As eleições e os fantasmas

O Diário de domingo, em OPINIÃO, publica o artigo assinado por Nelson Veríssimo “Défice de participação”, alertando para os elevados níveis de abstenção verificados na eleição de há uma semana que, como refere, “deveria merecer análise cuidada por parte dos políticos”. Como salienta, a abstenção que no território nacional atingiu os 39,4%, foi de mais seis pontos percentuais, na RAM.

Também a propósito destas eleições, num propósito de entender-se o desencantamento generalizado do eleitorado, no meu artigo publicado no mesmo espaço em 2 de Outubro, servi-me de uma leitura simples que a exactidão dos números permite, deixando para os políticos as leituras mais ou menos habilidosas que são capazes de urdir.

Um outro aspecto saltou-me entretanto à vista e a que Nelson Veríssimo também não fez menção, que foi o estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a que toda a imprensa se referiu, nos últimos dias de Setembro e que vem acrescentar um novo elemento: os “eleitores-fantasma”, os mortos, desaparecidos, emigrantes que ainda constam dos cadernos eleitorais. Segundo o estudo, existem em Portugal 930 mil “eleitores-fantasma”, 10% dos inscritos, percentagem que na Madeira deverá ser bastante mais elevada. De qualquer modo, sem especular, tomando o valor base nacional e, mercê de um cálculo aritmético muito simples, abatendo ao número oficial de eleitores inscritos, os “fantasmas”, a abstenção em todo o território nacional, situar-se-ia a níveis mais aceitáveis: cerca de 35%. Tomados esses valores, refeitos os cálculos, tal como Nelson Veríssimo os apresentou, a abstenção, a nível nacional, equivaleria a 1,37 vezes os votos do partido que obteve o maior resultado – o PS – e a nível da RAM, equivaleria a 1,35 vezes os votos do partido que obteve o maior resultado – o PSD – em vez de 1,78 e 1,73, respectivamente. Tomando esses mesmos indicadores sem “eleitores fantasma”, não deixa de ser curioso constatar que, a nível nacional apenas votaram PS, 25 em cada 100 eleitores, enquanto na Madeira votaram PSD, mais de 30 em cada 100 eleitores.

Já faltam poucos dias para as eleições autárquicas e novas análises dos resultados surgirão, mas não será ainda desta vez que nos livramos dessa figura espectral que em parte desvirtua a sua inteira verdade. E, oxalá os poderes públicos responsáveis procedam, oportunamente, à expurgação de “fantasmas” dos cadernos eleitorais, para eleições mais realistas, em anos futuros.

Francisco Leite Monteiro, publicado no «Diário de Notícias» (Madeira)