O arroz de marisco do Vasco

Mora entre o bairro Alto e São Bento numa casa imensa, com inúmeras divisões, cheia de mobiliário antigo, fotografias da família de quatro gerações (três para trás e uma para a frente).

Só o plasma é que está ali deslocado, o resto faz coro com o ambiente e com o dono. O Vasco mora só, os filhos têm já a sua vida, divorciado da mãe dos filhos, namora com uma amiga minha de infância. Entendem-se, cada um no seu canto. Ela mora aqui para a Alameda. Assim é que é bom, encontram-se quando querem e a mais não são obrigados.

Mas estes homens, como o Vasco, têm uma particularidade muito marcada. Sabem fazer tudo, cozinham maravilhosamente. É o caso. O jantar feito por ele é uma maravilha em qualquer canto do Universo.

Um arroz de marisco como nunca me tinha passado pelo estreito, o arroz no ponto, o marisco fresco e em generosa quantidade e, lá atrás, no palato, um travo de ervas aromáticas a cantar.

Tudo acompanhado por um branco de Tormes ( à altura da escrita do Eça) frio mas sem lhe tirar o caracter, aromático e redondo quanto baste. Enfim, o paraíso !

Mas o Vasco, engenheiro reformado, até tem em casa uma oficina onde trata de pôr a funcionar maquinaria de que só ele conhece os segredos.

Eu, por mim, já lhe disse, mesmo que tenha de ver e ouvir o motor do barco, não perco o arroz de marisco!