Nos 25 anos da morte de Joaquim Agostinho


O Luis Moreira chamou a atenção, no Domingo, para os 25 anos sobre a morte de Joaquim Agostinho. Afogueado com o tetracampeonato do FC do Porto, preferi deixar para hoje a evocação do maior ciclista português de sempre.
Joaquim Agostinho nasceu a 7 de Abril de 1943 no lugar de Brejenjas, da freguesia de Silveira, concelho de Torres Vedras. O ambiente rural em que foi criado levou-o a abandonar os estudos quando ainda não completara a quarta classe, para ajudar o pai na lavoura.
Durante um ano, esteve em Moçambique a cumprir o serviço militar. Quando regressou, pegou no dinheiro que fora amealhando e foi a Torres Vedras comprar uma bicicleta. Passou então a ser a sua amiga inseparável e que utilizava para se deslocar diariamente para a Fazenda dos Cucos, onde trabalhara antes ainda de ir para o Ultramar. Demonstrando a força que tinha nas pernas, conseguia chegar sempre ao mesmo tempo da camioneta da carreira.
«Nesses tempos Agostinho deslocava-se para o trabalho utilizando uma bicicleta como meio de transporte, aliás como faziam muitos dos seus conterrâneos. Eram grandes grupos de trabalhadores da Casa Hipólito, do FAZ e de outras empresas que enchiam nas horas de ponta, por completo, as estradas que ligam Torres Vedras a destinos como Coutada, S. Pedro da Cadeira, Silveira, Povoa de Penafirme, e entre eles encontrava-se muitas vezes o nosso Joaquim Agostinho.» (Francisco Manuel Costa Fernandes, in Joaquim Agostinho: 20 Anos)
Aos vinte e cinco anos, concretizando uma aspiração que ia alimentando há algum tempo, decidiu que queria ser ciclista. Em 1967, no dia de Natal, competiu pela primeira vez a nível oficial. Foi no Circuito do Barro e a facilidade com que venceu, a grande distância de todos os adversários, demonstrou que se estava em presença de um enorme talento.
Poucos dias depois, vai prestar provas ao Sporting Clube de Portugal e é imediatamente admitido. Chamavam-lhe então o «Quim Cambalhotas», porque caía muitas vezes. Não imaginavam, nessa altura, que seria numa dessas quedas, anos mais tarde, que encontraria a morte. No entanto, a abnegação com que encarou esses primeiros tempos de «leão» ao peito levou-o à vitória, logo no ano seguinte, do Campeonato Nacional e Regional de Amadores. Já como profissional, participa na sua primeira Volta a Portugal em Bicicleta, ainda em 1968, onde fica em segundo lugar.
Em 1969, consegue a sua primeira internacionalização, através da participação no Campeonato do Mundo de Estrada, em Imola. Apesar de terminar a prova em décimo quinto lugar, essa classificação foi a melhor de sempre obtida por um ciclista português. Pouco tempo depois, vence a Volta ao Estado de S. Paulo, no Brasil, e volta a sagrar-se Campeão Nacional de Fundo. Termina a Volta a Portugal em primeiro lugar, mas é desclassificado por acusar «doping».
Entretanto, a fama de Joaquim Agostinho galgara fronteiras. Na prova mais importante do calendário mundial, o «Tour» de França, vence duas etapas (Mulhouse e Revel) e termina no oitavo lugar.
Em Portugal, já não tinha nenhum adversário à altura. Em três anos, entre 1970 e 1972, vence três Campeonatos Nacionais de Fundo e três Voltas a Portugal. O quarto lugar que obtém na Volta a França de 1972 chama ainda mais a atenção da comunidade internacional para as suas qualidades.
Em 1973, abandona o Sporting e é contratado pela Bic. Em França, vence o contra-relógio de Bordéus e termina a prova em oitavo lugar. No ano seguinte, fica em segundo na «Vuelta» à Espanha, onde só não ganha porque teve de ajudar o «chefe de fila», e em sexto no «Tour». Nos anos seguintes, a contas com problemas nos clubes que representou e com acusações de «doping», vai desiludir.
Mas em 1978, ao serviço da equipa belga Velda / Lano / Flandria, regressa em grande. Forte e pujante, em particular nas etapas de montanha e nos contra-relógios, termina a Volta a França na terceira posição, a melhor classificação que obteve. Melhor do que ele, só os míticos Bernard Hinault e Joop Zoetmelk. A euforia que então se apoderou dos emigrantes portugueses, quando subiu ao pódio para receber o prémio do terceiro posto e a medalha da cidade de Paris, ficou na história da prova.
No ano seguinte, representando a mesma equipa, Joaquim Agostinho partiu como favorito à vitória. No entanto, os primeiros dias não lhe correram bem e só a etapa dos Alpes e o último contra-relógio lhe permitiram repetir a classificação do ano anterior, o terceiro lugar. «Quando pressinto que Agostinho vai fugir, ataco eu, para ficar tranquilo», viria a dizer Eddie Merckx nesse mesmo ano.
Em 1981, desistiu. Em 1982, não participou. Em 1983, ficou em décimo primeiro lugar. Era então o mais velho do pelotão, com quarenta anos. Foi a décima terceira e última vez que correu a Volta à França. Anos mais tarde, em 2003, viria a ser considerado o vigésimo nono melhor ciclista da Volta de todos os tempos, numa classificação que tinha Eddy Merckx, Bernard Hinault e Jop Zoetmelk nos primeiros lugares. Uma das dezassete curvas da mítica etapa que termina no Alpe d’Huez foi baptizada de Curva Agostinho em sua honra. Uma curva que tem uma inclinação de 14,7% e que representa o ponto mais difícil da ascenção.
Em finais de Abril de 1984, quando preparava o regresso à Volta a Portugal, participou na Volta ao Algarve ao serviço, ainda e sempre, do Sporting. Assumiu desde cedo o comando da prova e foi com a camisola amarela que, na etapa que terminou na Quarteira, no dia 30 de Abril, caiu na recta da meta quando se atravessaram no caminho dois cães. Ainda conseguiu levantar-se e terminar a etapa, com a dignidade que sempre demonstrou, mas foi o chamado «canto do cisne».
«Agostinho decidira, enfim, deixar a vida de andarilho pela estranja. Para acabar a sua carreira no Sporting. Acabá-la-ia tragicamente. Como herói morto na batalha. Corredor de milhares e milhares de quilómetros, subiu e desceu adamastores, cruzou, vezes sem conta, planícies, obedecendo a uma mitologia sem sentido que era uma espécie do seu código deontológico na raça: cair, sufocar a dor e continuar.» (Carlos Miranda, in História de 50 Anos do Desporto Português)
Com fortes dores de cabeça, é levado para o Hospital do Algarve, onde nada é feito porque não havia neurocirurgião. Acaba por ser transportado de ambulância para Lisboa, porque não havia helicóptero disponível. Nunca como nessa altura as lacunas do Sistema Nacional de Saúde nessa deprimida zona do país se revelaram tão graves.
Nos dias seguintes, o país ficou suspenso de um desfecho que se temia tanto quanto se adivinhava. A entrada em coma prenunciou a morte, ocorrida no dia 10 de Maio. Causa do óbito: embolia pulmonar, conseqüência do inicial hematoma epidural, ou seja, sangue que se aloja entre a calota craniana e a dura-máter e que tem solução se tratada de imediato, o que não aconteceu. Foi sepultado no cemitério de Silveira, numa cerimónia que contou com a presença de milhares de pessoas.
«Vê tu, Joaquim, é capaz de aparecer quem proclame que tu caíste de camisola amarela, algo que, afinal, era capaz de lisonjear Merckx, Anquetil, mais para trás, um Bartali e um Copi… Levei o meu tempo a perceber, mas ainda compreendi em boa altura: que tu nunca quiseste deixar de ser o camponês que nasceste, que a uma camisola amarela preferias o ir para casa, uma semana que fosse, que a uma vitória nas alturas querias o amor da mulher, dos filhos, o conforto da casa, a paródia dos amigos, o João, o Leonel, que o teu mundo não era o dos «palaces» dos fins de etapa, os teus horizontes confinavam-se aos campos verdes de Torres Vedras, o teu Atlântico não era o do Brest, era o de Santa Cruz… Foi isso que compreendi e confidenciei então, a meia dúzia ou menos de pessoas amigas: nunca s
er
ias um grande campeão, contentavas-te em ser um homem feliz. O Rei podia vestir a tua camisola.» (Carlos Miranda, in «História de 50 Anos do Desporto Português)
Em sua homenagem, o Prémio Internacional de Torres Vedras passou a designar-se, em 1985, Troféu Joaquim Agostinho. Em 3 de Julho de 1988, foi inaugurado na Várzea um monumento em bronze que recorda a sua memória, da autoria do escultor Soares Branco, do arquitecto Leopoldo S. Branco e do torneiro João António. Em Silveira, onde nasceu, foi dado o seu nome a uma das avenidas mais movimentadas da freguesia e erguido um monumento em sua honra.

in «Torres Vedras: Na ESteira das Velhas Torres», Paços de Ferreira, Héstia Editores, 2006.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Bela homenagem. Ricardo.Conheci a França, antes de lá ir, a ler as crónicas do Tour do Carlos Miranda a acompanhar o Joaquim Agostinho! Grandes alegrias , e grande delícia a ler o Carlos Miranda.Contava sempre uma estória depois de arrumar a descrição da etapa. O “mostache” do taberneiro lá numa aldeia perdida,a “madame” numa enxovia cheia de piolhos, o gato em cima do piano que há muito ninguem tocava, a família de portugueses de farnel debaixo de uma árvore ao sair de uma curva…era por ser jovem ou aqueles dias eram mesmos únicos?