Rui Neves da Silva – A Comendadora (II)*

Cp RNSilva AComendadora 03.p65
– Lembras-te de mim?
O estudante estacou, assustado com aquela aparição. Quando viu que era uma rapariga, e ainda por cima diminuída fisicamente, o seu ritmo cardíaco estabilizou.
Clarimunda estava de frente para a luz, o que facilitaria a recordação do seu rosto se o recém-chegado tivesse perdido tempo a olhá-lo enquanto lhe arranhava o útero. Mas pelos vistos o sádico não se preocupara sequer em ver a cara do ser humano que feria e humilhava com tanta crueldade, constatação que acabou com a última hesitação da rapariga.
– Na cozinha do bordel, canalha…!
Aquelas palavras entraram-lhe pelo cérebro no exacto momento em que Clarimunda erguia a muleta e fazia saltar o punhal toledano. A ponta da lâmina enterrou-se até meio no pescoço do estudante e retraiu-se de imediato, o que fez o sangue escorrer aos borbotões do rasgão que lhe abrira na traqueia.
Clarimunda viu como a sua vítima caía de joelhos e levava as mãos ao pescoço numa vã tentativa de estancar a hemorragia. Num estertor, tentou falar… Mas o ar silvava-lhe através do ferimento e apenas conseguiu articular a palavra “ajuda-me” enquanto lhe dirigia um olhar suplicante.
Clarimunda não se comoveu. Empurrando-o com o pé, atirou para trás o corpo do moribundo e fez saltar novamente o punhal. Feriu-o uma e outra vez no ventre, vociferando em voz rouca:
– Morre no meio da merda, cabrão!
Quando viu que o corpo que apunhalava era já cadáver, Clarimunda retirou-lhe o relógio de bolso e a carteira, que deixou abandonada no chão do pátio depois de a esvaziar do dinheiro que continha.
Menos de um minuto mais tarde a rapariga esgueirava-se pelas ruelas, procurando ocultar-se com as sombras e deslocar-se colada às paredes até abandonar as imediações do local onde acabara de concretizar a sua promessa de vingança. Tinha retirado o dispositivo mecânico que mandara acoplar na muleta e recolhera o punhal, que apertava agora nervosamente entre as roupas, e afastou-se rapidamente e em passada quase escorreita em direcção à estação do comboio.

* Rui Neves da Silva é escritor e Revisor Oficial de Contas.