A palavra e o Estado de Direito

Aquilo que transforma o habitante da cidade num Cidadão não é a Geografia, mas o Direito. Cidade e Cidadão são institutos jurídicos através dos quais se materializa a Cidadania e, assim, os pilares fundamentais do Estado de Direito Democrático. Não existe, obviamente, Cidadão sem Cidadania e esta apenas pode subsistir num contexto onde impere o primado da Lei, a independência dos poderes e a liberdade de escolha.

É o Estado de Direito Democrático, enquanto estrutura jurídico-administrativa, que confere ao Cidadão a prerrogativa de exercer e materializar a Cidadania. A maioria dos instrumentos constituintes dessa estrutura jurídico-administrativa não está, porém, ao alcance do Cidadão comum, por um conjunto de motivos, conhecidos ou desconhecidos, todos eles ilegítimos, que não importa aqui indagar. A Cidadania acaba por exercer-se, quando se exerce, com recurso a um repertório mínimo de instrumentos – é o Estado de Direito Democrático Mínimo. O mais universal, democrático e acessível desses instrumentos é a Palavra. É por isso que só em Estados Totalitários, que não são, portanto, compostos por Cidadãos, se limita, condiciona ou suprime, por acção ou omissão, o direito ao seu uso legítimo.

Palavra dada é palavra honrada

LM PPC

Na sua intervenção da histórica tarde de ontem, António Costa usou a expressão “palavra dada é palavra honrada” e o galinheiro em que se tinha transformado a bancada parlamentar do PàF explodiu em histerismo. Uma reacção que não deixa de ser curiosa vinda da facção liderada por Pedro Passos Coelho, que se fez eleger em 2011 com um conjunto de falsas palavras dadas que não foram honradas, apesar do seu conhecimento da realidade do país.

Costa termina a sua intervenção e o senhor que se segue é Luís Montenegro. Orador perspicaz, o líder da bancada parlamentar do PSD soube dar uso à expressão e virá-la contra António Costa. Mas, perante a indignação daquele que em tempos vaticinava que “a vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor“, e longe de querer fazer a defesa do líder do PS que até mereceu alguns dos mimos desferidos por Montenegro, vou tentar aqui repetir o exercício feito pelo distinto maçon, ainda que sem o brilhantismo de tão capacitado mestre da retórica: [Read more…]

O ricochete de Pires de Lima

os acordos em homens de palavra são para cumprir“. Sentiste o impacto Pedro?

Diz-me as tuas palavras, dir-te-ei quem és

 Ferreira Fernandes escreveu hoje mais uma interessante crónica na revista Notícias Magazine: «A palavra mais palavra do mundo: palavra». Refere-se ao jornalista, membro do júri Goncourt e apresentador de programas de TV francês Bernard Pivot (1935), que se tornou, “durante décadas, uma das personagens mais poderosas de França”.

Num dos seus programas televisivos em que entrevistava gente famosa como Woody Allen, Pivot perguntava-lhes “qual a sua palavra preferida?”. Woody Allen, como não podia deixar de ser, respondeu: “Não posso dizer, a minha mãe pode estar a ver o programa”. Outros disseram «tendresse» (Giroud), «lumière» (Mastroianni), outro «concupiscência».

A tese de Pivot é: diz-me as tuas palavras, dir-te-ei quem és. Revelamo-nos nas palavras que escolhemos. Não podemos resumir uma vida numa palavra, “mas buscando na memória, que está cheia de palavras, mesmo quem não quer ser escritor faz um belo livro”.

Há um ano atrás publicou-se o seu livro Les Mots de Ma Vie que, penso, não está editado para português (espero que o seja em breve).

Penso agora nos nossos políticos. Como eles se revelam naquilo que dizem… Político, diz-me as tuas palavras, dir-te-ei quem és.

E, já agora, caro leitor e leitora, qual a sua palavra preferida?

O poder dos sem-poder

Gosto de ler as crónicas de Frei Bento Domingues ao domingo no Público.

Hoje, escreveu: “O poder da palavra é o poder dos sem-poder. Daí, o perigo do seu contágio.”

Que bom podermos dizer livremente aquilo em que pensamos.

Copo de vinho

“Trabalhar um livro até à minúcia de uma palavra.

E depois um leitor engole tudo à pressa para saber «de que se trata».

Vale a pena requintar um vinho para se beber como o carrascão?”

(Vergílio Ferreira, Pensar)

E agora, algo completamente diferente: o “ganço”

Desde há uns anos que me apercebo da decadência do serviço de tradução com que somos brindados em filmes, séries documentários, etc.

A tradução é uma actividade interpretativa e não meramente mecânica.

O que se assiste, cada vez mais, é a legendas resultantes de uma tradução meramente literal, sem preocupação interpretativa ou análise semântica sequer. E, pior, os erros de escrita, estão cada vez mais presentes. Ainda a semana passada, li numa legenda de um filme, a palavra “ganço”.

Parece-me que o que se passa nas traduções, é apenas um sinal do declínio com que se trata a palavra escrita. Sinal que se estende a anúncios e até mesmo à imprensa. E os vícios do dialecto das mensagens de telemóvel em que petizes e adolescentes são mestres, não vão ajudar muito a melhorar as coisas no futuro, não.

Um dia, a tecnologia banirá a esferográfica e o corrector ortográfico brilhará para todos nós.

Continuação

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A palavra pressupõe mais qualquer coisita antes ou depois, mas na verdade é usada e abusada de uma maneira insólita… sem mais nada!

Que raio de vocábulo para estar sozinho.

Isolada de tudo e de todos, é assim uma espécie de ordem atirada à cara de quem a ouve, dita de forma quase acintosa.

Posso até entendê-la como um insulto, já que a sinto dardejada.

E desta forma solitária quer dizer o quê ? Ninguém parece saber.

Quando ma atiram e eu returco [Read more…]

A força das palavras estranguladas

(Com especial abraço aos amigos aventares)

Mal-aventurada palavra, bem-aventurada palavra, espectaculosa ou mal-entendida, repentina, abandonada, terrosa ou etérea.

Penoso viver do lado direito, com obtuso cérebro que irradia uma luz cor-de-rosa de banal bom-senso, ridícula, religiosa e fria, estranho conúbio de cálculo e simetria.

Do lado esquerdo, vestígios de terra seca, retocados de sol e água, húmida palavra em secreta transição da estreiteza da vida para a infinita margem do sonho.

(Palavras tépidas, impuras, laterais, resplandecentes nas vitrinas de luxo, insalubres, umbrosas, sepulcrais).

(monumentais, desdobráveis, descobríveis, maduras de oiro e trigo e penoso desejo de céu azul no imenso tossir da poeira dos ideais insubmissos).

(Jactância lodosa, leitosa, grudada a translúcidos horizontes, respirando asfixia na secura de todas as fontes).

Dúctil criatura de aço e pés pequenos, em largos sonhos de vibração das manhãs de rosto alvo, sem distâncias nem delírios.

Bem-aventurada palavra (mal-aventurada palavra), viva (morta), sensual (fria), erecta (impotente), ofegante (sibilosa), rotunda (famélica), fremente.

Eu temo muito o mar, o mar enorme, solene, enraivecido, turbulento…se a minha amada um longo olhar me desse dos seus olhos que ferem como espadas, eu domaria o mar que se enfurece, com a força das palavras estranguladas.

Luis Filipe Vieira aprende línguas…

Tendo em vista os areópagos internacionais em que terá de usar a palavra, após a excelente vitória do Benfica nas várias frentes em que se bate, o Presidente, inscreveu-se em vários cursos de línguas.

Começa logo de manhã no ” Instituto  Camões”…