Jantares de Autor e Termodinâmica Clássica da Bloguística

 

 

Imagem Kaos e dedicado a todas as generosas pessoas que mantêm viva a Reflexão Pública, neste trise País

 

 

Finais de mês e pontos de encontro são sempre lugares ideais para reflexões "à vol d’oiseau". Sendo a Bloguística, como Descartes diria, Ciência nova e de fronteiras por desbravar, a ancoragem terá de ser feita anteriormente, e vamos lá bem aos primórdios, aos "chats", às caixas de comentários, e a uma era ainda bem mais antiga, em que os protocolos da fala de fantasmas se processavam através de "Telnet", e eu posso afirmar que ESTIVE LÁ, com a mesma força da gravidade de quem pôs as botas na Lua.

Depois, desde as chamadas páginas pessoais, a mais este fenómeno efémero dos Blogues e das hediondas redes de comunicação, os "Twitters", os "Facebook", os "Orkuts" e essas merdas todas, que as pessoas adoram, por se julgarem lugares inimitáveis do Mundo, e alimentarem silenciosos narcisismos da permanente contemplação dos outros — e eu cada vez estou menos nessa — portanto, desde essas eras que o inexorável Segundo Princípio da Termodinâmica, a Prova do Tempo, se exerce, e vou já direto ao tema: aquando do colapso do primeiro "The Braganza Mothers", pelos acasos de uma reles intriga de serralho, já eu estava, há muito, a abandonar o lado utópico do Virtual, e a questionar, como matéria de pesquisa vindoura, as palavras em que continuo a acreditar, quer AQUI, mas, sobretudo, AQUI.

 

Na Realidade, a Utopia Virtual já estava, com uma apressada degenerescência, a imitar todos os vícios da Realidade, importando cinismos, impunidades, cobardias, bastardias e jogos de opressão, impróprios de quem inaugurava um Novo Mundo da Expressão. Mais, ainda, gerava, no seu próprio fio evolutivo, uma permanente mancha de "spam", que, muito "ad laterae" e muito difusamente, até dava 1% de razão à miserável Clara Ferreira Alves e ao seu memorável período de má prosa e mau perder: "A blogosfera é um saco de gatos que mistura o óptimo com o rasca e acabou por tornar-se um prolongamento do magistério da opinião nos jornais. Num qualquer blogger existe e vegeta um colunista ambicioso ou desempregado ou um mero espírito ocioso e rancoroso. Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, agora publicam-se as ejaculações. Mas, sem querer estar aqui a analisar a blogosfera e as suas implicações, nem a evidente vantagem dessa existência e da qualidade e liberdade que revela por vezes, destituindo do seu posto informativo os jornais e televisões aprisionados em formatos e vícios, o resíduo principal de tudo isto é que os jornais mudaram, e muito, e mudaram muito rapidamente. Parafraseando Pessoa na hora da morte, We know not what tomorrow will bring."

No que a mim respeita, mero fantasma literário, que nasceu pelas caixas de comentários do "Expresso on-line", tenho a plena consciência do Devir. Nesse tempo de primeiro colapso, alguém me disse que, como nos seus tempos áureos, nem que o "Braganza" fechasse as portas, já teria desempenhado, na atitude, postura, irreverência e intervenção, o equivalente ao "Independente" dos Anos 80, mas isso ajuizará como certo ou apologético quem assim melhor o entender, porque eu não venho aqui falar disso, mas só referi-lo, de passagem.

Como todos os fantasmas, o "Arrebenta" gerou amigos apaixonados e respeitáveis inimigos, pessoas com as quais, por igual, me dou sinceramente bem: porque estamos em paridade, o que é excelente, num país de expressão livre e maturidade intelectual, ao contrário das patologias da perseguição, aqui exemplicadas, e aqui ridicularizadas por terceiros, mas isto não impede a reflexão sobre o tempo de vida útil de uma ficção, e ontem, ao sentar-me, para jantar, com algumas das altas patentes da Blogosfera, também estava em cima da mesa, como tema de debate, a utilidade, ou inutilidade, de continuar a escrever(-se), ou, se preferirem, de se continuar a escrever. Pessoalmente, tenho muito mais vida para além dos blogues, e, neste preciso instante, andar por aqui é um optar por estar aqui, enquanto poderia estar noutro lugar, eventualmente de maior prazer e com mais relevância, ou de maiores consequências, no nosso frágil devir terreno.

De existência, assim por alto, já leva a Ficção, "Arrebenta", 8 anos de existência, exatamente o tempo que o "Independente" levou a passar do esplendor ao declínio, o que pode ser uma bitola, e aviso, para medições futuras…

Ontem, discuti o cenário, aliás, já aventado aqui, de, pura e simplesmente, interromper a escrita por… inútil. Não é inocuamente que abrimos uma televisão, para ouvirmos desbobinar os nomes de todas as Empresas Públicas desta Cauda da Europa, ligadas por um mesmo, ou mesmos, "Polvos".

A pergunta pertinente, é, pois, valerá a pena escrever uma mais linha que seja, contra um estado de coisas destas?…

Esta é uma questão pertinente.

Ao nosso redor, as coisas definham e emergem: o "Abrupto", coisa que nunca frequentei, por lastimável, suponho que agonize, e agonize e agonize; os blogues aguerridos, para os quais fui, sucessivamente convidado, estagnaram, e falo do "A Sinistra Ministra", que era chateado e perseguido por tudo o que era o "Sistema" — e com quem eu, ainda ontem, discutia o interesse e a validade de manter "on-line" o espaço, que continua a ter um peso notável no "Google" –, o "Democracia em Portugal", que a Imprensa adorava, e ora está anquilosado, a excelente "Grande Loja do Queijo Li
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", que se fraturou, entre o brilhante "José" e… nada, e, acima de tudo, o caso mais preocupante, o "Do Portugal Profundo", em cujas caixas de comentários, num dado momento, se iam sacar todas as informações proíbidas de Portugal, e que, agora, sobretudo depois da grave cisão, se desertificaram.

Infelizmente, tinha razão, quando o previ, nesta "Sonata al Santo Sepolcro", RV 684.

"The Braganza Mothers" nunca foi um espaço de comentários alargados, como o "Aventar", por estes tempos, em plena adolescência, mas que também deve começar a refletir no que escrevi atrás: há uma Síndroma do Silêncio, quando as caixas de comentários emudecem, o que nos leva a pensar que alcançámos o Poder das Escrituras, ou já, ou ainda, não existem temerários que nos afrontem. Qualquer das hipóteses é redutora e empobrecedora, mas deixo ao vosso critério debatê-la.

Hoje, é tão só a Noite do "Haloween", e este é um décimo do texto em que vinha anunciar que tenho mais vida para além dos blogues. Não, não é deixar de escrever, nem sequer arrumar na gaveta o "Arrebenta", uma de muitas outras personagens, de maior ou menor sucesso, que tenho vindo a criar, desde 1995, até por que isso, como ontem se debateu num jantar de autores, poderia ter um efeito dominó, e começar a calar muitas outras bocas, QUE É ISSO QUE "ELES" QUEREM, e assim ficaremos, atentos, preparados, armados até aos dentes, à espera de que a Realidade ainda se afunde e decline, muito mais depressa dos que as nossas ficções blogosféricas.

Até quando?…

Pois… até amanhã, com certeza, como sempre…       🙂

 

(Por pura necessidade explicativa, no "Aventar", no "Arrebenta-SOL", no "A Sinistra Ministra", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino", e em "The Braganza Mothers" )