Amália, Barco Negro

Nunca fui muito dado, confesso, a malta de esquerda não está para reaças, e a educação (no caso nem por isso familiar) faz-nos, ai se faz.

Cantava bem mas o Fado era reaccionário,  ao nível da Fátima e do Futebol. Se quanto a peregrinações e outros ajoelhamentos  pouco mudei de ideias, os estereótipos de esquerda, pelo menos os mais cretinos, lá os fui ultrapassando a seu tempo, o tempo de atravessar desertos e pensar pela própria cabeça, que é para isso que a temos.

Com Amália Rodrigues tudo mudou quando escutei esta cantiga, no filme onde nasceu. Um vaipe, um flash, luz, porra: um gajo é sempre parvo quando se atrofia com preconceitos, e depois fica com a sensação de ter perdido durante anos alguns pequenos prazeres da vida. Barcos Negros. Fica bem com um tinto carrascão, daqueles que detesto e de quem ninguém se atreve a chamar nomes aos taninos, e um queijo de qualquer cabra, rançuda. E quem não solta pelo menos a ideia de uma lágrima ao escutar, é de direita, preconceitualizo agora e já.

Obrigado Amália, e desculpa lá qualquer coisinha.

Amália – Barco Negro

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Ouvia este fado em casa, com a minha irmã mais velha a comandar.Cala-te! E o fado era este! Há muitos, muitos anos…

  2. Carla Romualdo says:

    subscrevo inteiramente, apesar de eu já ter apanhado a época em que o fado era “bem”. Este fado é belíssimo e eu arrepio-me sempre que ouço o “são loucas”. Grande poema do Mourão-Ferreira mas sobretudo grande Amália.


  3. O David Mourão-Ferreira entra noutro capítulo dos preconceitos. Como outros poetas não muito ortodoxos. A bem dizer dos ortodoxos tratou o tempo. Nem me consigo lembrar de algum.

  4. maria monteiro says:

    Este ano levei o meu filho pela primeira vez a jantar a uma casa de fados. Fomos à Severa no Bairro Alto. Uma das fadistas nesse noite foi Maria José Valério: da “velha guarda” mas que cativou muito bem todos os turistas e também o meu filho. A minha sensibilidade para ouvir fado é assim no restaurante no meio de turistas

  5. Ricardo Santos Pinto says:

    Arrepia mesmo, não arrepia? E digo eu que nunca gostei especialmente de fado. A Amália não era reaça, João. Antes do 25 de Abril, ajudou muitas vezes o Partido Comunista em segredo.


  6. Ricardo: eu não disse que era. O preconceito era esse mesmo.

  7. Luis Moreira says:

    Acordei tremendo deitada na areia…

  8. Luis Moreira says:

    A partir deste verso, ainda menino, tentei recuperar uma namoradinha. Aí vai:As avesacolheram-se da chuva forte que caiano grande rochedo calado…Tiritando num voo rápidoa ave pousou no peito do homem…Lá no rochedo ficaram as outras.A doce Luisa, 20 anos depois deste poema e de dois divórcios tentou ela recuperar-me.Dizem as velhas da praia que não voltas…São loucas!Morri várias vezes por tua causa Luisa…

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