Ainda Saramago

Tinha prometido a mim mesmo não tocar mais no assunto. Mas o que li nestas últimas 24 horas foi de tal ordem, que a gente, por mais sereno que seja, não resiste. Ainda que amargurado, não por Saramago, que tem as costas bem mais largas do que eu, mas pelo facto de me ser custoso viver no meio desta vergonha e desta falsidade, voltei às teclas do computador.

 

Saramago foi insultado da forma mais vil que há. Chamaram-lhe ignorante, ingénuo, interesseiro, imaginação doentia, malandreco, cretino, traste, biltre, odioso, odiento-mefistofélico, reles, pouco sério e outros mimos de que não me recordo. Nenhum escritor, que eu saiba, recebeu algum dia tais "elogios". Pelo facto de ele ter escrito um livro, que ainda ninguém ou quase ninguém leu, e ter dito aquilo que disse, não vale a pena repetir, sobre a bíblia, dando a entender a sua visão sobre o conteúdo de uma obra histórica, que a despeito de ser tabu, é perfeitamente contestável em todos os sentidos. Saramago é livre de dizer o que pensa. E, na minha opinião, é uma pessoa que diz o que pensa, mas com uma grande capacidade para pensar o que diz. Já cá ando há muitos anos, conheço razoavelmente o mundo para dizer que, muito provavelmente, os que o etiquetam desta forma não lhe chegam aos calcanhares, no que quer que seja.

 

O que hoje tenho lido permite-me concluir que, se Saramago fosse inglês e fizesse o que fez em Inglaterra, ou se fosse francês e o fizesse em França, ou mesmo em Espanha ou até nos Estados Unidos, a estupidez desta reacção à portuguesa não teria lugar nesses países, que não sendo grandes exemplos, têm, contudo, outra estrutura cultural. O que aqui se passou é fundamentalismo primário, igual ou quase igual ao fundamentalismo islâmico. Horror a novos paradigmas éticos, políticos e religiosos, intolerância absurda, asfixia democrática e total falta de respeito pela diferença. “Viva a liberdade” mas morra quem não pensa como eu. Diálogo intercultural, apenas quando estão garantidos, à partida, os privilégios e a certeza da nossa verdade. A avaliar pelo que hoje li e pelo ódio destilado, se fosse possível à igreja e aos seus apaniguados, nesta altura, uma inquisiçãozinha, Saramago iria para a fogueira, com milhares de pessoas a bater palmas.

 

Uma segunda conclusão é a de que, neste país, não adianta nada ser culto, (ou pseudo-culto!), intelectual, político com responsabilidades, com canudo, professor universitário (que professores, que universidades!), ou teólogo ou filósofo. É destas áreas que a gente vê sair as maiores bacoradas e os maiores dislates. Tenho ouvido, com admiração minha, pessoas simples, sem credenciais de grande cultura, manifestarem opiniões muito mais sensatas e equilibradas acerca deste assunto.

 

A terceira e última conclusão é a seguinte: não tenho a mais pequena dúvida de que tudo isto acontece pelo facto de Saramago ser comunista e ateu. Se, eventualmente, Saramago tivesse ido a Fátima agradecer à virgem o prémio Nobel, era hoje o melhor e mais sério escritor do mundo.

 

Comments

  1. Álvaro says:

    Acontece porque ele decidiu reproduzir o que aconteceu a quando do Evangelho. Mais nada. Mas está a dar-se mal. A caminho até fez apenas metade da tiragem do costume. Que isto mais vale prevenir.Ele ser comunista e ateu, é para o lado que durmo melhor. Já escrever um livreco é que é incompreensível, sobretudo com aquela pose de Nobel que ostenta.Já vou no 5º capitulo e aquilo é uma pobreza. Que ataque a Igreja Católica, mais uma vez não me incomoda minimamente, já me chateia o facto de não os ter no sitio para fazer o mesmo aos Muçulmanos.Talvez esteja na altura de pensar se deve publicar tudo que lhe sai da pena.O melhor mesmo em relação ao Caim é ignorar que foi publicado.Quando o ler, se é que o vai fazer, facilmente notará a pobreza narrativa e a ignorância em relação ao texto que ele comenta; isto para já não falar de estar a apontar incoerências e o texto de Caim estar eivado delas.

  2. Anónimo says:

    O meu IP não é de um cyber café.

  3. beatriz says:

    Ainda não li o Caim mas tenho que ler. Posso gostar (como aconteceu com alguns livros do Saramago) ou detestar (como também já aconteceu). Creio que o Álvaro não percebeu absolutamente nada do que o Adão escreveu e que eu, humildemente, subescrevo.


  4. Eu li e não gostei de Saramago.Eu li e gostei de Saramago.Voltei a ler e não gostei.E vou desligar da net para ir ler e ver se gosto.O resto é para entreter o povo.JP


  5. Ainda não li mas vou ler. Se não gostar direi que não gosto.Hoje critica-se a igreja católica porque não há inquisição, e há suficiente liberdade para o fazer, com eles no sítio ou não. A questão de os ter ou não ter no sítio não se põe, neste caso. Eu próprio sou um grande crítico da igreja, mas não os teria no sítio se houvesse inquisição. Faço-o porque a liberdade mo permite. É humano. Como tantas outras coisas que eu faço, por ter liberdade de as fazer. Não as faria no fascismo, é lógico. Quanto aos muçulmanos, em primeiro lugar, não lhe interessará tanto por não ser a realidade que vivemos. Em segundo lugar, tê-los no sítio para o fazer era de uma grande imprudência, implicaria um preço demasiado alto para resultados tão parcos. Como seria imprudência entrar num terreno minado para insultar o inimigo, por exemplo.


  6. É sempre agradável, Beatriz, ter alguém que concorda connosco. Só não gostei do “humildemente”.


  7. Há um velho principio.Se o que fizeste não se vende, gasta muito dinheiro e faz muito baraulho na imprensa.Venderás mais do que se o não fizeres. Corre que o livro é muito mau, mas não o vou comprar, fico à espera da opinião do Loures e do Adão.


  8. [Error: Irreparable invalid markup (‘<p […] <a>’) in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]<P class=incorrect name="incorrect" <a>Carissimo</A> Adão:</P> As promessas foram feitas para se quebrar. A frase de Saramago que tudo despoletou , nada tinha de particularmente interessante. Uma frase banal, que não justificava tanto alarido. Deus é cruel. E depois? Mas a conferência de imprensa em que se vem explicar, essa sim, revela uma indigência intelectual não tolerável a um nobel . Saramago não compreende -e isto não tem nada a ver com a Igreja e seus desmandos- porque é que Deus supostamente não castigou Caim.  Mas que maior castigo,poderá haver sobre próprio e humanidade subsequente, que a impunidade.  Ao primeiro obrigou, para toda a sua provecta existência a viver e conviver, consigo próprio. Haverá maior castigo que este?alguém ser até ao fim dos tempos obrigado a conviver com um assasino.  a não poder expiar o seu pecado. que pior castigo do que o crime sem castigo? À restante humanidade revelou a impunidade, a possibilidade do crime sem castigo. Um fardo pesado convenhamos.Que maior exemplo pode haver do que este:  há crimes que não podem ser expiados, para os quais não há redenção possível por via do castigo. Que não se podem pagar. Não matarás o teu irmão, porque se o fizeres nem sequer te castigarei. Tu não mereces castigo. E ai de quem me contrariar. É essa a lição sublime do Deus que o Genesis nos apresenta, e que estranhamente Saramago ,que eu tinha em maior conta, não entende. E repara que eu, não sendo escritor  e tão ateu como ele e tu, alcanço. E depois as inocentes criancinhas de Sodoma, chacinadas pelo vingativo Deus. Valha-nos o próprio. Mas que diabo, Deus é Deus ou não é. Que importa o sacrifício das criancinhas de Sodoma, se afinal de contas Deus as pode ressuscitar. Há castigos que só a Deus compete, interditos ao comum dos mortais. É este o exemplo, que Saramago não vislumbra. Instrumentalizar a Bíblia, um dos textos fundamentais da nossa, tua, cultura, cai tão mal à Igreja como ao ateísmo militante.  Ezequiel , o grande Ezequiel, atrevo-me a recomendar-te. Um abraço e bem aventurado sejas.


  9. Mais eruditos ou mais primários, a maioria dos comentários negativos quanto ao Saramago e à sua obra revelam aquilo que o Adão Cruz diz – recusa em aceitar o ateísmo e o marxismo do autor – preconceitos e juízos pré-concebidos. Porque a conferência de imprensa não se traduz numa argumentação tão pobre quanto aqui alguém disse. Vê-se que Saramago, ao contrário de muitos que o atacam, leu de, facto a Bíblia, e que, claro, a interpretou da sua perspectiva e não de acordo com a visão da Igreja ou seguindo critérios, mais ou menos esotéricos, que atribuem à Bíblia qualidades e subtilezas que lá não estão. É de facto, como ele, disse, um livro escrito ao longo de muitos séculos, por muitas pessoas, com muitas intervenções de maquilhagem (suprimindo ou acrescentando – veja-se o Concílio de Trento), intervenções da hierarquia eclesiástica, diga-se. No fundo, é um repositório de histórias interessantes, algumas com um fundo poético e conservando algum sabor das sua base de oralidade. De sagrado, nada. De profético, nada. Um livro. Quanto ao livro de Saramago, comecei a l~e-lo. Também não gostei de tudo o que ele escreveu. Não sou leitor «incondicional» de ninguém. Darei a minha opinião depois de terminada a leitura. Mas saúdo o Adão Cruz e os comentadores em geral: a discussão está centrada no livro e não na atitude despeitada (e invejosa?) que parecia mover muitos dos que intervieram anteriormente na celeuma. 


  10. a maioria dos comentários revela (e não revelam)


  11. Caro Miguel começo pelo fim, pelo ateismo militante, palavra muito do teu gosto mas que eu não entendo. O ateismo nem é militante nem deixa de ser. É uma palavra que pretende ser  redutora. O ateismo é uma mundividência como outra qualquer, sobre as quais se pode falar e discutir. E que é isso de tão ateu como?…Ateu ligeiro, moderado ou severo, como uma doença? Ou se é ateu ou não. Quanto à indigência intelectual de Saramago, a minha poderá ser igual ou pior, porque não partilho da tua opinião. Sempre ouvi dizer que a bíblia pode ter muitas interpretações e não vais ser tu, com certeza, a reinvindicar que é a tua que está correcta. Por amor de Deus Miguel! Não é por haver interpretações diferentes da bíblia que se pode dizer quem é e quem não é indigente intelectual. O que está na bíblia não é nenhuma equação nem nenhum problema de matemática, a partir do qual, com algumalegitimidade e cuidado, se pode inferir da capacidade intelectual de quem tenta a solução. 


  12. Amigo Carlos creio que se pode dizer das duas maneiras.


  13. Creio que não. O sujeito é  maioria e é portanto esse singular que rege a oração. Mas pode ser que arranjemos uma polémica gramatical. Sempre deixamos o Saramago descansar.


  14. Nesse campo não me sinto à vontade. Um abraço e obrigado pela resposta


  15. Carissimo Adão: Não me move qualquer cruzada contra o Saramago, autor de algumas obras muito do meu agrado. Não embarco na tese da golpada publicitária nem no histerismo clerical. Limito-me a constatar o primarismo de uma interpretação vinda de alguém a quem se exige mais. É evidente que há milhares de interpretações, que  todas legítimas. MaA que apresentei é interessante, a do Saramago fraca. Dizer que Deus é cruel, má-pessoa e vingativo, não acrescenta nada de novo. É o que é. Mas repara, Saramago detém-se numa pergunta fundamental: porque é que Deus não castiga Caim? E , é um tipo execrável ponto.  É isto que eu acho redutor e simplista, de um ponto de vista literário. E como leitor tenho o direito de criticar, de contestar, inclusive de exigir mais. O homem meteu-se num ninho de vespas e acicatou outros ódios que não o meu porque afinal de contas toda a gente tem direito aos seus quinze minutos de estupidez. A militância fica para outra ocasião.


  16. É evidente, Miguel, nota-se que fazes parte da cruzada contra o Saramago. Uma pesoa culta como tu não reage desta forma, perante uma figura que nada tem de indigência mental. De qualquer maneira estamos os dois a cometer um erro. Ainda não lemos o livro, andamos aqui a entretermo-nos com os preliminares. Pode até acontecer que gostes muito e que eu não goste nada.