Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (3)

Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (3)

Algumas das melhores e mais lúcidas pessoas que conheço cresceram sem que lhes fosse imposta qualquer ideologia ou religião. Quando muito foram-lhes ensinados alguns dos princípios consagrados na sociedade, elementos indispensáveis para o equilíbrio individual e colectivo: a lealdade, a integridade, a honestidade, o sentido de justiça, a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros. Dispensam Deus, seja ele qual for, mas não abdicam destes princípios que integraram a sua formação, feita essencialmente de lúcido querer e liberdade responsável.
Dizia-me o meu amigo que não escolhendo a vida nem a morte lhe foi dado viver, e se foi apenas para aproveitar a vida ao máximo porque ela é breve, então os pretos que vão para o inferno, dos fracos não reza a história, os pobres que trabalhem, não importa o abate de crianças para lhes roubar os órgãos, a escravatura, o prazer a qualquer preço, a exploração dos menos hábeis… para quê pruridos morais? Assim sendo, respondi eu, a fé parece não passar de uma atitude oportunista, de uma estratégia egoísta, de um cartão de crédito, uma espécie de Banco da fé onde se vai depositando o que se convencionou ser as nossas obras morais, a fim de garantir a entrada no céu, no país das maravilhas onde só cabem os eleitos, os que melhor rechearam os cofres de uma questionável moralidade, à boa maneira capitalista-aforradora. Sem Deus e sem fé como pode conceber-se a ausência de espírito racista, elitista, classista de muitas das mais nobres pessoas que conheço? Como é possível que tantos homens na História, sem qualquer tipo de crença religiosa nem esperança de se sentarem à mesa de Deus, tenham praticado em elevado grau a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros? Com Deus e com fé, como é possível ter-se cometido e continuar a cometer-se tantos crimes repugnantes? Ainda bem que, como diz Saramago, os rios de lágrimas chorados pelas vítimas do catolicismo Vaticano empaparam as lenhas dos seus arsenais inquisitórios. Mas aqui se engana – ou talvez queira parecer que se engana – Saramago. A morte aos infiéis é muito mais evidente do lado do cristianismo, na medida em que as imundas baratas são esmagadas diariamente às centenas pelos chinelos de todos aqueles que têm o sagrado direito e o sacrossanto dever de as esmagar nos momentos e nas alturas próprias. Simplesmente, os infiéis não são apenas os que não rezam, nem são propriamente definidos como os que não têm fé, mas são todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem e criam obstáculos à fé, que o mesmo é dizer, a todos os interesses que se servem da fé e a quem a fé serve e sempre serviu. Por outro lado a fé já não é bem o que era, nem são os mesmos os servidores da fé. Hoje, a fé talvez não passe do anestesiante rótulo de uma gigantesca garrafa planetária cujo conteúdo é diariamente destilado na base de ingredientes como exploração, dinheiro, poder e domínio. (Continua).

        (adao cruz)

(adao cruz)

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Deus ao serviço dos exploradores, dos poderosos. Mas isso é com a hierarquia religiosa que coloca a identidade divina como instrumento de subjugação. A verdade caro Dr. é que se a vida se orienta-se pelos principios que o Filho nos ensinou esses homens e mulheres impolutos seriam o comum dos homens.

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