A IGREJA, POR VEZES, PERDE A NOÇÃO DO RIDICULO

Recebi de um amigo, residente no Canadá, um texto de um tal cardeal George Pell, que interveio no “Festival de Ideias Perigosas”, na Opera de Sydney.

Entre as muitas atoardas que proferiu, como só a igreja sabe dizer quando não é capaz de elaborar argumentos sérios e claros, retive uma, por estúpida e ofensiva. Dou de barato todas as outras, dado que enveredam por conceitos nebulosos que ninguém entende.

 Diz o Senhor cardeal: “Continuarei acreditando no único e verdadeiro Deus do amor, porque sustento que nenhum ateu pode explicar o sorriso de uma criança”. Claro que este explicar, e julgo que não me engano, significa entender, sentir, enternecer-se, amar o sorriso de uma criança.

 A fé é um direito de quem quer que seja, tal qual a “não fé”. Mas a mim, pessoalmente, não me interessa discutir nessa plataforma. Discutir social e filosoficamente sobre o fenómeno fé, é uma coisa. Discutir sobre o que quer que seja, aceitando a fé como argumento interveniente, não interessa de forma alguma nem a mim nem a ninguém senhor da sua razão.

 Das suas palavras infere-se que só quem tem fé, só quem é crente, só quem se encontra no seio da igreja pode explicar e entender o sorriso de uma criança. Perdoem-me a raiva perante tão monstruoso disparate, mas será por essas e por outras que a igreja tem tantos pedóflos?

 Sou ateu, rigorosamente ateu, e confesso que o dia mais feliz da minha vida foi aquele em que tive plena consciência disso. Tenho três filhos que adoro e quatro netos cujos sorrisos me encantam e me enchem de amor e alegria. Tenho muitos amigos e familiares ateus que, como eu, se sentiriam profundamente ofendidos pelas palavras de um cardeal, que mostra perceber muito de fé e muito pouco de amor. Só não nos ofendemos porque nos estamos marimbando para o cardeal e não ligamos patavina a tais dislates.

 Em primeiro lugar, a palavra ateu nem devia existir, ou melhor, não há necessidade de que exista. Não existe, que eu saiba, uma palavra que defina aquele que não acredita na alma, não há uma palavra para definir aquele que não acredita no destino, não há uma palavra que defina aquele que não acredita no universo, não há uma palavra que defina aquele que não acredita no acaso, não há uma palavra que defina quem não acredita em bruxas, não há uma palavra que defina quem não acredita na evolução das espécies, não há uma palavra que defina quem não acredita na origem científica da vida, não há uma palavra que defina quem não acredita no pai natal. Porque diabo há-de existir uma palavra tão sonante para classificar quem não acredita em Deus? Não foram com certeza os ateus que a inventaram, nem disso tinham necessidade, mas sim a Igreja, a fim de definir bem, e estigmatizar ainda melhor, através dos séculos, aquele que ela considera o seu inimigo principal. Ao ponto de um alto responsável, ainda há bem pouco tempo, ter lançado pela boca fora, a bárbara e inquisitorial afirmação de que o ateísmo é o maior drama da humanidade!!!

 Em segundo lugar, nenhum ateu, e é assim que eu penso, tem de se descrever como tal, ou orgulhar-se ou não se orgulhar de ser ateu. Não reside dentro ou fora do ateísmo o ser-se bom ou o ser-se mau, o sentir ou não sentir o amor, seja por uma criança seja por toda a humanidade. O bem e o mal não são propriedade exclusiva dos crentes ou dos não crentes. Há muita gente crente que merece todo o meu respeito, a par de outra que é desprezível, assim como há muitas pessoas descrentes que são dos melhores seres humanos que conheço. As palavras de cardeais como este, não são mais do que uma visão distorcida e malévola da personalidade humana, e uma forma baixa de politizar e diabolizar o ateísmo e quem com ele se identifica. Aquilo de que o ateu se deve orgulhar, isso sim, é do seu contributo e da sua interveniência saudável, racional e liberta na construção livre do pensamento humano e na estruturação de uma sociedade tão próxima quanto possível da sanidade física e mental.

 Assim, já o disse aqui, mas nada se perde se o repetir, considero que o ateísmo deve ser defendido como mundividência ética e filosófica, socialmente válida e aceite. Deve defender os legítimos interesses dos ateus, agnósticos e outras pessoas sem religião, no exercício da cidadania democrática. Deve promover e defender a laicidade do Estado e a igualdade dos cidadãos, independentemente da sua crença e religião, ou ausência de religião e crença no sobrenatural. Deve lutar pela despreconceitualização do ateísmo na legislação, nas instituições e nos órgãos de comunicação social. Procurar responder com todo o direito e respeito às manifestações religiosas e pseudo-científicas com uma abordagem científica, racionalista, honesta e humanista dos fenómenos em causa. Exigir que as leis sobre liberdade religiosa contemplem, não só as diferentes religiões, mas todos aqueles que não professam qualquer religião.

Mas é inglório e decepcionante: Com gente desta é malhar no ceguinho. São séculos de esclerose.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    caro Adão, completamente de acordo, só não percebo por que começa com o cardeal e prossegue com Deus, como se um tivesse a ver com o outro. Não tem, necessariamente, ou tem tanto como a relação que qualquer humano pode ter com Deus.


  2. Amigo Luis Moreira, repare na frase do cardeal. “um ateu não écapaz de explica o sorriso de uma criança”. É ele quem mete deus de permeio.

  3. Luis Moreira says:

    O sorriso de uma criança tem a ver com a bondade, não com a religião, nisso estamos inteiramente de acordo !Abraço

  4. maria monteiro says:

    se os Senhores Cardeais, Bispos, Padres, religiosos e religiosas… soubessem entender os sorrisos das crianças … os “internatos católicos” seriam o Céu na Terra. Ora parece que as coisas não se passam bem assim… até mesmo nas escolas católicas (onde se paga uma “nota preta”) há muitas turbulências…

  5. maria monteiro says:

    é isso… bondade tem a ver com o sentir das pessoas

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