Uma história quase anónima, mas com um blogue e 37 livros malditos

 Talvez nada disto se tivesse sabido se a bibliotecária da pequena cidade fabril de Ursk, aos pés dos montes Urais, na Rússia, não tivesse um blogue.

 

Parece que foi assim: o Serviço Federal de Luta Anti-Drogas (SFLA) russo enviou uma circular às autarquias. O que estas fizeram pelo país fora não sabemos. O que, sim, sabemos, é que o pelouro da Cultura da autarquia de Ursk reenviou à biblioteca municipal local a lista que lhe chegara do Serviço Federal.

 

E também sabemos, graças a essa anónima bibliotecária que contou a história no seu blogue, que essa lista continha os títulos de 37 obras que se recomendava que não fossem entregues aos leitores. Escrevo “anónima” não porque ela se tenha escondido atrás do anonimato, mas porque, não sabendo eu ler russo, apenas posso reproduzir o que me conta o “El País” acerca deste assunto e aí não consta o nome dessa mulher.

 

Os 37 malditos são-no porque, terá dito o SFLA, incitam ao consumo de narcóticos. 

E aí estão os previsíveis William S. Burroughs e Irvine Welsh, mas também Philip K. Dick, Pérez-Reverte e Tom Wolfe. Estão também escolhas mais originais, como monografias sobre esta temática assinadas por cientistas de renome e até um manual de cultivo de cogumelos.

 

Uma vez descoberto o caso: a imprensa indignou-se; os responsáveis do serviço anti-drogas local sacudiram a água do capote; e o porta-voz oficial do SFLA negou a intenção de proibir qualquer obra literária, tudo isto mais ou menos por esta ordem de acontecimentos.

 

O único dos intervenientes nesta história de quem sabemos o nome é – talvez por ser aquele que está mais alto na escada hierárquica – este mesmo porta-voz: Nikolái Kartashov. O senhor Kartashov lembrou que só uma ordem judicial pode proibir a circulação de uma obra literária e remata com a sua interpretação do ocorrido: “Deve ter sido uma iniciativa particular de algum funcionário local, fruto do ser fervor profissional e pouco inteligente”. Deve ter sido.

 

Mas isto para dizer-vos que, não tivesse a senhora bibliotecária de Orsk cruzado o umbral da blogosfera, e quem sabe o índex dos narcóticos teria ficado debaixo do balcão de todas as bibliotecas russas, enquanto, sub-repticiamente, nos arquivos empoeirados um a um iam sumindo-se os livros malditos. E ainda dizem que os blogues podem afastar leitores dos livros. 

 

Comments


  1. Interessante. Provavelmente, o livro do Arturo Pérez-Reverte seria «A Rainha do Sul», para mim o melhor romance desse autor.


  2. A pata está sempre pronta para esmagar. E a liberdade tem que ser defendida todos os dias.


  3. Era mesmo esse, Carlos.


  4. O problema é que nem todas as ameaças são tão óbvias quanto esta. 


  5. Pois não, nem sempre são. Mas eram essas  e outras coisas de que as pessoas nem sequer se apercebiam,  que alimentavam o fascismo. Não têm nada de épico, basta estar atento, o que é muito dificil e de que raros são capazes.

  6. maria monteiro says:

    nos anos 60  John Lennon por dizer que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo o grupo passou a ser ”desaconselhado” (passado décadas o Vaticano perdoou) …, não é grata a leitura de Saramago, Dan Brown cria comichões, o crime do Padre Amaro é outro que tal … enfim por cá também há ousadia de seleccionar … muitos Contos Proibidos andarão por aí … desaparecidos