. Imediatamente acima do arco, desenvolve-se um Calvário de excelente qualidade artística – Cristo crucificado, ladeado pela Virgem Maria e por S. João. O conjunto escultórico é ladeado por botaréus, delimitados por colunelos torsos. Tanto o túmulo como as imagens revelam uma policromia acentuada. Aliás, neste túmulo alia-se um requinte técnico notável a uma grande diversidade cromática.
Anexa a esta igreja, está a capela de S. Pedro, que em tempos foi ermida independente. Aqui estão sepultados Fernão Rodrigues Redondo e Marinha Afonso. Natural do norte do país, Fernão Redondo foi meirinho-mor na corte de D. Dinis. Possuía paço em Santarém, onde morreu cerca de 1324. O seu túmulo é constituído por arca rectangular armoriada, datada da primeira metade do século XIV, tampa com estátua jacente e seis leões de suporte. O homenageado encosta a cabeça numa almofada e surge vestido com trajes de corte – uma longa túnica e manto e sapatos com esporas. Nas mãos, a espada. Aos pés, dois cães com a cabeça partida.
O oratório, como se disse antes, tem uma classificação independente. Trata-se de um nicho aberto na parede de uma ampliação da igreja. É uma construção barroca do século XVIII, em cuja parte de cima se encontra um cruzeiro manuelino que terá vindo de outro local. Está decorado com volutas, florões, dois pináculos e fogaréus. Toda a estrutura assenta em duas mísulas.
Em Salvador, na praça do marquês de Sá da Bandeira, temos um outro monumento nacional, a igreja do Seminário de Santarém, ou igreja de Nossa Senhora da Conceição do Colégio dos Jesuítas. Classificado como monumento nacional a 14 de Março de 1917, ergue-se no mesmo local onde antes existiram os antigos paços reais de Santarém. Tudo começou em 1609, quando D. Duarte da Costa, armeiro-mor do reino e padre jesuíta do Colégio de Santo Antão, em Lisboa, se ofereceu para financiar o novo colégio dos Jesuítas em Santarém. O início da construção teria lugar cerca de 1620 sob projecto de Mateus do Couto (tio), arquitecto que aparece ligado a outras obras da cidade. Entretanto, os jesuítas tinham-se instalado sucessivamente na ermida de Santo Antão e na de S. Sebastião. A doação dos velhos paços reais para a fundação do colégio data de 14 de Julho de 1647, enquanto que a instalação dos jesuítas no local ocorreu quatro anos depois, em 6 de Março de 1651.
O projecto de Mateus do Couto viria a ser alterado em 1673, de forma a que o edifício se assemelhasse ao colégio jesuítico de Coimbra, menos austero. A construção da igreja, por sua vez, só terminou em 1711, embora as obras no interior tenham continuado depois daquela data. Em 1759, com a expulsão dos jesuítas do reino, o colégio deixou de ter a serventia inicial e passou a ser, a partir de 1780, a igreja do Seminário Patriarcal, instituição que conheceu o seu período áureo até 1834. Em 1975, o templo foi elevado à categoria de Sé Catedral e Paço Episcopal da diocese de Santarém.
Este edifício integra-se, pela originalidade das suas linhas, no chamado estilo «chão», que dominou a arquitectura portuguesa no século XVII. A sua fachada maneirista é imponente. Assume um aspecto claramente cenográfico, do qual resulta um prospecto sóbrio mas ao mesmo tempo elaborado, tradicionalista mas ao mesmo tempo arrojado. O corpo principal é ladeado por dois corpos simétricos, que formam o conjunto do Seminário.
Com uma largura de mais de vinte e sete metros, a frontaria é composta por quatro andares de cinco corpos segmentados verticalmente por pilastras. Dos três portais que se rasgam no corpo inferior, o central, o maior de todos, é de colunas e empena rusticadas. Acima do andar térreo, abrem-se nos corpos extremos dois nichos com as imagens de Santo Inácio de Loyola e S. Francisco Xavier. No terceiro andar, mais duas imagens, desta vez as de S. Francisco de Borja e S. Luís Gonzaga.
O interior tem um certo sabor a barroco que, de certo modo, contrasta com o da fachada. Onde esse sabor mais se acentua é na qualidade do equipamento ornamental dos altares, com os seus retábulos em mármore ou talha dourada; nas suas colunas torcidas; na pintura cenográfica do tecto do corpo da igreja e nas esculturas sacras de grande qualidade.
É um templo de planta longitudinal, com nave e capela-mor justapostas. Nave única, muito ampla, com mais de quarenta metros de comprimento e quatro capelas de cada lado, O tecto pe

rspectivado que já se referiu, em falsa abóbada de madeira pintada, foi obra de pintores escalabitanos. A capela-mor é abobadada de tijolo com embutidos de florões lisos nas paredes, enquanto que o seu tecto apresenta uma pintura da autoria de Luís Gonçalves de Sena representando Nossa Senhora da Glória. O retábulo-mor foi executado por entalhadores lisboetas a partir de um projecto de Carlos Garvo.
De entre as várias capelas laterais, uma merece destaque, a de Nossa Senhora da Boa Morte. Obra do arquitecto António de Pádua, da escola de Mafra, é em grande parte construída em mármore de Carrara rosado e preto. Atrás, um retábulo também de mármore apresenta as pinturas de Nossa Senhora na cidade de Jerusalém e a sua Assunção ao Céu.
A nível da pintura, merece destaque um impressionante conjunto de pinturas da primeira metade do século XVIII. Os temas abarcados vão da Imaculada Conceição entre a glória dos anjos a alegorias diversas, cenas bíblicas do Antigo Testamento ou à representação iconográfica de quatro pilares dos Jesuítas. No dizer de Vítor Serrão e Jorge Custódio, «estas pinturas colocam-nos perante um testemunho impressionante da pintura de perspectivas arquitectónicas fingidas do barroco português do século XVII».
Quanto ao edifício do Seminário, dispunha no século XIX de cerca de duzentos quartos, um amplo refeitório, livraria e outras dependências. O seu espólio de pintura (destaque para «Pentecostes», de Diogo Teixeira), escultura, azulejaria e documentação é extremamente valioso.
Incorporados no edifício do Seminário estão os vestígios dos paços medievais, junto à desaparecida muralha e porta de Leiria do castelo. Foram classificados como imóvel de interesse público na mesma data da igreja do Seminário. Subsistem restos dos paços de três épocas diferentes: do período medieval (segunda metade do século XIII), vestígios das portas do Castelo, da Traição e do Paço, a torre dos Presos a antiga carpintaria e celeiro; do período anterior ao século XVII, algumas áreas interiores térreas, vestígios do antigo claustro, do pátio interior com cisterna e de outros elementos arquitectónicos reaproveitados; do período seiscentista, o mui decorado corredor nobre, de onde se rasgaram os quartos de aposentadoria, a escadaria monumental de acesso a essa ala, o refeitório azulejado e os vestígios da antiga cozinha.
«Hoje, o viajante contenta-se com vistas de conjunto, não sente vocação para particularizações. Porém, vai ficar sem tempo na igreja do Seminário Patriarcal, onde entrou por uma porta lateral furtiva, sem que ninguém desse fé. Esta igreja reúne exemplarmente todos os elementos do gosto jesuíta: teatralidade, luxo decorativo, riqueza de materiais, aparato cenográfico. Aqui a religião é uma ópera ao divino, lugar para o sermão de grande instrumental, aula prática de seminário. O viajante olha o magnífico tecto, pintado a fresco e de imponentes dimensões, como se o céu tivesse coberto de arquitectura fingidas e festões de flores, para receber a visita da Imaculada Conceição e da corte dos anjos. O efeito é magnífico, os pintores jesuítas sabiam o que queriam e sabiam executá-los bem. Talhas, mármores alvíssimos de Carrara, mármores embutidos revestem as capelas de cima a baixo.»
A igreja da Misericórdia, na rua 1.º de Dezembro, freguesia de S. Nicolau, é monumento nacional desde 1922. O projecto da sua construção data de 1559 e foi seu autor Miguel de Arruda, arquitecto que por essa época devia estar a terminar o seu trabalho no mosteiro da Batalha. As obras arrastaram-se com lentidão e prolongaram-se por muito tempo. Cinquenta anos depois, ainda a fachada estava a ser concluída.
A Santa Casa da Misericórdia de Santarém fora instituída por alvará de 1503 e por iniciativa de frei Martinho de Santarém. Recebeu os mesmos privilégios da Misericórdia de Lisboa e teve como primeira sede o próprio hospital de Jesus Cristo, que até aí administrava todas as instituições hospitalares da vila.
Quanto ao seu templo, construído no ambiente da Contra-Reforma, é uma igreja em estilo renascentista tardio, no dealbar do maneirismo santareno. Conjuga de forma perfeita elementos clássicos com elementos medievais. Estão entre os primeiros as colunas toscanas e os barretes acima dos capitéis e entre os segundos as nervuras das abóbadas e os bocetes de fecho.
É um templo com planta tipo igreja-salão, cuja fachada exibe uma aparatosa decoração barroca. Já não é a frontaria de origem, visto que a anterior foi destruída pelo terramoto de 1755. Seccionada horizontal e verticalmente, tem no centro o pórtico principal, em cujo lintel aparece o primeiro símbolo heráldico da Santa Casa de Santarém. No piso de cima, três janelões de estilo pombalino.
No interior, três naves de quatro tramos à mesma altura e com presbitério sobrelevado em relação à nave. A cobertura das naves, de abóbadas de nervuras cruzadas, é sustentada por dez colunas toscanas decoradas com ornatos brutescos, que emprestam monumentalidade a todo o conjunto. Na capela-mor, o retábulo, oitocentista, integra uma pintura maneirista de Simão Rodrigues, anterior em dois séculos, representando a Nossa Senhora da Piedade. Na Sala do Consistório, destaque para um silhar de azulejos neoclássicos cuja policromia se limita ao verde azeitona, ao roxo manganés e ao azul. Aqui está sepultado Nuno Velho Pereira, figura dos Descobrimentos portugueses e benemérito da Misericórdia.
A sacristia merece destaque por várias razões: pela talha dourada que apresenta; pelos baixos-relevos em madeira que representam a Anunciação e a Adoração dos Pastores; pelo lavabo «rocaille» e pela pintura do tecto abobadado, em brutescos, de Luís Gonçalves Sena.
Quanto ao edifício da Misericórdia, tem várias dependências importantes, das quais se salienta o Arquivo, um dos mais importantes do país, e o Definitório. Nesta sala, reservada à reunião dos Irmãos da instituição, pode ver-se uma janela de sacada em ângulo tardo-renascentista, um cadeiral que pertenceu ao conselheiro Figueiredo Leal, os retratos dos provedores da Misericórdia desde 1860 e, nas paredes, um lambril de azulejos setecentistas com temas alusivos às obras da Santa Casa.
O pelourinho de Alcanede é monumento nacional desde 1910. Foi construído segundo os cânones românticos e revivalistas. Nele se reúne uma série de elementos, que vai desde a evocação do rei D. Afonso Henriques, que conquistou a vila aos mouros, passando pelas bolas, cordas e motivos vegetalistas, típicos do manuelino. Com um soco de três degraus e um fuste prismático, localiza-se no centro histórico de Alcanede. Evoca o passado municipal da freguesia, da mesma forma que o antigo edifício da câmara, que ostenta na frontaria um brasão em relevo.
A capela de Nossa Senhora do Monte, ou capela de Santa Maria do Monte, encontra-se na freguesia de Salvador. É monumento nacional desde 14 de Março de 1917. Desde 1191, pertenceu à colegiada de Santa Maria de Alcáçova, tendo ficado em meados do século XIII na jurisdição do hospital dos leprosos. A partir do século XVII, tanto a ermida como o hospital passaram a ser administrados pela Santa Casa da Misericórdia, depois da integração do hospital de S. Lázaro no hospital de Jesus Cristo.
Inicialmente gótica, a sua traça foi sendo modificada. No século XIII, terá sido ampliado, o que resultou na alteração do arco triunfal e da abóbada da capela-mor. Da época manuelina é o nicho de recorte mudéjar com imagens da Virgem e, ao que parece, uma porta lateral. Em meados do século XVI, construiu-se o alpendre que ocupa duas fachadas da capela e o portal sul e os assentos do coro, de gosto maneirista. Ocorreu neste século, também, a sepultura de Duarte Sodré, vedor de D. Manuel I, no pavimento do templo.
A sua arquitectura revela uma presença simultânea do gótico ducentista e do estilo renascentista, o segundo dos quais se destaca visualmente. Templo de pla

nta longitudinal, composto por nave única, capela-mor rectangular e cabeceira abobadada em dois tramos. Exterior com alpendre, composto por vinte e uma colunas e meia colunas, com capitéis jónicos, cuja decoração é claramente influenciada por João de Castilho.
Merece referência, no seu interior, para além dos elementos já referidos, o coro, de 1555; o púlpito, de 1623; uma tábua maneirista da Anunciação, atribuída a Ambrósio Dias; e duas esculturas em madeira seiscentistas, representando A Virgem e o Menino e Nossa Senhora da Piedade. Um lambril de azulejos do século XVII revestem o pavimento interior.
O velho pelourinho quinhentista, ou o que resta dele, está hoje conservado no Museu Municipal. É imóvel de interesse público desde 11 de Outubro de 1933. Foi lavrado e erguido na antiga praça do Município, actual praça Visconde da Serra do Pilar, depois da atribuição do foral manuelino. Encontrava-se à direita dos paços do concelho.
Do monumento original, resta apenas a sua terminação, um pináculo em forma de pinha sextavada, encimado por uma esfera armilar em ferro. Apesar da temática manuelina, alguns autores apontam a sua construção para o século XVIII. Quando foi retirado do local, em 1834, ficou praticamente destruído.
A igreja de Santa Iria, no largo do mesmo nome, é imóvel de interesse público desde 12 de Setembro de 1978. O templo primitivo era muito pequeno e foi sendo progressivamente destruído pelas inundações do rio Tejo, até chegar ao ponto de ser substituído, no século XII, por uma nova igreja. Esta viria a ser totalmente reconstruída no século XVI e a receber obras que a alteraram profundamente nos séculos seguintes. Da antiga construção, resta apenas a abóbada gótica de nervuras de uma capela do lado esquerdo.
A fachada, caracterizada por uma grande simplicidade, é de finais do século XVIII. O pórtico, no centro, é sobrepujado por um duplo frontão partido com uma imagem em pedra de Santa Iria. Ostenta a data de 1688, ano de uma campanha tardo-maneirista. Acima, três janelas rectangulares. Do lado esquerdo, um torreão cilíndrico quinhentista e uma torre sineira quadrangular do século XVIII.
É um templo de planta longitudinal, composta pelo corpo de três naves de quatro tramos, formados por quatro pares de colunas toscanas. Na cabeceira, a capela-mor apresenta dois bustos de estuque. Ressalta ainda o altar em talha dourada, que abriga o Cristo de braço caído de Mont’iráz, e os muros laterais em estuques relevados. As naves laterais têm diversas capelas, num total de cinco, e são cobertas por madeira. Os tectos das naves são de caixotões em madeira, sendo que o da nave central é abaulado. O interior dos muros é revestido por azulejos.
Para além do altar-mor, a igreja tem dois altares colaterais e quatro laterais. O transepto é cupulado e a cúpula pintada em trompe l’oeil, mostrando restos do anterior zimbório. No pavimento, cerca de oitenta lápides. Por todo o corpo da igreja, um revestimento de azulejos azuis e amarelos seiscentistas.
A igreja de Nossa Senhora da Piedade está classificada como imóvel de interesse público desde 11 de Agosto de 1934. Foi entregue a frei Manuel da Conceição, em 1668, para que aí se instalasse a ordem dos agostinhos descalços, que estava instalada em Portugal há cinco anos. Nesse mesmo ano de 1663, ocorrem os «sinais milagrosos» que vão conduzir à aceitação generalizada do milagre da Senhora da Piedade. Para os seus habitantes, fora a Virgem a responsável pela vitória, no Ameixial, contra os espanhóis. O cabido de Lisboa, em finais de 1663, proclamou o milagre.
O local onde se encontrava a padroeira foi o escolhido por D. Afonso VI para a construção do novo templo. Iniciadas em 1665, as obras viriam a ser concluídas cerca de 1690 e o edifício entregue à ordem em 1695.
A planta da igreja é em cruz grega. Um templo de sólida construção, cuja cúpula octogonal, rematada por placas em bronze e terminada em 1721, está assente em silharia de pedra modelada no topo. Sobre a porta principal, o escudo real. Acima, uma janela pombalina para iluminação do interior. Sobre as portas laterais, inscrições em latim.
No interior, a capela-mor é coberta por abóbada de caixotões e destaca-se pelo retábulo, que apresenta uma tela joanina de Nossa Senhora da Boa Viagem. Nos outros braços do templo, duas capelas colaterais dedicadas a Santa Mónica e a Santa Rita. Sob a porta de entrada, o coro. O mármore de excelente qualidade aplicado na sacristia, maneirista, é responsável pelos efeitos cromáticos que aquela ostenta.
O palácio de Eugénio Silva, ou dos Meneses, ou dos provedores das Lezírias, situado no antigo largo do Espírito Santo, é imóvel de interesse público desde 6 de Novembro de 1951. Funciona actualmente como Câmara Municipal de Santarém, que comprou o edifício, em 1954, aos herdeiros do industrial Eugénio de Carvalho e Silva.
Terá sido D. Pedro Telles de Meneses, provedor das lezírias, irmão do conde de Unhão, D. António Telles de Meneses, vice-rei da Índia em 1665, o promotor da sua construção. Depois de ter servido como habitação particular, o palácio foi sede do Estado-Maior de D. Miguel, durante as guerras civis dos anos 30 do século XIX, e depois quartel-general de D. Pedro. Foi ainda sede do Gabinete de Regularização e Obras Hidráulicas do Tejo. Em meados do século XX, o industrial Eugénio Silva adquiriu o palácio, que viria a ser comprado em 1954 pela Câmara Municipal. Dois anos depois, eram aqui instalados os Paços do Concelho.
É um edifício de inspiração maneirista, de planta em U, com dois corpos laterais rectangulares e um central. Muito sóbrio e elegante. Os pináculos que coroam os cunhais da fachada principal são claramente barrocos, bem como a relação que se estabelece entre a casa e o jardim envolvente e alguns pormenores azulejares do interior. A meio da fachada norte, encontra-se a porta principal. Acima, a janela central é sobrepujada por um frontão triangular.
No interior, o piso nobre alberga as melhores salas do palácio. As pinturas a fresco, os estuques e os lambris de azulejos merecem destaque. Uma escadaria monumental de dois andares, onde se podem ver azulejos tromp l’oeil, dá acesso ao piso inferior.
Numa casa da praça Sá da Bandeira, antigo Terreiro do Paço, merece referência uma janela manuelina, classificada como imóvel de interesse público desde 14 de Março de 1917 e integrada numa zona de protecção especial. Colocada no segundo piso de um edifício com dois andares, o primeiro dos quais é ocupado por uma loja comercial, a janela data dos inícios do século XV e, tal como é habitual naquele estilo, o lavor é delicado e requintado. É uma janela quadrangular, de cantaria de calcário, dividida ao meio por uma coluna de capitel mudéjar. O capitel é sobrepujado pela representação de uma vieira. De cada lado da janela, as ombreiras são formadas por colunas com capitéis e por pilastras. Terá sido um genovês a construí-la, segundo Rafael Moreira – pelo menos, o estilo é de importação daquela cidade do norte de Itália. Segundo a lenda, sem qualquer fundamento histórico, o rei D.Pedro I teria assistido desta janela à execução dos assassinos de Leonor de Castro.
Na rua de João Afonso, no número 58, encontra-se, num solar de meados do século XVI, uma varanda quinhentista, classificada como imóvel de interesse público desde 14 de Março de 1917. É uma rua onde ainda hoje se podem ver alguns bons exemplares de arquitectura solarenga. Quanto à varanda, de cantaria lavrada, dois resguardos em ângulo definem as suas faces e, dessa forma, o espaço de um alpendre. Uma das faces, esculpida, está voltada para a rua e a outra para um pátio interior. Nas guardas e no friso da base, decoração de brutescos, caso de enrolamentos de folhagem com animais fantásticos e candelabros. É composta de sete blocos de calcário, esculpidos na face exterior, e revela grande simetria a nível de desenho.
O chafar

iz de Palhais, na Ribeira de Santarém, data da segunda metade do século XVIII. É imóvel de interesse público desde 12 de Setembro de 1978. Situada junto à porta da cerca de Palhais, a sua função era abastecer tanto os viajantes que se dirigiam ao norte pela estrada real ou coimbrã como aqueles que chegavam à vila pelas três estradas rurais existentes. No século XIX, chegou a ser encarado como fonte essencial para o abastecimento de água à cidade.
De estilo barroco tardio, é uma peça de linhas clássicas, apesar da profusa animação «rocaille» do frontão e dos jogos de volutas simétricas que o leiam. É composto por um tanque de água, separado de duas bicas, que brotam de duas carrancas, por uma guarda de ferro forjado, uma das bicas para dar de beber aos animais e a outra às pessoas. Quatro pilastras, duas de cada lado, rodeiam um nicho central com moldura rococó. Na zona superior, um frontão barroco, no qual surge o brasão de Santarém com motivos heráldicos reais.
Junto a este chafariz, subsistem ainda restos da antiga porta e hospital de Palhais, anexo à ermida do mesmo nome, também conhecida por Nossa Senhora de Palhais ou Nossa Senhora da Encarnação de Palhais. Desses vestígios, salientam-se as cantarias da porta, três arcos góticos da estrutura e porta da igreja e um piso com construção dos séculos XVII e XVIII.
A casa e quinta de Nossa Senhora da Saúde é imóvel de interesse público desde 18 de Maio de 1998. Situa-se no Vale de Mourol ou dos Olivais, no local onde, no século XIV, o rei D. Duarte possuía uma quinta, com capela dedicada a Santa Catarina.
Trata-se de um conjunto edificado em que são visíveis ainda as ruínas do antigo convento de Santa Catarina da ordem Terceira de S. Francisco, o primeiro da ordem em Portugal, fundado em 1470, e alguns elementos da igreja do Hospital de S. Lázaro.
A primitiva quinta da Saúde pertenceu aos Coutinhos, família de Santarém, mas situava-se noutro sítio que não o actual. Foi transferida para Val de Mourol, em finais do século XVI, devido a uma epidemia. Quando o convento franciscano foi transferido para o lugar do Sítio, a área monacal continuou a funcionar como um colégio ligado às Artes.
A actual quinta apalaçada é o resultado de uma evolução de séculos, desde que os franciscanos aqui construíram o seu convento de Santa Catarina. Apesar disso, a sua feição actual remete para uma certa recuperação das tradições dos antigos palácios barrocos setecentistas. Passou para as mãos de particulares depois da extinção das ordens religiosas. A parte da quinta, construída em redor do espaço conventual, data dos inícios do século XX. Do antigo convento, resta o claustro de dois pisos, composto por quatro alas de cinco arcos sobre colunas dóricas, a igreja da Senhora da Saúde, a fonte das águas radioactivas e a fonte da cerca azulejada, de 1751, onde se pode ver a Senhora da Piedade rodeada por S. Marçal e por Santo António.
Quanto à igreja, de fachada rectilínea, é de uma nave única, coberta por tecto estucado de três planos e revestida por silhar de azulejos. Tem capela-mor abobadada e quatro capelas revestidas por azulejos seiscentistas e setecentistas e com pinturas a óleo, imaginária dos séculos XVI a XVIII e várias sepulturas com epígrafe dos séculos XV e XVI. Numa daquelas capelas, dedicadas a Nossa Senhora da Saúde, pode ver-se um retábulo em madeira de fundo branco com elementos marmoreados e dourados. O portal, de arquivoltas com arco quebrado, é do século XIV e abre-se em dois colunelos colocados em arcaturas, cuja moldura é composta por rosas e folhagens. Acima, uma janela mainelada.
O antigo hospital de Santa Iria, na freguesia de Santa Iria da Ribeira de Santarém, é valor concelhio desde 12 de Setembro de 1978. O actual edifício, que se encontra na rua João Augusto César de Oliveira, data da segunda metade do século XVIII. Actualmente, pertence ao Centro Social Interparoquial de Santarém João Arruda. Não se conhece muita da sua história, mas o seu passado deve estar ligado ao período de maior autonomia administrativa da freguesia, depois da restauração da independência portuguesa.
É um edifício solarengo sobradado, composto por dois pisos. Fachada principal rasgada por portal de volta perfeita, decorada com uma concha na zona do seu fecho. Acima do frontão, uma janela de moldura recortada que parece evocar Santa Iria. Nas fachadas laterais, há três janelas em cada um dos dois pisos do edifício. Alguns elementos, como as cantarias das portas e das janelas, denotam claramente influências pombalinas. Na ligação dos vãos entre os pavimentos, existe uma decoração a caminho do barroco que empresta ao edifício uma grande noção de movimento. Sob a porta principal, ornatos barrocos.
Na travessa dos Surradores, encontra-se no edifício do número 26 uma varanda quinhentista, classificada como valor concelhio desde 29 de Setembro de 1977. É uma grande varanda com alpendre, nas traseiras do imóvel, de clara influência mudéjar tardia. Abre para o exterior através de cinco arcos abatidos em pedra, assentes em seis colunelos de secção redonda com capitéis de feição islamizante. As superfícies entre os vãos das portas interiores e das arcadas, o intradorso dos arcos e o parapeito estão cobertas por azulejos azuis e brancos.
O conjunto edificado do solar dos Sousa Coutinho, também conhecido como palácio Landal, é imóvel de valor concelhio desde 11 de Outubro de 1979. Trata-se de um edifício de grandes dimensões que se desenvolve ao longo de várias artérias da freguesia. Construído no século XVI, sofreu transformações importantes em inícios de setecentos – uma verdadeira reconstrução – a nível da fachada e do interior. Aqui nasceu Frei Luís de Sousa, um dos grandes nomes da literatura portuguesa e imortalizado na obra de Almeida Garrett. Em meados do século XIX, foi adquirido pelo 1.º Visconde de Landal. Depois de passar por várias mãos, a Câmara Municipal de Santarém adquiriu-o em1980, adaptando-o anos mais tarde para a instalação de serviços administrativos. Parte do quarteirão que é ocupado por este palácio, e que inclui a rua de Serpa Pinto, a travessa do Montalto e a rua Capelo e Ivens, encontra-se já na vizinha freguesia de S. Nicolau.
Com capela privativa, a entrada do solar abre para um pátio interior calcetado, para onde convergem as restantes entradas. Uma escadaria dá acesso ao primeiro e ao segundo piso, sendo que neste último se encontram as habitações e o torreão. Até 1970, teve dois tectos seiscentistas pintados, que representavam a vida de Sansão e cenas humorísticas da «comedia dell’arte». Viriam a ser comprados por um particular e transportados para outro local, embora, mais recentemente, um deles tenha voltado a ser adquirido pelo município.
A igreja e convento das Capuchas da Senhora dos Inocentes, ou Recolhimento das Capuchas Terceiras, encontra-se na freguesia de Marvila. É valor concelhio desde 6 de Março de 1996. Situado no largo de Pedro António Monteiro, foi fundado em finais do século XVII, para acolher as religiosas daquela ordem, que tinham sido autorizadas a instalar-se, por D. Maria Sofia de Sabóia, mulher de D. Pedro II, em 1678.
Até 1732, a intenção vai ser a construção de um convento ligado à primeira regra de Santa Clara, mas as suas intenções vão sair goradas. Em 1753, inicia-se um conjunto de obras, que vai transformar o recolhimento numa casa conventual. Estas obras vão ser responsáveis por uma certa feição barroca e «rocaille» do monumento, que terá o seu expoente máximo no lavabo de pedra datado.
Parte do convento foi demolido em 1835, depois da extinção das ordens religiosas. Quanto ao recolhimento, é encerrado em 1910 e os seus bens vendidos em hasta pública. Actualmente, pouco resta da construção inicial, devido aos factores referidos e também às alterações que sofreu ao longo dos séculos.
É uma igreja que mais parece uma ermida. De arquitectura maneirista e rococó,
de pequenas dimensões, tem uma só nave, iluminada por três janelas, e tecto em madeira. O coro-alto comunica simultaneamente com a igreja e com o espaço conventual através de uma grade de ferro. A sacristia está adossada à cabeceira, seguida da portaria e dos anexos. O altar-mor e os altares laterais estão integrados em triplo arco de volta perfeita. A meio da nave, o púlpito maneirista em pedra. Na nave, um lambril de azulejos enxaquetados. A cabeceira tem três capelas profundas em talha. Sobre o arco da capela-mor, encontra-se uma pintura mural alusiva aos símbolos da ordem Terceira. Do recheio que conserva, uma palavra para uma tela de O Menino Jesus Salvador do Mundo, pintada certamente por um artista castelhano nos inícios do século XVII.
A parede oposta à cabeceira faz a ligação entre a igreja e o convento, de planta rectangular. Em redor do claustro, encontram-se as dependências conventuais, como por exemplo as minúsculas celas das reclusas ou o refeitório, quase intacto, com púlpito e umas alminhas em azulejos de 1756. «Estar ali é entrar, de facto, num retiro espiritual dos mais impressionantes e característicos. Respira-se neste recinto tranquilidade, suavidade e, olhando o céu azul, parece-nos estar mais próximo de Deus. Talvez fosse esta característica espiritual que conferia um certo valor ao recolhimento, cujo claustro seiscentista, rodeado de dependências em dois pisos, era obra singela, com o seu bocal de cisterna e ferros forjados, no meio de um jardim.» (Zeferino Sarmento)

Património contemporâneo

Se grande parte do património que descrevemos até ao momento é de religioso, a época contemporânea vai assistir ao lançamento de grandes obras públicas e infra-estruturas urbanas. A palavra de ordem agora é a utilidade e a necessidade de responder às carências da cidade aos mais diversos níveis, desde o comércio à higiene ou à cultura.
O mercado municipal de Santarém, construído em 1928, é um interessante edifício de traça tradicional, classificado como imóvel de interesse público em 18 de Maio de 1997. Interligam-se aqui diversos modelos arquitectónicos, desde o revivalismo à «arte do ferro», passando pelo modernismo.
Surgiu da necessidade que se sentia de dotar a cidade de um espaço adequado à sua população e da maior sensibilidade para as questões da higiene pública. Ou como se tentou aliar a harmonia estética à funcionalidade e necessidades específicas. A «beleza» que os gregos privilegiavam nas suas obras, a «utilidade» que os romanos preferiam, aqui reunidas em perfeito equilíbrio.
Entre 1890 e 1920, tinha havido várias tentativas de criar em Santarém um mercado diário coberto, mas todas elas fracassaram. A ideia era substituir o mercado ao ar livre que se realizava na Praça Velha, actual praça do Visconde da Serra do Pilar. Projectado em 1928, viria a ser inaugurado dois anos depois, influenciando a partir daí toda a estrutura urbanística das redondezas.
A beleza do edifício e todo o cuidado posto na construção de um «simples» mercado municipal deveu-se ao arquitecto que o projectou, Cassiano Branco, um dos vultos do modernismo da arquitectura portuguesa. Para além da beleza intrínseca do edifício, a sua instalação naquela zona, aberta e desafogada, veio definir a orientação urbanística do local.
Através da utilização de materiais como a alvenaria e a telha portuguesa, o arquitecto procurou, naquela que foi uma das suas primeiras obras, seguir uma linha mais tradicionalista, pouco condizente com a linguagem modernista que viriam a caracterizar as suas obras no futuro.
O ecletismo da construção foi conseguido graças à introdução de elementos neo-barrocos, patentes nos painéis de azulejos azuis e brancos e policromos, cuja temática ribatejana (a lezíria, a vivência mercantil do Chão da Feira, alguns monumentos locais) nos remete de novo para o tradicionalismo. Um dos núcleos mais activos da produção intensiva de azulejos, e que se reflecte no conjunto que enquadra a porta principal, foi a Fábrica Aleluia, que os produziu em 1930. Já os restantes azulejos são de 1936 e foram feitos na Fábrica de Sacavém. No total, são sessenta e três painéis «em que se procura promover o dinamismo regional e mercantil de uma região que se assumia cada vez mais como polo comercial do Ribatejo» (Jorge Custódio)
A fachada principal possui um corpo central mais elevado e é enquadrada por dois torreões, rasgados no topo por pequenos óculos. Ladeiam esta estrutura dois corpos rectangulares, onde se rasgam amplas portas, encimadas por arcos de volta perfeita. No interior, a espacialidade e arejamento do espaço consegue-se através da aplicação das regras formais e funcionais da arquitectura do ferro – estruturas de ferro forjado, colunas aliadas a pilastras hexagonais, cuidada simetria das bancas dos vendedores.
O Teatro Rosa Damasceno, na rua Conselheiro Figueiredo Leal, é imóvel de interesse público desde 2002. O primeiro edifício foi construído entre 1877 e 1884 sob projecto de José Luís Monteiro, que se inspirou no Teatro Ginásio de Lisboa, e por iniciativa do Club de Santarém, que considerava precisar a cidade de Santarém de um espaço próprio e adequado para a prática teatral. Escolhido o local, foi necessário demolir a igreja de S. Martinho, do século XVIII. A escolha do nome, feita em 1894, foi uma forma de homenagear uma grande actriz, muito famosa em Lisboa na segunda metade do século XIX. Antes da sua existência, o teatro em Santarém representava-se na igreja de S. João de Alporão.
Em 1938, a sala seria totalmente remodelada pelo arquitecto Amílcar Pinto, devido ao surgimento do cinema sonoro. Do edifício anterior, foi aproveitada apenas uma parede mestra com cunhais em cantaria, embebida na fachada posterior, onde também são visíveis três janelas em cantaria, não previstas no segundo projecto. Na inauguração do novo espaço, foi representada a peça «A Recompensa», de Ramada Curto, pela Companhia Rey Colaço, com Amélia Rey Colaço no papel principal.
Amílcar Pinto foi o arquitecto de outros edifícios de Santarém, como por exemplo o Café Central (1939), o Hotel Abidis (1942/1944), uma casa no número 29 da Avenida Gago Coutinho e Sacadura Cabral ou a Casa do Campino.
Uma reconstrução, a do teatro, que teve como «musa inspiradora» o Teatro Éden (Lisboa), de Cassiano Branco, embora no final não lhe tenha ficado atrás. Com os trabalhos concluídos, o edifício adquiriu a feição Art Deco que tem hoje. A geometrização linear da decoração da fachada e a relação entre a verticalidade estrutural das linhas e os módulos de vidro comprovam-no. Os cinco janelões que rasgam a fachada, e que transmitem uma espacialidade ímpar, concretizam aquela solução. O modernismo de toda a concepção arquitectónica está patente na uniformização do interior do edifício com o mobiliário existente, na relação espectáculo-espectador ou na iluminação.
A liberdade criativa do arquitecto foi plena e isso nota-se sob os mais variados prismas, desde as questões ligadas à higiene e à segurança, passando pela linguagem «deco» do pavimento em marmorite do seu chão e atingindo o seu ponto máximo na sala de espectáculos, onde o conforto dos espectadores convive em todos os planos com espaços que são verdadeiras obras-primas, caso do 1.º balcão.
É uma obra claramente enquadrável no modernismo, que segundo Jorge Custódio aceita mesmo um modernismo radical e as tendências neoplásticas. Para além das influências de Cassiano Branco, Amílcar Pinto «bebeu» muitas das influências europeias, sobretudo no «De Stijl» do holandês Mallet-Stevcens
Com uma capacidade para 1400 espectadores, o espaço articula-se em três zonas distintas: a zona de acesso e convívio, em três andares sobrepostos – átrio, foyers e zonas de acesso ao primeiro e segundo balcões – articuladas por escada de vários lanços; o espaço cénico, unificado, constituído por ampla plateia, a que se s

obrepõe o primeiro e o segundo balcão; finalmente, a zona de sanitários e serviços, no corpo adjacente do lado direito. O piso do vestíbulo e foyer é constituído por marmorite de várias cores, formando uma composição geométrica marcada por frisos de latão. No foyer do primeiro balcão, a primeira máquina de projectar do cinema, da autoria da firma americana Ashcraft Meg. Co.. Do recheio, fazem parte mesas, cadeiras, vitrines em ferro pintado, desenhadas pelo arquitecto.
O antigo matadouro municipal é também imóvel de interesse municipal, por deliberação camarária de 1997. É um edifício projectado pelo arquitecto Domingos Parente da Silva na década de 80 do século XIX e inaugurado em 1889. Encontra-se na rua Pedro de Santarém. Uma construção que decorreu no período compreendido entre 1886 e 1889 e que foi integrada no plano de expansão urbana do cerco de S. Lázaro. Teve por modelo os matadouros públicos que no mesmo período se desenvolveram na Europa e nos Estados Unidos da América.
Nos primeiros anos da década de 60 do século XX, o corpo lateral direito foi destruído, em parte, para dar lugar a um conjunto de prédios. Em 1983, o matadouro passou a funcionar na quinta do Mocho, freguesia de Várzea. Actualmente, serve de armazém da Câmara Municipal e de sede dos escuteiros.
É um edifício de traça eclética, simples e sólido. De planta longitudinal, articula um corpo central com dois corpos laterais, sendo estes mais austeros a nível decorativo. Na fachada principal, a heráldica de Santarém. Quanto ao interior, nota-se a influência da arquitectura do ferro, embora esta seja assumida de forma tímida. Com uma área de 2,143 metros quadrados, tem uma planta de três corpos, divididos por pátios interiores. O corpo central é ameado e integra o grande recinto da matança propriamente dita dos animais. Um corredor central abre para o recinto, onde uma série de colunas de ferro fundido sustentam uma cobertura de madeira e fazem a divisão do espaço. Em todo o recinto, um silhar de azulejos azuis e brancos.
Mais uma vez, tal como aconteceu com o mercado, na vizinha freguesia de S. Salvador, aqui se alia a beleza do edifício à funcionalidade e objectivos para que foi construído. «Articulando a arquitectura de engenheiros com aspectos formais mais próprios da composição estilística, a gramática do edifício revela o ecletismo do movimento romântico e revivalista, pretendendo esconder para a via pública o local bárbaro da morte do gado.» (Jorge Custódio)
A penitenciária distrital de Santarém constituiu um pólo de desenvolvimento urbanístico da cidade de Santarém ao longo da segunda metade do século XIX e primeiro quartel do século XX. Imóvel de interesse público desde 19 de Fevereiro de 2002, foi construída a partir de 1870 e durante mais de vinte anos, pelos engenheiros Adolfo Loureiro, Alexandre da Conceição e José Cecílio da Costa, que se basearam nos modelos das penitenciárias de Lisboa e Coimbra. A abolição da pena de morte, em 1867, e as novas ideias que chegavam da Europa, acerca do sistema prisional como local de punição mas também de reabilitação do preso, fizeram-se sentir no projecto de construção. Assim, o ponto essencial de todo o edifício é um corpo central em forma de charola, do qual irradiam várias dependências, incluindo as celas individuais dos presos. Com uma área de mais de quinze mil metros quadrados, organiza-se a partir da forma de cruz. A casa da administração está separada do edifício da prisão propriamente dito e evita que este se veja do exterior. O ferro é utilizado como forma estrutural construtiva. De resto, Jorge Custódio considera-a o mais belo exemplar da arquitectura do ferro da cidade.
«Causa admiração nos nossos tempos a grandeza e a magnitude de um espaço público construído em finais do século XIX, numa altura em que a situação financeira do país esteve frequentemente periclitante e a dívida pública aumentava de orçamento para orçamento. A raridade do projecto, o tipo de obra, a base legislativa de onde partiu, raiz do seu significado cultural, a evidência paisagística registada por artistas e fotógrafos e o insólito da situação (não é habitual surgirem imóveis deste tipo e funcionalidade propostos no âmbito do património cultural) foram fundamentos na criatividade do processo de pedido de classificação.» (Jorge Custódio)
Em pleno centro histórico, o edifício onde antigamente funcionou o Banco de Portugal é imóvel de valor concelhio desde 20 de Outubrpo de 1996. Foi inaugurado em 1890, num momento em que o Banco de Portugal alargava a sua rede de dependências para fora de Lisboa. A partir de finais de oitocentos, saliente-se, o Banco de Portugal passou a exercer funções de banco emissor de moeda, abrindo então uma rede de agências, que veio substituir os bancos locais, afectados por várias crises financeiras.
O actual edifício, no entanto, só veria a sua construção iniciada em 1899 e inaugurada no ano seguinte. O projecto esteve a cargo de Júlio Francisco José de Sousa. Funcionou aí, paredes-meias com o Teatro Rosa Damasceno, até 1978, ano em que fechou. Dez anos depois, o imóvel foi adquirido pela Câmara Municipal. Em meados do século XX, chegara a ser pensado para albergar um posto de polícia, mas o projecto nunca se viria a concretizar.
De planta longitudinal, rectangular, é um edifício térreo, com casa-forte, cuja fachada é rasgada por uma porta, ladeada por duas janelas de dupla verga, enquanto que os corpos laterais são rasgados por quatro janelas rectangulares. Por cima da porta principal, um frontão curvo com a seguinte legenda: «Agência do Banco de Portugal». Interiormente, dois espaços bem delimitados, a área de serviços e a de atendimento ao público. Naquele, a presença do cofre forte abobadado da empresa Jotocar/Fichet assume plano de destaque.
Saliente-se, por fim, a feição maneirista e barroca de todo o edifício. Arquitectura muito eclética, como se comprova pelo alçado exterior, em que se imita as fachadas de habitação burguesas.

Em conclusão

Em conclusão, dir-se-á que o património edificado de Santarém é um inestimável conjunto a descobrir. Mal andou a Unesco, até hoje, a não atribuir a classificação de Património Mundial da Humanidade a tão extraordinária monumentalidade.
A mesma monumentalidade que começou a ser construída no tempo dos nossos antepassados. A mesma monumentalidade a que romanos, muçulmanos e cristãos deram o seu cunho muito particular. A mesma monumentalidade que a nossa Monarquia, primeiro, e depois a nossa República, se esforçaram por ampliar.
No fim de contas, uma monumentalidade que Alberto Pimentel, depois de visitar Santarém para acompanhar a exumação das ossadas de Pedro Álvares Cabral da igreja da Graça, conseguiu sintetizar numa dúzia de linhas bem escritas e independentes de todos os estios e de todas as facções políticas que até há pouco tempo haviam estado em confronto.
Diz o referido autor em «A Estremadura Portuguesa», no capítulo dedicado ao Ribatejo e a Santarém: «Procura a gente ali uma cidade antiga, e encontra uma cidade nova. Procura uma cidade nova e tem a memória cheia de tradições de uma cidade antiga. É que em Santarém há hoje reunidas numa só cidade muitas cidades de diversas épocas: há a cidade mitológica do rei Abidis, a quem deve o seu primeiro nome de Scalabis, «alimento ou manjar de Abidis»; há a cidade romana de Júlio César; Praesidium Julim, um dos três conventos jurídicos da Lusitânia; há a cidade gótica do tempo de Receswindo, época em que se diz ter vindo ao Tejo o corpo de Santa Irene, virgem mártir, donde alguns querem derivar o nome Santarém; há a cidade moirisca, em cujo topo escarpado campeava a alcáçova, que Afonso Henriques assaltou pela porta de Atamarma; há a cidade medieval, com algum raro vestígio da sua antiga fortificação, tal é uma guarita de pedra num dos ângulos da muralha, cidade onde a corte portuguesa f

olgou por várias vezes e onde se desenrolaram grandes dramas, alguns deles fúnebres, como foram o suplício de dois assassinos de Inês de Castro e a morte desastrosa do malogrado filho de D. João II, há, finalmente, a cidade moderna, onde o recinto da alcáçova foi convertido no lindo jardim da Porta do Sol e as ruínas do convento de S. Domingos na actual praça de Touros.»
E há, como já vimos, a cidade contemporânea, com os seus equipamentos económicos e sociais virados para as necessidades das populações, caso do mercado, do matadouro ou da agência do Banco de Portugal.
Tão ou mais importante que este património edificado de Santarém é o património humano existente. Preservado e mantido ao longo dos séculos, é um património imorredoiro que a cada dia rejuvenesce e se desenvolve. Basta que nasça uma criança. Basta que uma mãe conta a lenda de Santarém ao seu filho. Ao seu neto. Basta que lhe cante uma modinha tradicional, daquelas antigas que ajudam ao «espírito do lugar» que se sente em Santarém.

Contos Proibidos: Memórias de um PS desconhecido

(continuação daqui)

«Corriam rumores entre os exilados de que Mário Soares só não aceitara o convite do director de campanha de Marcello Caetano, Guilherme de Mello e Castro, para integrar as listas da ANP, em 1969, porque pretendia a garantia de um lugar no governo.
O fundador da ASP e primeiro líder do movimento, Mário Soares, reconhece para ele próprio a influência do socialismo humanista e cooperativista de António Sérgio e até o pensamento estalinista do seu antigo professor, Álvaro Cunhal. A verdade é que, contrariamente ao que acontecia pelo resto da Europa, e até na vizinha Espanha com o Partido Socialista Operário fundado por Pablo Iglésias, em Portugal, a Acção Socialista, primeiro, e o Partido Socialista, a partir de 1973, para além dos textos de Mário Soares que iriam sendo «oficializados», nada têm que ver com os grandes movimentos socialistas da classe operária do fim do século dezanove.
A precursora do Partido Socialista não tinha qualquer passado histórico. Nascera na década de 60 um pouco como quem regista uma patente por iniciativa de um grupo de conspiradores de «operações»,a sua maioria ligados à Maçonaria, e de alguns teóricos influenciados pelo PCP, como foi o caso de Salgado Zenha e do próprio Vitorino Magalhães Godinho.
A evolução teórica do movimento, mais de três décadas após a sua constituição, é assim essencialmente caracterizada mais por razões empíricas de conveniência dos seus operacionais do que pelasteses dos seus «ideólogos» ou pelos princípios doutrinários que emanam do socialismo democrático. Esta caracterização, que viria a ficar célebre quando o líder da oposição, Francisco Sá Carneiro, acusou o então primeiro-ministro Mário Soares de «metero socialismo na gaveta» com a finalidade de se manter no poder através de uma coligação com o partido democrata-cristão, CDS, verifica-se frequentemente na prática seguida desde 1964. Seria mesmo
motivo de algum desdém por parte dos sociais-democratas norte-europeus que consideravam verdadeiramente ridícula a constante necessidade de demarcação dos socialistas portugueses em relação à social-democracia, a cuja familia queriam pertencer
embora afirmassem ser socialistas democratas e nãosociais-democratas. Era um maneirismo influenciado por François Mitterrand,que a Internacional Socialista considerava uma expressão de retórica e pura hipocrisia, com o objectivo de parecerem mais progessistas aos olhos do mundo.
Era aliás um sintoma típico do Sul da Europa, que um proeminente político norte-americano, anos mais tarde, comentaria com ironia, em termos semelhantes aos de Sá Carneiro.
Mas não obstante a «subtil» distinção e a demarcação progressista dos seusprincipais dirigentes, a verdade é que a adesão dos socialistas portugueses à Internacional Socialista representa o ponto mais alto do movimento no período que antecedeu o 25
de Abril de 1974. Na história do PS, a suafiliação internacional sobressai destacadamente da manifesta «probreza» do seu passado. O PS, «sobrevivente apagado dos anos 30, que não resistiu,como organização autónoma, à repressão e clandestinidade, que
no final da Segunda Grande Guerra era constituído apenas por um pequenogrupo de abencerragens, sem qualquer influência real no País».

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os amigos. Como conheci Pacheco


Eu era assumidamente um amigo de «vintes». As cartas e postais que me mandava, terminavam com frequência assim: «Um abraço (manda vintes!)». Houve um período, na década de setenta, em que fui promovido – passei a mandar «cinquentas» e às vezes «cens». Nos últimos tempos, o Pacheco não precisava já destas ajudas – tinha a reforma, todos os filhos criados e relativamente bem na vida. Tinha colaborações pagas em jornais. E estava mais sereno, menos propenso às loucuras. Só a língua e a prosa continuavam soltas, aceradas e certeiras como setas de zarabatanas. Na minha relação com Pacheco houve três marcos – o Café Gelo, onde nos conhecemos, a revista Pirâmide, de que fui um dos coordenadores e onde eles colaborou activamente e Tomar, onde ele me visitou e onde, com um grupo de amigos, vivemos uma noite épica de copos.
Foi em 1957 ou 1958, quando comecei a frequentar o Café Gelo que o conheci. Ele era na altura funcionário da Inspecção-Geral de Espectáculos, fiscal, segundo julgo saber. È difícil imaginar o Pacheco de fato e gravata, mas naquela altura a função pública implicava manter rígidos padrões de comportamento e de apresentação. Trabalhava no Palácio Foz, ali a dois passos, e aparecia cedo no café. Por ali paravam também, além do Pacheco, o Mário Cesariny de Vasconcelos, o Raul Leal, sobrevivente do «Orpheu» , o Herberto Hélder, o Manuel de Lima, o António José Forte, o Virgílio Martinho, o Ernesto Sampaio, o João Rodrigues, o Manuel de Castro, o Renato Ribeiro, o Pedro Oom e muitos outros, entre os quais eu. O Pacheco aparecia, pouco depois das seis da tarde, estragando o formalismo do vestuário com uns sacos e saquinhos onde transportava as suas edições que se punha imediatamente a vender (ou a oferecer). Maio de 1958 foi uma época escaldante, com o furacão Delgado a incendiar as imaginações daquele grupo de poetas, todos, ou quase todos, antifascistas
piramide
A Pirâmide surgiu nesse clima de entusiasmo e de exaltação política. O Pacheco colaborou no primeiro número, que saiu no começo de 1959, com um texto muito interessante – «Surrealismo e Sátira (de André Tolentino a Nicolau Breton)». No segundo número, que saiu no mesmo ano, dedicou um longo extra-texto a rebater a crítica que se abatera sobre o grupo, após a saída do primeiro numero – «A Pirâmide e a Crítica». No terceiro e último número, não colaborou. Entretanto, em 1962, saí de Lisboa e perdemos um pouco o contacto. Mas através do Forte e do Herberto Hélder, meus colegas na Fundação Gulbenkian, o Pacheco lá me descobriu e reatámos a correspondência. Ele enviava-me as suas edições e eu ia-lhe mandando «vintes» de cada vez que lhe escrevia – uma nota de dólar como ele às vezes também chamava às notas verdes com a imagem do Santo António.
Morava e trabalhava em Tomar. Um fim de tarde, quando cheguei do trabalho, quem estava em minha casa? O Luiz Pacheco. Sobre o tapete da sala, deitado no chão, ele e os meus filhos, na altura com cinco e três anos respectivamente, faziam desenhos com lápis de cores nas páginas de livros novos. Livros que o Luiz Pacheco adquirira com um crédito aberto por Manoel Vinhas numa livraria da baixa lisboeta. Acusado por Eduardo do Prado coelho de não ter ideias, respondera «Pois, só tem ideias quem lê livros». Obtivera assim uma espécie de bolsa para comprar livros. E era nesses livros novos, edições francesas, obras de Sartre, de Malraux, de Breton, de Merleau-Ponty, que os miúdos, incentivados pelo Pacheco desenhavam. «- Que bonito!», dizia ele – «Olha, uma aranha!». Os garotos adoraram-no.
A história desses livros é curiosa: na sua coluna semanal do Diário de Lisboa, Eduardo do Prado Coelho criticara desfavoravelmente o livro de Pacheco «Crítica de Circunstância», elogiando a forma como estava escrito, mas acusando o autor de «não ter ideias». Pacheco retorquiu dizendo que, efectivamente, tendo vendido os seus livros, tinha ficado sem ideias, pois os livros é que nos dão as ideias. Depois, a seta envenenada: dizia que os «Coelhos» eram para ele uma maldição – no liceu fora aluno do António Diogo do Prado Coelho, avô do Eduardo, que o obrigava a recitar a «Balada de Neve». Na Faculdade de Letras tivera como professor Jacinto do Prado Coelho, que só falava nos heterónimos do Pessoa. «Quando pensava que já estava livre dos Coelhos, aparece-me o Eduardinho…». Manoel Vinhas, o seu mecenas, terá achado graça à afirmação de quem não lê, não tem ideias e abriu um crédito de mil escudos (muito dinheiro naquela altura) numa livraria. E ali estava o Pacheco em minha casa com dois enormes sacos de livros que os meus filhos iam enchendo de desenhos – «Ficam muito valorizados», dizia-me o Pacheco, com ar grave, ante o meu olhar desolado ao ver as páginas cobertas de rabiscos.
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Depois do jantar saímos. Apresentei-o aos amigos tomarenses – o Arnaldo, o Manuel, o Camilo, o Fernando… O Pacheco causou sensação. Ainda há dias, o Manuel Simões me reproduziu o pachequiano discurso (confesso que a minha memória não é tão privilegiada – passaram mais de quarenta anos! – e tomei apontamentos). Num pequeno café, perorou sobre o trauma da «morte do pai». Recordou-se do dia em que o pai morreu. Começou a perguntar-nos, um por um, «Tu tens pai?», mais jovens, todos os cinco tínhamos ainda pai. Pacheco, não desarmou – gritou para o dono do café que atrás do balcão remoía pensamentos inescrutáveis: «O senhor tem pai?» – contou-nos ainda como, no dia em que o pai morrera, mergulhado numa indizível tristeza deitou-se sobre a cama no seu quarto, sozinho com a sua dor. Uma criada veio dar-lhe um beijo na face. E nunca mais esqueceu esse gesto afectuoso. Contou-nos a história dos livros oferecidos pelo Vinhas e a maldição dos Coelhos que o perseguia desde o Liceu Camões. E, entre histórias e copinhos diversos – ginjinha, amêndoa-amarga, eduardino, évora, anis, aguardente de figo… lá fomos percorrendo a via-sacra dos tasquinhos e botequins nabantinos. Os amigos foram-se despedindo. Quando ficou sozinho comigo, deu-me bons conselhos – eu fazia crítica semanal no Jornal de Notícias, crítica de poesia, e dizia mal de quase tudo (ao José Régio, por exemplo, na reedição da «Poemas de Deus e do Diabo», acusei-o de fazer «poesia de sacristia!»). Aconselhou-me moderação. «És um escritor! Há coisas que não se dizem!». Tinha toda a razão, claro. Embora o conselho também se lhe aplicasse – Fernando Namora, Vergílio Ferreira, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Eugénio de Andrade, Lobo Antunes, Saramago, entre muitos, outros que o digam. As quatro da manhã surpreendeu-nos a ambos em frente da estação de caminho de ferro onde ele ia apanhar o comboio que o levaria ao Entroncamento e daí partiria de regresso às Caldas. Os candeeiros de iluminação pública imersos numa neblina densa, típica da cidade do Nabão, criavam uma atmosfera irreal.
-Isto existe mesmo ou estamos bêbedos? – Perguntou-me.
– As duas coisas – respondi.
– Não. Isto é uma invenção tua.
O comboio chegou. Despedimo-nos. Mandou-nos depois um postal muito tocante, agradecendo a recepção que teve.
Outro encontro com o Pacheco, acho que o último, foi na Feira do
Li
vro de Lisboa. Fomos beber uma cerveja a uma das esplanadas do alto do Parque. Mostrou-me, com orgulho, o cartão de militante do Partido Comunista e contou-me o que motivara a (tardia) adesão. Tem sido referido por numerosos «cronistas»: assistiu ao funeral do Ary dos Santos, viu a bandeira do Partido cobrindo-lhe o caixão e pensou que friorento como era, lhe calhava bem aquele agasalho da bandeira. E no dia seguinte mandou um recado ao José Casanova, do Comité Central, para que lhe fizesse chegar um formulário. E ali estava ele, o libertino, duzentos por cento anarca, integrado num partido que primava pela disciplina. Ele que tanto condenara homens como Soeiro Pereira Gomes ou Alves Redol fora dar, por causa do frio onde eles tinham chegado por convicção política.
Por curiosidade incluo aqui o texto de uma carta que Pacheco me escreveu em 1998, uma das últimas que dele recebi – eu tive um grave acidente de automóvel que me deixou quase um ano «fora de jogo» e quando voltei à vida activa, Pacheco tinha mudado de lar e tive dificuldade em reencontrá-lo.
carta
Carta de Luiz Pacheco a Carlos Loures

Palmela, 7 de Outubro de 1998

Caríssimo e Velho Amigo
(do Gelo, da Pirâmide, de Tomar, etc.)

Gostei muito de ler a tua carta. Achei que te devia uma explicação desta minha edição do Dostoievski. Não creio que saibas tudo: em 1995, ainda em Setúbal, num quarto bera como uma tumba, achei que ou fazia mais algum com edições ou estava tramado. Daqui este ressurgimento, canto de cisne final ou de corvo maluco da Contraponto. Não era por gracinha literária: era por «vai, Maria, com as outras», isto é, entrar no jogo de escrever para o mercado (aquele mínimo mercado que há…). Falas dos teus trabalhos de forçado das letras com tradutor. Mal podes imaginar que, aí por 78,79, me tramaste sem querer. Foi assim: eu preparava para a LER, livraria e delirante editora de Campo de Ourique (onde, por então, também morava em casa de uns amigos, «asilava», melhor dizendo, trabalhos de tradução, conselhos literários e dois volumes de compilação de artigalhadas minhas, que foram os «Textos de Guerrilha», I e II (ainda há, eram a 200$00 e 300$00, estão, parece, a 1 conto. Mas eram malta amiga, o Luís. pai e filho, este depois na Gradiva e, agora, com outra editora, parece que a Bizâncio (?). Davam-me todos os dias uma nota de 50$00. A certa altura, recomendei-lhes uma versão de «La bête humaine», do Zola, que eu achava giro traduzir (havia, parece-me, uma edição de 1910 ou 1920, da Guimarães. Compro o francês e caio para o chão quando o Luís pai me mostra uma edição quase recente da Europa-América e em versão tua!
Adiante – a tua versão.
Esta coisinha do Dost, trouxeram-ma da Biblioteca de Santarém (a tua versão), eu apenas tinha a da Inquérito, do José Marinho Mas era esta que me convinha, mas naquele processo do scanner, que fotografa ou filma ou como é? As páginas iguaizinhas. Era mais rápido, mais barato e dispensava a minha revisão (a minha vista está bera). Não foi assim. Tiveram de ir pró computador, 3 provas – a edição saiu caríssima. Tive de rever, tive de comprar a edição da Pleïade, de pedir a versão espanhola. Já te terei contado isto. Mas ficou muita coisa por emendar. É assim: por mais escrúpulos, dúvidas, boas intenções de traduzir pelo melhor, chega aquela data em u o livro tem mesmo de ficar despachado, pronto a vender-se, a recuperar o que já se gastou, pagou.
És editor, estás no meio há que anos, sabes que é assim. E depois nem dá gosto olhar para a edição, saber-lhe os defeitos, o muito que falhou. E eu fiz 73 anos em Maio. E já estou neste lar há 2 anos e dias (Vim a 1 de Outubro de 1996.
E tenho 2 títulos mais. E uma versão do Umberto Eco. E planos que chegavam para outra vida. LOUCURA! Tenho é que parar. Conheces o meu sistema. Com um bom ficheiro, sempre actualizado (repara na informação que me deste hoje sobre a tua nova morada – e como é que eu iria adivinhar, saber?…), consigo recuperar em poucos meses. Mas o livro não tem a expansão que devia – ou podia – ou, até, merecia. Dei uma edição à Audil… Será que pagam? E quando? Perdi, agora, um amigo fixíssimo de há 40 anos, o Fernando Fernandes, da Leitura, do Porto. Não morreu, felizmente! Reformou-se. O Joaquim Machado, de Coimbra, está tão velhadas como eu. São duas pessoas, estas, que me ajudaram muito, in illo tempore, e de 95 para cá.
Próximos títulos: Viva a Alegria: Prazo de Validade, L.P., Isto de Estar Vivo, do mesmo. Talvez a 3ª edição dos Exercícios de Estilo, na Estampa. E o Agostinho de Macêdo, o Padre Lagosta – beberrão, fodilhão, aldrabão, reaccionário. Mais do que o Padre Milícias.

Abraço do

Luiz Pacheco

Santarém, Capital do Gótico (XIII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

NOTA: As minhas desculpas aos nossos leitores, e em especial ao nosso leitor Balby, grande apreciador desta coluna, pela não publicação deste «post» ontem, mas a actualidade política «falou» mais alto.


Santarém, Capital do Gótico

Resultando da evolução da arte românica, a arte gótica foi essencialmente uma arte de cidade, que permitiu uma posterior evolução para a arte Renascentista. Iniciada na Europa do século XIII, contribuiu para uma nova forma de ver o mundo, para uma nova relação entre o divino e o humano.
Partindo de uma arquitectura renovadora que fora iniciada pela ordem de Cister como contraponto à de Cluny, a arte gótica elegeu como figura de proa o arquitecto. Um sábio, um estudioso da geometria, muito mais do que o simples artesão de formas simples dos tempos do românico.
Toda a arquitectura gótica acabou por representar uma oposição total em relação à arquitectura românica. Se esta se caracterizava pela espessura das paredes, pela quase ausência de janelas ou aberturas para o exterior, pela escuridão e sobriedade, a arte gótica destacou-se pela claridade e abundância de grandes vãos.
Para conseguir aliviar o peso das estruturas, bastou ao arquitecto gótico rasgar um grande número de janelas para o exterior e utilizar a abóbada de cruzaria de ogivas como forma de aliviar o peso que dantes tinham de suportar. Ao mesmo tempo que os edifícios se tornavam mais altos, a fachada era enriquecida com grandes janelas e rosáceas de pedras decoradas, que exponenciavam a iluminação do interior.
Ou seja, apesar de ter partido da tradição românica, o arquitecto gótico soube transformar completamente os principais elementos construtivos e a relação entre esses mesmos elementos. «O reconhecimento social do arquitecto, do «magister operis», talvez por causa dos conhecimentos que se lhes exigiam para realizar essas construções, aumentou de tal maneira que alguns deles eram conhecidos por «doctor lathomorum», título reservado aos mestres universitários, e outros foram chamados «architector et mirificus aedificator»». (História da Arte)
Na arquitectura religiosa, o gótico veio valorizar determinadas zonas do edifício, como os portais. O alargamento das portas permitiu a profusão de arquivoltas e de pequenas figuras esculpidas. Em relação às diferenças regionais, a arte gótica tinha um carácter um pouco arbitrário, pois estava condicionada por particularismos diversos, ou seja, em cada zona da Europa acabou por absorver as influências locais. Alguns autores dizem mesmo que, na Península Ibérica, não há dois monumentos góticos iguais.
No caso de Santarém, foi um gótico primário e funcional aquele que foi aplicado às construções religiosas, sobretudo no século XIII. Era ainda um gótico de expressão mendicante, dado que os seus principais promotores eram precisamente essas ordens. Nos séculos XIV e XV, a renovação dos ideais religiosos e o patrocínio régio foram responsáveis pela evolução do gótico, embora as influências dos arquitectos e dos mestres do mosteiro da Batalha tenham sido decisivas.

Património medieval: O românico e o gótico

A igreja de Santo Agostinho da Graça, do antigo convento dos Agostinhos de Santarém, no largo Pedro Álvares Cabral, é monumento nacional desde 16 de Junho de 1910. É o último grande monumento gótico de Santarém, mas ao mesmo tempo o mais representativo. Uma «obra-prima da corrente gótica nacional», no dizer de Mário Tavares Chicó. Foi construída a partir de 1380 por iniciativa dos Agostinhos de Lisboa, que se tinham fixado na cidade quatro anos antes, e sob o patrocínio de João Afonso Telo, conde de Ourém. Devido à morte do fundador, a dificuldades económicas e a outras causas, as obras foram concluídas apenas no segundo quartel do século XV, facto que provocou uma conjugação de estilos diferentes e soluções arquitectónicas diversas.
É por esse facto que, apesar de a sua construção ter começado antes do mosteiro da Batalha, muitos dos seus elementos são influenciados pelo monumento da vila «em que mais pátria há», nomeadamente os elementos de tradição inglesa.
Do gótico mendicante, é a cabeceira tripartida, o transepto e as naves. Do gótico flamejante, o mesmo que foi aplicado na Batalha, é a fachada principal, com o seu portal cenográfico, e a grande rosácea que o sobrepuja, de fino lavor. O próprio túmulo do fundador da igreja e da sua esposa é muito semelhante ao de D. João I e D. Filipa de Lencastre em Santa Maria da Vitória. Aliás, terão sido os próprios mestres da Batalha a trabalhar nesta igreja de Santarém.
Em 1531, D. Mécia Mendes de Aguiar, mulher do navegador Gonçalo Gil Barbosa, mandou edificar a capela do Senhor Jesus dos Passos. Em finais do mesmo século, foi construído um novo claustro, sob a direcção do arquitecto António Dias.
Depois da extinção das ordens religiosas, o espaço funcionou como o lar de Santo António, sofrendo profundas obras de restauro a partir da década de 40 do século XX.
A sua planta obedece às regras de simplicidade das construções mendicantes. A fachada principal é em três panos definidos por contrafortes. Pórtico de cinco arquivoltas em arco quebrado, com as suas colunas e capitéis de motivos vegetalistas. Em cima, a rosácea, que segundo Jorge Custódio talvez seja uma das mais originais do gótico europeu. Ainda na frontaria, dois brasões da família de Ourém.
Interior constituído por três naves de cinco tramos cada, sendo que a nave central é mais alta do que as outras. Separam as naves seis colunas de pilares cruciformes, ornadas até aos capitéis. O transepto é de dimensões próximas às da nave central. A cobertura é em madeira nas naves e transepto e em abóbada de cruzaria de ogivas na cabeceira, onde se encontram três capelas poligonais. A capela-mor é de maior dimensão e volumetria.
Panteão dos Meneses, esta igreja conserva importantes mausoléus, que enriquecem a tumulária artística de Santarém. É o caso do fundador e sua mulher, Guiomar de Vilalobos, é também o caso de D. Pedro de Meneses e D. Beatriz Coutinho. Salientam-se ainda os de D. Leonor de Meneses; D. Afonso de Vasconcelos e Meneses, conde de Penela; D. João, filho de D. Pedro I; D. Luís de Meneses; Pero Rodrigues Portocarrero; os Sás; e muitos outros nobres de igual importância.
Na antiga capela de S. João Evangelista, no absidíolo direito, encontra-se o túmulo em campa rasa de Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil, e sua mulher, D. Isabel de Castro. É uma laje rectangular simples, gravada com uma inscrição em caracteres góticos: «Aqui jaz Pedralvarez Cabral e dona Isabel de Castro dua mulher cuja é esta capela é de todos seus herdeiros a qual depois da morte de seu marido foi camareira mor da infanta Dona Maria filha del-rei Dõ Juan Nosso Sñor o Terceiro deste nome».
Anexo à igreja, o claustro e os vestígios do antigo convento da Graça. Depois da extinção das ordens religiosas, o espaço foi abandonado e acabou por ser comprado em 1847 por Silvério Alves Cunha, que ali fundou o Lar Distrital de Santarém, instituição de assistência a idosos. A partir de 1992, ali funciona também um instituto politécnico, numa adaptação feita com o maior cuidado e que mereceu, inclusivamente, o prémio «Santarém – Cidade a Defender».
O claustro e os vestígios existentes datam dos finais do século XVI e das duas centúrias que se seguiram. Composto por cinco arcadas em cantaria de cada lado, de abóbadas artesoadas, trata-se de um conjunto quadrangular, que ter-se-á iniciado em finais de Quinhentos, embora as obras se tenham prolongado pelo tempo fora. As po
rt
as que davam acesso ao claustro, por exemplo, são maneiristas.
A igreja de Santo Estevão, ou do Santíssimo Milagre, é monumento nacional desde 1917. Encontra-se no largo do Milagre, na freguesia de Marvila, e deve o seu nome «alternativo» ao milagre da hóstia que, roubada do templo no ano de 1266, começou a sangrar no bolso da mulher que a roubara e, depois de escondida, iluminou toda a casa.
É o mais primoroso templo gótico de Santarém. Da primitiva igreja, provavelmente sagrada em 1241, restam apenas dois arcos do transepto. O actual edifício foi construído em meados do século XVI, por causa do terramoto de 1531 e ainda porque as suas dimensões não comportavam todas as pessoas que acorriam a visitar o Santíssimo Milagre. Artistas e mestres formados em Tomar terão participado nestas obras. Da primeira metade do século XVIII, por sua vez, datam praticamente todos os trabalhos de talha, nitidamente barrocos, alguns dos quais desvirtuaram as características iniciais. Os retábulos desse período vieram substituir os anteriores, que deveriam ser em madeira.
A fachada da igreja é formada por três corpos delimitados por pilastras. As exteriores são rematadas por pequenas mísulas encimadas por pináculos. Porta principal encimada por frontão triangular, um friso separa-o da janela. Torre sineira, em pedra, adossada ao lado da Epístola e coroada também por pináculos.
O interior é extremamente equilibrado e harmonioso. A distribuição entre os diferentes espaços – corpo da igreja/transepto, nave central/naves laterais – assim o comprovam. Esta característica, bem como a leveza de todo o traço arquitectónico, é claramente renascentista.
De planta longitudinal, é composto por três naves de igual altura mas de comprimento diferente – a nave central é mais comprida. Separam as naves três colunas toscanas, ligadas por arcos simples de volta inteira. A capela-mor é quadrangular e antecedida por um pouco comum tramo perpendicular às naves, constando de três arcos redondos. Esta estrutura é decorada com pilares lavrados de grotescos e imagens representando S. Pedro e S. Paulo, assentes em mísulas e coroados por baldaquinos. Adossadas às pilastras centrais, pequenas cabeças de anjos e de demónios. Na base, representações em relevo dos quatro Evangelistas. As paredes apresentam silhares de azulejos de padrão azul e amarelo e de axadrezado azul e branco. Do espólio existente, destaquem-se várias tábuas quinhentistas tardias, as imagens estofadas e policromadas de Santo Estevão e de Santo Agostinho e a pia baptismal.
Também em Marvila, no largo Zeferino Sarmento, é a igreja de S. João de Alporão, monumento nacional desde 16 de Junho de 1910 e hoje transformada em museu. Nela coexistem soluções românicas e góticas, numa tão curiosa quão invulgar ligação e experimentalismo dos dois estilos. A elegância austera que a caracteriza é bem o resultado da conjugação daqueles estilos.
O românico está presente na estrutura maciça da nave, no portal principal com arquivoltas em arco de volta perfeita ou no carácter fortificado de todo o conjunto. Quanto ao gótico, com claras influências da ilha de França, revela-se na cabeceira, de planta poligonal e com amplas janelas ogivais, na cobertura original dos três tramos da nave, de abóbada nervurada de cruzaria de ogivas e sobretudo na galeria que se desenvolve para lá da capela-mor. A própria nave é um exemplo da conjugação dos dois estilos, seguindo um modelo de transição definido como a goticização de modelos românicos tardios.
Ao longo dos anos, fantasiou-se muito sobre a sua origem. Chegou a dizer-se que, da sua varanda principal, foi lido à população o édito de Octávio César Augusto «Ut Describertur Universus Orbis».
Foi fundada pela ordem de S. João do Hospital, que se instalou em Santarém entre 1159 e 1185. Datará desse período, que prolongaremos até ao primeiro quartel do século XIII, a sua construção. Em 1207, pelo menos o presbitério já estava concluído, pois serviu de sepultura a D. Afonso de Portugal, filho ilegítimo de D. Afonso Henriques e grão-mestre dos Hospitalários.
Nos séculos XIII e XIV, fazia parte do complexo monacal de S. João do Hospital. A sua localização, junto à porta do Alporão, tinha como principal finalidade proteger o acesso militar à cidade e controlar a entrada de judeus.
Depois de 1834, a igreja passou para a posse do Estado. Foi utilizada como teatro entre 1849 e 1876 e, a partir de 1877, recebeu obras de adaptação para a instalação de um museu, o que viria a acontecer em 1889.
É um templo de planta longitudinal, composta pela nave e cabeceira poligonal mais baixa, de volume paralelepipédico. A fachada principal é em empena triangular de pano único. O pórtico é formado por cinco arquivoltas de volta perfeita. Mais acima, uma grande rosácea de colunelos radiantes. A cabeceira da igreja é de forma poligonal e contrafortada. Interior de nave única de três tramos. A cobertura é em abóbada de cruzaria com arcos de volta perfeita.
Destaque-se, na parede lateral esquerda, o cenotáfio de D. Duarte de Meneses, fronteiro de Alcácer-Seguer falecido em 1464 na serra de Benacofur. Um túmulo onde se realça a estátua do guerreiro, em posição horizontal, segurando na mão direita a espada de combate. Os coruchéus, os baldaquinos e os fogaréus são notáveis trabalhos de pedra. Para Gustavo Matos Sequeira, foram os mestres canteiros da Batalha os seus autores, dadas as semelhanças com alguns dos túmulos do mosteiro de Nossa Senhora da Vitória.
Outros dos túmulos que merecem referência são os de Martim e João de Ocem, que estiveram anteriormente no convento de S. Domingos. Martim Ocem foi embaixador de Portugal em Castela na altura em que, em 1411, se assinou o tratado de paz entre os dois países. João de Ocem, sobrinho daquele, pertenceu ao conselho de D. Duarte e de D. Afonso V. São dois túmulos muito semelhantes, até porque entre a morte do primeiro (1431) e a morte do segundo (1442), mediaram apenas onze anos. A figuração dos sepultados, os peitáfios e as divisas seguem todos na mesma direcção artística.
Da época romana, ali se guardam uma ânfora, três sepulturas, uma estatueta de criança, um marco dedicado ao imperador Marco Aurélio e duas aras funerárias. Do período árabe, apenas dois capitéis.
Anexo à igreja, encontram-se os vestígios da crasta do antigo mosteiro hospitalário, no qual o templo se integrava. Nas traseiras da igreja, pode ver-se ainda a casa dos comendadores da ordem do Hospital, que conserva ainda restos de estruturas antigas, como portas chanfradas em tijoleira e velhas lojas ao nível do piso térreo.
A fonte das Figueiras, ou fonte Mourisca, é um exemplo da arquitectura civil gótica. Está classificada como monumento nacional desde 16 de Junho de 1910. Localiza-se na freguesia de Marvila, junto a uma calçada que liga a cidade ao vale da Atamarma. Terá sido construída nos últimos anos do reinado de D. Dinis, embora Jorge Custódio levante a hipótese de ter sido edificada ainda no reinado anterior, o de D. Afonso IV. Com um ou com outro, simboliza de qualquer das formas a protecção régia às obras municipais, daí a grande qualidade dos materiais utilizados e do mestre canteiro que executou a obra, provavelmente um tal de Ioannis. Deve ter pertencido ao convento de Santa Clara.
Inicialmente, foi construída só com os alpendres góticos, mas no século XIII foi-lhe acrescentada a coroa de merlões pontiagudos. De planta quadrangular, consta de uma estrutura em alpendre, ameada de merlões, com abóbada de cruzaria, que protege uma bica. Os capitéis são profusamente decorados com elementos vegetalistas, sendo um dos mais que mais chama a atenção o «capitel dos três florões». Note-se neste chafariz a grande variedade decorativa em apenas quatro metros quadrados.
«O turista que desce o vale de Mont’Irás ou que toma a estrada que conduz à ponte D. Luis encontra, escondida na vege

tação, a fonte das Figueiras que é uma das mais preciosas jóias que o estilo gótico deixou em Santarém. Fazendo parte das terras que pertenciam ao convento das Clarrissas, em local que a natureza fadou, quantos cantares de amor não se teriam entoado à sombra dessas musgosas pedras, quando os troveiros medievais dirigiam galanteios às donas dos seus encantos! Certo é que, durante séculos, esse curioso monumento esteve desprezado, não se lhe referindo mesmo qualquer dos cronistas do burgo.» (Joaquim Veríssimo Serrão)
A igreja do antigo convento de Santa Clara, na freguesia de Salvador, está classificada como monumento nacional por decreto de 14 de Março de 1917. É o maior templo gótico da cidade. A sua dimensão justifica-se pelos apoios que sempre aquela instituição monacal recebeu da parte da família real.
Uma construção que se integrou, no dizer de Jorge Custódio, «num movimento ascético de feição franciscana e clarissa em Portugal, o qual se organizou tendo como referência a Regra seráfica.» As freiras clarissas começaram por se fixar em Lamego em 1258, passando para Santarém em 1265, por autorização do papa Alexandre IV.
As obras decorreram entre 1259, ainda antes, como se vê, do estabelecimento das clarissas, e ter-se-ão prolongado, sempre com donativos régios, pelo menos até 1327. D. Afonso III, D. Dinis e a sua esposa, a Rainha Santa Isabel, apadrinharam sempre a edificação. Especialmente importante nesta situação foi D. Leonor Afonso, filha de D. Afonso III que foi freira neste convento. O seu túmulo, de influência coimbrã, segundo Reynaldo dos Santos, é muito semelhante ao de D. Dinis no mosteiro de Odivelas. Anterior na sua execução aos túmulos de Alcobaça, a sua autoria deve ser endereçada, muito provavelmente, a pedreiros santarenos.
Era um complexo monacal de grandes dimensões, um dos maiores do país, com capacidade para oitenta freiras. No período de maior esplendor, tinha dois claustros e inúmeras dependências. Ao longo dos anos, foi sofrendo profundas remodelações, em parte pelos acidentes que o atingiram, dos quais se destacam o terramoto de 1531 e os incêndios de 1668 e 1669. As obras então realizadas transformaram a fisionomia do edifício, que passou a assemelhar-se a um imóvel setecentista.
Encerrado em 1902, depois da morte da última freira, o convento e a igreja entraram em ruína até 1934, ano em que a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais iniciou a sua recuperação e o retorno à sua pureza original. Nessas obras de restauro, perdeu-se o retábulo quinhentista de Diogo de Contreiras (1554), o cadeiral do coro (1600), os azulejos, os elementos barrocos e o claustro quinhentista.
É um dos templos do ciclo mendicante da cidade. Muito semelhante à igreja do convento de S. Francisco, também em Santarém. A cabeceira composta por cinco capelas escalonadas, a feição geral das arcadas e dos suportes e a contemporaneidade das duas construções comprovam as similitudes entre os dois templos.
Templo de planta longitudinal, composta por nave, torre e cabeceira. Na fachada principal, ressalta de imediato a grande rosácea, sobrepujada pelas armas reais. Uma rosácea octogonal sobrepujada pelas armas reais que, coadjuvada pelas janelas maineladas rasgadas nas paredes, inunda o interior de uma luz homogénea. De colunelos radiantes, que seguram um centro de arcaria trilobada, é um elemento de grandes dimensões.
Outros elementos a registar no exterior são a torre sineira, semelhante a algumas igrejas italianas de finais do século XIV; e a fachada principal, sem pórtico, típica dos edifícios de clausura.
O interior é de três naves, iluminadas por janelas geminadas e pela já referida rosácea. As naves são extremamente compridas, de oito tramos cada, marcados por colunas muito altas revestidas de colunelos e capitéis lavrados. O comprimento é de cerca de oitenta metros, quase tantos como os da igreja do mosteiro da Batalha. As naves laterais são mais baixas, permitindo dessa forma clerestório. Naves e transepto de grande volumetria apresentam cobertura em madeira, a abside abóbada de nervuras, os absidíolos abóbada de nervura. A cabeceira tem cinco capelas. A capela-mor, encimada por abóbada gótica de nervuras cruzadas, é poligonal e as restantes, ladeadas por absidíolos, são rectangulares. Em nichos renascentistas, algumas pinturas a fresco de personalidades franciscanas.
A igreja e o claustro do extinto convento de S. Francisco, freguesia de Salvador, encontra-se na rua 31 de Janeiro. É monumento nacional desde 17 de Março de 1917. A construção do edifício monacal iniciou-se em 1242, no mesmo ano em que os franciscanos se instalaram em Santarém (Frei Manuel da Esperança). Quanto à igreja, de grandes dimensões, terá sido concluída em 1260 ou 1282, consoante as teorias chegadas até nós. É o mais antigo exemplar da arquitectura franciscana em Portugal, a par da igreja de Estremoz, e o mais antigo testemunho do gótico em Santarém.
Tipologia construtiva muito semelhante ao ciclo mendicante do resto da Europa no mesmo período, nomeadamente no que diz respeito à severidade dos volumes, à preponderância das dominantes horizontais e rectas em detrimento da verticalidade, aos elementos vegetalistas dos capitéis e à ausência de qualquer tipo de decoração. Aliás, terão sido os próprios franciscanos a trazer a planta do edifício e as regras de medição do centro do «velho continente», pois a unidade de medida aplicada foi a de «pied de roi».
Ao longo dos séculos, igreja e convento foram sendo engrandecidos, caso do claustro, construído em duas ou três fases. O complexo chegou a dispor, para além dos dois claustros, de três dormitórios, um refeitório e uma biblioteca. À primitiva fase do gótico mendicante do século XIII, sucedeu-se uma fase de acrescentos da primeira metade do século XIV, uma outra gótica nos reinados de D. Fernando e D. João I, uma fase manuelina, uma renascentista e, por último, uma campanha setecentista. Assim, o gótico do templo foi mesclado com a arte renascentista e barroca.
Nos primeiros séculos da sua existência, muitos foram aqueles que quiseram ser aqui enterrados. Algo de normal, afinal, se tivermos em conta o quadro de costumes e de mentalidades da sociedade europeia da Baixa Idade Média. O exemplo mais paradigmático foi o do rei D. Fernando, que decidiu ser aqui sepultado e para tal patrocinou a construção de um coro-alto, nos três tramos médios da nave central. Em 1447, D. João II foi aqui aclamado. No século XVI, aqui discursou Gil Vicente, fazendo um apelo para que os cristãos-novos não fossem perseguidos. Em 1579-1580, reuniu-se aqui o povo para impedir que o poder fosse entregue a D. Filipe II, que acabaria por ser coroado nas cortes de Tomar.
No século XVIII, a quantidade e qualidade dos túmulos e das inscrições existentes ainda era notável. No entanto, o terramoto de 1755, as Invasões Francesas, as guerras civis, a extinção das ordens religiosas e um grande incêndio, em 1940, levaram à destruição de quase toda a parte conventual. O estado de ruína do claustro mantém-se ainda hoje. A recuperação de todo o complexo, para a instalação de um espaço museológico, é um projecto a ser desenvolvido a curto prazo.
Templo de planta longitudinal. A fachada principal é de dois registos, definidos pelo pórtico de arquivoltas decoradas com motivos geométricos, ladeado por quatro colunelos, e pelo grande vão quadrangular destinado a receber a rosácea. É muito semelhante ao pórtico do mosteiro da Batalha. À fachada nascente, está adossada a casa do Capítulo; à parte norte, está adossado o claustro e os corpos do antigo convento. O claustro, gótico, é composto por colunas duplas, com capitéis foliáceos e abóbada de nervuras com fecho heráldico. Foi mandado construir por D. Duarte de Meneses e pelos condes de Vila Real.
O interior é composto por três naves de cinco tramos, com cobertura de madeira, um cruzeiro alto e cabeceir

a com cinco capelas. Vários escudos, entre os quais o do rei D. Fernando, fecham as nervuras das abóbadas. As naves laterais são mais baixas do que a central. Colunas poligonais sustentam os arcos góticos, que terminam em capitéis de ornatos vegetalistas, embora alguns desses capitéis tenham perdido a decoração por causa das obras do coro-alto. Na cabeceira, as cinco capelas estão escalonadas em relação à capela-mor.
Ainda em relação ao coro-alto, Mário Tavares Chicó considera-o «a mais bela manifestação de arte gótica do país, antes da construção do mosteiro da Batalha». O construtor seguiu todas as regras do estilo então vigente, como se percebe pela decoração, pelos curtos pilares cruciformes, pelas nervuras que sobre eles assentam, pelos capitéis lavrados ou pelos fechos heráldicos das abóbadas e das frontarias. Para além de albergar o túmulo de D. Constança, mãe de D. Fernando, este tinha ainda a intenção de se tumular a si, como se viu antes, e à sua mulher, D. Leonor Telles.
A igreja de Almoster, juntamente com as ruínas do claustro do antigo mosteiro de freiras bernardas, é monumento nacional por decreto de 1920. Situada no largo do Convento, foi fundado por D. Berengária Aires, aia da Rainha Santa Isabel e mulher de D. Rodrigo Garcia.
É um templo de planta longitudinal, constituído por três naves de cinco tramos cada. A capela-mor é de dois tramos, com coberturas em ábobada de ogivas com pinturas de grotescos. As capelas absidais são de tramo único, com cobertura em abóbada de berço quebrado, abrindo para as naves colaterais por arcos quebrados em ressalto de moldura facetada.
Quanto ao claustro do antigo convento, dele restam dois lanços e a fonte da castra. As alas maiores possuíam quatro tramos, tendo os dois primeiros quatro vãos e os restantes cinco, de arcos quebrados geminados sobre colunas emparelhadas. A Sala do Capítulo é revestida de azulejos azuis e brancos e várias lajes sepulcrais.
A torre das Cabaças, no largo Zeferino Sarmento, é monumento nacional desde 3 de Fevereiro de 1928. Foi construída no local onde antes existia uma torre de recinto muralhado do antigo complexo defensivo de Alporão, que tinha o seu centro na porta do mesmo nome. Servia como torre do relógio do senado da Câmara, numa época em que a «medição» do tempo começava a ser objecto de interesse por parte da sociedade.
Assim, em meados do século XV Santarém foi uma das primeiras localidades a receber uma importante inovação: o relógio mecânico. Accionado por pesos e com mostrador das horas, surgiu em Itália entre 1277 e 1300 e começou a ser instalado nas torres das principais cidades. Era um invento fundamental, porque media o tempo e servia de instrumento para diversas profissões, como os mercadores. No dizer de J. Gimpel, foi o primeiro invento «decididamente moderno». E moderno foi Santarém, que recebeu o relógio pouco tempo depois do Porto e Lisboa.
Terá sido construída em meados do século XV – o primeiro documento conhecido que lhe diz respeito data de 1462. Foi alterado sucessivamente ao longo dos séculos, como no reinado de D. Manuel I, D. João III ou D. Filipe II. Este facto acabou por desequilibrar esteticamente todo o monumento. As obras realizadas no século XVII colocaram-lhe uma cimalha maneirista. A partir dos anos 30 do século XX, a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais levou a cabo obras de reabilitação do monumento, como foi o caso da demolição do edifício anexo, conhecido como a casa do Relojoeiro. Essas obras prolongaram-se no tempo até à actualidade, embora nos últimos anos tenha sido a Câmara Municipal de Santarém a responsável pelas mesmas.
A tradição popular refere que o nome de Cabaças foi dado em «homenagem» às «cabeças ocas» dos vereadores que decidiram a sua construção, de tão feio que o edifício era considerado. Na verdade, o nome deve-se a oito cabaças de barro colocadas na estrutura de ferro que suporta o sino e que têm como função ampliar o som emitido.
«Quando de uma visita de D. Manuel a Santarém, os edis solicitaram do monarca um subsídio para se erguer a torre do relógio e do sino de correr, necessidade quotidiana da população, sobretudo dos trabalhadores rurais que desejavam conhecer a hora de começo e fim dos seus trabalhos. Concedida a desejada quantia, os membros camarários, em número de oito, teriam mandado colocar no alto da torre um sino assente em quatro varões de ferro. Voltou o Venturoso a Santarém, poucos anos mais tarde, e ao contemplar a fealdade do conjunto arquitectónico da torre do Relógio, esbajada que fora a dádiva régia em obra tão desprovida de elegância, ordenou que, a rodear o sino, fossem colocados oito púcaros de barro – a que chamam cabaças – que passariam a representar as oito cabeças ocas dos senadores locais. Umas e outras, desprovidas de inteligência. E ao senado santareno caberia o epíteto de senado cabaceiro.» (Joaquim Veríssimo Serrão)
Segundo Vítor Serrão, o edifício apresenta características tardo-góticas. É uma estrutura com a forma de um paralelepípedo de vinte e dois metros, coroada por uma armação de barras de ferro, para apoio das vasilhas de barro, ou cabaças, que lhe dão o nome. Torre de secção quadrangular, em cujo topo se rasgam, nos quatro lados, oito janelões em arco de volta perfeita. Acima, os oito púcaros de barro que já referimos e que servem como caixa de ressonância do sino do relógio. No interior, entre o primeiro e o segundo piso, todo o seu volume, exceptuando o volume da escada em caracol, encontra-se atulhado.
Um dos projectos existentes para o aproveitamento desta estrutura, que lembra, «mais do que nenhuma inventada pelos arquitectos, a origem árabe, a vida nómada, a tradição pastoril da região onde surgiu» (Ramalho Ortigão), é a sua transformação no Núcleo Museológico do Tempo – um verdadeiro museu vivo da relojoaria.
Aliás, são muito elogiosas as palavras que Ramalho Ortigão lhe dedicou em «A Arte em Portugal»: «A torre das Cabaças não será talvez o mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é decerto o mais sugestivo, o mais anedótico, o mais interessante, o mais carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanário de toda essa formosa campina ribatejana, o mais aberto sorriso agrário da terra portuguesa. Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de relógio das cabaças ou de cabaceiro se alia harmonicamente no ouvido à lembrança das lezírias, das hortas, dos pauis, das courelas e dos olivedos, que o circundam, e fazem dele como que uma parte integrante da paisagem, um natural rebento da terra… A torre das Cabaças fez-se para ser olhada do vasto campo da Golegã ou do campo de Almeirim, vindo do Vale, vindo de Coruche, de Benavente ou da Barquinha, através dos olivais, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarém, de jaqueta e sapatos de prateleira, mostrando uma égua de maioral, de cabeçada de esparto, almatrixa de peles e estribos chapeados.»
As muralhas do antigo castelo, em Marvila, estão classificadas como imóvel de interesse público desde 14 de Março de 1917. Foi edificado em 1147 no local onde anteriormente se situou um castro proto-histórico, sucessivamente ocupado por fenícios, gregos, romanos, visigodos e árabes. Originalmente, era constituído pelo recinto da Alcáçova, com quatro hectares, e pelo perímetro muralhado da vila, de trinta e três hectares. Era parcialmente defendido por uma barbaça e pela cerca dos bairros da Ribeira e de Alfange.
Das diversas intervenções que sofreram ao longo dos anos, destaque-se a ampliação fernandina, a adaptação da Torre de Alpram no século XV e o reforço de toda a estrutura muralhada no século XVII. O século XIX, por sua vez, assistiu à destruição de grande parte das muralhas e das portas de acesso. Várias razões estiveram na base desta sanha demolidora, desde razões urbanísticas à construção do caminho-de-ferro. Entre 1936 e 1954, a Di

recção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais procedeu a obras de consolidação de vários troços de muralhas, como tem vindo a acontecer, de resto, até hoje.
«Em qualquer das dominantes alturas de Santarém captam-se imagens visuais de rica tonalidade. Do alto panorama das Portas do Sol pode-se admirar um magnífico espectáculo no quadro que se nos apresenta. Disse-o Afrânio Peixoto: «um dos mais belos panoramas do mundo». Em baixo, o rio no seu curso pela terra portuguesa dá a nota de frescura com os seus areais e ilhotas, os verdes mouchões que o limitam, beijando na sua margem direita a povoação da Ribeira (antiga Seserigo) e o bairro piscatório do Alfange. Quase a pique, dominando uma encosta cavada, o roqueiro castelo é como acrópole que senhoreia os horizontes, e dele pode o forasteiro admirar o curso sinuoso do rio, o acidentado das colinas do norte e as férteis planícies da Borda d’Água. Encanto profundo que leva o visitante a recolher-se, admirando a obra da natureza em belas imagens que a retina passa a guardar.» (Joaquim Veríssimo Serrão)
Ainda sobre as Portas do Sol, mais das paisagens que dali se alcançam do que do banal jardim existente, referia João Barreira, na primeira metade do século, no «Guia de Portugal»: «É o mais belo varandim de Santarém (ajardinado em 1895), com um miradouro feito na porta que olhava o sol levante e dá sobre os vastíssimos e planturosos campos ribatejanos com o rio derivando em preguiçosos meandros laivados de ilhotas de areia fulva, as quadrículas da cultura ubérrima em que o verde esmeraldino é pintalgado de preto pela silhueta nervosa dos touros e a linha esbelta dos campinos, vendo-se no limite das pastagens branquejarem as vilas da Chamusca, Almeirim e Alpiarça. Ao norte Alcanhões e no extremo do horizonte Monte de Trigo. À direita, para o sul, o Outeiro da Forca, plantado de oliveiras. É indubitavelmente, diz F. F. Palgrave, que acompanhou o grande poeta inglês Tennyson na sua viagem a Portugal, «one of the great panoramic landscapes of Europe.»
Castelo de montanha, de planta irregular, era rasgado por várias portas e postigos. As antigas muralhas cobriam o perímetro da povoação. Na época muçulmana, as muralhas iam das Portas do Sol à Porta de Atamarma e daí ao «colar muralhado» que vinha do vale de Alfange. Nessa altura, existiam as portas de Atamarma, de Alcáçovas e do Alporão. Depois da conquista aos mouros, D. Afonso Henriques mandou alargar o perímetro da zona ameada. Fê-lo porque o burgo estava a crescer mas também porque era necessário prevenir futuros ataques. Com as guerras fernandinas, grande parte das muralhas ficou destruída. Cerca de 1380, D. Fernando restaurou-as e ampliou a periferia defensiva de Santarém.
Assim, havia três zonas dentro das muralhas: a zona da Alcáçova, fechada pelas portas da Atamarma, do Alporão e da Alcáçova; o perímetro muralhado da época de D. Afonso Henriques, que ocupava o planalto de Marvila; e a zona muralhada de D. Fernando, com a sua dupla linha defensiva. As muralhas originais, as da Alcáçova, ainda existiam em parte no século XVI, segundo relato de Erich Lassota de Steblovo. Actualmente, restam apenas alguns trechos.
Das antigas portas e postigos da cidade, também resta pouco hoje em dia. As portas de Santiago e do Sol estavam no perímetro da cidadela principal. A porta de Santiago estava ligada à calçada de Santiago, que a punha em contacto com a Ribeira de Santarém. Na porta, pode ver-se um brasão real do reinado de D. Fernando e a data de 1375. A porta de Alcáçova ficava junto da estrada que vai para Alfange. A porta do Alporão, demolida no século XVI, estava ligada à igreja de S. João de Alporão. A porta de Atamarma localizava-se no alto da calçada do mesmo nome. Foi por aí que D. Afonso Henriques entrou em Santarém. Destruída em 1865. A porta de Leiria encontrava-se no local da actual capela de Nossa Senhora da Piedade. A porta de Manços, que devia o seu nome a S. Manços, primeiro bispo de Évora, encontrava-se perto da antiga casa da Relação. A porta de Palhais, localizada à entrada da Ribeira de Santarém, desapareceu entre 1838 e 1840. A porta de Valada, por fim, encontrava-se no extremo do lugar de Pereiro. Desapareceu em 1838.
Quanto aos postigos, o de D. Margarida, como era conhecido no século XVIII, na rua Pedro Canavarro. Era também conhecido como postigo de S. Domingos, por dar acesso ao convento desse nome. O postigo das Figueiras ficava do lado da porta de Leiria e devia o seu nome ao chafariz do mesmo nome. O postigo de S. Gens ficava encravado na muralha, em frente da igreja do Milagre. Segundo a tradição, S. Gens andou por ali a pregar o Evangelho. Um outro postigo encontrava-se no bairro de Alfange, entre duas torres fronteiras à igreja de S. João. O postigo do Pão existiu até ao século XVIII, na Ribeira, perto do penedo de Santa Iria. O postigo da Carreira foi destruído algures entre o século XIX e o século XX.
Actualmente, subsistem panos de muralhas da época românica e gótica e, sobretudo, do momento do restauro da Alcáçova levado a cabo durante o reinado de D. Dinis. As portas de acesso de vão em arco quebrado são típicas desse período, enquanto que da época maneirista é o revelim triangular constituído por panos em talude e a guarita cupulada localizada no seu vértice. Em 1896, chegou a pensar-se na demolição do monumento, mas a forte oposição por parte da população evitou que a medida se consumasse.
As ruínas do castelo de Alcanede são imóvel de interesse público desde 1943. Terá sido fundado, muito provavelmente, pelos romanos, sobre um antigo castro, e reconstruído já durante a Idade Média, devido às guerras da Reconquista Cristã. Depois de estar definitivamente na posse dos portugueses, foi completamente reedificado e actualizado.
Durante o reinado de D. Dinis, altura em que passou a ser propriedade da ordem de Avis, fizeram-se as obras mais importantes, das quais avulta a construção da torre de menagem. O terramoto de 1531 provocou a sua destruição e só uma campanha de obras liderada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, entre 1941 e 1950, permitiu dar novo alento à estrutura, com o levantamento de alguns panos de muralhas derruídos e a reconstrução de torres e alguns espaços interiores.
Em alguns pontos, ainda se podem ver os muros exteriores que antecediam as muralhas. Cubelo de planta elíptica adossado à fachada exterior da torre de menagem, de planta quadrangular, pela qual se tem acesso ao monumento através de porta em arco de volta perfeita. Acima deste, uma cartela heráldica. Na torre de menagem, cubelo e em alguns dos panos de muralhas que ainda restam, podem ver-se merlões rectangulares. Possui ainda adarve e uma cisterna.
Localizadas na encosta de S. Mateus, freguesia de Marvila, atrás do Cine-Teatro Rosa Damasceno, as ruínas da Albergaria de S. Martinho são imóvel de interesse público, por despacho de 6 de Novembro de 1978. Poderão ser ainda, segundo alguns autores, as ruínas de uma capela, provavelmente do século XII. Não se sabe quando foi fundada inicialmente, mas Maria Ângela Beirante vai até ao século II d. C. e ao culto esotérico dedicado a Mitra, ou ao culto de Cibele, que de resto estava associado àquele, para localizar a origem das ruínas.
A sua existência está documentada desde a primeira metade do século XV. Era então um dos hospitais de Santarém que, desde 1426, passaram a estar sob a alçada do Hospital de Jesus Cristo. Um terramoto, em 1531, veio destruir grande parte do edifício original. A reconstrução, por sua vez, alterou completamente a feição quatrocentista que possuía.
As mudanças verificadas nos últimos séculos alteraram completamente a geomorfologia do local. Assim, só é possível ter uma visão mínima de conjunto a partir da Ribeira de Santarém – uma parede, que parece muralha, uns contrafortes, uma porta e uma janela.
Hoje, apresenta no interior um carácter maneirista. A sua planta compre

ende um compartimento circular arruinado, bem como um outro compartimento ao qual se tem acesso a partir da porta de entrada, um corredor e uma sala coberta por uma cúpula. O interior é todo abobadado em tijoleira. Na primeira sala, a abóbada é de caixotões e faz a ligação à sala seguinte. O local onde está a cúpula parece ter sido o centro do edifício. Na frontaria, um portal de ombreiras rusticadas e frontão triangular.
A igreja de Santa Maria de Alcáçova, imóvel de interesse público desde 25 de Junho de 1984, encontra-se no largo fronteiro ao jardim das Portas do Sol, no local em que, segundo alguns autores, terá existido um templo romano. A invocação de Santa Maria, que recebeu desde o início, significou a santificação imediata de um lugar que era pagão.
Foi fundada nos primeiros anos da segunda metade do século XII, provavelmente 1154, depois da conquista da cidade aos mouros. A sua construção deveu-se à iniciativa de D. Anjo Martins, mestre da ordem dos Templários, a crer na inscrição sob a porta principal, e decorreu sob a orientação de D. Frei Pedro Arnaldo, membro daquela ordem e comendador de Santarém. Entre 1157 e 1159, aqui esteve Gualdim Pais, mestre dos Templários, antes de se fixar definitivamente em Tomar. Após a extinção dos Templários, tanto na Europa como em Portugal, foi entregue aos cónegos regrantes de Santo Agostinho.
Em 1192 a igreja da Alcáçova já era uma colegiada composta por vinte cónegos, pelos quais o rei D. Sancho I distribuiu as suas rendas. Entre meados do século XIII e 1834, funcionou como capela real. Foi ainda sede de uma escola que se prolongou até Setecentos e de uma comunidade de clérigos pobres. Os seus priores e cónegos atingiram grande notoriedade nas áreas da teologia, direito, música e letras. Foi, no fim de contas, uma ubérrima colegiada, porque os bens de que foi proprietária atingiram valores altíssimos e chegaram a incluir, entre outras, as igrejas de Santa Cruz, Santa Iria e S. João de Alfange. Os seus privilégios equivaliam aos de uma sé catedral e os do prior ao de um bispo.
Sofreu muitas alterações ao longo dos anos, sobretudo nos séculos XVI, XVII e XVIII, facto que descaracterizou completamente a traça primitiva. A reconstrução do século XVIII foi devida a D. Rodrigo Teles de Menezes, conde de Unhão. A reforma de 1724 foi a mais devastadora. Depois dessa data, da primitiva feição gótica ficaram apenas vestígios nas lápides e nalguns túmulos. Os retábulos laterais de cunho maneirista são os elementos arquitectónicos mais antigos. Tudo o resto insere-se já na reforma setecentista realizada dentro do espírito neoclássico.
Assim, se é verdade que o actual edifício tem uma aparência romântico-oitocentista, também é verdade que os elementos de outras eras que chegaram até nós dão ao conjunto uma unidade espacial de grande valor estético e artístico.
O seu plano de construção obedeceu a uma orientação nascente-poente, embora o tempo e o Homem, mais este do que aquele, se tenha encarregado de colocar a frontaria a sudoeste. Na fachada principal, a já referida lápide em mármore, em caracteres carolinos, recorda a edificação da igreja.
Templo de planta longitudinal, em cruz latina, com três naves separadas por dez colunas revestidas a estuque e com transepto. A nave central é mais alta do que as laterais. Todas elas têm cobertura em madeira apainelada. Arcos de volta perfeita sob colunas toscanas dividem os tramos. Junto ao arco triunfal, as paredes são revestidas por azulejos do século XVIII. Para além do lambril de azulejos setecentistas, com temas marianos alusivos às ladainhas da Virgem, o revestimento interior é em estuque. De resto, a cabeceira tem três capelas, sendo que a do meio é mais profunda e corresponde à capela-mor. Rectangular, é coberta por abóbada de caixotões de cantaria e está ladeada pelos absidíolos. No altar-mor, uma tela de excelente qualidade, da autoria do pintor e escritor Cyrillo Volkmar Machado. Representa o rei D. Afonso Henriques a entregar o eclesiástico de Santarém à ordem dos Templários.
Segundo a tradição, o túmulo adossado à entrada da igreja alberga o corpo de um cristão e de uma moura que se apaixonou por ele. A este propósito, dir-se-á que o património epigráfico do templo é muito valioso. É composto por quarenta lápides, essenciais para reconstituir a história da colegiada, da capela real e da escola. Da sua tumularia, salienta-se o cofre que guarda os restos mortais de Rodrigo Afonso, filho bastardo do rei D. Afonso III.
A igreja de Santa Cruz, em Santa Iria da Ribeira de Santarém, é imóvel de interesse público desde 2 de Maio de1950. Implantada numa plataforma rasgada na encosta, em posição de destaque sobre a Ribeira, estaria concluída em 1280, data em que D. Dinis concedeu o padroado da igreja à colegiada de Santa Maria de Alcáçova. No entanto, a sua fundação deve datar do reinado anterior, o de D. Afonso III, ou até do de D. Sancho II. De acordo com a documentação, já existia em 1261, pois nesse ano já fazia parte do plano anual da pregação dos dominicanos e franciscanos de Santarém.
Foi construída por iniciativa de Lourenço Domingues Minatos, conde estrangeiro radicado em Portugal, e sua nulher, Eiria Afonso Caeira. Terá substituído um outro templo, mais modesto, construído após a Reconquista da cidade, em meados do século XII. Funcionou como sede paroquial até 1851, data em que a paróquia de Santa Cruz foi extinta. Ao longo dos anos, foi objecto de várias remodelações, a maior das quais ocorreu em 1681, com a construção de um novo portal barroco na frontaria, o acrescento de uma torre sineira quadrangular e o alargamento do corpo do edifício para o lado da sacristia.
É a única igreja gótica trecentista da cidade que não está ligada ao patrocínio das ordens religiosas. Segue o modelo das igrejas paroquiais da época, ao mesmo tempo que conserva algumas características do gótico mendicante de Santarém.
O portal gótico, anterior ao da época barroca, é composto por quatro arquivoltas e capitéis florais, de reentrância em gablete e com arcos de ponto subido. A elegância deste elemento é pouco habitual em monumentos do gótico inicial, de carácter tão utilitário como é este.
O interior, plenamente barroco devido às reconstruções de vários séculos, é dividido em três naves relativamente altas, divididas por arcos ogivias, sendo que a nave central é maior do que as laterais. Os tramos dividem-se por arcos quebrados em cantaria. A cobertura é em madeira. Os capitéis das colunas que as dividem têm uma feição arcaizante e aproximam-se daquela que terá sido uma evolução natural das oficinas românticas santarenas.
A capela-mor, com dois tramos, é poligonal, com altas janelas abertas em panos delimitados por contrafortes. É iluminada por cinco janelas góticas. Virada a nascente e com um volume que se salienta do corpo da igreja, é abobadada. O presbitério é amplo e marcado por sinais de modernidade. Junto a uma coluna do lado do Evangelho, um púlpito renascentista em pedra.
A ponte de Alcourse, imóvel de interesse público desde 29 de Setembro de 1977, cruza a vala de Alcourse, no sentido norte/sul, à saída da povoação da Ribeira, no alinhamento com a fonte de Palhais, servindo a estrada para Vale de Figueira. Construída no século XIV, segundo o escudo da vila nela localizado, fez parte da estrada real que ligava Santarém a Coimbra, pela Golegã, Tomar e Pombal. Provavelmente, terá substituído a velha ponte romana que ligava Scallabis a Sellium (Tomar). Ainda hoje faz parte do percurso entre Santarém e Vale de Figueira.
É uma ponte de feição gótica, constituída por um tabuleiro rampeado de um dos seus lados e ladeado por guardas em pedra. Está assente em quatro arcos redondos de volta inteira. No centro da ponte, entre o segundo e o terceiro vão, encontra-se o brasão de D. Afonso III, que contém as armas do concelho e de Portugal, facto que parece
indiciar a divisão das despesas da construção.

Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido

(continuação daqui)

«Durante mais de uma década, até à entrada de Portugal como membro de pleno direito na Comunidade Europeia, em 1986, o nosso pequeno e subdesenvolvido país, até então quase «esquecido» do seu contexto europeu, mobilizaria de forma inédita todas as atenções mundiais com a sua «Revolução dos Cravos» e teria reflexos profundos na Europa e no Mundo. A «nossa» revolução seria quase instantaneamente «adoptada» por praticamente todas as forças democráticas internacionais, tendo-se democratas cristãos, liberais, socialistas e até comunistas em todas as suas imagináveis versões, em determinados momentos e por diferentes motivos, considerado próximos do nosso 25 de Abril. Para o Partido Socialista, que protagonizaria de certo modo os aspectos positivos da Revolução e que imprimiria a sua marca ao sistema político constitucional vigente, esta seria também a sua década dourada.

Em Abril de 1974, a social-democracia europeia entra na sua fase de apogeu. Partidos filiados na Internacional Socialista, a que o PS português também pertence, estão então no governo na Alemanha Federal, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Grã-Bretanha, Holanda, Israel, Luxemburgo, Noruega e Suécia. Na Escandinávia, os movimentos sociais-democratas de inspiração sindical começam a desprender-se do «conservadorismo» em que a sua dependência «operária» os lançara e a ansiar por um maior protagonismo internacional. Na Grã-Bretanha, a onda de revolução social da segunda metade dos anos 60 contra o chamado establishment reabre as portas ao Partido Trabalhista liderado por Harold Wilson, que se mostra impotente para travar a vaga que transformaria aquele partido, tradicionalmente moderado, num dos mais radicais da Internacional Socialista. Na Alemanha, a democracia «controlada» do pós-guerra deu lugar a um «novo» Partido Social-Democrata com forte liderança de Willy Brandt e Helmut Schrnidt os quais, apesar das nuances entre si, tinham o objectivo comum de transformar novamente a Alemanha num país unificado e no motor da Europa. Na Áustria, com Bruno Kreisky, na Holanda, com Joop den Uyl, na Bélgica e até na Itália, graças à ameaça do P.C. de Enrico Berlinguer, emergem igualmente partidos sociais-democratas dispostos a dar nova cara ao socialismo.

Socialismo até então caracterizado essencialmente pelo seu eurocentrismo. Nos Estados Unidos também sopram ventos de mudança e, quando o 25 de Abril acontece em Portugal, já a administração republicana de Richard Nixon está ferida de morte com o caso «Watergate». Quando James Carter e Walter Mondale lançam a sua plataforma eleitoral de cooperação internacional e de defesa dos Direitos Humanos, em 1976, Willy Brandt prepara-se para ser eleito presidente da Internacional Socialista, com base num programa de actividades não muito diferente dos valores proclamados pelos democratas americanos e com a firme intenção de pôr fim ao eurocentrismo, dando início a uma nova fase de cooperação internacional entre socialistas democráticos, que alcançasse todos os continentes.

A Revolução Portuguesa tomara-se um marco essencial para a compreensão dos grandes acontecimentos políticos mundiais da segunda metade do século XX, se bem que os políticos portugueses, que pouco tinham feito para que o 25 de Abril acontecesse, também não a soubessem promover, nem conseguissem dela tirar os «louros» que, por direito próprio, Portugal merecia. A transformação pacífica de Portugal num país livre e democrático foi um acontecimento não só inédito como exemplar, que viria a contribuir de forma absolutamente decisiva para a falência de inúmeros regimes totalitários em África, na América Latina e no próprio Leste Europeu e para um desanuviamento da tensão nas relações internacionais.

A descolonização total do Continente Africano e os processos de democratização na Península Ibérica e na América Latina seriam o primeiro resultado da Revolução de Abril. O fim do apartheid e das ditaduras comunistas no Leste Europeu, pela via do diálogo e do pluripartidarismo, seriam também consequência da vitória das forças democráticas, primeiro em Portugal, depois, como reflexo dessa vitória, encontrariam força suficiente no seio da Internacional Socialista e no seio da NATO para rejeitar soluções de submissão unilateral nos chamados diálogos Leste Oeste e Norte Sul. Na base da força moral das forças democráticas, perante os graves conflitos entre o Leste e o Oeste e na escolha da via para a libertação dos Povos, nos anos 80, estaria sempre presente o exemplo português a que André Malraux chamaria a primeira vitória dos mencheviques sobre os bolcheviques. Bastaria referir, a este propósito, a situação de ruptura a que quase se chegou no seio da NATO por causa do regime sandinista na Nicarágua, sobre as propostas conducentes a um processo de desarmamento unilateral na Europa Ocidental e sobre um eventual apoio europeu a formas de luta armada a conduzir por países da Linha da Frente na África Austral, como forma de pôr fim ao regime do apartheid na África do Sul. Seria o exemplo da moderação da vitória dos mencheviques em Portugal que, na maior parte dos casos, mesmo quarido a revolução portuguesa já parecia esquecida, cimentaria as decisões de bom senso que acabariam por prevalecer e moderaria os ímpetos revanchistas dos republicanos norte-americanos e os ataques de pacifismo serôdio de alguns socialistas europeus. Portugal esteve no epicentro de uma grande ameaça à paz tendo a solidariedade internacional, que nos faltou durante tantos anos, finalmente funcionado. Entre as várias opções que se colocariam aos «capitães de Abril» e as várias receitas preconizadas para Portugal prevaleceria o bom senso. Mas os partidos políticos e seus principais dirigentes rapidamente desperdiçariam este enorme património, em lutas intestinas e com vaidades provincianas. Hoje, visto de fora para dentro, Portugal regressou ao seu estatuto de país insignificante e receptor. Não foram conseguidos os grandes objectivos da Revolução de Abril e o País encontra-se entre a Europa e a mediocridade. Parece que o povo português não consegue libertar-se do fatalismo da I República. Este meu livro de memórias, assim o espero, é também uma contribuição contra esse fatalismo.

O chamado caso do «fax de Macau» ou caso «Emaudio» dar-me-ia o último argumento de peso para escrever este livro. A propósito de um conflito, em nada diferente dos conflitos que devassam o interior dos partidos políticos portugueses e que se prendem com situações de poder; a propósito de um financiamento político relativamente «insignificante» e em nada, a não ser no montante, diferente dos que têm sido feitos ao longo dos últimos vinte anos a partidos políticos e organizações afins, confundiu-se a árvore com a floresta e iniciou-se a investigação à corrupção em Portugal de tal forma que, ao contrário do que tem acontecido noutros países europeus, se inviabilizaria o conhecimento da verdade e, como tal, o combate à corrupção. Em vez de se optar por um esclarecimento idóneo e completo, a que os Portugueses têm direito, sobre o estado da Nação em matéria de tráfico de influências e de corrupção, cortando o mal pela raiz ou, caso se verificasse que a verdade poderia ser fatal, a Assembleia da República em acto público entendesse fazer um acto de contrição para bem da democracia, criando moratórias e regras novas, o Ministério Público parece ter assumido a responsabilidade de definir o interesse nacional. Produzindo uma acusação sem provas numa total inversão de valores e, mesmo admitindo a convicção do investigador em relação a um crime que não existiu, ignorando a máxima de Séneca: «quem, podendo, não manda que o delito se não faça, manda que se faça».

Não há Democracia sem a
pa
rticipação dos cidadãos na vida do seu país. Escolheu- se definir, em Portugal, que o enfâse dessa participação se faça através de partidos políticos. Mas faltam ainda definir regras estritas sobre a democracia interna nos partidos que os impossibilite de se transformarem, como tem vindo a acontecer em Portugal, em aparelhos burocráticos fechados que impedem essa mesma participação.

E para além da ausência de regras que permitam, pela via individual, o acesso do cidadão à actividade política, não existem regras idóneas de financiamento dos partidos, nem de transparência para os políticos.Um pouco à semelhança dos «pilares morais» do regime, a Maçonaria e a Opus Dei, tudo se decide às escondidas, como se o direito dos cidadãos à informação completa e rigorosa de como são financiadas as suas instituições e dos rendimentos dos seus govemantes e dos seus magistrados fosse algo suspeito, algo subversivo.

Liberdade, Justiça e Transparência são sinónimos de Democracia. E sem esses ingredientes essenciais o regime português não passará de uma democracia com pés de barro. Acontecerá então, para mal de todos nós, a conversão do já em si negativo «triunfo da política» no temível «estado dos juízes»!»

O esquecimento

adeportacao

A propósito disto: Faz hoje 70 anos. Hoje também faz 70 anos que o Reino Unido e a França declararam guerra à Alemanha Nazi. A efeméride é em si mesma, irrelevante. O que é relevante, é que o distanciamento temporal dos acontecimentos é neste momento tão grande, que a torna apenas mais uma data no calendário, sem que tenha grande expressão no dia-a-dia. É, apenas e só, mais uma notícia de rodapé a caminho do esquecimento. Este distanciamento torna-se o principal entrave à verdadeira relevância dum evento que foi provavelmente o mais importante da história da humanidade, quanto mais não fosse, por expor o que provavelmente serão os limites do próprio homem. De desumanidade e violência e de resistência e perseverança. Perante tudo isto, parece-me que, quer queiramos, quer não, estamos mesmo destinados a esquecer. Ou a querer esquecer. Consequência disso mesmo, é um pequeno livro de 200 páginas que encontrei no lixo. Alguém o deitou fora, provavelmente porque as imagens não são bonitas e apelativas (e o livro é composto essencialmente por fotos), porque este não foi um evento importante ou porque achou que estes eventos nunca terão acontecido. As razões pelas quais ele foi parar ao lixo eu não as conheço. Mas percebo perfeitamente a implicação e o significado do acto em si. De certa forma, o autor do prefácio, Louis Martin-Chauffier, muito melhor que eu, explica-o.

«A DEPORTAÇÃO, que tenho a subida honra de apresentar, não deve ser apenas, “para cada família de deportado ou de internado, o testemunho perene dos sacrifícios votados à causa da liberdade e da pátria”. É a um mais vasto acolhimento que se propõe corresponder. Monumento da recordação e do reconhecimento devidos àqueles que, pela sua forte afectividade, partilharam em espírito tantos sofrimentos quase inimagináveis, sofrendo ainda por cima crueldades que a mente dificilmente concebe, um tal livro é também destinado àqueles que se não lembram porque não souberam, para que eles venham a aprender e compreendam. Penso, antes de mais, nos jovens que, pela sua idade, ficaram aquém da memória, jovens esses a que importa dar a conhecer essa grande e terrível lição e os deveres que, no seu próprio interesse, ela lhes impõe.
Mas muitos outros há, e esses em idade de terem sido informados, que, por não terem sido atingidos pessoalmente ou através dos entes queridos, conheceram mal a verdade e pouco fizeram para a conhecer. Há muito tempo já que o esquecimento abafou os vagos e longínquos ecos que os seus ouvidos desatentos escutavam sem os fixar e apagou as imagens captadas por acaso no cinema ou nas revistas com um olhar distraído que logo delas se desviava.
Esconder a cabeça para não ver e envolver-se numa capa de silêncio é uma cobardia que, não raras vezes, a si própria se ignora, uma maneira prudente de deixar a consciência em sossego, dissimulando-lhe uma realidade por de mais terrível, perante a qual, uma vez alertada e informada, não poderia deixar de se comover e se interrogar. Como se o recusar-se a saber impedisse as coisas de terem sido o que foram! Como se essas coisas não tivessem, implícitas, consequências, e se o facto de elas terem sido o que foram não mudasse a sequência dos acontecimentos e, levando forçosamente à reflexão, não impusesse um sentimento de inquietação!
Não se pode viver indefinidamente na ignorância do mal que foi feito porque esse mal se prolonga; nem do bem que ele suscitou porque esse bem traz fortes razões de ter esperança. O que aqui se narra, o que aqui se mostra, passou-se há mais de vinte anos. Todos nós esperamos que os indiferentes de então ousem agora, talvez timidamente a princípio, tomar conhecimento do que aconteceu e que, pouco a pouco, impressionados por essa revelação, experimentem, embora tardiamente, remorsos pela sua prolongada e intencional ignorância e pela ilusão de terem acreditado que se podia impunemente varrer da história ainda bem viva aquilo que não passara de “um mau momento a atravessar”.»

Excerto do prefácio de “A Deportação”, Edições Europa-América, 1970

Contos proibidos: Memórias de um PS Desconhecido

(continuação daqui)

«Hoje, para repor a verdade, decidi-me a escrever o livro. É um livro de memórias em redor do Partido Socialista, duma perspectiva das suas relações internacionais, que eu dirigiria durante mais de uma década. Não é, contudo, nem poderia ser, a história do Partido Socialista mas, essencialmente, uma contribuição para uma melhor compreensão de como foi forjado aquele que seria a espinha dorsal do regime democrático português actual.

O PS acabaria por ser, acidentalmente, aquele que mais responsabilidades teria na construção das actuais estruturas económicas, sociais e políticas do País. Opôs-se à opressão salazarista e sairia desiludido da chamada «primavera marcelista». Acabaria por resistir à aventura comunista e, depois, à tentação militarista, acabando por «impor» o seu modelo de sociedade, a partir de 1976. Nesse percurso e nos momentos decisivos, teria sempre o apoio internacional dos Estados Unidos e da Europa. Daí que a perspectiva internacional, em redor da qual têm girado o país e os principais partidos políticos, seja uma peça essencial para a análise dos actuais fenómenos da nossa sociedade.

Sem esses apoios, que para o PS estariam como o oxigénio está para a vida, provavelmente o regime democrático teria sucumbido. Do mesmo modo que, em 1945, a sua ausência viabilizaria a continuação de Salazar. Mas, por outro lado, se sem eles tudo estaria em jogo, também a relação de dependência criada e a institucionalização do tráfico de influências iriam provocar algumas distorções e vícios que o País hoje sente.

Tentar explicar esses fenómenos de um passado recente, para compreender o presente, é um dos objectivos deste livro. Mas, como não poderia deixar de ser, escrever sobre o PS durante este período sem falar dos seus principais protagonistas tomaria impossível alcançar essa meta. Entre eles destacam-se duas personalidades distintas e a relação de «amor e ódio» que, em grande parte, determinaria o actual PS: Mário Soares e Francisco Salgado lenha. O primeiro deixaria marcas profundas que continuarão a caracterizar o PS por muito tempo. De Salgado lenha este partido herdaria a «consciência moral» que ainda lhe resta. Mário Soares seria eleito Presidente da República e Salgado lenha abandonaria o partido, incompatibilizado com o seu «velho» amigo.

Durante algum tempo, o PS iria ser um barco à deriva. Recuperaria eleitoralmente, contudo, com o seu actual líder, António Guterres. Mas, curiosamente, essa recuperação só aconteceria quando este fiel discípulo de lenha se converteu ao «soarismo». Por isso mesmo, esta interessante simbiose das personalidades daqueles dois principais personagens será agora examinada à lupa no novo PS, para ver se ele segue o caminho da «consciência moral» do seu velho protector, ou o caminho do «absolutismo monárquico» e das facilidades do seu favorito ex-inimigo.

Para já, é evidente que o actual secretário-geral do PS, já em 1976 responsável com Edmundo Pedra, Soares Louro e Santos Ferreira I pela campanha eleitoral do PS, conhece bem as dependências internacionais do seu partido e até, à semelhança do seu antecessor, «trata-se por tu com pelo menos seis primeiros-ministros europeus» 1. Vamos ver para crer, como diz o ditado, mas, pelos primeiros indícios, temo que, do mesmo modo que Soares meteria o socialismo na gaveta, Guterres venha a meter a «consciência moral» do PS no congelador. O que é um mau sinal para a democracia. Que não terá futuro se o passado não estiver esclarecido e o futuro continuar a depender de bodes expiatórios.

O meu livro, assim o espero, ajudará a compreender como o triunfo de alguns se faria à custa do sacrifício dê outros. O «estado dos juízes» está «atento» ao passado dos actuais políticos e não hesitará, no momento oportuno, em colaborar para a sua decomposição.

Eu entrei para a política quase por acaso. Aderi nos anos 60 à minúscula Acção Socialista Portuguesa por acreditar que, pela via do socialismo democrático e através de um sistema pluripartidário, Portugal viria a ser um país igual ou melhor que aquele onde vivia exilado – a Suécia – e que era então considerado, acertadamente, a sociedade mais justa e mais evoluída do planeta. Não o socialismo utópico, igualitário, de partido único que transforma os cidadãos em funcionários do estado. O socialismo onde os partidos se combatem no campo das ideias e onde os interesses e bem-estar dos cidadãos estão sempre em primeiro lugar. Onde os partidos políticos são a espinha dorsal do sistema e os instrumentos para a sua modificação democrática e não o instrumento de promoção pessoal dos seus dirigentes. Mas, infelizmente, e daí a outra razão de ser ser deste meu livro, Portugal parece estar a perder essa importante batalha da democracia.

Isso atestam o crescente branqueamento da História e falta de transparência das instituições. A Europa, berço da amálgama de culturas e conflitos que deram origem ao que é hoje vulgarmente apelidado de «civilização ocidental», nunca produziu um modelo perfeito de democracia que garanta aos seus cidadãos a igualdade de acesso à educação, ao trabalho, à saúde e à justiça. Entretanto, alguns países, sobretudo a norte, conseguiram ao longo dos anos conquistas importantes naquelas áreas, com base numa considerável evolução do conceito de respeito pelos direitos humanos, dos direitos dos animais e da natureza. A vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte, o lançamento dos alicerces da União Europeia não viabilizariam, contudo, o acesso dos países do Sul ao fenómeno de desenvolvimento dos seus vizinhos mais a norte e, até meados dos anos 70, a Europa viveu num clima de completa desunião. Entre democracias mais ou menos formais no Norte e Centro, ditaduras medíocres e subservientes de «inspiração cristã» na Península Ibérica, uma ditadura militar com reminiscências pan-arábicas na Grécia e uma imensidão de regimes comunistas totalitários e despóticos, proclamados pela via revolucionária em nome da classe operária, a Leste.

O início da luta dos Movimentos de Libertação contra o colonialismo português na Guiné, em Moçambique e em Angola, empurrados pela miopia e desinteresse ocidental para os braços da União Soviética, dariam lugar ao chamado «Movimento dos Capitães» que a 25 de Abril derrubaria, para surpresa de todos, dentro e fora de Portugal, a ditadura iniciada com o Estado Novo, em 1933, por António de Oliveira Salazar.

Este levantamento pacífico e sem objectivos políticos claros, provocado quer por razões de natureza sindical, quer pela derrota psicológica dos militares portugueses nas guerras coloniais, viria a influenciar a evolução política mundial deste fim de século.

Santarém, Capital do Gótico (XII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

PRESENTE E FUTURO

Actualmente, o concelho de Santarém, virado para o futuro, vai-se assumindo cada vez mais como um concelho moderno, desenvolvido, que aposta na qualidade de vida das suas populações como motor fundamental para o desenvolvimento. Uma cidade do mundo, afinal, em que é bom viver e onde as pessoas se sentem bem.
Haverá, como é evidente, lacunas a resolver. Nem tudo estará perfeito nos mais diversos indicadores sócio-económicos. Mas a evolução registada no nosso país e no concelho faz crer que o caminho mais correcto é seguir em frente. Assim se fará, por certo, num território que disputa a liderança de toda esta região do Médio Tejo. Ou não fosse, afinal, a capital de um distrito que ocupa uma extensa área territorial.
A cidade de Santarém, capital do concelho e do distrito, será o espelho de tudo o que acabamos de afirmar. Em termos urbanísticos, se até 1930 a cidade de Santarém foi crescendo em número de pisos dos seus prédios, e a partir dessa data em extensão, para oeste e norte, a década de 60 do século XX vai marcar uma tendência de construção maciça de novos edifícios em altura.
Essa tendência, que se prolongou até à actualidade e que tem os seus expoentes nos lugares de Galhardos, Eirinhas ou Sacapeito, obrigou mesmo a população a começar a ocupar os vales e as várzeas até aí preservados. O plano de urbanização da cidade, elaborado em 1977 pelo arquitecto Tomás Taveira, previa, entre outras directrizes, o crescimento da cidade para norte e para sul, a criação de uma área industrial e a deslocação da via ferroviária para o planalto. O facto de a Administração Central nunca ter homologado este plano tolheu, em grande parte, a sua execução. Em 1995, seria aprovado oficialmente o Plano Director Municipal de Santarém, vulgo PDM, que está actualmente em fase de revisão, como, de resto, está a acontecer em todo o país.
Um exemplo dos espaços actualmente em transformação, porque não os podemos citar a todos, é o largo Cândido dos Reis. A criação de uma placa central de grandes dimensões, que irá reorganizar o trânsito daquela zona, é uma necessidade que se tornou premente desde a construção do centro comercial. Uma maior atenção aos peões, com o aumento dos passeios e a colocação de mobiliário urbano, é uma das directrizes fundamentais do projecto, que terá em atenção, de igual forma, a qualidade dos materiais. Pela sua importância, a igreja de Jesus Cristo, com a sua fachada maneirista, ditou desde o início o rumo das intervenções a realizar.
De resto, o respeito pelo património edificado e pela tradição histórica de Santarém tem sido observado por aqueles que têm por obrigação decidir. É pena que não se tenha feito o mesmo nos séculos anteriores, mas a esperança de que ainda se vá a tempo de salvar algo, essa, permanece em Santarém.
«Se, entre 1940 e 1960, os apelos à salvaguarda do património já se tinham sentido, levando à criação de áreas de protecção dos monumentos administradas pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, é apenas nos finais da década de setenta que a cidade se movimenta no sentido da defesa do património monumental, histórico-cultural e urbanístico. Motivo de reunião de algumas camadas da população em volta da salvaguarda do património da cidade, a influência do movimento patrimonialista reflecte-se na própria sede das ideias transformadoras da cidade – a Câmara Municipal.
Depois de um período de indecisão (1980-1988), a administração autárquica resolve, em 1989, criar o Gabinete de Planeamento Municipal (GPM), tentando dar ordem a um certo caos urbanístico, criando, ao mesmo tempo, as regras para o seu Centro Histórico, através de uma postura específica.» (Jorge Custódio)

Dados demográficos

Façamos um breve retrato da evolução demográfica ao longo do século XX. Em 1911, no primeiro recenseamento do século XX, Marvila tinha 3963 pessoas, S. Nicolau 2387, Salvador 3547 e Santa Iria 1595. Eram estas as freguesias mais povoadas do concelho. A meio do século, mais concretamente em 1950, o censo desse ano dava para aquelas freguesias, respectivamente, 6849, 5156, 5130 e 2060 pessoas.
No concelho, a diminuição demográfica desde 1960 não foi tão significativa como noutros locais – apenas 1,8%. A cidade tinha 63777 residentes em 1960, 62621 em 1991. Ao invés, o centro urbano de Santarém registou um crescimento de 43,9% no mesmo período, de 16449 para 23678 pessoas.
Em termos de estrutura etária, a população da cidade era mais nova do que no resto do concelho. A percentagem de jovens era de 26,6%, os adultos 54,6% e os idosos 18,8%. O índice de envelhecimento é de 70,6%, enquanto que no resto do distrito essa percentagem é de 95%.
Para os dados demográficos actuais, utilizaremos os números mais recentes, os do Recenseamento Geral à População de 2001. As freguesias mais povoadas são, obviamente, as que se situam dentro da cidade. É o caso de Marvila, Salvador e S. Nicolau, com 9584, 9211 e 9036 habitantes, respectivamente. No pólo oposto, Azoia de Baixo é a freguesia com menos indivíduos residentes – 278, seguido de Vaqueiros (317) e Pombalinho (530).

Economia e indicadores sociais

A localização geográfica de Santarém, nomeadamente a proximidade de Lisboa, e a curta distância das principais infra-estruturas de transportes contribuem para um forte dinamismo económico. Senão vejamos: a nível rodoviário, a auto-estrada Lisboa-Porto passa bem perto; a nível ferroviário, a linha do Norte tem estação em Santarém; a nível de transporte aéreo, Santarém dispõe de um aeródromo, enquanto que o aeroporto da Portela, em Lisboa, fica apenas a trinta minutos; em termos de transporte marítimo, a quarenta e cinco minutos encontra-se o porto de Lisboa e a cinquenta o de Peniche.
Para que uma empresa, seja ela qual for, cumpra os objectivos para os quais foi criada, não se basta a si própria. Mesmo com excelente matéria-prima, a preços competitivos, e com uma mão-de-obra qualificada, fica a faltar um sem-número de determinantes, sem o qual a rentabilidade máxima nunca será possível.
Integram-se nestes factores os acessos, que, consoante a sua qualidade e quantidade, possibilitam ou afastam inúmeras possibilidades de negócio. E neste caso, algumas das firmas que compõem o tecido económico do concelho debatem-se com problemas. Na parte norte do concelho, por exemplo, ressalta à vista o mau estado da Estrada Nacional n.º 362, que liga Santarém a Alcanede. A Estrada Nacional n.º 361, no troço Alcanede – Alcanena, sofre dos mesmos problemas, facto que se torna ainda mais grave se pensarmos que é uma via primordial para o desenvolvimento económico de toda a região.
Outro dos exemplos que pode ser dado quando se fala de qualidade de vida das populações versus tráfego automóvel/poluição é o do atraso na construção da variante à Estrada Nacional n.º 3, na Portela das Padeiras e no Vale de Santarém, no sul do concelho. A freguesia de Salvador tem sido uma das mais afectadas pelas sucessivas dilações de prazos a que se vem assistindo.
A beneficiação da Estrada Municipal n.º 506, em execução, é um bom exemplo do que pode ser feito a este nível. Para o futuro, aguarda-se a ligação da A1 à A13, com um evidente desafogo para a ponte Salgueiro Maia e para a rua 0, e a concretização da estrada do campo que faz ligação ao Pombalinho.
O peso económico da agricultura e da criação de gado, no concelho, é inferior ao peso cultural e simbólico que encerra em si próprio. Nos últimos anos, tem-se assistido a uma renovação dos métodos de cultivo e a produção, obviamente, tem tido tendência para aumentar. Neste ponto, os modernos sistemas de regadio têm contribuído sobremanei
ra
para o novo estado de coisas a que se tem assistido. Novos agricultores abrem novas fronteiras e Santarém ressente-se, positivamente, desse facto.
As seculares oliveiras, cujas primeiras informações remontam à época romana, continuam a ser a cultura predominante. A par da nobre azeitona, as searas de melão, os tomateiros e os campos de cereais, com destaque para o milho, detêm papel económico relevante.
Em termos de pecuária, é sabido que o Ribatejo é um grande centro de produção. Santarém incluído, como é óbvio. Em primeiro plano, a criação de bovinos em pasto extensivo, com destaque para os touros, que assim vão subsistindo. Em segundo lugar, alguns núcleos de produção leiteira. Na margem direita do Tejo, sub-região do bairro, a criação de ovinos merece uma palavra importante. A pecuária intensiva pratica-se no norte do concelho a nível da suinicultura e dos aviários.
Na silvicultura, existem importantes manchas de pinheiros na zona norte do concelho e na zona integrada do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. São zonas em que, devido à fraca qualidade dos solos, se apostou mais no pinhal. O eucalipto representa um desses casos. Recentemente, o pinheiro manso, os sobreiros e as espécies nobres nacionais têm surgido, por força de alguma reconversão e também da elevada procura destas madeiras.
Obviamente, há uma diferença muito significativa entre a cidade de Santarém e o resto do concelho. Dentro da sede municipal, a percentagem daqueles que se dedicam ao sector primário é de apenas 2,1%.
Na indústria extractiva, a indústria de barro vermelho conta com a preciosa ajuda da excelente argila extraída nos mananciais do concelho. Na povoação de Xartinho, freguesia de Alcanede, encontra-se em exploração um jazigo de caulino. No sector da construção civil, a pedra – calcário, mármore e outras – regista um grande desenvolvimento.
Em termos de indústria transformadora, o sector agro-alimentar conta com algumas unidades de grande dimensão, caso de uma das maiores fábricas portuguesas de cerveja, outra grande de sumos e refrigerantes, uma unidade de congelação e transformação de legumes e uma outra de transformação de carne. Para além destas, existem os tradicionais lagares de azeite e lagares de vinho e algumas unidades pequenas e médias de bolachas e bolos de tipo tradicional.
O sector das madeiras conta com algumas serrações e carpintarias. Existem também unidades de aglomerados e fabricação de móveis, algumas das quais com uma grande produção e exportação.
A pedra é matéria-prima para a construção civil e também para o fabrico de cal, sector onde existem duas grandes unidades e algumas outras mais pequenas. Os elementos decorativos em pedra, revestimentos, lareiras e outras, estão também em crescendo.
Na indústria das peles, um organismo desponta: o Centro Nacional de Curtimento, na freguesia de Alcanede.
Segundo os últimos dados, 19,3% da população da cidade de Santarém dedica-se ao sector secundário.
Na sede do concelho, a actividade predominante, como é óbvio, é o comércio, que conheceu uma grande explosão na década de 60. Aliás, Santarém é quase um verdadeiro centro comercial, ao ar livre e não só. A coexistência entre o comércio tradicional e as grandes superfícies faz-se sem grandes problemas, a despeito dos dois hipermercados existentes.
Um dos sectores importantes no que ao comércio diz respeito é o ramo automóvel. Aqui chegados, não poderíamos deixar de referir a Santagri, empresa fundada em 1980 e que tem a sua sede na freguesia da Várzea. Está integrada no extenso Grupo Entreposto – Gestão e Participações SGPS.
A par do comércio, a vinda para Santarém de filiais dos principais bancos portugueses e de vários organismos de administração local e central e empresas com capitais públicos, como a Portugal Telecom, a EDP ou o Instituto da Juventude, contribuiu para que, a nível dos serviços, a cidade passasse a servir a sua população de forma mais eficaz e completa. A possibilidade que existiu de instalar em Santarém, neste ano de 2004, a Secretaria de Estado da Agricultura, embora abortada, demonstrou bem a importância que a sede deste concelho já adquiriu no panorama político e económico nacional.
Dentro de Santarém, o peso do sector terciário é esmagador, com 78,6% da população activa. «Foi por isso e desde sempre uma cidade encruzilhada, de rotas históricas e de auto-estradas, na actualidade, onde se peregrina, passeia e negoceia; cidade de feiras e «trocas», desde o chão da Piedade, na Idade Média, ao CNEMA – Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas, edificado no século XX, passando nesse percurso pelos Campos de Fora de Vila e Chão das Padeiras ou S. Lázaro.
A dinâmica da oferta e da procura foi sempre de tanto relevo em Santarém, que se impôs constantemente a deslocação do espaço da Feira, na procura de mais amplas áreas.
Cidade que foi é e de serviços e comércio, cidade que foi de conventos e hospitais, para quem nesse «trânsito», sobretudo medieval, procurou o além ou a cura, acabou por marcar sub-repticiamente nos seus habitantes uma apetência nómada ou peregrina.» (Pedro Canavarro)
Santarém é um destino turístico importante em Portugal. Milhares de pessoas, todos os anos, visitam a cidade e o concelho em busca das belezas naturais do Ribatejo e dos principais monumentos.
A configuração topográfica de Santarém, com as suas sete colinas, permite que as paisagens de excelência abundem em todo o perímetro urbano. As praças, os jardins e sobretudo aqueles que dispõem de miradouros aproveitam essas características únicas e emprestam aos santarenos e a todos os visitantes momentos de verdadeiro sonho.
O jardim das Portas do Sol, como é óbvio, teria de estar no topo das nossas atenções. É a sala de visitas de Santarém, o «ex-libris» da cidade, a «majestosa entrada da grande vila» como lhe chamou Almeida Garrett. Sobre este espaço verde e, sobretudo, sobre tudo o que o rodeia, das muralhas em seu redor e da esmagadora paisagem envolvente, já nos referimos com abundância anteriormente.
O jardim da República é o típico jardim citadino. Bancos para descanso, baloiços para as crianças, mesas para piqueniques e um coreto de ferro forjado dão um toque muito especial a um espaço verde muito concorrido pela população. Em redor, os paços do concelho, a Escola Prática de Cavalaria e o convento de S. Francisco tornam esta zona uma das mais importantes da cidade.
O campo Sá da Bandeira conta a história da cidade através do seu pavimento em calçada portuguesa. É escolhido por muitos santarenos para a prática de desportos radicais. O mercado, de um lado, e a igreja do Hospital de Jesus Cristo, do outro, balizam esta área verde.
O jardim da Ribeira fica na Ribeira de Santarém, freguesia de Santa Iria. Junto à margem do Tejo, é um espaço de enorme aprazibilidade. Embora de pequenas dimensões, é fortemente arborizado e florido.
A praça de Sá da Bandeira ou do Seminário é o espaço mais central da cidade e um dos que viveu mais momentos marcantes da sua história. No centro, a estátua de Sá da Bandeira, que homenageia a memória desse extraordinário combatente pela liberdade. A ele se dirigiu Humberto Delgado, aquando da sua passagem por Santarém, como já referimos antes. Do lado direito, encontra-se o Seminário, do lado direito a igreja da Piedade e a famosa janela manuelina.
Em termos de alojamento, a oferta de Santarém é vasta e inclui vários hotéis, residenciais, pensões e unidades de turismo de habitação.
Durante o Verão, percorre as principais artérias da cidade um comboio turístico, gratuito, que mostra aos visitantes do burgo o que de melhor tem Santarém. Obviamente, o programa está aberto a todos aqueles que, apesar de viverem por aqui, não conhecem tanto quanto deviam sobre a sua cidade.
A Feira Nacional da Agricultura, que se realiza em Junho,
é a expressão máxima da capacidade agrícola de Santarém e um dos pontos de maior interesse turístico para quem visita o concelho. O local da sua realização é o Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas.
O Festival Nacional de Gastronomia decorre no mês de Outubro, durante cerca de quinze dias, sob a organização da Câmara Municipal de Santarém e da Região de Turismo do Ribatejo. O local da sua realização é a Casa do Campino, no campo Infante da Câmara.
Referência ainda para as feiras do Milagre (segunda e terceira semana de Abril) e da Piedade (segunda e terceira semana de Outubro); para a Lusoflora, certame realizado em Outubro e que se dedica às flores; e para a feira das Velharias, realizado no quarto sábado de cada mês no largo Padre Chiquito, no centro histórico de Santarém.
Destes e doutros certames daremos conta mais pormenorizada no capítulo dedicado ao património humano de Santarém.
Olhando agora para o quotidiano dos santarenos, dedicaremos a nossa atenção a alguns indicadores que revelam a qualidade de vida de uma população. Estão entre esses indicadores a educação, a saúde, as infra-estruturas culturais ou o ambiente.
Todos os graus de ensino estão presentes em Santarém. Especialmente importante, pela movimentação que empresta à cidade e pelo dinamismo económico que acarreta, é o ensino superior, com as suas diversas escolas, muitas delas voltadas para as necessidades locais.
Em termos de ensino pré-escolar, os últimos dados apontam para uma abrangência de mais de oitocentos alunos, num total de cinquenta salas. No tocante à componente de apoio à família, 33% daquelas crianças tinham acesso ao almoço e ao prolongamento das actividades. Um número que, desde os cinco anos anteriores, não parou de aumentar.
No que diz respeito ao primeiro ciclo do ensino básico, antiga escola primária, estavam inscritos em 2002 mais de 1300 alunos, que estavam distribuídos por cerca de 150 salas de aula. Neste caso, a tendência dos cinco anos anteriores foi de descida, num ritmo que acompanhou a situação verificada no resto do país. É que menos nascimentos equivalem, invariavelmente, a menos alunos.
O segundo e terceiro ciclo e o ensino secundário contam no concelho de Santarém com nove estabelecimentos de ensino público. São eles a Escola do Ensino Básico de 2.º e 3.º Ciclo de Alcanede, a Escola do Ensino Básico de 2.º Ciclo de Mem Ramires (freguesia de Marvila), as Escolas do Ensino Básico de 2.º e 3.º Ciclo D. João II e Alexandre Herculano (freguesia do Salvador), a Escola Básica Mediatizada de Alcanhões e de Vale de Santarém, a Escola Secundária Dr. Ginestal Machado (Marvila) e a Escola Secundária Sá da Bandeira (Salvador). No total, frequentam estas escolas mais de 3500 alunos.
O ensino recorrente tem uma boa cobertura no município. É o sistema de ensino ideal para quem já deixou de estudar há algum tempo e para todos aqueles que trabalham, porque assim podem estudar ao seu ritmo através do sistema das unidades capitalizáveis. Combate o analfabetismo e promove a qualificação escolar e profissional.
Dentro do concelho, há estabelecimentos de ensino que leccionam o recorrente nas freguesias de Alcanede, Alcanhões, Casével, Marvila, Pernes, Santa Iria da Ribeira de Santarém, Salvador, S. Nicolau, S. Vicente do Paul, Tremês, Vale de Figueira e Vale de Santarém. Segundo os últimos dados, frequentavam o ensino recorrente de primeiro ciclo 202 alunos e de segundo e terceiro ciclo quase trezentos.
Como garante do bom funcionamento de todo o sistema, temos o recentemente criado Conselho Municipal da Educação, organismo previsto na lei de bases e que é uma inovação recente em todo o país. Tem como objectivos estruturar e definir políticas e prioridades e envolve todas as escolas dos vários grupos e sectores de ensino, professores, associações de pais, associações sindicais e associações de estudantes.
O ensino superior, no concelho, está bem representado por dois institutos politécnicos: o Instituto Politécnico de Santarém e o Instituto Superior de Línguas e Administração. Um pólo universitário que procura satisfazer as necessidades das empresas da região e que conta com cerca de três mil alunos. Com mais uma ou outra escola, quase se poderia dizer que estaríamos na presença de uma verdadeira cidade universitária.
O Instituto Politécnico de Santarém é composto pelos seguintes estabelecimentos: a Escola Superior Agrária de Santarém, a Escola Superior de Educação de Santarém, a Escola Superior de Gestão de Santarém e a Escola Superior de Enfermagem.
A Escola Superior Agrária de Santarém, especificamente dirigida ao meio social e económico em que se insere, é uma das mais antigas do país dentro deste sector. Tem uma oferta constituída por vários cursos, alguns de bacharelato e outros de licenciatura bietápica. Os cursos são os de Engenharia Agro-Alimentar, Engenharia de Gestão do Ordenamento, Engenharia da Produção Animal, Equinocultura, Engenharia da Produção, Engenharia Agrária e Qualidade Alimentar. Tem mais de mil alunos.
A Escola Superior de Educação de Santarém dirige-se essencialmente aos futuros professores, como o próprio nome indica. Pouco mais de mil alunos distribuem-se pelos seguintes cursos: Animação Cultural e Educação Comunitária, Educação Social, Educação de Infância, Professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico, Professores do 2.º Ciclo do Ensino Básico (quatro variantes), Complementos de Formação Científico-Pedagógica e Complementos de Formação para Professores do 1.º Ciclo.
A Escola Superior de Gestão de Santarém é o estabelecimento que conta neste momento com mais alunos, quase 1300. Os cursos de Gestão de Empresas, Informática de Gestão, Marketing e Consumo, Administração Pública e Autárquica e Contabilidade e Fiscalidade dirigem-se essencialmente a uma comunidade em crescimento que só necessita dos instrumentos básicos da gestão para se impor em definitivo no panorama empresarial português.
Por fim, a Escola Superior de Enfermagem tem cerca de 270 alunos e cobre uma daquelas que, na área da saúde, é considerada uma grave lacuna. Oferece tanto a licenciatura como o bacharelato em Enfermagem.
Quanto ao Instituto Superior de Línguas e Administração, vulgo ISLA, oferece aos seus quase oitocentos alunos seis cursos de licenciatura: Tradução e Interpretação em Línguas Modernas, Comunicação, Gestão de Empresas, Gestão de Recursos Humanos, Informática de Gestão e Engenharia Electrónica Industrial.
A nível da investigação, referência ainda para a Estação Zootécnica Nacional, em Vale de Santarém, o maior instituto português em termos de pecuária.
No que concerne à saúde, o Hospital Distrital de Santarém assegura a maioria dos cuidados básicos, tanto no que diz respeito às valências de internamento como de consultas de especialidades e de urgências. Em termos de necessidades prementes, refira-se a criação de uma extensão do Centro de Saúde de S. Nicolau, visto que os equipamentos existentes até à data não cobrem, de maneira nenhuma, a totalidade dos utentes inscritos, que totalizam cerca de 50% da população total da cidade. A inexistência de climatização no hospital e a falta de uma extensão de saúde na maior freguesia de Santarém, Alcanede, são outros dos problemas com que o concelho se debate.
A nível social, a breve prazo existirá um lar para a terceira idade em Amiais de Baixo; um centro de dia e lar de idosos na serra do Alecrim, que servirá a envelhecida população daquela zona do município; e uma creche e lar de terceira idade em Vale de Figueira.
A nível cultural, urge a construção da nova Biblioteca Municipal, cujo projecto já está pronto a começar. Quanto à actual, cumpre com uma extrema dignidade as suas funções desde 1926, cinco anos depois de Anselmo Braamcamp Freire ter entregue à Câmara Municipal todo seu espólio literário. De resto, a sua
colecção é o mais importante fundo bibliográfico da instituição – no total, são cerca de quinze mil volumes, datáveis do século XVI ao primeiro quartel do século XX, incluindo alguns incunábulos de 1498 e 1499. Para além desta, existe ainda a Biblioteca Camões, fundada a 13 de Junho de 1880; e várias outras que, em conjunto, contribuem para o impressionante número total de setenta mil volumes. Referência ainda para uma vasta colecção de pintura, que inclui obras de Josefa de Óbidos, José Malhoa ou Alfredo Keil.
A Casa do Brasil/Casa Pedro Álvares Cabral é um dos espaços de exposições mais importantes de Santarém. Aqui têm lugar diversas actividades culturais ligadas ao Brasil. Possui uma biblioteca especializada e uma base de dados sobre as temáticas da expansão, dos descobrimentos portugueses e dos escalabitanos ilustres. Para além da Casa do Brasil, funcionam como sala de exposições o posto de turismo, a sala Virgílio Arruda, na Biblioteca Municipal de Santarém, e o Fórum Actor Mário Veigas.
O auditório do Instituto Português da Juventude, o auditório da Casa do Brasil e o grande auditório do Centro Nacional de Exposições, este com uma capacidade para 1200 pessoas, são espaços multiusos que permitem a realização de várias actividades ligadas à cultura.
O mesmo se dirá das nove salas de congressos existentes: no Arquivo Distrital, na sala Virgílio Arruda, no Coríntia Santarém Hotel, na Escola Superior Agrária, na Escola Superior de Educação, na Escola Superior de Gestão, na Estação Zootécnica Nacional, no Hotel Alfageme e no Hotel do Prado.
Na comunicação social, encontram-se em publicação, actualmente, quatro jornais semanários. O mais antigo é o «Correio do Ribatejo», antigo «Correio da Estremadura. Existem ainda «O Mirante», «O Ribatejo» e «Terra Viva». Ainda a nível de imprensa escrita, o «Fórum Santarém» é um boletim informativo da Câmara Municipal, de distribuição gratuita, publicado de dois em dois meses. Com uma tiragem média de trinta mil exemplares, começou a ser publicado em 1993.
Em termos de rádio, há duas emissoras a funcionar: a 2000 FM, em rede com a «Rádio Cidade», iniciou-se ainda no tempo das rádios piratas, chamava-se então Rádio Piranha.
A Rádio Pernes nasceu a partir de um grupo de amigos que nos anos 60 fazia espectáculos de luz e de som, crescendo como uma empresa familiar.
Em termos museológicos, são vários os espaços existentes na cidade. O Núcleo Museológico de Artes e Arqueologia Medievais está instalado na igreja de S. João de Alporão. É o primeiro núcleo museológico do Museu Municipal de Santarém. O edifício, um daqueles que ostenta mais tradições, foi remodelado em 1876 para a instalação do espaço museológico e inaugurado treze anos depois. Algumas das mais valiosas peças de tumularia estão aqui expostas, bem como peças arqueológicas de grande importância (das quais se salientam duas aras romanas e um relógio de sol). Em relação aos túmulos, o de D. Duarte de Meneses, os dos conselheiros do rei D. João I e a arca tumular de D. Afonso de Portugal são os mais importantes.
A Casa-Museu Braamcamp Freire ocupa o piso nobre do edifício que pertenceu àquele historiador e que hoje está ocupado com a Biblioteca Municipal. A sua colecção foi constituída através do legado do primitivo proprietário. Dos vários objectos expostos, destaquem-se algumas peças de mobiliário, como um cadeirão de canto de tipo inglês do século XVIII e um armário almofadado e entalhado com a data de 1644; peças de cerâmica, caso de um serviço de porcelanas da China e artigos da Fábrica Bordalo Pinheiro; pinturas; e livros e manuscritos raríssimos, onde se incluem o erroneamente chamado foral de D. Fernando (1369) e o foral de D. Manuel I (1506).
O Museu Ferroviário – Núcleo Museológico dos Caminhos-de-Ferro, localizado na freguesia de Santa Iria da Ribeira de Santarém, encontra-se na estação da CP, na velha cocheira de carruagens. Considerado um dos mais importantes do país, foi inaugurado em 5 de Outubro de 1979 por iniciativa de Armando Ginestal Machado. Da colecção exposta ao público, saliente-se um conjunto de locomotivas, carruagens e salões-carruagem, tanto da linha do norte e do leste como da história da circulação ferroviária em Santarém. O salão Maria Pia (1858), a locomotiva D. Luís (1862), a primeira a chegar a Santarém (1862), o salão do Príncipe (1877), a locomotiva das minas do Pejão e o salão presidencial são algumas das jóias deste núcleo.
O espólio do museu integra ainda utensílios usados na reparação e conservação da via férrea, nomeadamente ferramentas e veículos para inspecção da mesma, caso de um quadriciclo a pedal, um quadriciclo motorizado e uma dresine de inspecção; faróis, lanternas, telefones, marcadeiras de bilhetes, aparelhos instalados nas locomotivas e outros. O equipamento móvel encontra-se assente em via larga, linha algaliada e via reduzida de minas.
«A secção museológica da CP de Santarém afirma-se como um museu de sítio, tanto através do património construído para uma função específica da actividade ferroviária, como pela natureza da sua colecção, ligada à história da empresa e da sua actividade no âmbito da circulação e transporte. A história e o património ferroviário que nele se expõe (numa arrumação sem projecto museográfico coerente), todavia, extravasa o mero conceito de local de interesse ferroviário, para constituir um núcleo central, regional e inter-regional da explicação da história dos caminhos de ferro em Portugal.» (Jorge Custódio)
Existe ainda o Núcleo Museológico do Tempo, na Torre das Cabaças, e o Museu Salgueiro Maia, na Escola Prática de Cavalaria, o mítico local de onde, como já vimos, partiu a revolução do 25 de Abril.
Uma galeria de arte (na rua 15 de Dezembro), dois cinemas e três teatros completam a oferta cultural existente na cidade.
Para além do que existe em boas condições, e para que um vasto património edificado não se perca definitivamente, como já aconteceu no passado, é vital que se restaure e se reconstrua. A exemplo do que se faz na Europa civilizada – salva-se o que já existe antes de construir mais.
É o caso, apenas para dar dois exemplos, do mosteiro de Almoster e das muralhas e barreiras de Santarém. O projecto de valorização e requalificação urbana de Santarém, integrado no programa POLIS, será um suporte fundamental para a concretização das mais diversas iniciativas ligadas à recuperação patrimonial.
No desporto, uma palavra importante para as modalidades ligadas à água. Porque, neste sector, o concelho está muito bem servido. O complexo aquático municipal de Santarém, sediado na freguesia de Salvador, abriu ao público no ano de 2002. É composto pelas piscinas descobertas (piscina de forma livre, escorregas e piscina de ondas) e pelas piscinas cobertas (piscina de 25 metros, tanque de aprendizagem e tanque de iniciação). Funciona neste complexo a Escola Municipal de Natação, com as seguintes modalidades: natação, hidroginástica/pré e pós-parto, pólo aquático e natação desportiva e deepwater.
Em Marvila, as piscinas municipais do Sacapeito, construídas em 1977, completam a oferta municipal no que toca à natação. Dispõe das modalidades de natação, manutenção, hidroginástica (pré e pós-parto) e natação desportiva. As actividades realizam-se numa piscina interior com 25 metros e num tanque de aprendizagem.
O complexo desportivo municipal de Santarém será uma realidade em breve. Prioritária é também a construção de pavilhões desportivos nas freguesias de Alcanede e de Pernes e na Escola E B 2/3 Mem Ramires, na cidade.
A ecologia é outro dos sectores que, em grande parte, se destina aos mais novos. São eles, os pequenos, que aprendem desde cedo, na escola e não só, a valorizar as questões do ambiente de da reciclagem.
Obviamente que Santarém não poderá fazer tudo so

zinho, mas desde que cumpra o seu papel, então poderá dizer que cumpriu as suas obrigações. Neste sentido, todas as campanhas que se realizem são óptimas oportunidades de sensibilização da população para uma realidade que até há muito pouco tempo lhe passou ao lado, sobretudo das camadas etárias mais idosas. Se as crianças desde muito cedo tomam contacto, na escola, com estes assuntos, como anteriormente se disse, o mesmo já não acontece, por exemplo, com a geração dos seus pais. É o caso do projecto «Ocupação dos tempos livres no ambiente», iniciativa organizada pela Câmara Municipal em conjunto com os alunos da Escola Superior de Educação de Santarém; e do projecto «Descobrir a Compostagem», que visa estudar o processo de valorização orgânica e o aproveitamento de todos os resíduos daquele género para posterior utilização na adubação das terras.
A existência de Ecopontos um pouco por todo o concelho, para a deposição de materiais recicláveis, desde o vidro ao papel, passando pelo plástico e pelo metal, é uma infra-estrutura à qual, cada vez mais, os tomarenses aderem de forma lenta mas tendencialmente generalizada. O mesmo se dirá, em termos de importância, da recolha de «monstros» que a Câmara leva a cabo regularmente.
No que concerne à recolha de resíduos urbanos e do destino final dos lixos domésticos e industriais, Santarém está integrado no Sistema Intermunicipal da Resitejo desde Abril de 1998. A Resitejo – Associação de Gestão e Tratamento dos lixos do Médio Tejo – é uma associação de dez concelhos do Médio e Lezíria do Tejo. Para além de Santarém, conta com a participação de Alcanena, Torres Novas, Entroncamento, Chamusca, Golegã, Constância, Vila Nova da Barquinha, Ferreira do Zêzere e Tomar.
Após a adesão ao Sistema Intermunicipal da Resitejo, os resíduos urbanos sólidos não valorizáveis deixaram de ser depositados em lixeiras e passaram a ser tratados na estação de transferência, sendo encaminhados para o seu destino final, o aterro Sanitário. Aqueles que podem voltar a ser aproveitados são encaminhados para reciclagem. A estação de transferência fica situada na zona industrial de Santarém, junto ao estaleiro municipal.

Contos proibidos: Memórias de um PS Desconhecido

«Para além da ausência de regras que permitam, pela via individual, o acesso do cidadão à actividade política, não existem regras idóneas de financiamento dos partidos nem de transparência para os políticos. Um pouco à semelhança dos «pilares morais» do regime, a Maçonaria e a Opus Dei, tudo se decide às escondidas, como se o direito dos cidadãos à informação completa e rigorosa de como são financiadas as suas instituições e dos rendimentos dos seus governantes e dos seus magistrados se tratasse de algo grave, de algo subversivo.» (Rui Mateus)
O José Freitas referiu-se aqui aos «Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido», livro de Rui Mateus que abordava, em 1996, as ligações perigosas de Mário Soares e o caso Emaudio. O livro, que vendeu 30 mil exemplares no dia em que saiu a público, esgotou e não mais foi publicado. O autor encontra-se em paradeiro incerto. Joaquim Vieira abordou as principais acusações da obra na «Grande Reportagem» e foi despedido.
Num «post» anterior, no Aventar e no «5 Dias», já abordei algumas dessas acusações. A 30 de Janeiro de 2008, interpelei a D. Quixote acerca da não-reedição do livro. Obtive a seguinte resposta:
«Exmo Senhor
Vimos pelo meio informar de que o livro “Contos Proibidos” se encontra esgotado e não temos de momento previsão de reedição.
Grata pela atenção dispensada.
Com os melhores cumprimentos.
Anabela Oliveira»

Embuído do seu dever de levar a cabo uma política editorial de serviço público, o Aventar passa a publicar, a partir de hoje, alguns excertos da obra maldita de Rui Mateus, os «Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido». Para que as suas acusações, hoje que temos um primeiro-ministro suspeito de corrupção passiva, não caiam no esquecimento e para que, um dia, se venha finalmente a saber a verdade.

via Ferrão

«Há anos atrás, conheci em Washington um jovem economista de reconhecido talento que fazia parte da equipa do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Naquela época, o chamado fenómeno dos yuppies atravessava a sua fase dourada e David Stockman,com trinta e quatro anos de idade, era já apontado como um dos jovens políticos mais promissores do seu país. Com apenas vinte e oito anos, tinha sido pela primeira vez eleito congressista pelo estado de Michigan. O presidente nomeara-o director de «Management and Budget», o equivalente a ministro do Planeamento. Tinha o futuro à sua frente. Quatro anos depois, desiludido com a hipocrisia e o tráfico de influências que caracterizavam a vida política,a todos surpreenderia abandonando-a para escrever O Triunfo da Política.

É um livro surpreendente, que revela a falta de transparência da vida político-partidária e acusa o parasitismo daqueles que passam a vida a apregoar que estão na política por patriotismo e com sacrifício pessoal, pois poderiam estar muito melhor se se tivessem dedicado a actividades do sector privado – mesmo quando se sabe que, antes de entrarem na política, não tinham obra nem dinheiro. Num país em que as autoridades, os media e o público exercem um controlo rigoroso sobre o rendimento e financiamento dos políticos e sobre as suas actividades políticas e privadas, como é o caso dos Estados Unidos, que se regem por códigos de transparência acima de qualquer suspeita, David Stockman revelou a subtileza de meios que, mesmo assim, permitem o compadrio e o tráfico de influências no dia a dia dapolítica americana.

Em Portugal, neste pequeno país periférico, diminuído pela indigência e obscurecido pela opacidade, ensaia-se um sistema político-partidário moldado pelo Partido Socialista, onde só duas décadas após o restabelecimento da democracia se começa a discutir o tráfico de influências, a transparência e, enfim, o cidadão. Discussão envolvida em tanta hipocrisia e por métodos tão falaciosos que poderemos considerar que o nosso país, neste capítulo, se encontra num espaço cultural de transição entre o fascismo e um «estado de juízes», que não vislumbra um regime de verdadeiro controlo e legitimação democrática das instituições.

O «triunfo da política» e dos seus principais protagonistas, exactamente pelo modo como foi construído o regime após o 25 de Abril, começa a revelar perigosos sintomas de erosão da credibilidade das instituições, evidenciados pela crescente descrença popular. A democracia portuguesa, no actual contexto ocidental, embora irreversível na sua aparência formal, resvala perigosamente para «um corpo de funcionários sem legitimação democrática directa ou indirecta, como é, entre nós, o corpo de magistrados», que é dominado «por certas correntes que professam uma concepção militante, radical e fundamentalista da magistratura, a qual, geralmente aliada ao protagonismo político de alguns, tem subjacente uma cultura de intervenção, quando não de contrapoder e confronto com os órgãos de soberania político-representativos» . À semelhança do que acontece em Itália, berço do pensamento e acção fascistas que assolariam a Europa nos anos 30, também hoje é legítimo perguntar se o «governo dos juízes» que tem vindo a devastar aquele país, não estará a ser aproveitado para fins políticos também em Portugal, onde o protagonismo de alguns juízes, recentemente convertidos à democracia, tem feito impunemente os seus progressos perante uma cada vez mais amedrontada «classe política».

Não me tendo ocorrido escrever um livro antes, daria oportunidade, em 1990, a um semanário lisboeta que prometia desvendar mistérios através de um respeitável jornalismo de investigação, de se ocupar da difícil e ingrata tarefa de «investigar» o estado da Nação em matéria de compadrio e tráfico de influências. Lamentavelmente, o resultado não passaria de uma pusilâmine caça às bruxas e da reprodução de reles «fugas» de indisfarçável apologia fascista, bem inseri das numa estratégia, que, a vencer, conduzirá, inevitavelmente, ao «estado dos juízes». Tratou-se do chamado «fax de Macau» e da cegueira com que o processo, a todos os níveis, seria conduzido. Numa total inversão de papéis e segundo uma ética dificilmente digerível, a própria jornalista de investigação» se revelaria jornalista-testemunha» empenhada, através da mentira e do perjúrio, em crucificar as suas «fontes», ajudando a cruzada da magistratura.

Santarém, Capital do Gótico (XI)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

SANTARÉM E O 25 DE ABRIL: DAQUI PARTIU A REVOLUÇÃO

Santarém foi palco de dois acontecimentos importantíssimos na história do Portugal da segunda metade do século XX. Em 1958, a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República, que abalou os alicerces do regime ditatorial de Salazar, teve um momento alto na cidade, aquando da presença do General Sem Medo, em plena campanha eleitoral, e durante os comícios que se seguiram.
Em 1974, o 25 de Abril culmina um processo marcado por longos anos de esperanças sem efeito. Tudo aquilo que se esboçara em 1958, mas sem sucesso, tinha agora efectiva concretização. De Santarém partiu a revolução, no dia em que o capitão Salgueiro Maia liderou os seus homens em direcção a Lisboa. O dia de todos os sonhos foi com toda a certeza o mais belo de quantos se viveram em Portugal na centúria ora terminada. Não terá oportunidade de exercer a cidadania plena quem não viveu aquele dia. E Santarém pode estar agradecido, ao seu herói, por ter colocado a cidade na história dos anos de Vinte.
Logo nos inícios do século, o prenúncio do que viria a acontecer. Por ter sido sede do movimento revolucionário contra Sidónio Pais, a partir de Janeiro de 1919, Santarém foi contemplada com o título de Oficial da Ordem de Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito. No mesmo dia, a par de Santarém, Porto, Coimbra, Évora e Bragança receberam o mesmo título, enquanto que Alcobaça e Caldas da Rainha, por serem apenas vila, foram condecoradas com o grau de cavaleiros da Torre e Espada.

«Obviamente, demito-o!»

A notícia da passagem de Humberto Delgado por Santarém, em 1958, na campanha para a presidência da República, rapidamente se espalhou por toda a região – folhetos clandestinos, autocolantes e mensagens boca a boca comunicavam a todos a presença do General Sem Medo.
O dia histórico aconteceu em 30 de Maio. Pelas onze horas da manhã, já uma multidão convergia para o largo do Seminário. Nem uma palavra, porque as paredes tinham ouvidos; alguns olhares furtivos, que a PIDE estava em todo o lado; sorrisos cúmplices, porque o fim do regime estava aí, à distância de um voto.
Uma fantochada, essas eleições. Sabia-se que não seria de outra forma, mas havia a tal oportunidade. A «luz ao fundo do túnel», frase feita mas RETOMAda em todas as ocasiões. As palavras do General, ditas sem medo, a ressoar em esperançosos ouvidos: «Obviamente, demito-o!»
Obviamente, não iria demiti-lo, porque não lhe iria ser dada a oportunidade para tal. Ganhou as eleições, mas ganhando-as, perdeu-as. Como sempre, o candidato do regime venceu, a «paz podre» do Estado Novo continuou e as sombras, ao virar de uma esquina, por trás de uma parede, dentro da própria empresa, ali se mantiveram. Silenciosas como sempre, traidoras, traiçoeiras, inquietantes.
Pouco depois do meio-dia, chega Humberto Delgado junto à igreja da Piedade. Quando alcança a estátua de Sá da Bandeira, diz: «Saúdo este Homem, também ele amante da liberdade, que sempre lutou pela liberdade, e merece toda a nossa admiração». Esfusiante, o povo aplaudiu. Sempre, todos os dias e até ao fim da campanha. Em Santarém, no Porto (se calhar o maior ajuntamento de pessoas antes do 25 de Abril) e em todos os lugares por onde o General passou.
«Uma estrondosa salva de palmas ecoou então subitamente. A esperança renascera em todos os corações. Havia lágrimas em alguns olhos. Era já difícil calar o entusiasmo de uma população galvanizada pela presença do General, que com a sua coragem fez abalar os alicerces já um tanto apodrecidos do velho regime. Martinho do Rosário que, como eu, presenciou este grandioso evento, dirá: «Para Santarém, o dia 30 de Maio de 1958 e o dia 25 de Abril de 1974 são dois marcos imperecíveis no arranque para a consolidação da democracia». Este terá sido um dos momentos mais inesquecíveis de entre os vários que ocupam lugar de destaque na minha memória. Passaram quarenta anos sobre este acontecimento… e não saberei mesmo como relacionar a presença furtiva de Rosa Casaco, alguns anos depois, numa das ruas de Santarém, com os acontecimentos que levaram ao homicídio covarde e monstruoso do General, em 1965.» (Luís Eugénio Ferreira)
Quatro dias depois da presença do General em Santarém, a 4 de Junho, no teatro Rosa Damasceno, uma espécie de comício eleitoral propagandeava as virtudes da candidatura de Humberto Delgado. Fachada «para inglês ver», que é como quem diz, para a opinião pública internacional. À porta, dois agentes da PIDE tomavam nota de quem entrava.
Chegadas as eleições, Américo Tomás vence com mais de 75% dos votos. Oficialmente, Humberto Delgado tem apenas 23%, o que nos faz pensar que, sem fraudes nem as «manigâncias» de que tanto se falou na época, as posições dos candidatos teriam sido exactamente inversas.
Em Santarém, por exemplo, Delgado venceu em todas as vilas significativas, em certos casos por percentagens esmagadoras. O mesmo aconteceu em grande parte do distrito. Alpiarça é o caso extremo, onde Delgado obteve 83 por cento dos votos contra 17 por cento para Tomás. Em Almeirim as percentagens foram, respectivamente, 77,9 contra 22,1 a favor de Delgado e em Alcanena não estiveram longe: 72,4 por cento contra 27,6. Mesmo em Rio Maior, onde o equilíbrio foi maior, Delgado venceu por 51,2 contra 48,8 por cento.
Depois dos dias quentes de 58, pouco coisa mudou em Portugal. Veio a Guerra Colonial, chegou finalmente a morte de Salazar, faltava agora acabar com o bacoco regime. Só com a força das armas é que tal seria possível. E foi aí, a 25 de Abril de 1974, que Santarém entrou de novo em acção.

Sementes de revolta

O velho teatro Taborda, que abrira ao público nos anos 40, foi um dos espaços que funcionou, em Santarém, como local de movimentações políticas e de revoltas contra o regime do Estado Novo.
Assim aconteceu desde a década de 60, mas há muito que se tinha tornado num importante centro cultural da cidade. Aí estivera sedeado o Clube Literário Guilherme de Azevedo, que promovia conferências e exposições e albergava no seu seio o Coral Infantil Scalabitano e o Grupo Coral Infantil. Aí esteve também, mais tarde, o Círculo Cultural Scalabitano, que tinha como figura de proa Ginestal Machado.
Nos anos 60, como já se disse, passou a funcionar como centro dos opositores ao regime. Adriano Correia de Oliveira e Carlos Paredes, ambos já desaparecidos, eram dois dos nomes que actuavam na sala com a sua música de intervenção, que lentamente ia abalando as estruturas do Estado Novo e as convicções de quem ainda acreditava naquele estado de coisas.
Os cafés também eram espaços onde as sementes de revolta germinavam. O «Quinzena», o «Portugal», o «Brasileira» ou o inevitável «Central». Neste, a reunião dos democratas era mais ou menos declarada, embora sempre com mil cuidados, pois o mínimo pretexto poderia servir os intentos da PIDE. Ali se passaram episódios mais ou menos importantes, que invariavelmente tinham como protagonistas advogados ou funcionários conotados com a oposição. Mas como o café também era poiso de autarcas e abastados membros da sociedade, uns acabam por vigiar os outros e, por isso mesmo, o recinto acabava por servir apenas como ponto de encontro para outras aventuras.
«Nessa tarde, ao entrar no «Central», deparei com dois indivíduos com aspecto de jornalistas, ponto de vista apoiado pela presença de algumas câmaras fotográficas colocadas a seu lado. Pensei: «Aí estão os jornalistas que se encontrarão com Eurico Ferreira. Naturalmente dirigi-me a eles e perguntei: Os senhores são os enviado
s
do «Le Monde» que vêm encontrar-se com o Dr. Eurico Ferreira?
Não me deixaram terminar a pergunta, nem começar outra. Um deles respondeu-nos com um certo enfado.
– Como sabe o senhor que somos jornalistas, ou com quem vamos encontrar-nos?
Achei inútil prosseguirmos o diálogo, que nem sequer se chegou a estabelecer. Concluindo que nada mais tiraria deles, despedi-me, desejando-lhes uma boa viagem. Ao fim da tarde, pelas 19.30 horas, compareci em casa do Dr. Eurico Ferreira que na circunstância me apresentou os aguardados dois jornalistas franceses, que não exactamente por mera coincidência, eram mesmo os dois referidos senhores que eu encontrara horas antes no café Central. Rimo-nos do facto, não sem me explicarem que acabavam de chegar de visita a algumas ditaduras da América do Sul, estando por isso familiarizados com os procedimentos policiais seguidos nesses regimes, em que todo o cuidado era exigido da sua parte. Portugal era então reconhecidamente uma república das bananas. Em Santarém, entrevistariam o bispo residente, o governador civil e por fim, o comandante da Escola Prática, só não lhes tendo sido possível antever que seria daquele quartel que alguns anos mais tarde iria nascer o 25 de Abril e renascer Portugal para o futuro.» (Luís Eugénio Ferreira)

A Ginjinha do Rossio

Tenho a certeza que há aqui muita gente que percebeu que o meu texto ” Ó Carolina arredonda a saia…” tem a ver com a ginjinha nada com patrocínios…

Até porque está ali há quase um século e faz parte do Rossio, não precisa que se fale dela, impõe-se pelo seu carisma, até lá tem uma história (escrito como o Loures ensinou) da sua criação com mosteiros e monges à mistura como não podia deixar de ser estando como está em lugar tão especial.

Eu tenho que voltar sempre ao Rossio, à Igreja de S. Domingos onde se diziam as missas e se preparavam os desgraçados para a fogueira, o Palácio da Independencia com o traidor ainda dependurado na varanda, o Teatro D. Maria II onde estavam os calaboiços da Santa Inquisição e, antes disso, as cavalariças reais, o que não deixa de ser bem demonstrativo das hierarquias da época.

As portas de Santo Antão onde terminava a cidade ainda hoje fervilham “de muitas e desvairadas gentes” como no tempo de Luis de Camões e, ali perto, o Paço do Tronco onde o “mais português dos portugueses” esteve acorrentado por andar à espadeirada (decerto por alguma dama).

Logo ali a Praça da Figueira assente no leito seco de duas ribeiras que descem a Av Almirante Reis e a Av. da Liberdade, e nos escombros de um dos primeiros edificios do mundo a ser construído para acolher doentes,o Hospital de Todos- os- Santos, hoje o S. José e que vai voltar a ser de Todos -os-Santos agora na ribeira de Chelas . Tudo a desaguar no Largo do Rossio onde a multidão crente e religiosa se juntava para ver assar os seus semelhantes.

E, quando a mesma emoção de sempre, começa a subir-me pela garganta ( não sei porquê mas é o único lugar onde sinto que faço parte de uma caminhada com sentido)a ginja (pequeno, o copo) apazigua-me a ansiedade, a angústia que comecei a identificar quando li Cesário verde, ” uma incompreensível vontade de morrer ” ver o fim da tarde de Lisboa, a pressa das pessoas para voltarem para suas casa sem nada verem, o voltar as costa a um sítio que nunca mais verei da mesma forma, mesmo que lá volte todos os dias.

…e os ranchos de jovens raparigas, que voltam ao sol- pôr a cantar, levai-me para o meu doce lar…” chorava o Cesário Verde, o poeta de Lisboa, a despedir-se da gente e da cidade que amava, adivinhando que íria partir tão cedo. Quando voltar costas, já com a ginja para o caminho, percebo que é só o que posso levar comigo, manter por mais tempo aquela mágoa que se apodera de mim, a nostalgia do que há-de vir sem refúgios.

O ritual da ginja e do caroço faz parte de um lugar cheio de história, de alma, não é coisa que não se queira ou que se deite fora, assim com as graínhas da fruta.

Santarém, Capital do Gótico (X)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

A elevação a cidade

A elevação a cidade, referendada por Sá da Bandeira no dia de natal do ano de 1868, representou o culminar de um longo período de desenvolvimento da vila. Um desenvolvimento que se prolongava já desde a época medieval, como o provam os contínuos favores de sucessivos monarcas. A carta régia que consagrou o título da cidade, de resto, traçava em algumas linhas toda a história da notável vila ao longo dos séculos.
«Atendendo a que, ilustre por sua remotíssima antiguidade e memórias nobilíssimas, veneranda pela primazia que lhe anda autenticada pela história, já como colónia militar, a que Júlio César deu o seu nome, já como convento jurídico, ou cabeça de uma das três grandes circunscrições judiciais, instituídas pelo imperador Augusto na Lusitânia, já como sede de governo e residência real, nos primeiros séculos da monarquia portuguesa, é a muito nobre vila de Santarém uma das insigníssimas povoações do reino;
Atendendo mais a que, desde 1273 até 1478, doze vezes foram no seu recinto convocadas e celebradas as antigas cortes;
Atendendo outrossim à importância da sua posição, à fertilidade do seu território, aos gloriosos brasões do seu passado, em todos os tempos, às numerosas provas de patriotismo dadas pelos seus habitantes em diversas épocas;
Considerando finalmente que, por todas as referidas condições e demais predicamentos bem conhecidos, é esta povoação inteiramente digna de subir em preeminência, não lhe faltando elementos para sustentar a correspondente dignidade;
Hei por bem fazer mercê à dita vila de Santarém, de a elevar à categoria de cidade, com a denominação de cidade de Santarém, e me praz que nesta qualidade goze de todas as prerrogativas, liberdades e franquias que direitamente lhe pertencem: devendo expedir-se à câmara municipal respectiva a carta competente, em dois exemplares, um para título daquela corporação, outro para ser depositado no real arquivo da Torre do Tombo.»
Foi um momento, o da elevação a cidade, que culminou um processo de profunda reorganização administrativa, em Santarém e em Portugal, iniciado em 1836 e continuado em 1853, 1855, 1895 e 1898. Na primeira daquelas datas, 1836, foram extintos mais de quatrocentos concelhos, fruto de privilégios do passado e da época em que ainda tinham alguma importância, e criados cerca de cem, maiores e mais aptos a corresponder às novas necessidades do liberalismo.
A par disso, surgem os distritos e Santarém vai ser a sede de um deles, de grande âmbito geográfico e que se estende às duas margens do rio Tejo. Das fronteiras de Castelo Branco às portas de Lisboa, eis os seus limites. Uma honra para Santarém, que viu posteriormente o título ser disputado por Tomar, e que provou que os velhos pergaminhos do passado não tinham sido esquecidos.
Um momento que vai trazer consigo alguns outros de igual importância e que não passam, afinal, de consequências do primeiro: a criação de um palácio do governo; a captação de delegações e serviços do Estado; e a construção de uma estrada rodoviária entre Peniche e Évora a passar pela Ribeira de Santarém.
Mas as alterações administrativas no concelho de Santarém não vão ficar por aqui. São alterações que começaram ainda antes, no século XVIII, e que depois se prolongariam pelo século XX. Quando os anos de Setecentos começaram, constituíam o município vinte e cinco freguesias: Abitureiras, Achete, Alcanhões, Azinhaga, Alpiarça, Almoster, Azoia de Baixo, Azoia de Cima, Cartaxo, Casével, Pinheiro, Pombal, Póvoa dos Galegos, Raposa, Ribeira de Pernes, Rio Maior, S. Pedro de Arrifana, S. João da Ribeira, Valada, Vale, Vale de Cavalos, Vale de Figueira, Vale da Pinta, Vaqueiros e Várzea.
Num primeiro relance sobre o panorama nessa época, em relação à actualidade, constatamos de imediato que Azinhaga, Alpiarça, Cartaxo, Pinheiro, Raposa, Ribeira de Pernes, Rio Maior, S. Pedro de Arrifana, S. João da Ribeira, Valada, Vale de Cavalos e Vale da Pinta não pertencem ao concelho.
Cartaxo, Rio Maior e Alpiarça viriam mesmo a constituir concelho próprio, em 1815, 1836 e 1914. Azinhaga passou para o concelho da Golegã; Raposa para o de Almeirim; Valada e Vale da Pinta para o do Cartaxo; Pinheiro e Vale de Cavalos para o da Chamusca; Cortiçada e S. João da Ribeira para o de Rio Maior.
Por outro lado, Póvoa dos Galegos mudou o seu nome para Póvoa de Santarém; Pombal passou a chamar-se Pombalinho; e Vale, Vale de Santarém.
Constata-se também que existem actualmente várias freguesias no concelho que, por esta época de grandes reorganizações administrativas, estavam integradas noutros municípios. Abrã, Alcanede, Arneiro das Milhariças e Pernes estavam nos concelhos de Alcanede e Pernes, que viriam a ser extintos. Não existia ainda a freguesia de Moçarria, que foi desmembrada da freguesia de Abitureiras; Póvoa da Isenta, que saiu do termo de Almoster; e Amiais de Baixo do de Malhou.

Economia e urbanismo: As grandes obras públicas

A segunda metade do século XIX vai marcar o início da modernidade para a vila de Santarém. Ao mesmo tempo, é criada uma série de infra-estruturas fundamentais a nível de transportes e comunicações, caso da via férrea e da ponte sobre o Tejo; e a nível social, cultural e urbanístico.
Assim aconteceu em todo a cidade. Mesmo a zona ribeirinha de Alfange, que vinha a definhar continuamente há alguns anos, devido à forma como fora separada do rio pelo comboio, ganhou um novo fôlego com a instalação na sua área, em 1891, da fábrica e gasómetro da Companhia de Iluminação e Gás de Santarém.
«Surgem então as modernas instituições da urbe: as escolas públicas e o Liceu Nacional, o Museu Distrital, a Biblioteca Municipal, o Teatro, a Praça de Touros, o moderno abastecimento de água a vapor, a Penitenciária Distrital, os jardins românticos, o matadouro municipal e as primeiras agências bancárias. A chegada do caminho-de- ferro, em 1861, a linha de caminho-de-ferro do leste e do norte, a abertura de estradas macadamizadas e a construção da ponte D. Luís I conferem uma nova fisionomia à cidade, integrando-a nas novas correntes urbanas e criando uma primeira vaga de interesse turístico na cidade, que pode documentar-se a partir da inauguração da linha ferroviária. O abastecimento de água iniciara-se em 1876, a introdução do gás de iluminação em 1892. Uns anos depois, será a vez da energia eléctrica.» (Catarina Viegas)
Na economia santarena oitocentista, notou-se sempre uma grande relação entre agricultura e indústria. Mesmo que as unidades fabris de grande dimensão não tenham penetrado no concelho com a dimensão com que o fizeram noutras localidades próximas, houve algumas de pequena e média grandeza que foram criadas e que tinham como sector de actividade a produção de vinhos, a moagem de cereais e a produção de estrumes, já não tanto o azeite. Daí a ligação ao sector primário a que se aludiu anteriormente.
Para além destas, iniciaram a sua laboração nesta época pequenas fábricas de bolachas e doces, de fermentação, de sabões e oficinas de fundição e serralharia de metais. A indústria de curtumes vai renascer em finais do século.
O grande crescimento económico obtido por Santarém no século XX tem as suas raízes mais imediatas no século XIX. A densificação da cidade, a construção de algumas obras de grande envergadura e a mudança da utilização de muitos dos edifícios existentes alteraram de alguma forma a face de Santarém, embora o respeito pela sua estrutura urbana tradicional tenha existido sempre.
Em termos urbanísticos, no século XIX surge um novo conceito de cidade – a cidade aberta. Vai ser a época das grandes destruições – desaparecem troços de muralhas, torres e
p
ortas, altera-se profundamente Alfange e Ribeira de Santarém para a construção da linha do caminho-de-ferro, desaparece a importância estratégica do rio e do monte.
Com o objectivo de desenvolver a totalidade do país, e não só o litoral, Costa Cabral projectara uma linha férrea que atingisse a fronteira espanhola. Nesse sentido, encarregou a Companhia de Obras Públicas de Portugal de desenvolver o projecto e de terminá-lo em dez anos.
A história da linha do norte, na qual a estação de Santarém se integra, começa em 1852. Nesse ano, a 30 de Agosto, um decreto governamental autoriza a construção daquela linha. A ideia era construir inicialmente a linha de Lisboa a Santarém e daí até à fronteira (linha do Leste) e até ao Porto (linha do Norte).
A 28 de Setembro de 1856, é inaugurado o primeiro troço da linha férrea, entre Lisboa e o Carregado. Dois anos depois, já se podia despachar mercadorias para Lisboa a partir da estação de Santarém. Em 1861, no primeiro dia do mês de Julho, a locomotiva Portugal, a mesma que fizera a ligação de Lisboa a Carregado, e a carruagem D. Luis chegam a Santarém pela primeira vez, momento que foi celebrado com grande regozijo.
Quanto à localização escolhida para a estação, após anos de estudos e discussões, acabou por ser extremamente negativa para o bairro ribeirinho de Alfange, que ficou separada do rio pela via férrea, e para a Ribeira de Santarém, cujo tecido urbano ficou totalmente esventrado e dividido a meio.
Um processo que não foi pacífico e que incluiu muitos estudos e a intervenção dos mais variados técnicos. Rumball, engenheiro encarregado de estudar essa primeira linha, apresentara um projecto em que a estação de Santarém ficava na Junqueira, a cerca de um quilómetro da vila. João Crisóstomo de Abreu e Sousa e Joaquim Tomás Lobo d’Ávila, chamados para avaliar o trabalho daquele engenheiro, propuseram uma outra solução, em que a estação, depois de cortar a calçada no lugar da Carne Coita, ficaria apenas a quinhentos metros do centro da povoação. A solução definitiva foi aquela que se sabe.
Outra das questões era a passagem da linha a norte ou a sul de Santarém. A Companhia das Obras Públicas de Portugal apresentara dois projectos. Um deles passava ao norte de Santarém, o outro ao sul, indo ambos convergir, após doze quilómetros de traçado, perto de Vale de Figueira. Após muitos estudos, foi decidido que a solução de fazer passar a linha pelo sul apresentava mais vantagens. Porque os declives, a altura dos aterros e as trincheiras eram menores; porque a estação ficaria mais perto da cidade e mais próxima do rio; porque os custos seriam menores.
No que diz respeito ao edifício da estação, o projecto de 1870 aliava ao edifício principal uma cocheira para carruagens. Só em 1925, no entanto, é que aquela começa a adquirir a sua feição actual, graças a um projecto de Perfeito de Magalhães. A construção viria a ficar concluída dois anos depois, com a colocação, na fachada virada para as linhas e ao nível do piso do primeiro andar, de dezoito painéis de azulejos policromos com temática local (touros, campinos, cenas agrícolas e conquista de Santarém aos mouros), realizados pela fábrica Aleluia a partir de desenhos de J. Oliveira.
Da antiga estação, ficaram então apenas as paredes exteriores. Para além de todas as transformações utilitárias, que tiveram como objectivo responder ao aumento da circulação e da procura, houve também preocupações estéticas, tendentes a transformar Santarém num dos locais de maior interesse ferroviário da linha do norte.
O edifício principal da estação, mais harmonioso, é composto por três corpos geminados, o central de dois pisos e os laterais de dois pisos com sótão amansardado. Fachada posterior virada para o cais, piso térreo resguardado por alpendre em ferro, assente em colunas toscanas. Nos vãos entre as portas, os tais painéis de azulejos.
A antiga cocheira das carruagens, hoje transformada em núcleo museológico, é um edifício de planta rectangular, coberto por telhado de quatro águas, cuja fachada principal é de vários panos divididos por pilastras. A multiplicidade estilística revela-se na coexistência entre a estética tradicional da casa portuguesa e os elementos neo-árabes e neo-barrocos presentes em alguns pormenores decorativos.
A localização da estação provocou o aparecimento de novas estradas macadamizadas, como a estrada da Estação, a ligação a Rio Maior por Vale de Estacas, a viabilização da estrada Ribeira de Santarém / Alcanhões e do antigo caminho das Assacaias. A estrada principal, aquela que ligava ao planalto urbano, foi iniciada em 1877 e estabeleceu também uma ligação viária à ponte que em breve atravessaria o Tejo.
Em 17 de Setembro de 1881, era inaugurada precisamente a ponte D. Luís I, que tinha como objectivo a ligação rodoviária entre Santarém e Almeirim. Uma obra que durou quatro anos e que se tornou um dos símbolos das pontes metálicas erguidas em finais do século XIX por todo o país. Era na altura a terceira maior ponte da Europa e a sexta maior do mundo.
As características do rio Tejo, sem grandes vãos nem desníveis, determinou que a ponte fosse do tipo «passerele», como já fora experimentado há mais de trinta anos em França. O contraste entre a alvenaria de pedra e o ferro resulta numa composição de grande significado artístico. As inovações tecnológicas usadas na sua construção incluíram o uso de caixões de ar comprimido, a construção das fundações dos pilares de alvenaria de pedra, a descoberta do método de contravenção em terrenos de aluvião. Foi modernizada na década de 50 do século XX sob a direcção do engenheiro Edgar Cardoso. Na sua época, foi uma das mais extensas do mundo.
Apesar de todos os méritos – Vítor Serrão considera-a o elemento cenográfico mais importante que Santarém recebeu depois da elevação a cidade – a ponte D. Luís I foi responsável pela perda de importância do Tejo, pois agora as comunicações terrestres dispunham de infra-estruturas adequadas para as necessidades. Foram grandes obras de engenharia hidráulica, aquelas que decorreram junto ao rio e que, para além da construção da ponte, englobaram a regularização das margens do rio e a modificação do seu leito naquela zona.
Mas não foi essa a única razão da perda de importância do rio Tejo. Nem sequer a primeira. Repare-se que, logo em 1854, terminava definitivamente a carreira regular de barcos que ligava Lisboa a Santarém.
«Na transição da década de 40 para a década de 50, Santarém apresentava ainda grandes deficiências no que respeita às suas vias de comunicação. (…) A ponte, que fora obviamente planeada pensando no trânsito de tracção animal, estava longe de corresponder às novas necessidades impostas pela circulação automóvel em crescimento explosivo.
Faz parte da minha memória a solução precária então seguida para a tornar operacional. De facto, sendo apenas permitido um sentido alternado em via única, tornava-se necessário implantar uma pequena guarita na sua extremidade norte e outra no seu extremo do lado sul, onde dois guardas, interligados por telefone, iam accionando um pequeno semáforo que permitia ou interrompia a passagem alternadamente de acordo com as circunstâncias, o que, logicamente provocava longas e desesperantes filas de espera de um e de outro lado. Tratava-se obviamente de um sistema primitivo e em tudo desajustado às necessidades determinadas pela circulação. A sua modernização chegaria já nos anos 50, em que foi decidido transpor os passeios para o exterior do tabuleiro, assentando-os sobre esquadros suportados pelas longarinas e estreitando-os, de acordo com a redução óbvia da circulação pedonal, agora praticamente inexistente, com a consequente recuperação total dos 6,20 metros de tabuleiro útil.» (Luís Eugénio Ferreira)
Com os seus defeitos, via férrea e comboio foram ainda assim

duas infra-estruturas fundamentais que, para o bem e para o mal, revolucionaram a vida do concelho. Duas obras que podem ser integradas no fontismo. O desenvolvimento que então se alcançou, em Portugal e graças à acção de Fontes Pereira de Melo, passou por obras públicas da maior importância e pela oferta de uma maior qualidade de vida às populações.
Uma das grandes características do urbanismo oitocentista foi uma mais próxima comunicação entre os diferentes espaços da cidade. A ideia inerente a todo o processo foi dar a Santarém uma condição mais polivalente, que respondesse às novas necessidades de uma urbe em crescimento. Os bairros e vilas operárias, por exemplo, foram construídos no interior do planalto para as pessoas que trabalhavam nas fábricas locais. Já no século XX, a cidade expande-se para fora dos seus limites. Até 1950, são edificados os bairros de Trigoso/Combatentes e o de S. Bento, planeados segundo uma perspectiva de desenvolvimento urbanístico rigoroso.
«Durante o século XX, a urbe conhece o maior surto de construção da sua existência, devido à sua expansão e à aplicação de novas tecnologias e materiais de construção. Surgem os edifícios construídos com cimento armado, de paredes elevadas em tijolo furado, impondo-se pelo seu volume e altura, em ruptura com a arquitectura tradicional.
Os novos conceitos urbanísticos funcionalistas e a necessidade de se criar um ambiente urbano que satisfizesse as necessidades materiais e emocionais da sociedade, trazidos a Santarém pelos arquitectos-urbanistas (que neste século tiveram um papel preponderante no desenho da cidade), conduziram a propostas de novas tipologias habitacionais, a novas ligações espaciais, a novas linguagens arquitectónicas e a novos volumes, tendo em conta as unidades de composição urbanísticas aplicadas.» (José Augusto Rodrigues)

Santarém, Capital do Gótico (IX)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

A decadência

Vários factores estiveram na base da perda de influência de Santarém a partir do século XV. A construção do paço de Almeirim, em 1411, foi um deles. A partir daí, mesmo que os reis continuem a visitar a vila, para fazer despachos e tratar de assuntos da Chancelaria, a sua presença vai sendo cada vez mais rara. Vêm e logo se vão, para pernoitar do outro lado do Tejo.
Um trágico acontecimento, ocorrido em 1491, pode também explicar que, em parte, Santarém tenha deixado de ser objecto de tantas atenções e tantos privilégios da coroa a partir de finais do século XV.
Naquele ano, no dia 12 de Julho, morreu junto ao rio Tejo, em Alfange, o príncipe D. Afonso, filho primogénito de D. João II e futuro rei. Acidente trágico, provocado pela queda de um cavalo, que comoveu o Portugal da época e em particular as gentes de Santarém, que assistiram de perto à tragédia.
«Com todas as ordens e clero, e com cruzes, e relíquias fez de noite uma muito solene, e devota procissão, em que todos descalços, e muito nus, com muito piedosas lágrimas, andaram por todas as igrejas, e mosteiros da vila, em que continuada e devotamente com os giolhos em terra, e com vozes que rompiam o céu, diziam todos bradando: Senhor Deus misericórdia». (Rui de Pina – Crónica d’el Rei D. João II)
Dizíamos antes que este infausto acontecimento poderá explicar, a partir daí, a desatenção que Santarém mereceu dos nossos monarcas, em especial se compararmos com os séculos anteriores.
Com D. João II, as razões desta mudança de atitude são óbvias. Santarém significava para ele memórias doridas, das quais nunca se chegou a curar. Não voltou à cidade, a não ser para o estritamente necessário, e os monarcas que se lhe seguiram também não.
Erich Lassota de Stelbovo, em 1581, terá sido o primeiro a passar para o papel razões de tão súbito alheamento real em relação a Santarém. Ao que parece, circulava um dito popular, segundo o qual todos os reis que entrassem no palácio onde costumavam pernoitar iriam ser assassinados ou morreriam de forma súbita e trágica.
Acreditassem ou não neste mito, a verdade é que a partir da morte do príncipe D. Afonso, não mais a monarquia portuguesa estacionou em Santarém por médios ou longos períodos, como era habitual fazer no passado. Passaram ainda por Santarém algumas vezes, mas na maior parte delas em trânsito para Almeirim. Foi o caso de D. Sebastião, que aqui esteve três dias em 1573. Os supersticiosos diriam que a sua morte trágica foi um sinal da profecia.
Outro rude golpe infligido no prestígio de Santarém foi o grande terramoto de 1531, que afectou Lisboa e todo o vale do Tejo, particularmente Santarém, Almeirim, Azambuja, Castanheira, Vila Franca de Xira e Benavente. «Nunca se viu nada mais temeroso: parecia que o céu com a terra se juntava e umas casas com outras se davam. (…) Santarém está tão destruída que não há onde o rei repouse, porque os seus palácios estão no solo, por terra» (Jorge Osório)
No meio disto tudo, nem sequer o Tejo ajudava. Rio que fora sempre o sustento da economia local, via-se agora a braços com problemas relacionados com a sua navegabilidade «É o grande rio mercantil do interior do reino. Há sinais de que, por 1596, o assoreamento do rio estivesse em alguns troços a dificultar a navegabilidade. Dizem barqueiros de Santarém que em tempos os caravelões chegavam até à lezíria do Marquês, por o rio ser tão alto que ali chegavam as marés. De há quarenta anos, as coisas tinham mudado.» (Joaquim Romero de Magalhães)
Quando Portugal perdeu a independência, em 1580, a população de Santarém levantou-se contra a invasão filipina e a favor de D. António Prior do Crato. «Real, real, por D. António, rei de Portugal», gritou-se então na manhã de 19 de Junho. No ano seguinte, quando Filipe I chegava a Santarém, vindo de Tomar, onde fora aclamado nas cortes, a população de Santarém recebeu-o com muito pouco entusiasmo. E alguns anos depois, em 1609, quando se preparava a visita de Filipe II, os poderes municipais recusaram a ajuda financeira para a preparação da visita. Tiveram de recuar, mais tarde, mas ficou uma tomada de posição que era também um sinal da vontade das gentes.
Na breve visita que D. Filipe III aqui fez em 2 de Junho de 1625, Lopo Fernandes de Castanheda, na sua «Oração», queixou-se exactamente da pouca atenção que a cidade recebera por parte do seu antecessor. Nessa fase, já Santarém sofria um certo «castigo», pelo facto de ter apoiado D. António, prior do Crato, nos momentos que antecederam a perda da independência. Os motins, como aqueles que aconteceram 1629, 1636 e 1637, não tardaram.
Essa vontade, esse querer, essa aversão ao invasor, explodiu no dia 2 de Dezembro de 1640, o dia seguinte à restauração da independência. Nessa altura, não foi necessário que Lisboa informasse o que quer que seja. A população, reunida na praça do Município e liderada por Fernão Teles de Meneses, 1.º conde de Unhão, aclamou de imediato D. João IV, avisada que fora por João Rebelo Cerveira, senador que assistira a tudo na capital. Mesmo assim, as guerras da Restauração que se seguiram, e que se prolongaram por mais duas décadas, tornaram evidente a necessidade de reformular e restaurar as muralhas existentes, porque há muito que Santarém deixara de ser inexpugnável. Só que, nessa altura, já não havia dinheiro para o fazer.
A decadência de Santarém, que o povo não aceitava, teve um derradeiro episódio. O terramoto de 1755 destruiu grande parte do seu património edificado, em alguns dos casos quarteirões inteiros de bairros, igrejas e conventos, bem como a ligação entre a vila e a Alcáçova. Teve de ser tudo erguido de novo, simbolizando um novo começo, o renascer de uma cidade que já fora grande e que, em breve, voltaria a sê-lo.

Santarém, Capital do Gótico (VIII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

A MAIS FREMOSA DE QUANTAS VEJO / EN SANTAREN, E QUE MAIS DESEJO

Na Idade Média, Santarém foi um dos principais centros da poesia galaico-portuguesa e provençal. Um género literário que se desenvolveu e germinou muito por obra e graça do lirismo islâmico, que teve na cidade muitos dos seus representantes. A sua posição geográfica facilitava o intercâmbio de culturas e aumentou com a chegada dos cruzados franceses, no contexto das guerras da Reconquista.
As cantigas de amigo eram uma forma de «fazer falar» as mulheres. Dos seus sentimentos – alegrias, tristezas, amor e ciúme. Os trovadores escreviam-nas como se fossem as mulheres a fazê-lo.
Constituindo a variedade mais importante e original da nossa produção lírica da Idade Média, estas composições enquadram-se na poesia trovadoresca, mas incluem a particularidade de conferirem estatuto de enunciação à mulher, embora sejam sujeitos masculinos a compô-las.
«As «cantigas de amigo» de forma mais simples apresentam-nos, em geral, a mulher integrada no ambiente rural: na fonte ou na romaria, lugares de namoro, sob as flores do pinheiro ou de avelaneira; o rio, onde lava a roupa e os cabelos, ou se desnuda para tomar banho; na praia, onde aguarda a regresso das barcos. Inspira-se em geral uma desenvoltura inocente de ar livre e fala nelas uma voz impessoal que apela para os sentimentos mais básicos e constantes da emotividade humana. Uma curiosa fraternidade com os bichos, as flores e as ondas deixa adivinhar uma mentalidade animista, mal tocada pela influência cristã. Este grupo de cantigas pertence certamente a um fundo muito primitivo, que se esconde sob as águas do tempo. Noutras cantigas, é mais denso o ambiente doméstico. A moça canta enquanto torce o fio do linho; sucedem-se as discussões com a mãe, que recebe o namorado e autoriza o namoro. Neste segundo grupo, menos primitivo, o ambiente é mais caracterizadamente burguês. A uma terceira camada, enfim, pertencem as cantigas de estrutura rítmica mais complexa, embora baseadas no esquema paralelístico aqui encontramos uma verdadeira dialéctica dos sentimentos, uma gama que vai desde o ciúme à «coquetterie». Dispostas ordenadamente, os monólogos e diálogos em que se desenvolvem as situações comporiam um verdadeiro romance sentimental, antecipando Menina e Moça de Bernardim Ribeiro.» (António José Saraiva)
Um tipo peculiar de cantigas de amigo é o das paralelísticas, que aliam uma simplicidade de motivos e recursos semânticos ao elaborado arranjo da sua expressão. O esquema de repetitividade enriquece o sentido pela sugestão encantatória que cria, muitas vezes magoada, perplexa ou interrogativa. Típicas da poesia galaico-portuguesa, encontram-se também nas cantigas de amor e noutras variedades poéticas medievais, persistindo até muito tarde na literatura medieval.
«A cantiga de amigo tem espontaneidade, graça, ingenuidade, alegria franca. Em imitação da verdadeira poesia popular, o trovador usa do artifício de falar como menina namorada, do povo, que se dirige ao amigo e amado, que fala dele à própria mãe, às irmãs, às companheiras ou ao santo da sua devoção, ao pé da fonte, à beira-mar, no terreiro das bailias, a caminho da santuário, no pinheiral, sempre em íntimo contacto com a natureza. Muita vez nas festas primaveris de Maio. Sempre de refrão, essas cantigas femininas compõem-se de quadras, de tríadas ou de dísticos. Esta última espécie consta muita vez de duas redacções paralelas, distintas apenas pela rima, entoadas alternativamente por dois coros nas evoluções da dança.» (Carolina Michaëlis de Vasconcelos)
As cantigas de amor, por seu lado, um outro género poético da lírica galego-portuguesa, distinguem-se das cantigas de amigo principalmente por nela ser o trovador quem fala, dirigindo-se à sua senhora, que elogia e cujas qualidades exalta. Trata-se, aqui, da expressão do chamado amor cortês, em que o trovador se sujeita a uma relação de vassalagem perante a senhora amada. Deve dominar o seu amor, para não desagradar à dama, e guardar em segredo a identidade desta, que é, muitas vezes, ao contrário do que sucede nas cantigas de amigo, uma mulher casada. O trovador expressa o seu sofrimento amoroso por não poder atingir o objecto do seu amor. A expressão desse amor é feita de acordo com as convenções – espiritualizando o sentimento amoroso, considerando a mulher como uma deusa inacessível à qual só em sonhos se tem acesso.
É o caso da canção que se segue e que tem Santarém como pano de fundo, como cenário de um amor impossível:
«A mais fremosa de quantas vejo
en Santaren, e que mais desejo,
e en que sempre cuidando seio,
non ch’a direi, mais direi – ch’amigo:
Ay Sentirigo! Ay Sentirigo!
Al é Alfanx e al Seserigo.»
Nesta balada, o poeta revela que em Santarém se encontra a mais bela de quantas mulheres já viu. Suspira por ela, suspira por Santarém.
«Amigos, des que me parti
de mia senhor e a non vi,
nunca fui ledo, nem dormi,
nem me paguei de nulha ren.
Tod’este mall soffr e soffri
Des que vin de Santaren.»
Nesta balada, o troveiro exprime as saudades que sente desde que deixou Santarém e a sua senhora, que tanto amava. Nunca mais foi feliz desde então.
As cantigas de amor tiveram origem nas cortes senhoriais da Provença (sul de França), estendendo-se ao território galego-português e a outras regiões da Europa pela vinda de jograis provençais. Esta lírica provençal tornou-se depois modelo para os trovadores galego-portugueses, que adoptaram alguns dos seus processos técnicos, mantendo outros mais próximos dos que já conheciam e utilizavam nas cantigas de amigo (como a repetição de versos, de acordo com regras específicas).
«A nota característica da cantiga áulica de amor; em estrofe de mestria, sempre dedicada a uma senhora (=senhora solteira) da alta-roda, venerada ou cortejada pelo trovador; é a mesura. A moderação como ideal daqueles rudes tempos, bárbaros em muitos sentidos, levou os amantes a artificialmente evitarem todas as notas fortes. Restringiram-se a uma terminologia muito seleccionada. Sem serem frios, são por isso enervantes de convencionalismo e monotonia. Falhos de plasticidade, simbolismo, imagens, e mesmo de sensualismo, já deixam todavia transparecer o sentimentalismo fundamental da saudosa alma portuguesa que morre de amor. (Carolina Michaëlis de Vasconcelos)
Desde que chegaram da Provença, trazidas pelos jograis, tais músicas, de amigo e de amor, tornaram-se inseparáveis companhias de reis (dos quais D. Dinis é o melhor exemplo), nobres, clérigos e povo. «Foram dados os primeiros passos na rua, ao som das cantigas insertas nos primitivos cancioneiros, quando a dança era ainda plebeia, com D. Pedro I, o grande louco do amor, que usava despertar altas horas da noite quantos dormiam no paço (nas proximidades da igreja de Alcáçova), para percorrer as ruas da vila de Santarém, de mistura com a arraia-miúda que pasmava ao vê-lo dançar!» (Bertino C. Martins)
Os mais importantes poetas e trovadores medievais escolheram Santarém para sua morada e para sua musa inspiradora. Alguns eram de cá, outros por cá ficaram. Rui Fernandes, João Aires, João Soares Coelho, Requeixo, João Zorro, João Peres de Aboim ou Aires Pires Vuitorum foram apenas alguns deles.
Foi entre os reinados de D. Sancho I e de D. Dinis, principalmente, que este género literário, sempre associado à nobreza cortesã, atingiu o seu período de maior brilhantismo em Santarém. De resto, D. Dinis, o mais letrado dos monarcas portugueses da primeira dinastia, foi ele próprio autor de muitas canções de amor e de amigo. Quando D. Afonso IV foi coroado, em Janeiro de 1325, segréis e trovadores deliciaram a assistência com as suas cantigas, de amor, de escárni
o
e de maldizer.
Havia ainda as cantigas de escárnio e maldizer, um género musical que também fazia parte da poesia trovadoresca galaico-portuguesa. A sua temática incide sobre pessoas, mas também sobre alguns problemas da época — por exemplo a decadência da nobreza rural, através de meios como os trocadilhos, a ironia ou a sátira. A cantiga de escárnio distingue-se da cantiga de maldizer pelo facto de nunca referir a pessoa que está no centro da canção. Quanto à cantiga de maldizer, não esconde o nome do visado e chega a ser grosseira.
As primeiras cantigas foram interpretadas na rua. De popular, a dança vai passar a ser também aristocrática na corte da inglesa Filipa de Lencastre, mulher de D. João I. Mas nunca deixou de ser popular e nunca o povo deixou de cantar e dançar.
Por esta altura, já Santarém tinha escolas e mestres de música. A aprendizagem e a divulgação da música era mesmo incentivada por decisões reais, ao contrário do que viria a acontecer mais tarde. De 1442 é uma carta régia a isentar do pagamento das dízimas «aqueles que trouxessem harpas, aludes e guitarras.»

Santarém, Capital do Gótico (VII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

Entre os séculos XII e XVI, Santarém assumiu-se como uma das mais importantes cidades do país, ao lado de Lisboa, Coimbra e Évora. Pode-se mesmo dizer que estes foram séculos de ouro para Santarém.
Em 1186-87 e em 1198, D. Sancho I concede novos forais a Santarém, renovando os privilégios anteriormente concedidos. Em 1204, estes são ampliados com novas concessões. Os últimos meses da sua vida, passou-os D. Sancho I em Santarém. Atormentado pela doença, procurava nos médicos da cidade o alívio para o seu sofrimento.
D. Afonso II, em 1214 e 1217, e mais tarde D. Afonso III, confirmam tudo o que antes fora fixado. A autonomia municipal ia-se afirmando a cada dia que passava, muito por acção dos procuradores e outros oficiais do concelho, que assim a reivindicavam.
Ainda em relação a D. Afonso II, a trágica história da sua vida está indelevelmente ligada a Santarém, cidade que visitou frequentemente desde 1217 e onde passou a viver em 1221 e até à data da sua morte, dois anos depois. Através dos documentos, é possível saber o nome de seis médicos que trataram da sua doença, a lepra: dois cónegos de Lamego, dois mestres de Évora, um de Lisboa e outro do Porto.
Em Santarém se reuniram as cortes por treze vezes, entre 1273 (D. Afonso III) e 1477 (D. Afonso V). Pelo meio, as de 1331, 1334 e 1340 (D. Afonso IV), 1383 (D. Fernando), 1396, 1406, 1413 e 1418 (D. João I), 1433 (D. Duarte), 1451 e 1468 (D. Afonso V). Tão grande número de cortes demonstra que Santarém rivalizava com Évora no título de segunda cidade do país.
A presença da família real em Santarém, durante longas temporadas, contribuiu largamente para o prestígio que a cidade adquiriu. Várias razões justificam que assim tenha acontecido com Santarém e não com qualquer outra cidade: a localização geográfica, a importância estratégica, a riqueza agrícola e cinegética, a organização administrativa, as condições de alojamento e o contacto com a religião.
Em relação à localização geográfica, a proximidade de Lisboa e a posição de charneira entre litoral/interior e norte/sul contribuiu de forma decisiva para as escolhas reais.
A importância estratégica de Santarém há séculos que era conhecida. Não foi por acaso que os primeiros povos a escolheram para viver. Quanto aos nossos reis, começaram por reforçar a sua vertente simbólica e defensiva, fazendo obras nos paços da porta de Leiria e declarando-a sua sede política.
A riqueza agrícola e cinegética ajudou a que Santarém se tornasse naquilo que foi. Terra da abundância, de fácil acesso por terra ou por rio, proporcionava aos monarcas e à sua extensa plêiade os intensos prazeres da caça de montaria.
Para além de tudo, Santarém era uma vila muito bem organizada do ponto de vista administrativo, ao ponto de os reis utilizarem frequentemente os seus escrivães, tabeliães e notários.
Tinha palácios reais, nobres e burgueses e o serviço de aposentadoria, pelo que dispunha de todas as condições para receber, com frequência, tão numerosa comitiva.
A forte presença clerical na cidade ajudava, evidentemente, ao forte sentimento de ligação entre o poder espiritual e o poder real, que nunca os reis deixaram de utilizar em seu proveito. Obviamente, a Igreja Católica beneficiava também desta situação através de privilégios, fundação de mosteiros e conventos, instituição de capelas reais, apresentação de clérigos ou utilização de espaços religiosos para usos palatinos.
«Outra razão da expansão da cidade medieval foi a presença real, configurada no eixo governativo do reino de Portugal, basilado entre Coimbra-Santarém-Lisboa e depois, já no século XV, Santarém-Lisboa-Évora. A presença do rei, da corte e a reunião de cortes na vila atraem vagas de missionários, pregadores cristãos e das ordens monásticas para vincularem as populações locais – de formação e herança moçárabe – aos princípios religiosos do cristianismo europeu. A luta contra as heresias, fossem quais fossem, transforma Santarém num dos mais importantes centros religiosos do país no século XIII-XIV. (…)
As procissões, associadas não apenas aos cultos prestigiados, mas também aos «milagres» sabiamente explorados pelas novas ordens, tornam as ruas e os adros das igrejas locais de acontecimentos, onde a vida social e cultural se extroverte em manifestações públicas. A quantidade de procissões realizadas no espaço urbano de Santarém faz da vila uma urbe de grande dinamismo e mobilidade social, talvez em correspondência com a actividade comercial e portuária e a realização de feiras, uma das quais se constitui em feira franca» (José Augusto Rodrigues)
Em finais de 1273, D. Afonso III reúne a primeira das muitas cortes que se realizaram em Santarém, cortes essas que se prolongaram até meados de 1274. Aqui se tomaram medidas importantes sobre a administração do reino e sobre os domínios da igreja.
Data do seu reinado a primeira referência aos novos paços reais, construídos junto à porta de Leiria e que tiveram como função substituir os velhos paços da Alcáçova. Um dos principais objectivos era construir um novo complexo defensivo que pudesse garantir a segurança da parte norte da vila.
Por esta época, já Santarém se assumira como um dos mais importantes centros religiosos de Portugal e da Europa medieval. A razão, encontramo-la na chegada de pregadores dominicanos e franciscanos mas também no Santíssimo Milagre da Hóstia, de 1266, que pareceu confirmar as expressões utilizada na Idade Média para designar a cidade. «Paraíso deleitoso» chamaram-lhe no tempo de D. Afonso Henriques, «paraíso de Portugal» no de D. Dinis. Clérigos, frades e teólogos scalabitanos ascenderam então à categoria de santos e bispos, no nosso país e no estrangeiro. S. Frei Gil de Santarém, Bernardo de Morlans e Santo António de Santarém chegaram mesmo a atingir projecção internacional. O primeiro destes viu a sua vida descrita em romances históricos da autoria de João Grave e Teófilo Braga.
Para além de tudo o mais, fundaram-se ao longo da centúria nada menos de cinco instituições religiosas: o convento da Trindade em 1208; o convento de S. Domingos cerca de 1220; o mosteiro das Donas em 1240; a casa dos Franciscanos dois anos depois; e o mosteiro de Santa Clara em 1259.
Nos inícios do século XIII, eram sete as paróquias constituídas em Santarém, sete na parte alta da cidade e cinco na parte baixa. Duas delas unir-se-iam em breve, Santa Iria a Velha e Santa Maria de Palhais, para dar origem a Santa Iria a Nova. Mas logo surgiriam outras quatro: S. Bartolomeu de Alfange, Santa Cruz da Ribeira, S. Mateus da Ribeira e S. Lourenço.
Cada uma das zonas em que o burgo se divida na Idade Média desempenhava o seu papel específico. Alcáçova fora o gérmen da cidade cristã e era agora o centro da fixação aristocrática; Marvila era sede de cavaleiros e mercadores, com o aljube, o açougue velho e as estalagens; S. Martinho era zona de mesteirais e comerciantes, incluindo a judiaria; S. Nicolau era zona de feira e também de prostituição. A seguir a Lisboa, Santarém assumia-se como a mais importante e mais monumental cidade do reino.
Desde que Santarém fora definitivamente tomada aos mouros, uma outra instituição católica vai assumir importância crescente: a colegiada de Santa Maria da Alcáçova. Um símbolo dos novos tempos, um símbolo do cristianismo que a partir daí dominou toda a região. Mandada construir em 1154 por D. Hugo, a igreja de Santa Maria destinava-se aos Templários, pela sua valiosa participação nas acções de Reconquista.
Os membros do Templo acabaram por se transferir para o castelo de Ceras, pelo que a igreja foi transformada em capela real. Foi a partir deste momento que se começou a formar o amplo co
nj
unto patrimonial da instituição. Um património que, ao longo dos séculos, foi possível reunir graças às habituais doações feitas pelos fiéis, que dessa forma se procuravam livrar da ameaça do inferno, mas também através da presúria e da compra.
Essas doações patrimoniais atravessavam transversalmente toda a sociedade portuguesa, da mais humilde população anónima ao próprio rei. Aliás, muitos dos monarcas, sobretudo da primeira dinastia, agraciaram a instituição em troca da celebração dos seus aniversários e dos dos seus antepassados. D. Sancho I, por exemplo, doou em 1209 mil morabitinos para a compra de herdades. Curiosamente, a lei de 1211 que proíbe a futura aquisição, por parte das corporações religiosas, de propriedades fundiárias, deixa de lado aquelas que têm como contrapartida os tais aniversários reais anteriormente referidos.
Naturalmente, a primeira situação ocorreu em maior número, como seria de esperar. Quanto à presúria, foi feita sobretudo à custa das terras conquistadas aos mouros. A compra, por seu lado, ocorreu poucas vezes na história de Santa Maria de Alcáçova, mas ainda assim, representou cerca de 7,5% do total de terrenos adquiridos até aos inícios do século XIV. Quanto à natureza destas compras, dir-se-á que desde os anos de duzentos que os cónegos de Santa Maria de Alcáçova se preocupavam sobretudo com a aquisição de património urbano. Muito mais do que com as vinhas ou com qualquer outro bem rural.
Qualquer que tenha sido a forma de aquisição patrimonial, o certo é que, em pleno século XIII, já a circunscrição da colegiada abrangia toda a região periférica de Santarém, de norte a sul e de oeste a leste. Incluíam-se nos seus bens, entre outros, a ermida de Santa Maria do Monte, o padroado de Santa Iria e Santa Cruz, um moinho no Alviela e casais em Alpiarça e em Trava. Já no século XIV, vem juntar-se àquele património a quinta do Lavradio, rendimentos sobre bens nas aldeias de Cerveira e Marmeleira, domínios em Almada, Lavradio do Ribatejo, Cortes, Seteais e Lisboa.
Dado o notável conjunto de terras de sua propriedade, a colegiada de Santa Maria de Alcáçova tinha a possibilidade de diversificar as suas culturas. Ainda assim, a vinha e a oliveira predominavam, aquela com grande implantação na zona de Alvisquer, esta em Manteigas. Quanto aos cereais, acompanhavam o curso do rio Tejo, desde Valada a Alpiarça e Traça.
As rendas dos locatários dos domínios da colegiada eram pagas através de um contrato de arrendamento, aforamento ou emprazamento. O pagamento podia ser fixo (em dinheiro ou em géneros) ou variável (percentagem das colheitas). Dezembro era o mês eleito para a maior parte das cobranças.
A partir de 1394, em virtude de uma disposição papal, o padroado da igreja passou para a Ordem de Avis. Foi nesta altura que começaram a surgir conflitos relativamente à titularidade dos bens da colegiada. A solução para resolvê-los foi clarificar os limites entre os bens que pertenciam aos cónegos, os que eram do prior e ainda os que deviam ser divididos entre as duas partes.
Mas voltemos ao século XIII. Se D. Afonso III dirigiu as suas atenções para Santarém, D. Dinis não o fez menos. Como forma de substituir a Ordem dos Templários e a sua influência no país, D. Dinis tentou junto do papa que, com os bens dos Templários, se constituísse uma nova milícia, exclusivamente portuguesa, à qual seria doada a vila fronteiriça de Castro Marim, no Algarve.
O objectivo era o de evitar que os extraordinários bens da extinta ordem fossem agora parar a mãos estrangeiras. E assim foi conseguido, em especial graças aos enviados de D. Dinis a Roma. Perante o Vaticano, conseguiram provar que a anexação dos bens dos Templários pelos cavaleiros da ordem do Hospital, como Clemente V transitoriamente fizera, seria prejudicial ao país, pelo que esses bens deviam ser incorporados numa nova ordem totalmente portuguesa.
João XXIII, em Março de 1319, autoriza, pela bula Ad ea ex quibus, passada em Avignon, a criação da ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, que D. Dinis já formara em 14 de Agosto do ano anterior. O monarca estava em Santarém quando, a 5 de Maio, chegou o documento pontifício, de imediato ratificado.
A insígnia dos cavaleiros de Cristo era uma cruz vermelha, de braços quase iguais, fendida no meio com outra branca. Em 1789, as insígnias de grã-cruz e comendador foi aumentada com um coração, em memória do monumento ao Santíssimo Coração de Jesus, culto que a soberana pretendia restabelecer. Viria a ser extinta em 15 de Outubro de 1910, poucos dias depois da instauração da República, e restaurada, com alterações, em 1 de Dezembro de 1918. A sua sede inicial foi Castro Marim, conforme prometido por D. Dinis, mas em 1356 voltaria para Tomar.
O «rei lavrador» já não chegaria a assistir a essa transferência de sede, pois a sua missão ficara cumprida muito antes. Morreu a 7 de Janeiro de 1325 em Santarém. O seu sucessor, D. Afonso IV, era aclamado dois dias depois, ainda e sempre em Santarém. De resto, ambos travaram lutas violentas na cidade, que chegaram a incluir a vinda de um emissário de Santiago de Compostela, vindo pelo papa, para apaziguar os ânimos e celebrar, com a sua presença, a ansiada paz.
Em 18 de Abril de 1331, D. Afonso IV vai tomar a iniciativa de transcrever integralmente o articulado do foral de 1179 e os Costumes Subsequentes. Erradamente conhecido como o Foral de D. Fernando, foi uma decisão que patenteia a ocorrência de agravamentos, por parte do rei e dos seus funcionários, às liberdades vicinais.
De resto, também D. Constança, mulher de D. Pedro I, viria a morrer na cidade em 1345; o seu filho, o rei D. Fernando, que recusou o panteão do pai em Alcobaça, viria a fazer-lhe companhia, em 1383, no seu sarcófago do convento de S. Francisco. Para tal, mandara construir alguns anos antes um coro-alto a meio da nave central, que segundo Mário Tavares Chicó é «a mais bela manifestação de arte gótica do país antes da construção do mosteiro da Batalha».
Em 18 de Janeiro de 1359, catorze anos depois da morte da esposa, D. Pedro I manda executar em Santarém Pero Coelho e Álvaro Gonçalves, conselheiros de seu pai D. Afonso IV e assassinos de Inês de Castro, o grande amor da sua vida.
D. Fernando vai assinalar de diversas formas a sua predilecção por Santarém. O chamado tratado de Santarém, de 19 de Março de 1373, foi assinado na vila e representou mais uma das muitas derrotas fernandinas face a Castela, sendo que neste caso o opositor era Henrique II, que chegou a deslocar-se a Santarém, em episódio assaz humilhante, para exigir o cumprimento do clausulado. Dois anos depois, em 1375, estava o «rei formoso» em Santarém no momento em que foi publicada a lei das Sesmarias. Finalmente, fez questão de se sepultar ao lado de sua mãe no coro-alto do convento de S. Francisco, como já se disse.
Quando o rei morre, D. Leonor Telles, a viúva, manda gritar pela cidade «Real pela rainha D. Beatriz de Portugal, nossa Senhora!», no que é apoiada pelas classes sociais superiores, interessadas nos cargos políticos e nos títulos que daí podem advir. O rei de Castela chegou a eleger Santarém sede da causa castelhana e a cunhar aqui uma nova moeda, o real de D. Beatriz, mas D. João I de Portugal viria a conquistar a cidade depois de Aljubarrota.
Para além de D. Beatriz, filha do rei D. Fernando, que era menor de idade e casada com o rei de Castela, tinham ambições os infantes D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro e Inês de Castro. A alta nobreza e a maior parte do clero apoiava o infante D. João ou, se este não o pudesse ser, o infante D. Dinis – argumentavam que Pedro e Inês casaram em clandestinidade, logo os filhos eram legítimos.
Quanto aos representantes dos concelhos e da baixa nobreza, apoiavam o Mestre de Avis. Durante as cortes convocadas para resolver o delicado problema, João das Regras defende que D. Beatriz era ilegítima, porque Leon

or Telles casara com D. Fernando quando ainda era casada com outro homem. Os infantes D. João e D. Dinis também eram ilegítimos, porque nunca houvera casamento entre D. Pedro I e Inês de Castro – e mesmo que tivesse havido, esse enlace era considerado nulo.
Por vir da linhagem real de D. Pedro e pelos serviços que prestara desde 1383 como Regedor, período no qual se incluiu o Cerco de Lisboa, o Mestre de Avis conseguiu obter a concordância dos presentes nas cortes e tornou-se, em 6 de Abril, depois de mais de um mês de discussão, o primeiro rei da segunda dinastia.
Numa das cortes, as de 1433, D. Duarte, que acabava de iniciar o seu reinado, fez publicar a Lei Mental. Tratou-se de uma medida de centralização régia, que tinha como objectivo defender o património da coroa e até aumentá-lo. Aliás, em virtude da publicação desta lei, muitos bens de privados foram revertidos a favor do Estado. Uma medida que fora idealizada no reinado do seu pai, D. João I, por conselho de João das Regras. Na prática, impedia-se o acesso à sucessão dos bens das esposas, dos ascendentes e dos colaterais. Apenas os filhos primogénitos e legítimos teriam acesso àquela prerrogativa. Uma forma de enriquecer a coroa, como se disse, ainda uma forma de «pôr em respeito» as classes privilegiadas, de lhe cortar as unhas e encolher os braços», no dizer de Alexandre Herculano.
Em 1449, foi de Santarém que D. Afonso V partiu para combater o infante D. Pedro, num recontro que teria lugar em Alfarrobeira e que culminaria com a morte de um dos membros da Ínclita Geração.
A 10 de Novembro de 1477, o príncipe D. João é aclamado rei em Santarém, depois da abdicação de Afonso V, que decidira dedicar-se à religião, mas só virá a suceder-lhe verdadeiramente em 1481, por morte do monarca.
Finalmente, é D. Manuel I que vai conceder foral a Santarém, em 1 de Fevereiro de 1506. Numa política de centralização da política régia, que se estendeu a todo o país, o foral foi adaptado à lei geral em vigor no país. Esta reforma, que se estendeu a todo o país, era há muito reivindicada, pelo menos desde o reinado de D. Afonso V, pelos vários concelhos do reino, que se sentiam pressionados e oprimidos por disposições muito antigas.
As preocupações centralizadoras modernas estão bem presentes no texto do foral, mas as tabelas tributárias arcaicas, aproveitadas de um passado distante, mantêm-se. É dado grande destaque à portagem, imposto pago ao rei pela entrada e saída de mercadorias da vila. Estavam isentos do seu pagamento ermitães, clérigos das ordens sacras, frades, freiras e beneficiados das várias igrejas. Para além disso, produtos como pão cozido, bolos, biscoito, queijadas, folares, farelos, cal, cinza, bagaço de azeitona, ovos, leite, nata, queijos frescos, requeijões, manteiga crua, gado e outros animais, uvas, figos verdes, favas verdes, hortaliças, carqueja, tojo, palha, vassouras e outros também estavam isentos.
Em termos judiciais, o assalto à residência alheia, o homicídio e a violação eram os crimes considerados mais graves. A pena podia variar, consoante o crime fosse cometido dentro ou fora da cidade. Mulheres e indivíduos com menos de doze anos não poderiam ser castigados em nenhuma circunstância.

Santarém e os Descobrimentos

Santarém participou activamente na grande gesta dos Descobrimentos. Não foi daqui que partiram as caravelas, mas foi aqui que se tomaram muitas das mais importantes decisões políticas e estratégicas; e foi aqui que se reuniram muitos dos meios materiais e humanos necessários à consecução dos objectivos propostos e das directrizes traçadas.
É possível, dentro da cidade, fazer a rota do norte de África, do Oriente ou do Brasil, como propõem alguns roteiros, evocando figuras que nasceram ou viveram em Santarém, obras de arte oriundas daquelas regiões, túmulos de descobridores, conquistadores e governadores. Não é por acaso que no Brasil há cidades com os nomes de Santarém (do Pará) e Almeirim.
Foi uma das povoações que mais gente forneceu para a expansão marítima. É visível esta realidade no número de escudeiros scalabitanos que estava na casa do infante D. Henrique e no número de famílias nobres daqui naturais que se envolveram nas guerras de África, das quais o melhor exemplo é o caso de D. Duarte de Meneses na batalha de Alcácer-Quibir.
Três governadores de Ceuta, dois capitães de Tânger, um capitão de Alcácer-Ceguer, um governador da Mina e vários vice-reis e governadores da Índia nasceram em Santarém. Foi em Santarém que, em Maio de 1487, D. João II organizou parte da viagem que no ano seguinte culminaria com a chegada à Índia de Vasco da Gama. Naquela data, o monarca incumbia Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva de irem à Índia por terra para recolherem informações sobre as rotas das especiarias e o poder militar dos reinos orientais. Em Santarém viveu e morreu, em 1520, Pedro Álvares Cabral. Fernão Lopes de Castanheda, o mais importante historiador dos Descobrimentos, era também natural de Santarém.
De Santarém partiam manufacturas (panos, linho e curtumes), minérios (metálicos ou não) e produtos agrícolas e silvícolas (madeiras, vinhos, cereais, azeite, mel e cera). Partiam inicialmente para Lisboa, mas o destino final era os territórios ultramarinos.
Foi no concelho de Santarém que, a partir do século XVI, se procedeu às primeiras plantações de pinhais, para acorrer às necessidades da construção naval e de madeira e lenha para Lisboa.
De todos os territórios ultramarinos, foi com a Mina que Santarém estabeleceu laços mais fortes. Dali vinha o ouro, os escravos e a pimenta de rabo. Os dois navegadores que a descobriram, em 1471, estavam ligados à vila. João Afonso de Santarém era daqui natural, Pero Escobar tinha ligações familiares. Fernão Lourenço da Mina, tesoureiro da feitoria em meados do século XVI, tinha propriedades em Santarém.
Com a Índia, Santarém estabeleceu também um contacto estreito. Daqui partiram por terra, rumo à Índia e à Abissínia, em Maio de 1487, Pero da Covilhã e Afonso de Paiva. Naturais de Santarém eram muitos dos portugueses que viveram na Índia, entre 1500 e 1530, como capitães (Rui de Brito, Vasco de Lima, Tristão de Paiva e Lopo de Sousa Coutinho), pilotos (João Leite, Fernando de Lima), escrivães de naus (Garcia Mendes, João Fernandes de Sau e Gonçalo Gil Barbosa, escrivão da armada da Pedro Álvares Cabral) e soldados (António de Sá, Rui de Melo, João Guedes, Jorge de Mascarenhas), muitos deles com vasto património na vila. Os Bobadilhas, os Saldanhas, os Anaias, os Patalins, os Cabrais e os Noronhas, todos com ligações à vila, andaram pela Índia. A própria toponímia é o reflexo desta realidade. Nomes como Paul do Arroz não existiam antes do século XVI.
Alguns missionários naturais de Santarém encontram-se entre os ocidentais que se fixaram no Japão, como Gabriel de Maria, autor das Cartas do Japão (1603-1614) e da Relação da perseguição que teve a cristandade do Japão desde Maio de 1612 até Novembro de 1614, livro impresso em Lisboa em 1618.
Quanto ao Brasil, a ligação é reforçada pela toponímia e pela genealogia. Daqui eram naturais Francisco Pereira Coutinho, primeiro donatário da capitania de Salvador da Baía, Estácio de Sá, fundador da cidade do Rio de Janeiro, e D. Diogo de Meneses, governador do Brasil.
A vida quotidiana de Santarém foi muito influenciada pela expansão e em especial pela Mina. Era necessário abastecer o comércio com aquela feitoria, sobretudo através da produção de tecidos listados, os alambéis, que iam servir para as trocas comerciais com os africanos. O maior centro de produção de alambéis em Portugal era a Ribeira de Santarém, sendo que a cidade tinha o monopólio da sua venda para a Mina.
A actividade era tão importante que o foral de 1506 refere-se expressamente aos alambéis, como um dos panos a pagar portagem, a exemplo da restante «roupa

mourisca». Em 1537, estão registados em Santarém vinte e um empresários que se dedicavam à produção dos alambéis. Sob a jurisdição daqueles, trabalhavam certamente muitos tecelões e tintureiros. Para os fabricantes de alambéis, os privilégios concedidos por D. Manuel I eram grandes, desde que vivessem em Santarém.
Outra das importantes consequências da expansão em Santarém foi a acumulação de capital. O dinheiro era usado para comprar objectos de luxo ou que, pelo menos, reflectissem um nível de vida que os seus proprietários não tinham: castiçais, copos, colheres, taças, anéis e relicários, tudo em ouro e prata.
O enriquecimento de igrejas e conventos vai ser uma das consequências imediatas destas vastas riquezas que, muitas das vezes, lhes eram deixadas em testamento. Foi o caso de D. Margarida de Aragão, viúva de Pêro Vaz Soares, que em 1506 deixou um cálice de prata à igreja do Salvador, entre outras doações.
Ao mesmo tempo, à medida que a agricultura ia empobrecendo, as terras iam-se tornando mais baratas. E as instituições religiosas aproveitavam para investir, aumentando dessa forma o seu património imobiliário.
«Mas são muito mais impressionantes os objectos que afluem dos novos mundos: pentes, espelhos e colheres de marfim; peças de brocado, esteiras e catres da Índia, mesas de cedro, panos da Índia, alcatifas de Cambaia, vasquinhas de Cataio, bandejinhas da Índia, porcelanas, grãos de aljôfar, especiarias e tantas outras sugestões exóticas que povoavam as imaginações de fascínio e abarrotavam de gente as naus da Índia.» (Maria Ângela Beirante)
Desse período de grandeza da história de Portugal, Santarém guarda inúmeros vestígios. Os seus monumentos, que adiante descreveremos em capítulo próprio, são o testemunho vivo dos séculos de ouro da cidade.
Com esses monumentos, é possível seguir uma verdadeira rota dos Descobrimentos. Também lhe poderíamos chamar rota da Memória, porque é disso mesmo que se trata, de recordar em conjunto a memória de um povo e de uma nação que foi grande e que hoje se ufana, porque mais nada lhe resta para se orgulhar, das suas recordações.
Podem-se estabelecer três itinerários nesta rota dos Descobrimentos: o itinerário de África, o itinerário do Oriente e o itinerário do Brasil e Novo Mundo. São três etapas que, no fundo, simbolizam um único momento, o momento expansionista português.
O itinerário africano inclui a igreja de Santa Maria da Graça (onde se encontra sepultado, entre outros, o primeiro capitão de Ceuta, D. Pedro de Meneses), a igreja de S. João do Alporão (túmulo do capital-general Duarte de Meneses), a igreja de Santa Cruz da Ribeira e o convento de S. Francisco (vários túmulos de figuras ligadas à exploração e conquista do norte de África).
O itinerário oriental é composto pela igreja do Santíssimo Milagre (arte), pela igreja da Misericórdia (túmulo de um vice-rei da Índia), pela igreja da Nossa Senhora da Graça, pelo convento de S. Francisco e pela ermida da Senhora do Monte (vários túmulos).
O itinerário do Brasil e do Novo Mundo, por fim. A presença de Pedro Álvares Cabral, em Santarém para morrer, será o facto mais significativo da ligação entre Santarém e as terras de Vera Cruz. Neste itinerário, pode ver-se a igreja de Santa Maria da Graça, com o túmulo do descobridor, e logo ao lado a Casa do Brasil, centro cultural de apoio à divulgação da epopeia de Pedro Álvares Cabral e das relações luso-brasileiras que ocupa o espaço eventualmente habitado pelo navegador. Num dos lados da praça, a estátua daquele, da autoria de Soares Branco (1971). Visite-se ainda a igreja do convento da ordem terceira de S. Francisco (lápide de D. Joana Coelho, filha do capitão de Cabo Verde Jerónimo Coelho); a igreja do colégio da Companhia de Jesus de Santarém (várias pinturas relativas à expansão, entre as quais a de um ameríndio do Brasil); a ermida da Senhora do Monte (renovada por Lopo de Sousa Coutinho, militar do primeiro cerco de Diu e capitão de S. Jorge da Mina, conserva a sepultura de Duarte Sodré, um ascendente de Vasco da Gama).

Santarém, Capital do Gótico (V)

primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

As Invasões Bárbaras e a lenda de Santa Iria

No ano de 460, Scallabis é conquistada por Suenerico e passa a integrar o reino visigótico da Península Ibérica. Datam dessa época informações vagas e superficiais relativas a uma certa fidelidade que alguns, em Scallabis, tentaram manter em relação a Roma; e outros dados que nos dão conta de uma relativa independência que os poderes locais tentaram manter em relação aos bárbaros.
Santarém, nesta altura, seria constituída pela cidadela fortificada, pelo planalto, pelo bairro de Alfange e pelo de Seiserigo. A cidadela fortificada era o centro militar de Santarém, ponto de grande importância geo-estratégica em tempos que tinham voltado a ser conturbados e pouco pacíficos. O planalto era o centro urbano, com o antigo fórum, as praças e os novos templos cristãos. A zona ribeirinha, por seu lado, ganhava um novo impulso com a chegada de novos mercadores de origem síria-judaica.
Fora a partir do séc. III que o Império Romano começara a desmoronar-se, com a progressiva emancipação das suas províncias, que queriam a independência. Mas foi com as Invasões Bárbaras do séc. V que acabou definitivamente. Estas invasões tiveram várias causas: crescimento demográfico, busca de riquezas, modificações climáticas. No fundo, os Bárbaros viram-se obrigados a invadir Roma por uma questão de sobrevivência.
O êxito das Invasões Bárbaras alterou de forma significativa, pois, o mapa político da Europa do séc. V. Com os suevos e os visigodos, vão ser lançadas as bases de um mundo novo, o mundo medieval. Começa a desenhar-se uma nova organização social e política do território, e no domínio religioso, a ascensão do cristianismo como religião oficial, dominadora, monopolizadora das consciências.
A acção dos germânicos foi importantíssima para o futuro de Portugal. Pode dizer-se que começou aqui a nação portuguesa. Apesar de rudes e habituados à arte da guerra, depressa os suevos e os visigodos fizeram amizade entre a população local e rapidamente passaram a dedicar-se e a preocupar-se com o trabalho nos campos.
Importante o contributo suevo e visigótico, igualmente, a nível religioso, com a fundação das primitivas paróquias e o lançamento das bases da Igreja Católica medieval. Aliás, só depois da conversão dos suevos nos aparecem dados pormenorizados sobre a organização eclesiástica de Portugal.
E é aqui que podemos integrar a lenda de Santa Iria, que trouxe um importante contributo para a evangelização da Península Ibérica e que, através da evolução fonética, viria a dar o nome a Santarém. Uma lenda cujas informaçõres remontam à Idade Média e que está relacionada com a região onde o drama se desenvolveu e com o clima de cruzada que se viveu posteriormente.
Iria ou Irene era uma bela jovem, bonita virtuosa e rica, natural de Nabância, que alguns autores fizeram corresponder a Tomar durante muito tempo. Na realidade, ao contrário do que sempre se pensou desde o século XV, Nabância nunca existiu, pelo menos da forma que se pensava.
Iria morava com as tias maternas num convento de freiras junto ao rio Nabão. Numa ocasião festiva dedicada a S. Pedro, o filho do governador da cidade, Britaldo, apaixonou-se por ela e tudo fez para cativar o seu coração, mas Iria decidira dedicar a sua vida a Cristo.
Como não conseguiu os seus intentos, mandou matar a jovem rapariga. Assim aconteceu, no dia 20 de Outubro de 653, tendo sido o seu cadáver lançado ao rio Nabão, acabando por chegar a Santarém, onde foi construído um túmulo em sua homenagem. Foi canonizada pela Igreja Católica como Virgem Mártir. Por cima do pego em que deitaram o seu cadáver ao rio, guarda-se a sua imagem, num nicho da parede do convento do seu nome.
O corpo foi pelo rio Nabão fora, passou para o Tejo e acabou por chegar a Santarém. Apesar das tentativas, ninguém o conseguiu levar de novo para Tomar, nem mesmo o tio e orientador espiritual da futura santa, o abade Sélio.
Uma santa, Iria ou Irene, cuja devoção atravessou as civilizações hispano-romana e germânica. Os seus atributos são a palma do martírio na mão esquerda e o livro sagrado na direita.
A primeira prova documental da liturgia de Santa Iria em Santarém está presente no «Antifonário de Leão», obra de 1067 em que é referido o culto a «Sancta Erene virginis in Scallabi castro». Obviamente, o seu culto é muito anterior. A paróquia de Santa Iria já existia em 1162, sendo uma das três paróquias da cidade de Santarém. Quanto ao topónimo, Santa Iria ou Santa Erene derivou em Santa Herena e daí em Santarém.
O aumento da devoção e o cimentar da lenda está em grande parte relacionado com o conflito entre os Templários e o bispo de Lisboa. A mártir morreu em Tomar e, pelo rio, foi ter a Santarém. Como que a querer dizer que os Templários deviam estar sedeados nesta última cidade e não naquela.
De visita a Santarém, em 1324, a Rainha Santa Isabel, conseguiu descortinar, através de visões, o local exacto onde o corpo de Santa Iria teria vindo ter, desde o Nabão até ao Tejo, junto à cidade. Quando o rei D. Dinis, seu marido, soube do facto, decidiu assinalar o local da sepultura com um padrão. Em 1644, o Senado da Câmara colocou no topo uma escultura de pedra, em homenagem à santa. Devido à localização do padrão, no século XX foi instalado um hidrómetro que serve para assinalar os níveis das águas do rio.
A toponímia foi outro dos riquíssimos legados dos povos germânicos. Foram os suevos, e depois os visigodos, quem deixaram, muitos séculos antes, e mesmo com a intromissão sarracena, a certidão de baptismo de muitas das povoações portuguesas. Sobretudo no norte de Portugal, mas também no centro, como é o caso de Santarém. Excluídos os nomes geográficos, que tiveram a sua origem em montanhas, rios e vales, é no onomástico germânico que encontramos uma das mais ricas fontes sobre este período. A generalidade destes topónimos tem a sua origem em nomes de pessoas importantes daquele tempo. Muitos, não se sabe quem foram, talvez governantes locais ou alguém muito bem colocado na escala social.
A toponímia de origem germânica, para além do nome da cidade, do concelho e do distrito, está presente ainda em outros topónimos. É o caso de Seiserigo, nome que tem como origem um antroponímico e que é um bairro da Ribeira de Santarém. De origem germano-goda, terá sido fundada aqui uma basílica dedicada a Santa Iria em meados do século VII.

Santarém, Capital do Gótico (IV)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

SCALLABIS, A ESCADA DE HABIS

A diversidade geográfica de Santarém e as suas características geo-morfológicas contribuíram largamente para a fixação populacional em tempos remotos. O rio permitia a navegabilidade e os contactos comerciais e culturais com outros povos; o planalto sobranceiro ao Tejo, a cerca de cem metros de altitude, permitia a protecção das terras agrícolas e o controle militar de uma vasta região, tornando o povoado quase inexpugnável. Daí o povoamento muito precoce de toda esta área.
«Esse desejo de viver próximo da atmosfera (não tanto nos vales ou nas margens ribeirinhas) foi uma conquista assente no desejo de domínio e de controlo do território, mas também numa outra conquista resultante da procura de um lugar salubre. Razões climáticas de melhor exposição ao vento, uma posição sanitária defendida – face aos terrenos de aluvião facilmente inundáveis, criadores de pauis nas terras mais baixas dos campos e lezírias adjacentes – são aspectos referidos nos textos. Estes factos formaram o carácter dos scalabitanos, ciosos de autonomia e liberdade, gizaram a sua personalidade criadora, formados pela grandeza da atmosfera que observavam e que pretenderam reproduzir nos momentos chave da sua vida colectiva e individual.» (Jorge Custódio)
Ao longo dos séculos, diferentes povos ocuparam sucessivamente Santarém sem quaisquer interrupções. Os primeiros vestígios de presença humana na região remontam ao Paleolítico Inferior, no concelho de Alpiarça. A arqueologia, futuramente, decerto que confirmará os mesmos indícios em relação a Santarém. Quanto ao território do actual concelho, os vestígios arqueológicos mais antigos datam do século VIII a. C., pese embora o seu povoamento deva ser anterior.
A escolha de Santarém como sítio para viver pode ter sido feita através da fixação de populações vindas de outro lugar, onde já não haveria recursos alimentares suficientes – ou o nomadismo tão característico e usual nas populações pré-históricas. A presença da água poderá ter sido uma das razões fundamentais para que tal acontecesse.
Aliás, uma lenda popular relativa a este assunto tenta explicar a origem de Santarém. Diz o povo de Vila Nova de S. Pedro, aldeia do concelho da Azambuja, que os seus primeiros povos, que já registavam um estado civilizacional relativamente avançado, certo dia abandonaram a sua fortificação e fixaram-se noutro local. Esse segundo local viria a ser a cidade de Santarém.
Todos os elementos essenciais à vida estavam ali presentes. Junto ao rio, havia a possibilidade de praticar a pesca e o comércio fluvial. Do planalto, onde se viria a edificar a Alcáçova, tinha-se uma visão excelente de todas as terras em redor.
Os montes, obviamente, foram os primeiros locais a ser habitados, sobretudo por razões defensivas: o monte da Alcáçova, mas também a Senhora do Monte ou o monte de S. Bento. Destes, naturalmente que a Alcáçova acima de todos, pois o seu povoamento está muito bem documentado desde a pré-história até à actualidade sem qualquer interrupção.
Aqui terá existido uma cidade-estado fundada por povos mediterrânicos, até porque a morfologia do local assemelha-se em muito às características de uma acrópole. «Que melhor local do que o monte da Alcáçova para o nascimento de Scallabis, um nome, um topónimo que parece interpretar a relação harmónica entre a unidade paisagística, a plástica e a mitológica – Escada de Habis.» (José Augusto Rodrigues)
Terminamos este capítulo com uma breve referência a uma das mais conhecidas lendas relativas à fundação de Santarém. A mitologia é responsável, em grande parte, pelas questões relacionadas com a fundação da cidade e com o «baptismo» da povoação. Neste caso, a mitologia greco-romana. Mais à frente, abordaremos a mitologia cristã, nesse caso a lenda de Santa Iria. No primeiro caso, o herói clássico Habis ou Abidis. No segundo caso, a mártir Santa Iria. De Abis, Scallabis. De Santa Iria, Santarém.
A lenda de Abidis entronca, no fim de contas, num mito peninsular, cuja primeira referência escrita se refere à fundação do mítico reino de Tartessos.
Diz a lenda, que não passa disso mesmo, que em 1215 a. C. Ulisses chegou à foz do Tejo e aqui aportou, descansando antes do regresso à Grécia. Conheceu então Calipso, filha de Gargoris, o melícola, rei dos Cunetas e príncipe da Lusitânia. Dessa união nasceu um filho, Abidis.
Se Ulisses teve de fugir para escapar à fúria de Gargoris, a criança teve pior sorte e foi lançada ao rio dentro de um cesto. No entanto, a corrente levou-o para uma cerva, que o amamentou. A criança salvou-se e ali viveu até aos vinte anos, altura em que foi descoberto pela mãe.
Emocionado pela resistência do neto, foi o próprio avô que o propôs para seu sucessor. Abidis, em homenagem ao local onde passou os primeiros anos, ali fundou uma cidade – Esca-Abidis (o manjar de Abidis), ou seja, Scallabis – Santarém.
Muito mais tarde, já nos séculos XVII e XVIII, associou-se o topónimo às condições topográficas do território. A partícula «scala» significaria escada, ou seja, a escada de Abis. «No plural escadaria, situação geográfica nada estranha à forma dos montes, onde se instalaram as comunidades pré-romanas da Idade do Ferro, formando como que uma autêntica escadaria topográfica, com cotas de nível escalonadas marcantes e bem visíveis, dando a impressão de patamares de escada, como hoje ainda é possível observar.» (Jorge Custódio)
Há ainda uma outra teoria que importa reter, a de José Henriques Barata. Para ele, o primitivo topónimo de Santarém estava associado às «Scalae Gemoniae» do fórum de Roma, uma escadaria perto da prisão onde eram expostos os cadáveres daqueles que tinham sido martirizados e que seriam, posteriormente, lançados ao rio Tibre. Segundo aquele autor, a topografia local indicia isso mesmo, com os declives abruptos em várias direcções, tal qual a referida escadaria.

Santarém: Capital do Gótico (III)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

Foto tirada daqui.
Em função do clima, dos solos, da topografia e da ocupação humana, é usual fazer a distinção de quatro zonas dentro do concelho de Santarém: o campo, o bairro, a charneca e a serra. Correspondem, no fundo, a três áreas distintas: a zona do vale do Tejo e seus principais afluentes, a peneplanície ondulada e a serra.
O seu aproveitamento faz-se consoante a ordem emanada pelas características geográficas. Se na lezíria e no bairro o aproveitamento agro-pecuário é excelente, dada a abundância de água e a fertilidade dos solos, já na charneca opta-se pela silvicultura, dada a pobreza dos solos, e na serra, devido às mesmas razões, opta-se pela extracção de pedra.
O campo ou lezíria encontra-se junto à margem direita do rio Tejo e ao curso inferior dos seus principais afluentes. É composto por aluviões modernos, profundos e férteis, de elevada produtividade. São considerados dos melhores solos agrícolas do país. Aqui, «a paleta cromática varia entre os azuis da atmosfera e do rio, os amarelos dos assoreamentos do estio e mouchões e as tonalidades de verde» (José Augusto Rodrigues)
À zona por onde o Tejo se espraia, durante as cheias, chama o povo a borda d’água. Aí se fixaram, ao longo dos tempos, povos vindos de todo o país. Os vareiros que vinham de Ovar, os avieiros de Vieira de Leiria, os das Beiras e os do Minho. Chegavam todos para fugirem à fome, para se alimentarem do Tejo, para se fixarem em terras férteis que lhes permitiam uma vida mais sustentada.
Entre o vale do Tejo e a serra, na zona das colinas que dominam Santarém a norte e a oeste, surge uma peneplanura dobrada, entrecortada por diferentes linhas de água, que ocupa grande parte da área concelhia. É o bairro. A sua formação resultou de processos geológicos semelhantes àqueles que ocorreram no planalto da cidade.
O seu relevo caracteriza-se por um grande número de pequenas ondulações e os seus solos por serem argilo-arenosos e argilo-calcários, propícios para as culturas de sequeiro. Segundo a carta ecológica de Pina Manique Albuquerque, o bairro está incluído na zona atlântico-mediterrânica-submediterrânica.
As oliveiras, seculares, são a sua principal cultura. De resto, a extensa mancha que se forma pelo coberto vegetal existente transporta consigo uma imagem de continuidade e de ligação entre a parte alta da cidade e zona do rio. Para além dos olivais, registam-se várias espécies arbóreas, arbustivas e subarbustivas espontâneas.
A charneca localiza-se em depressão entre o bairro e a serra. Tem terras mais pobres, daí a opção pela silvicultura. Pinhais, eucaliptais e matagais, a par da oliveira e da vinha, constituem grande parte da sua área. Aposta-se ainda nos fornos de cal e nas indústrias de barro vermelho. Uma área cuja história está relacionada com as montarias de Santarém, terrenos adequados à caça do porco montês e do javali. Aí se praticava também, desde o século XIII, a altanaria – caçada com aves de rapina ensinadas, as quais, voando alto, iam cair sobre a presa.
A serra, por fim, delimita o concelho a norte. É a zona do maciço estremenho de Porto de Mós, a de maior altitude e onde predominam os afloramentos rochosos e as pedras soltas. Os relevos são interrompidos por depressões relativamente planas, onde é possível observarem-se pequenas manchas agrícolas, os covões. Uma área que se estende em arco de círculo desde Valverde, a oeste, até ao limite do concelho com o de Alcanena. A extracção de pedra, com vista à construção de pavimentos e ornamento, é uma das actividades fundamentais, visto que as condições dos solos não dão para muito mais.
A zona do vale do Tejo e dos seus principais afluentes é plana e está em posição oposta à serra. Nesta, é possível registar a existência de um grande número de valas de rega com diques e vaiados, que contribuem para a sua drenagem numa zona outrora pantanosa utilizada para apascentar o gado bovino e equino.

Santarém: Capital do Gótico (II)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)


Santarém foi feita pelo Homem, que moldou a natureza aos seus próprios interesses. A cidade é também obra do rio. Um rio «gigante», no dizer de Vítor Serrão, que ajudou a construir uma plataforma natural articulada com sete colinas sinuosas. Uma especificidade orográfica difícil de encontrar transformou Santarém numa cidade «sui generis».
Santarém foi, desde sempre, uma terra a todos os níveis ilustre. No dizer de Afrânio Peixoto, a história de Santarém confunde-se com a história de Portugal. A história de Santarém pois é a história da pátria.
No princípio, aquela terra seria pouco menos do que inexpugnável. Daí a visita que recebeu de grande parte dos povos que atingiram a região ocidental da Península Ibérica. Dos fenícios aos muçulmanos. Dos primeiros, ficaram os vestígios de actividades ligadas à indústria, na colina das Portas do Sol. Dos últimos, a devastadora acção da conquista, mas mais ainda a sua actividade comercial e a toponímia.
Na época romana, Scallabis foi capital de um dos três distritos em que se dividia a Lusitânia (os outros eram Mérida e Beja). A subida posterior do nível das águas do Tejo poderá ter estado na base do desaparecimento de muitos dos monumentos dessa época. Os romanos influenciaram a cidade até hoje. A sua actual configuração denuncia ainda, de certo modo, o urbanismo romano, acima de tudo rectilíneo.
As fontes parecem fazer crer que Santarém, na época romana, bárbara e muçulmana, foi um importante centro cultural. Desde o nascimento de Cornellius Bochum, autor de uma «Crónica do Mundo», passando pela presença do bispo João Biclarense, na época visigótica, e do moçárabe Ibn Bassam. Em todos estes momentos, a cultura, as artes e as letras desempenharam papel de relevo no contexto ibérico.
Em 1147, Santarém foi definitivamente conquistada aos mouros. Já mudara de nome nessa altura. A lenda relaciona o facto com o milagre de Santa Eirena ou Iria, cujo corpo, martirizado em Tomar, foi ter a Scallabis. Recaredo, rei godo convertido a Cristo, logo tratou de (re)baptizar a povoação.
Com a ocupação cristã, Santarém conquistou um período de grande esplendor. Aquela «fonte mágica de atracção cultural» encantou mesmo poetas, escritores e até os primeiros monarcas portugueses. D. Afonso Henriques fez questão de a ter para si, D. Afonso III elegeu-a como a sua predilecta, D. Dinis escolheu-a para morrer. Ainda D. Pedro I, que ali mandou matar os assassinos de Inês de Castro, e Leonor Telles, que ali se refugiou.
Para lá das escolhas reais, Santarém esteve em momentos fundamentais da história de Portugal. Do século XII ao século XIV, por dezasseis vezes ali se reuniram as cortes. Enumerar seria fastidioso, mas as de 1273 e as de 1418 não terão sido por certo as menos importantes.
Aqui se cantaram, tanto nas cortes dos reis como nas ruas do povo, as melancólicas cantigas de amigo e de amor e as irónicas cantigas de escárnio e maldizer. Tradições musicais que os jograis trouxeram e que perduraram pelos séculos fora até chegarem aos dias de hoje.
Aqui se tomaram decisões importantes relativas aos Descobrimentos portugueses. Daqui partiram muitos das ilustres personagens que fizeram a história marítima portuguesa. Aqui se cortou, com o machado e a força do braço, a madeira que ia servir para fazer as caravelas da conquista e da descoberta.
Em 1491, morre na Ribeira de Santarém o infante D. Afonso, príncipe herdeiro e filho único de D. João II. Os reis não voltam lá com a frequência de outrora, a vila entra em declínio e os palácios ficam arruinados. Só os conventos se salvariam. Mas na perda da independência do século XVI e na Restauração que se lhe seguiu, os santarenos mostraram que não tinham morrido e honraram os seus pergaminhos.
As Invasões Francesas, entre 1807 e 1810, não vão fazer mais do que acentuar a desolação provocada por uma vila que perdera as suas características mais nobres. O século XIX foi o século das revoluções, mas em Santarém foi o das destruições. Quanto aos terramotos dos séculos anteriores, já tinham dado uma ajuda.
Quanto às guerras civis, ilustraram bem a nobreza e o carácter de uma cidade que, apesar de tudo, nunca se submeteu à tirania e à baixeza de ideais. O liberalismo triunfou, Sá da Bandeira e Saldanha entraram impantes na cidade, D. Pedro subiria ao trono mais curto da história da lusa pátria.
Em 1881, é inaugurada a ponte D. Luís, para Almeirim. O comboio estabelece uma ligação rápida com Lisboa. A partir de 1900, a população cresce rapidamente, a vila, feita cidade desde 1886, segue um rumo ao progresso e começa a crescer em altura, mas respeitando, na maior parte das vezes, projectos e traçados antigos que, em alguns dos casos, remontavam à época romana.
De Santarém partiu a revolução, no heróico dia 25 de Abril de 1974, por assim dizer o mais importante dia do nosso século XX. Aqui levantou o bravo capitão Salgueiro Maia a força da coragem, com o único objectivo de libertar o povo português da opressão em que vivia. Sem motivações políticas, sem escusos intuitos, sem nenhum tipo de ambição a não ser a do patriotismo. Como foi diferente o nosso capitão de todos quantos, a seguir, tomaram em suas mãos a governação de Portugal. Como foi desaproveitada a lição que Salgueiro Maia deu.
Tudo isto junto confere a Santarém um lugar único nas cidades portuguesas. Pode não ser a mais bonita de todas, pode não ter tanta história como as outras, mas é indubitavelmente uma cidade única. Por todas as razões, das quais a localização geográfica se assumiu desde sempre como a principal e modeladora de todas as outras. Criando o tal «espírito de lugar» de que Jorge Custódio falou e que já muitos outros, desde a Idade Média, sentiram.
«O contraste paisagístico entre o planalto e a planície; a relação das diversas e diferentes áreas que se constituíram ao longo dos tempos, quer no planalto, quer na margem direita do rio Tejo; a geomorfologia do terreno, articulada pela descontinuidade oferecida pelos vales profundos – autênticas ribeiras correndo em direcção ao rio, cobertos de vegetação ripícola; as encostas verdejantes que ligam harmonicamente as partes baixas com as altas; a área planáltica edificada donde sobressaem os volumes dos telhados e as torres das igrejas. Tudo se organiza num todo, onde o rio, o vegetal e o planalto, com o edificado, se fundem numa síntese natural e urbana.» (José Augusto Rodrigues)
A candidatura a Património Mundial da Humanidade poderá ser uma forma de reabilitar o conjunto urbano de Santarém e de preservar a unidade histórica e artística do seu centro. Tarefa sempre difícil, ainda mais numa cidade que chegou a ter catorze conventos e trinta e seis igrejas. Nesses monumentos, os que subsistiram, e em todos os outros, estão presentes os mais variados estilos artísticos e arquitectónicos. Mas de quantos aqui marcam presença, um deles ultrapassa todos em qualidade e em quantidade. O gótico, obviamente, com a força e a pujança que recebeu quando chegou da Europa. Santarém, a Capital do Gótico.
Santarém, a cidade, é mesmo o que há de mais importante neste concelho de vinte e oito freguesias e neste distrito de concelhos. Concelho que nem sempre foi o mesmo, que já teve uma configuração diferente, que hoje alberga no seu seio povoações que já foram municípios independentes até há não muito tempo, como Pernes ou Alcanede.
Mas nada faria sentido se não existisse a sede do concelho, se não existisse Santarém. Daí o destaque para a cidade das sete colinas. De onde Santarém continua a observar a lezíria. E atrás dela, a humanidade que aí vem.

Apontamentos & desapontamentos: uma tele-confusão (D. Afonso Henriques e o fado)

Poemas com história: Natureza morta

Discussão recorrente foi, nos anos sessenta e setenta, a da dicotomia entre forma e conteúdo. Bati-me sempre pela prevalência do conteúdo, sendo da opinião que «o que se diz» é mais importante do que «como se diz». Mas não era, nem é, uma opinião compartilhada pela maioria dos escritores e artistas. Segundo eles, a arte constitui uma linguagem autónoma, independente da realidade do quotidiano, vale por si mesma. É uma posição respeitável. Entretanto, particularmente na literatura, foi vingando um tipo de escrita enovelada sobre si mesma. Os poetas e escritores, sem liberdade de expressão, jogavam com as palavras e, às vezes, no meio de uma floresta de palavras descobria-se um significado. É contra esse tipo de escrita (e de arte) que este poema, escrito por esses tempos, mas apenas publicado em 1990 em O Cárcere e o Prado Luminoso, se batia. Uma arte ligada à vida e à realidade é o que pretendo defender com esta Natureza morta:

Olhando a natureza morta,

frias laranjas dormindo

numa fruteira inerme,

silenciosa,

que o azul cerúleo recorta

na quadrícula branca

da janela,

recuso a natureza

assim estagnada,

sem dentes, sem fome, sem desejo,

sem nada que triture as laranjas:

sem dedos que a esmaguem,

nem crianças que partam

a puta da fruteira;

sem sequer um grito de revolta

que trespasse a gélida fronteira

entre a morte e o silêncio

emoldurados

e a vida que se agita,

grita, ruge e dói

deste lado de cá

da maldita moldura.

Recuso a natureza

pálida, parada,

sem aves, vento ou sons

que sulquem o azul do céu

desta natureza, assim

tão contra-natura

como a que assassinada

a tiros de pincel,

jaz fria, morta e enterrada

na tela e nas cores

desta pintura

Poemas com História: Vinte anos, meu amor

Antes do poema, a História. Este vídeo, comentado em português do Brasil, com uma outra afirmação menos correcta (do meu ponto de vista), explica a quem não se lembrar e a quem não souber, o que se passou naqueles dias de Agosto de 1945:

O poema que hoje vos trago foi escrito em 1965, quando se completaram 20 anos sobre o bombardeamento nuclear das cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui. Foi publicado na antologia Hiroxima, uma antologia de poetas portugueses que organizei, de colaboração com Manuel Simões, e que foi publicada em 1967 e também na colectânea A Voz e o Sangue (1968).. O título é uma clara alusão ao script de Marguerite Duras, Hiroshima mon amour, para o filme de Alain Resnais. Foi reproduzido em numerosas antologias, algumas estrangeiras, e traduzido em diversos idiomas, nomeadamente em castelhano, em francês, em inglês e em catalão. Vamos ao poema:
Vinte anos, meu amor
O relâmpago da bomba que assassinou Hiroxima,
esculpiu sombras sobre a pedra e o cimento
e diz-se que uma delas foi a de um pintor
cuja silhueta ficou para sempre tatuada
no mármore da frontaria de um banco comercial.
O operário, no pedestal do seu escadote,
mergulhava o pincel na lata de tinta
quando o grande clarão se abateu sobre a cidade.
Isto é,
às oito horas e quinze minutos do dia seis de Agosto
de mil novecentos e quarenta e cinco
(enquanto outros homens lançavam bombas),
um homem que trabalhava deixava o seu protesto
esculpido a luz na fachada de um banco.
A sua sombra é talvez o mais evidente e doloroso
monumento à glória dos trabalhadores de todo o mundo.
Mas isto foi há vinte anos,
quando Hiroxima e Nagasáqui foram duas flores de fogo
em cujas corolas explodia a carne e o vidro,
o sangue e o betão – foi há vinte anos,
quando os SS fugiam de Weimar e de Auschwitz,
deixando barracões atulhados de esqueletos vivos
e pátios com montões de cadáveres – carne podre
e ossos amarelecidos que não houve tempo de cremar,
foi há vinte anos e dos barracões saíram filas
de esqueletos vivos que partiram para as suas pátrias
desembarcando nas gares cinzentas da Europa Central,
com a palavra esperança bordada nos seus brancos lábios.
Tudo isto há vinte anos e desde aí os homens,
com os lábios em que tinham hasteado a palavra esperança,
decoraram nomes de terras onde outros homens morriam
para que a esperança deixasse de ser apenas uma palavra:
– Coreia, Indochina, Argélia, Cuba, Congo…
As fachadas dos bancos de Orão, de Havana, de Leopoldville,
viram passar sombras reivindicativas de trabalhadores
e – embora não eternamente – elas projectaram-se sobre o mármore
numa ameaça do Trabalho à indignidade.
………………………………………………………………………………..
A esperança é como uma grande bandeira que os homens levam
nos lábios, nos olhos e na memória,
e as suas sílabas, como pombas invencíveis,
sobrevoam os fornos crematórios, as cidades assassinadas,
as câmaras de gás, as selvas e as celas dos presídios.
Os homens levam a esperança desfraldada nos seus lábios
e um dia hão-de hasteá-la sobre todo o Universo.

Falando de democracia: Um dia já não me lembrarei. De nada (sobre Hiroxima e Nagasáqui)


Foi há 64 anos. A era de um novo terror começara. Os Estados Unidos lançaram a 6 e a 9 de Agosto sobre Hiroxima e Nagasáqui, respectivamente, as primeiras bombas nucleares a atingir alvos civis. Em 1965, com o poeta, e agora professor universitário, Manuel Simões, organizei uma antologia com «depoimentos de poetas portugueses sobre o flagelo atómico, no 2º aniversário da destruição de Hiroxima e Nagasáqui». Mais de trinta escritores contribuíram com os seus poemas para esta edição que foi publicada em 1967 – nomes como os de António Cabral, António Rebordão Navarro, Casimiro de Brito, Eduardo Guerra Carneiro, Egito Gonçalves, Fernando J.B. Martinho, João Rui de Sousa, Manuel Alegre, Maria Rosa Colaço, Papiniano Carlos… Transcrevo alguns excertos do prefácio (estávamos a 7 anos de Abril e o livro foi proibido, não só pelo seu prefácio, mas também pela agressividade da maioria dos poemas):
«Agosto de 1945 é para o mundo, um fundamental marco miliário: é a partir dessa altura que é lícito falar-se dos Estados Unidos como da mais poderosa potência do Ocidente. A ambiciosa e florescente nação dos anos vinte, ressurge, já recomposta das cicatrizes que a crise económica de 1929 abrira. Poder edificado sobre os 130 000 cadáveres de Hiroxima e de Nagasáqui, consolidado com o sangue e com as lágrimas de tantas vítimas.
«Em nome da Liberdade, os E.U.A. deram o seu contributo para a destruição do nazi-fascismo, mas hoje, após a guerra da Coreia, após a invasão da Guatemala, após o desembarque na Baía dos Porcos, após a intervenção no Congo, em plena guerra do Vietname e em flagrante e escandalosa ingerência na política interna da República Dominicana, é oportuno perguntar até que ponto a «democracia» ianque se identifica com os fantasmas que ajudou a derrubar.» (…) «Os 130 000 mortos de Hiroxima e de Nagasáqui, são diariamente agitados ante os nossos olhos como um negro estandarte. A América serve-se dessa terrível recordação que inseriu a fogo na memória deste século, para amedrontar o mundo.»(…)«No Verão de 45, o Japão estava virtualmente derrotado – esgotara as suas fontes de energia humana e económica. Mas, nos Estados Unidos, temiam-se as consequências de uma batalha final em que o império nipónico empregasse desesperadamente as suas últimas forças.» (…) «É preferível que morram 100 000 japoneses a que morra um só Americano, eis uma explicação oficial citada num livro de J. Robert Oppenheimer.» (…)«Hiroxima, se é um terrível símbolo de morte, se é o aval do cheque com que os americanos exercem a sua chantagem atómica, é, para os homens verdadeiramente livres, e referimo-nos àqueles que o são em pensamento, ainda que os seus pulsos levem algemas, um símbolo de Paz.» (…)«Símbolo de Paz, porque nos ensinou, entre outras coisas, que Hiroxima pode, amanhã ou ainda hoje, acontecer em Londres, em Lisboa, em Moscovo ou (quem sabe?) em Nova Iorque.»
*
Mais de 40 anos depois, estas palavras continuam actuais Com pequenas alterações de circunstância e pormenor, voltaria a subscrevê-las. O que aconteceu de 1967 a esta parte não as desmentiu, antes as confirmou. Inclusive na medida em que o reflexo da prepotência norte-americana, apoiada pelos seus aliados da NATO, sob a forma do fundamentalismo islamista, atingiu Londres, Nova Iorque e Madrid. Porém, perdura, nos dias de hoje, 64 anos depois, a memória de Hiroxima?
Para nos recordarmos, vejamos acima algumas cenas de «Hiroshima mon amour», o inesquecível filme que, em 1959, Alain Resnais realizou com script de Marguerite Duras.

O professor Eduardo Lourenço, num artigo publicado no Público há vinte e quatro anos diz: «Desde Heródoto que a História existe como discurso contra o esquecimento, como estratégia para conferir um ¨sentido¨, uma plausível inteligibilidade inerente à vida e acontecimentos humanos. Para termos essa existência plena, semelhante à dos deuses gregos, imunes ao tempo, assumimos a vigília sem noite que chamamos História. Nela e com ela, sabemos de onde vimos e para onde vamos. Subsidiariamente, quem somos. Desta ilusão fundadora Hiroxima nos despiu. Os seus “cem mil sóis” não podem ser olhados sem morrer. Mesmo a sua recordação é mortal. Hiroxima impõe o esquecimento.» (…) «Hiroxima é um não-lugar, uma Pompeia fabricada de mão pensada pelos homens. Os japoneses deviam tê-la conservado assim, arrasada como Cartago pelos novos romanos, insuportável à vista e intolerável para o coração. Preferiram dissimulá-la e ninguém está no seu lugar para os julgar. Para sobreviver, incorporaram o esquecimento na sua história privada. Sem o saber, inauguravam a lúdica era da pós-modernidade que não é culto pedantismo de intelectuais europeus expulsos de uma História como fonte de sentido, mas tempo de gente que incorpora o esquecimento-Hiroxima por saber de mais que, sem ele, desembocaria descalça num terraço com vista privilegiada sobre o nada. Aquele onde tão festivamente estamos.» Vejamos mais um pouco do filme de Resnais.

Como Eduardo Lourenço, citando Marguerite Duras, lembra nesse artigo publicado no Público quando do cinquentenário da destruição atómica: «Un jour je ne me souviendrai plus. De rien». São palavras de Emanuelle Riva, a intérprete principal do filme: «- Um dia já não me lembrarei. De nada». Um dia, Hiroxima será uma data nos livros de História. Não nos lembraremos. De nada.

Mário Soares, Angola e o tráfico de diamantes

Mário Soares visto pelo jornalista António Marinho (actual Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho e Pinto), no «Diário do Centro» de 15 de Março de 2000

MÁRIO SOARES E ANGOLA

A polémica em torno das acusações das autoridades angolanas segundo as quais Mário Soares e seu filho João Soares seriam dos principais beneficiários do tráfico de diamantes e de marfim levados a cabo pela UNITA de Jonas Savimbi, tem sido conduzida na base de mistificações grosseiras sobre o comportamento daquelas figuras políticas nos últimos anos.
Espanta desde logo a intervenção pública da generalidade das figuras políticas do país, que vão desde o Presidente da República até ao deputado do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, passando pelo PP de Paulo Portas e Basílio Horta, pelo PSD de Durão Barroso e por toda a sorte de fazedores de opinião, jornalistas (ligados ou não à Fundação Mário Soares), pensadores profissionais, autarcas, «comendadores» e comentadores de serviço, etc.

Tudo como se Mário Soares fosse uma virgem perdida no meio de um imenso bordel.

Sei que Mário Soares não é nenhuma virgem e que o país (apesar de tudo) não é nenhum bordel. Sei também que não gosto mesmo nada de Mário Soares e do filho João Soares, os quais se têm vindo a comportar politicamente como uma espécie de versão portuguesa da antiga dupla haitiana «Papa Doc» e «Baby Doc».

Vejamos então por que é que eu não gosto dele(s).

A primeira ideia que se agiganta sobre Mário Soares é que é um homem que não tem princípios mas sim fins.

É-lhe atribuída a célebre frase: «Em política, feio, feio, é perder».

São conhecidos também os seus zigue-zagues políticos desde antes do 25 de Abril. Tentou negociar com Marcelo Caetano uma legalização do seu (e de seus amigos) agrupamento político, num gesto que mais não significava do que uma imensa traição a toda a oposição, mormente àquela que mais se empenhava na luta contra o fascismo.

JÁ DEPOIS DO 25 DE ABRIL, ASSUMIU-SE COMO O HOMEM DOS AMERICANOS E DA CIA EM PORTUGAL E NA PRÓPRIA INTERNACIONAL SOCIALISTA. Dos mesmos americanos que acabavam de conceber, financiar e executar o golpe contra Salvador Allende no Chile e que colocara no poder Augusto Pinochet.

Mário Soares combateu o comunismo e os comunistas portugueses como nenhuma outra pessoa o fizera durante a revolução e FOI AMIGO DE
NICOLAU CEAUCESCU, FIGURA QUE CHEGOU A APRESENTAR COMO MODELO A SER SEGUIDO PELOS COMUNISTAS PORTUGUESES.

Durante a revolução portuguesa andou a gritar nas ruas do país a palavra de ordem «Partido Socialista, Partido Marxista», mas mal se apanhou no poder meteu o socialismo na gaveta e nunca mais o tirou de lá. Os seus governos notabilizaram-se por três coisas: políticas abertamente de direita, a facilidade com que certos empresários ganhavam dinheiro e essa inovação da austeridade soarista (versão bloco central) que foram os salários em atraso.

INSULTO A UM JUIZ

Em Coimbra, onde veio uma vez como primeiro-ministro, foi confrontado com uma manifestação de trabalhadores com salários em atraso. Soares não gostou do que ouviu (chamaram-lhe o que Soares tem chamado aos governantes angolanos) e alguns trabalhadores foram presos por polícias zelosos. Mas, como não apresentou queixa (o tipo de crime em causa exigia a apresentação de queixa), o juiz não teve outro remédio senão libertar os detidos no próprio dia. Soares não gostou e insultou publicamente esse magistrado, o qual ainda apresentou queixa ao Conselho Superior da Magistratura contra Mário Soares, mas sua excelência não foi incomodado.

Na sequência, foi modificado o Código Penal, o que constituiu a primeira alteração de que foi alvo por exigência dos interesses pessoais de figuras políticas.

Soares é arrogante, pesporrento e malcriado. É conhecidíssima a frase que dirigiu, perante as câmaras de TV, a um agente da GNR em serviço que cumpria a missão de lhe fazer escolta enquanto presidente da República durante a Presidência aberta em Lisboa: «Ó Sr. Guarda! Desapareça!». Nunca, em Portugal, um agente da autoridade terá sido tão humilhado publicamente por um responsável político, como aquele pobre soldado da GNR.

Em minha opinião, Mário Soares nunca foi um verdadeiro democrata. Ou melhor é muito democrata se for ele a mandar. Quando não, acaba-se imediatamente a democracia. À sua volta não tem amigos, e ele sabe-o; tem pessoas que não pensam pela própria cabeça e que apenas fazem o que ele manda e quando ele manda. Só é amigo de quem lhe obedece. Quem ousar ter ideias próprias é triturado sem quaisquer contemplações.
Algumas das suas mais sólidas e antigas amizades ficaram pelo caminho quando ousaram pôr em causa os seus interesses ou ambições pessoais.

Soares é um homem de ódios pessoais sem limites, os quais sempre colocou acima dos interesses políticos do partido e do próprio país.

Em 1980, não hesitou em APOIAR OBJECTIVAMENTE O GENERAL SOARES CARNEIRO CONTRA EANES, NÃO POR RAZÕES POLÍTICAS MAS DEVIDO AO ÓDIO PESSOAL QUE NUTRIA PELO GENERAL RAMALHO EANES. E como o PS não alinhou nessa aventura que iria entregar a presidência da República a um general do antigo regime, Soares, em vez de acatar a decisão maioritária do seu partido, optou por demitir-se e passou a intrigar, a conspirar e a manipular as consciências dos militantes socialistas e de toda a sorte de oportunistas, não hesitando mesmo em espezinhar amigos de sempre como Francisco Salgado Zenha.

Confesso que não sei por que é que o séquito de prosélitos do soarismo (onde, lamentavelmente, parece ter-se incluído agora o actual presidente da República – Cavaco Silva), apareceram agora tão indignados com as declarações de governantes angolanos e estiveram tão calados quando da publicação do livro de Rui Mateus sobre Mário Soares. NA ALTURA TODOS METERAM A CABEÇA NA AREIA, INCLUINDO O PRÓPRIO CLÃ DOS SOARES, E NEM TUGIRAM NEM MUGIRAM, APESAR DE AS ACUSAÇÕES SEREM ENTÃO BEM MAIS GRAVES DO QUE AS DE AGORA. POR QUE É QUE JORGE SAMPAIO SE CALOU CONTRA AS «CALÚNIAS» DE RUI MATEUS?».

«DINHEIRO DE MACAU»

Anos mais tarde, um senhor que fora ministro de um governo chefiado por MÁRIO SOARES, ROSADO CORREIA, vinha de Macau para Portugal com uma mala com dezenas de milhares de contos. *A proveniência do** dinheiro era tão pouco limpa que um membro do governo de Macau, ANTÓNIO **VITORINO, *foi a correr ao aeroporto tirar-lhe a mala à última hora.
Parece que se tratava de dinheiro que tinha sido obtido de empresários chineses com a promessa de benefícios indevidos por parte do governo de Macau. Para quem era esse dinheiro foi coisa que nunca ficou devidamente esclarecida. O caso EMAUDIO (e o célebre fax de Macau) é um episódio que envolve destacadíssimos soaristas, amigos íntimos de Mário Soares e altos dirigentes do PS da época soarista. MENANO DO AMARAL chegou a ser responsável pelas finanças do PS e Rui Mateus foi durante anos responsável pelas relações internacionais do partido, ou
seja, pela angariação de fundos no estrangeiro.

Não haveria seguramente no PS ninguém em quem Soares depositasse mais confiança. Ainda hoje subsistem muitas dúvidas (e não só as lançadas pelo livro de Rui Mateus) sobre o verdadeiro destino dos financiamentos vindos de Macau. No entanto, em tribunal, os pretensos corruptores foram processualmente separados dos alegados corrompidos, com esta peculiaridade (que não é inédita) judicial: os pretensos
corruptores foram condenados, enquanto os alegados corrompidos foram absolvidos.

Aliás, no que respeita a Macau só um país sem dignidade e um povo sem brio nem vergonha é que toleravam o que se passou nos últimos anos (e
nos últimos dias) de administração portuguesa daquele território, com
os
chineses pura e simplesmente a chamar ladrões aos portugueses. E isso não foi só dirigido a alguns colaboradores de cartazes do MASP que a dada altura enxamearam aquele território.

Esse epíteto chegou a ser dirigido aos mais altos representantes do Estado Português. Tudo por causa das fundações criadas para tirar dinheiro de Macau. Mas isso é outra história cujos verdadeiros contornos hão-de ser um dia conhecidos. Não foi só em Portugal que Mário Soares conviveu com pessoas pouco recomendáveis. Veja-se o caso de BETINO CRAXI, o líder do PS italiano, condenado a vários anos de prisão pelas autoridades judiciais do seu país, devido a graves crimes como corrupção. Soares fez questão de lhe manifestar publicamente solidariedade quando ele se refugiou na Tunísia.

Veja-se também a amizade com Filipe González, líder do Partido Socialista de Espanha que não encontrou melhor maneira para resolver o
problema político do país Basco senão recorrer ao terrorismo, contratando os piores mercenários do lumpen e da extrema direita da Europa para assassinar militantes e simpatizantes da ETA.

Mário Soares utilizou o cargo de presidente da República para passear pelo estrangeiro como nunca ninguém fizera em Portugal. Ele, que tanta
austeridade impôs aos trabalhadores portugueses enquanto primeiro-ministro, gastou, como Presidente da República, milhões de contos dos contribuintes portugueses em passeatas pelo mundo, com verdadeiros exércitos de amigos e prosélitos do soarismo, com destaque para jornalistas. São muitos desses «viajantes» que hoje se põem em bicos de pés a indignar-se pelas declarações dos governantes angolanos.

Enquanto Presidente da República, Soares abusou como ninguém das distinções honoríficas do Estado Português. Não há praticamente nenhum amigo que não tenha recebido uma condecoração, enquanto outros cidadãos, que tanto mereceram, não obtiveram qualquer distinção durante o seu «reinado». Um dos maiores vultos da resistência antifascista no meio universitário, e um dos mais notáveis académicos portugueses, perseguido pelo antigo regime, o Prof. Doutor Orlando de Carvalho, não foi merecedor, segundo Mário Soares, da Ordem da Liberdade. Mas alguns que até colaboraram com o antigo regime receberam as mais altas distinções. Orlando de Carvalho só veio a receber a Ordem da Liberdade depois de Soares deixar a Presidência da República, ou seja logo que Sampaio tomou posse. A razão foi só uma: Orlando de Carvalho nunca prestou vassalagem a Soares e Jorge Sampaio não fazia depender disso a atribuição de condecorações.

FUNDAÇÃO COM DINHEIROS PÚBLICOS

A pretexto de uns papéis pessoais cujo valor histórico ou cultural nunca ninguém sindicou, Soares decidiu fazer uma Fundação com o seu nome. Nada de mal se o fizesse com dinheiro seu, como seria normal.
Mas não; acabou por fazê-la com dinheiros públicos. SÓ O GOVERNO, DE UMA SÓ VEZ DEU-LHE 500 MIL CONTOS E A CÂMARA DE LISBOA, PRESIDIDA PELO SEU FILHO, DEU-LHE UM PRÉDIO NO VALOR DE CENTENAS DE MILHARES DE CONTOS. Nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha ou em qualquer país em que as regras democráticas fossem minimamente respeitadas muita gente estaria, por isso, a contas com a justiça, incluindo os próprios Mário e João Soares e as respectivas carreiras políticas teriam aí terminado. Tais práticas são absolutamente inadmissíveis num país que respeitasse o dinheiro extorquido aos contribuintes pelo fisco.

Se os seus documentos pessoais tinham valor histórico Mário Soares deveria entregá-los a uma instituição pública, como a Torre do Tombo ou o Centro de Documentação 25 de Abril, por exemplo. Mas para isso era preciso que Soares fosse uma pessoa com humildade democrática
e verdadeiro amor pela cultura. Mas não. Não eram preocupações culturais que motivaram Soares. O que ele pretendia era outra coisa.
Porque as suas ambições não têm limites ele precisava de um instrumento de pressão sobre as instituições democráticas e dos órgãos de poder e de intromissão directa na vida política do país. A Fundação Mário Soares está a transformar-se num verdadeiro cancro da democracia
portuguesa.»

O livro de Rui Mateus, que foi rapidamente retirado de mercado após a celeuma que causou em 1996 (há quem diga que “alguém” comprou toda a edição), está disponível em:

 http://www.scribd.com/doc/12699901/Livro-Contos-Proibidos

ou http://ferrao.org/documentos/Livro_Contos_Proibidos.pdf

ou ainda > http://rapidshare.com/files/23967307/Livro_Contos_Proibidos.pdf

Poemas com história – Canção para Maria

A receita desta nova série é muito simples: pego num poema meu, já publicado ou inédito, e explico em breves palavras a sua génese, o sentimento ou o acontecimento que o provocou. Uma advertência: alguém me disse que devia chamar à série «poemas com estória». Há empréstimos da norma brasileira e do português falado no Brasil que aceito e outras que não. Essa de estabelecer diferença entre História, para definir a ciência que relata os factos públicos, militares ou políticos de uma nação ou estado, e estória, para qualificar a arte da ficção narrativa, diferença que, grande parte das pessoas (algumas muito respeitáveis) adoptou com o entusiasmo de quem descobriu a pólvora, a mim não me apanha. Uso o termo história nas duas acepções. O facto de em inglês se usar History e story, respectivamente, a mim não me diz nada. A única diferenciação que aceito (desnecessária pois, pelo contexto, logo se percebe do que estamos a falar), é utilizar o H maiúsculo no caso da disciplina científica. Em suma, gosto muito de ouvir falar os brasileiros a falar com o seu sotaque e expressões próprios e não gosto nada de ouvir os portugueses a macaqueá-los. Está explicado – poemas com história.

fanhais

Francisco Fanhais cantando Canção para Maria (Queria Um País de Sol Para te Dar) na FNAC do Fórum Almada.

O primeiro poema que apresento nesta série, intitula-se Queria um país de Sol para te dar e foi publicado no meu livro A Poesia Deve Ser Feita Por Todos. Escrevi-o no presídio do Reduto Norte de Caxias em 1968, dedicado a minha mulher. O Francisco Fanhais musicou-o e ainda hoje o canta com frequência. Mudou-lhe o título para Canção para Maria. Há uma história interessante relacionada com este poema, para além do facto das circunstâncias em que foi escrito e da forma como, com muitos outros textos, saiu comigo quando fui posto em liberdade, após seis meses de cativeiro – dentro de sapatos, entre a palmilha e a sola: o Francisco Fanhais cantava o poema por muitos lados e antecedia-o sempre da mesma história – o Carlos Loures uma tarde disse para a mulher: – Vou até ao café, venho já! – e o Fanhais fazia uma pausa e rematava – voltou passados seis anos! Isto tinha-se passado assim, eu de facto fui preso no café, mas foram seis longos meses e não seis anos. Quando, finalmente, já depois do 25 de Abril conheci pessoalmente o Fanhais, pedi-lhe para ele fazer a rectificação. Aqui vai o tal poema:

Queria um país de Sol para te dar

Para a Maria Helena

Queria um país de Sol para te dar,

com amantes e crianças nos jardins,

pássaros livres a cantar nas árvores

e a luz em liberdade pelas ruas

– as coisas nos lugares onde as sonhámos

e não nos sítios onde estão,

com armas aperradas a guardá-las.

Um país onde sulcássemos as límpidas manhãs

com sorrisos claros vestindo as faces.

Um país sem muros, sem medo

nem carimbos nas cartas que escrevemos

e ouvidos nas palavras que dizemos,

em segredo.

Mas, meu amor, nascemos cedo,

chegámos ainda a tempo de viver

este tempo que vivemos

com lágrimas ocultas no sorriso,

a raiva escondida nas carícias

e uma secreta esperança aprisionada

nos nossos corações aprisionados.

Viemos ainda a tempo de sofrer

Este tempo que sofremos

dia a dia e que sulcamos,

com os beijos vigiados,

com os nossos segredos desvendados,

com este amor amputado e prisioneiro

com que amamos.

Meu amor, não desertemos

Do tempo e do país em que nascemos

(e viver outro tempo dentro deste

ou estar fora do país

dele não saindo,

também é desertar).

Já que foi este o tempo que nos coube,

já que foi este o país que nos deixaram,

temos de conquistar o Sol que os ilumine,

roubando-o ao silêncio e à mordaça

que nos sufoca a voz – Não desertamos

– o ódio, o medo, a morte

que fujam, que desertem

se o amor os insulta e ameaça.

– Nós ficamos!

Com ao companheiros

e o amor dos companheiros,

o amor será mais forte

do que o ódio, do que o medo, do que a morte.

A luz também se constrói com os nossos beijos,

com as palavras clandestinas que escrevemos,

aquelas que a opressão não vê nem ouve.

A luz também se constrói com os nossos filhos,

eles tingem de luz nova

as sombras que com ódio vêm pôr

entre as carícias, os beijos e as palavras.

Neles se erguerá a luz para amanhã

e a liberdade prisioneira nos nossos corações

inundará de Sol as ruas,

meu amor.

Nota final: Este poema também ficaria bem na minha outra série Apontamentos & Desapontamentos. A democracia, esta «democracia», desapontou-me. Em todo o caso, não alimento saudosismos estúpidos por esse tempo de odiosa e criminosa repressão. Desse período negro, só invejo nostalgicamente a «mocidade perdida», como diz o faduncho.

Reviver e lutar pelo 25 de Abril

História de uma noite de Inverno, localizada em determinado Novembro ou Dezembro do início da década de 1970. Saí do cinema Roma, onde assisti a um filme de cujo título nem sequer me lembro. Mantenho viva a recordação, essa sim, de me deparar com o Zé, aquele miúdo franzino, enregelado e que aparentava nove ou dez anos de indigência desde o berço, e de quem ouvi um amargurado gemido: “preciso de comer, estou com fome e frio”. 

A frase, naquela voz infantil e débil, suscitou-me uma dor violenta. Não física, claro. Como diz o povo, foi uma dor de alma, neste caso esmagadora, angustiante e de enorme revolta. Ainda para mais vivida naquele local lisboeta, Avenida de Roma / Praça de Londres. Ali proliferavam os cafés frequentados por gente da classe média alta. Eles de gravata de seda e fatos do Lourenço & Santos; elas decoradas no peito, nos punhos e nas mãos com obras reluzentes de joalharia de luxo, e ostentando vestuário de alta-costura, talvez confeccionados com tecidos da Casa Frazão. Todos tinham em comum a indiferença à miséria que os rodeava.

Entrei com o Zé no café Londres, um dos ditos. Pedi que lhe servissem um copo de leite quente e um pão com fiambre. O que, aliás, correspondia ao desejo que me foi expresso. A insensibilidade do meio era tal que o empregado recusou satisfazer o pedido. Ordenou que me retirasse com a criança. Claro, no desassossego do meu espírito, protestei, barafustei e, graças à perícia do chefe a evitar escândalos, lá consegui mitigar a fome da criança. Ao menos naquele pedaço de noite.

Reviver o 25 de Abril implica trazer à memória histórias como esta, de pobreza, de sofrimento e de desigualdade obscenos. Infelizmente, todos estes fenómenos estão de volta, sob uma forma desumana e destruidora de direitos de cidadania fundamentais. Dois exemplos: o País tem mais noventa e tal mil desempregados do que há um ano, isto na versão oficial, da qual naturalmente desconfio, pela escassez argumentada; segundo estudos do Banco de Portugal, em 2005/2006, tínhamos (e continuamos a ter, acrescento eu) um dos índices mais elevados de pobreza da UE, envolvendo cerca de 2 milhões de cidadãos, entre os quais se estima haver à volta de trezentos mil menores –TVNET – Pobreza em Portugal atinge números preocupantes.

O 25 de Abril pôs fim à ditadura feroz. Prosas e poemas teceram em palavras a alegria e a libertação do povo português. Vem-me à memória ‘As portas que Abril abriu’, que Ary dos Santos escreveu e recitou de forma vigorosa. Mas, ao fim de 35 anos, tornou-se imperioso (re)abrir portas, fechando os alçapões da mentira, da demagogia e das iniquidades, itinerários entretanto preferidos por este e outros governos, de filhos de deuses menores, oportunistas e amanuenses.

O revivalismo da data é saudável mas não suficiente. Celebremos o ’25 de Abril’ com entusiasmo, mas tenhamos consciência de que, no dia-a-dia, é necessário continuar a defender ideais da democracia autêntica e do compromisso social do Estado, que Sócrates e os políticos que têm governado o País ignoram, em particular na saúde, no ensino, no sistema de justiça e no direito ao trabalho. E até na liberdade de expressão.