Corridas picadas nos Açores


No momento em que se inicia mais uma época tauromáquica, chega-nos dos Açores uma lamentável notícia: a Comissão Parlamentar dos Assuntos Sociais da Assembleia Legislativa Regional aprovou, com votos de Deputados do PSD e do PS, a realização de corridas picadas. Há sete anos que não se realizava este tipo de corridas no Arquipélago.
Para quem não sabe, as corridas picadas, ou sorte de varas, distinguem-se das corridas tradicionais pelo facto de o touro ser picado com uma vara enorme, por um cavaleiro, enquanto está a ser toureado a pé. O objectivo é sangrar e enfraquecer o animal, preparando-o para a entrada em cena do toureiro a cavalo. Este procedimento provoca dores inimagináveis ao touro.
Ou seja, trata-se de mais um retrocesso em termos de direitos dos animais, já que, de todo o tipo de corridas, a sorte de varas é a mais cruel de todas.

Quanto à questão de fundo, a existência das touradas, muito haveria para dizer. Apesar de considerar que é um «entertenimento» abjecto, sou da opinião de que, de todas as actividades ligadas à exploração animal, os touros até são aqueles que menos sofrem. Vivem ao lar livre, na imensidão da lezíria, durante anos de uma vida de luxo, que todos os animais deveriam ter, para serem torturados nos últimos dias. Já os animais dos circos, os animais da indústria de peles e da decoração, os animais utilizados para experiências científicas, alguns animais domésticos e mesmo os animais utilizados na nossa alimentação nascem e morrem na prisão que é a sua vida, sendo torturados diariamente e tendo uma morte tão sofrida como a dos touros.
Mas é preciso começar por algum lado e a proibição das touradas, pelo sofrimento que exibem, seria um bom início. Já são quatro as cidades portuguesas anti-touradas: Braga, Cascais, Sintra e Viana do Castelo, a primeira de todas e a mais importante, pela história que a cidade tinha a nível da tauromaquia.
Tornar Lisboa e o Porto como cidades anti-touradas seria um passo decisivo. De Lisboa, não se espera grande coisa, até pela recente inauguração do Campo Pequeno – a única e verdadeira razão de ter aumentado o número de corridas, que há muito estava em decréscimo. Mas em relação ao Porto, seria relativamente fácil. Mais por uma questão de simbolismo, ter a segunda cidade do país como cidade anti-touradas. Porque, felizmente, há muitas décadas que não se realiza nenhuma na cidade.
As touradas, mais cedo ou mais tarde, vão acabar. Resta-nos apressar o seu fim.
Porto, a próxima cidade anti-touradas. Vamos a isso, caros aventadores?

Comments

  1. Adalberto Mar says:

    Sei que é errado, sei que devia ser mais «civilizado», mas vou ser sincero: GOSTO DE TOURADAS, E DAS ESPANHOLAS, MAS, AO MENOS, TOMO PARTIDO DO TOURO! ALGO ERRADO ESTÁ EM MIM, CONCORDO, MAS SOU COMO O HEMINGWAY..HÁ UMA ADRENALINA, UMA RAÇA CULTURAL ÚNICA..ESTÁ ERRADO POR EU ME SENTIR ATRAÍDO E ESTÁ ERRADO PORQUE TOMO O LADO DA DEFESA DO ANIMAL, OU SEJA, QUE FAÇA CAIR O HOMEM! O CAVALEIRO!!MAS AO MENOS SOU SINCERO!

  2. Adalberto Mar says:

    E AO VER O ESTADO EM QUE FICA O ANIMAL SINTO-ME ENVERGONHADO, MAS NÃO VOU SER HIPÓCRITA..NÃO POSSO DIZER QUE NÃO É UM «HAPPENING» QUANDO VOU À TOURADA..SOU CONTRA A CRUELDADE NOS ANIMAIS..MAS AQUI HÁ UMA LUTA ENTRE ANIMAL E HOMEM!..ODEIO FUTEBOL MAS GOSTO DE TOURADAS!


  3. O touro bravo resulta do apuramento da raça ao longo dos tempos. Daí decorre o prestígio das ganadarias (e o preço dos touros). Proibindo touradas o touro seria condenado à extinção, a não ser que defendam a nacionalização de algumas herdades (mas com que fim? exibir touros no zoo?), para assegurar a sobrevivência da espécie. E nem sempre o touro morre no final da corrida, alguns (muito poucos) ganham o direito a viver o resto da vida no pasto. E que mal faz a quem deteste touradas, que outros apreciem? Para ver um corrida integral já tenho de ir a Espanha, não fui ver El Juli ao Campo Pequeno, porque não gosto de pagar gato por lebre, ver um dos maiores matadores da actualidade colocar uma bandarilha é defraudar o público, mas a Lei proíbe que se mate na arena em Portugal, será que um destes dias deixo de poder contribuir para o PIB português, passando a contribuir para o espanhol? Detesto ouvir a chamada “música pimba”, ou popular ligeira, não me passa pela cabeça ir para o Pav. Atlântico protestar contra o concerto, pura e simplesmente não vou, mas tenho de admitir que nem todos, felizmente, têm os meus gostos, no futebol, na arte, no espectáculo, na música ou na política…


  4. Eu também gosto de touradas. Principalmente aquela altura em que o touro espeta um corno no toureiro! Ainda há pouco tempo ouvi um antigo “aficionado” num daqueles programas em antena aberta desmentir o facto de “Proibindo touradas o touro seria condenado à extinção”. Pela mesma lógica não será melhor instituir a caça ao leão para o proteger? Pandear pandas vermelhos para os proteger da extinção? Que lógica é esta, que a melhor forma de proteger um animal é espetar-lhe um ferro e matá-lo ao som de palmas? Isto não é uma questão de opinião é uma questão de inteligência. Querem as touradas? Divirtam-se com os forcados como eu. Ao menos a luta é de igual para igual.

  5. Snail says:

    Não se trata de uma questão de PIB nem de gostos, mas sim de uma exigência moral e civilizacional que, face ao actual desenvolvimento da nossa sociedade, nos obriga a rejeitar aquilo que sentimos, em termos éticos, estar errado.Não estamos no tempo do circo romano, se não terímaos de exigir combates de escravos contra as feras; não estamos na idade média, se não estaríamos a assistir a torneios em que o vencido morreria; nem sequer nos tempos renascentistas, pois, nesse caso, iriamos todos ao Rossio, em Lisboa, ver a queima dos heréticos.Nesses tempos, as entradas eram grátis mas, em pleno século XXI e no estado actual da nossa economia, julgo que os bilhetes para estes espectáculos se venderiam mais facilmente que os ingressos para acesso ao Alvalade XXI (gostaram da pida, sportinguistas ferrenhos?).Retornando ao assunto sério, alguém imagina lançar, nos tempos de hoje, espectáculos daquele tipo? Então porque se continua a insistir nas touradas?Quanto ao argumento que sem touradas os toiros acabavam, não me consta que os lobos, os linces, as raposas deixaram já de existir, por não serem criados no nosso quintal…

  6. Adalberto Mar says:

    Pronto! Já vai começar é a «caça ao homem»!! NÃO QUERENDO OFENDER NINGUÉM POIS RESPEITO, E PIOR, COMPREENDO A DEFESA DE AMBOS OS PONTOS DE VISTA, e como no Aborto, Eutanásia, a coisa é tão, mas tão difícil de opinar com sinceridade, EU ACHO É IRÓNICO AQUELE ESTEREÓTIPO de «tipo-social anti-touradas», que vem para a rua protestar e bater e gritar e atirar-se aos que são a favor…e todos de cabelinho tão rapadinho clean-clean..TÃO..MAS OH TÃO DEFENSORES DOS DIREITOS DOS ANIMAIS..MAS OHHHH

  7. Adalberto Mar says:

    (continuação do comentário acima iniciado)mas ohhhh que maçada que chatice…tão amigos dos animias..mas tão pouco amigos das pessoas e dos seres humanos..GERALMENTE VÊM GRITAR A GOELAS ALTAS A DEFESA DOS TOUROS, MAS A AVÓ LÁ EM CASA ABANDONADA, O PAI NO LAR E O IRMÃO NO HOSPITAL..MAS DESSES QUEREM POUCO SABER! OBVIAMENTE QUE NÃO ACUSO NINGUÉM MAS QUE É UM MISERÁVEL DE UM ESTEREÓTIPO DO SUL LISBOETA AI ISSO É! POR ISSO UM CONSELHO A QUEM FOR ASSIM, E SÓ A ESSES: ANTES DE VIR GRITAR PARA A RUA ABAIXO AS TOURADAS…VÁ VER SE O CAMPO LÁ EM CASA ESTÁ EM PAZ E SE TOMAM BEM CONTA DOS FAMILIARES, SE VÃO AO HOSPITAL VER QUEM PRECISA, SE PODEM DAR UMA OLHADELA AOS MAIS POBRES E DESFAVORECIDOS, FRÁGEIS…E ..HUMANOS!SER SENSÍVEL, CIVILIZADO E GOSTAR DE TOURADAS É POSSÍVEL, SER A FAVOR DOS ANIMAIS E CONTRA AS TOURADAS E SER HONESTO E SENSÍVEL TAMBÉM É POSSÍVEL, MAS O REVERSO DE TUDO TAMBÉM: CÍNICOS E HIPÓCRITAS A DIZER «BASTA DE TOURADAS» E FAZEREM DA SUA PRÓPRIA VIDA UMA TOURADA SELVAGEM DE INSENSIBILIDADE..SE BEM ME COMPREENDEM!!dalby

  8. Snail says:

    Logo eu que não tenho a avó em casa, o pai no lar, o irmão no hospital, o que hei-de responder ao Dalby? Bom, a sério, não sou isento de defeitos, até porque sou mouro e essa defeiciência já ninguém ma tira. Mas, obedientemente, lá irei pelo campo lá em casa, pelo hospital, enfim por onde me mandarem ver se está tudo em paz…E, sobretudo, tentar não fazer da minha vida “uma tourada selvagem de insensibilidade” mas sim uma tourada doméstica de amor, ternura e compreensão. Só me resta descobrir se e onde há este tipo de touradas.. se bem me compreendes.


  9. […] A propósito disto. […]

  10. Luis Moreira says:

    Eu o que posso dizer é que nunca entrei numa praça de touros.Gosto da festa mas não gosto de ver o animal a sofrer sevícias.Mas neste caso o animal sofre mais ou menos que no matadouro?

  11. Adalberto Mar says:

    …se é do Sul, se se apelida de ‘Snail’..BEM..está tudo dito!!! NÃO HÁ MAIS NADA A EXPLICAR!!

  12. Freitas says:

    Muito bem Açores! Enquanto que no continente a comunicação social insiste em dar importância a grupos extremistas anti-taurinos, nos Açores valoriza-se a importância cultural, histórica, económica e social da tauromaquia. Os meus sinceros parabéns!

  13. miguel dias says:

    Freitas: não há cá importância cultural, histórica, económica e social da tauromaquia que importe. O argumento não é esse (ainda que o que tudo o que referes seja também importante). A tourada é sofrimento e morte feitos espectáculo. Há quem com isso conviva, por saber que são parte da vida, de todas as vidas. E há quem queira erradicar essa condição da existència, o que é em si uma impossibilidade. A estes o que lhes motiva não é portanto o sofrimento dos touros, é o seu próprio sofrimento, a sua angústia perante a morte.


  14. […] Mais recentemente, o Partido bateu-se contra o fim das touradas de morte e votou contra a reintrodução da sorte de varas nos Açores. Regressando à actualidade, o programa eleitoral do Bloco de Esquerda dedica o capítulo 14, […]

  15. Dario Silva says:

    António de Almeida :
    O touro bravo resulta do apuramento da raça ao longo dos tempos. Daí decorre o prestígio das ganadarias (e o preço dos touros). Proibindo touradas o touro seria condenado à extinção, a não ser que defendam a nacionalização de algumas herdades

    Exacto, é como acabar com a caça aos elefantes nas reservas africanas, levaria à natural extinção dos mesmos. Ele há coisas que só aos humanos compete “pensar”. Notável.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      O touro bravo podia acabar à vontade. O touro é uma raça manipulada, não é uma espécie.
      Era o mesmo que se acabassem os gatos persas, por exemplo, uma criação do homem. Não seria por isso que acabaria a espécie felina dos gatos.