Uma estória de brancos

 

Um diplomata estrangeiro deu-me a prova dessa revindicta. Ao aproximar-me dele, como sempre com o maior dos sorrisos, recusou-se apertar-me a mão dizendo "dont shake hands with a monarchist". Fiquei banzado mas fiz-lhe a vontade: nunca mais me verá à frente, tremendo orgulhoso que sou. Acresce que nada lhe devo e se alguém deve algo a alguém pedir-lhe-ia os livros que lhe fui emprestando ao longo dos tempos e que nunca teve a elementar educação de devolver à proveniência.

 

Nasci numa colónia e embora tenha vindo para Portugal Continental muito novo, sempre tive a plena consciência do pendor europeu para em tudo  e sobre todos ter uma lição a dar. Aos nativos africanos, a alvorada propiciada por um deus verdadeiro e as delícias do roçar do pano das calças, substituindo a nefanda tanga. Aos chineses, o necessário corte da trança ancestral, a europeização dos Chang Li que passam a ostentar o formidável Alfred  Hubert Li-Chang, convencendo-o simultaneamente a desfazer-se de lacas e charões, para usufruir plenamente do lixo Ikea e adjacentes. Enfim, é um tique que nos ficou de quinhentos anos de domínio pela graciosa mercê de colubrinas, cartas de corsário, razias "por bem", prazeirosos ópios e e assimilação do conceito de alargado concubinato em tempo de comissão. 

 

 

Este texto do Miguel, é elucidativo e sei perfeitamente a quem ele se refere, na pessoa da tal muito pouca diplomática figura. Embora não conheça o degustador de croquetes, a criatura faz decerto parte daquele exclusivo círculo de parasitas que de comenda ao peito e chauffeur na rua, gozam as delícias de uma embaixada num país solarengo, rico em gastronomias e outros fartos prazeres mundanos. Um sonho, apimentado por beldades ao alcance do lançar da rede do dinheiro fácil. E tanto mais estranha se torna a situação, quando sabemos que uma regra elementar da diplomacia internacional, consiste em manter os estritos preceitos da cortesia e boa educação que o supracitado indivíduo – de que país será? – não conhece. E mais ainda, referindo a "monarchist condition", balela vomitada num súbito ataque de aguda grosseria, pois se há coisas com que os tailandeses não transigem, é a falta de respeito para com a instituição real. Se o diplomata é de tal categoria, imagina-se então o calibre de quem o terá nomeado para esse cargo…

 

Os acontecimentos tailandeses denotam a persistente tentativa ocidental de tudo pretender formatar à medida dos interesses daquilo a que em Lourenço Marques designávamos de "cães grandes", ou seja, os que querem, mandam e podem, sem que para isso, haja uma razão que minimamente roce a racionalidade explicativa do privilégio.  A chamada União Europeia, mostrengo sem qualquer interesse que apele ao idealismo dos seus fundadores do pós-guerra, é o exemplo perfeito. Estrutura prepotente, absurda na sua sanha  de conquista de um sonhadolebensraum – que perdeu nas antigas colónias -, estabelece limites, calibra consciências e imita exactamente os chineses de outrora, que ao enfaixar os pés das garotinhas, satisfaziam um muito discutível  conceito estético, sem que o sofrimento alheio lhes causasse a mínima perturbação. Eles o querem e assim terá de ser, para poderem continuar a repartir lugares cativos, altissonantes nomes de departamentos vazios de conteúdo ou acção e o benefício da impunidade que otem que ser  obriga.

 

Mesmo na "Europa" – já agora um termo-conceito  que detesto visceralmente, pois português sou e português morrerei – , a pesporrência dos ditadores  mangas-de-alpaca que pontificam em Bruxelas e na germânica Estrasburgo, impõe ciclicamente a conveniente repetição de referendos intramuros e a Dinamarca já foi vítima desse tipo de chantagem de contornos tão mais escabrosos, porque se baseia sempre na ameaça da rendição forçada pela fome e prometida pobreza dos visados. Segui-se-á brevemente a verde e brava Irlanda. Para as sanguessugas que hoje nos surgem tão claramente nos irisdiscentes ecrãs televisivos dos noticiários das oito da noite, os desejos do clã devem ser lei geral para os comuns mortais, habilmente disfarçados aqueles, com generosas tiradas  acerca dos "caminhos do progresso", das "igualdades de direitos", ou a risível pseudo-cidadania que lhes convém. Após uma farta almoçarada debitada nas despesas de representação do organismo ou empresa que mensalmente lhes recheia os bolsos, lá discutirão entre um on the rocks e uma falhada tacada de golfe, os vai-vém dos activos e passivos on-line dos subprime e dos shares, o melhor local onde guardar os virtuais números propiciados por uma golpada além mar, ou a mais refinada branca à venda pelo fornecedor do costume que por acaso, até é colega no desporto de eleição. E chega esta gente à chefia de Estados!

 

Nós, os brancos*, parece termos um código genético particular, que num dado momento no tempo, despoleta um rol de cataclismos que como numa erupção vulcânica, incendeia, destrói e cobre de magma, comunidades outrora pacatas, felizes dos seus usos, costumes e tradições. A nossa brutal indiferença europeia a um bom dia, a um sorriso à entrada de uma loja, ao desaparecido acto de cortesia de deixar alguém passar, arrasa a reputação dos antigos conquistadores de liberdades e de mundos, amesquinhando-nos à condição
d
e directos descendentes dos homens das cavernas que ainda há pouco ocupavam esta minguada península da Ásia, que a vaidade dos seus habitantes atreve a chamar "continente".

 

Liquidámos os índios na América do Norte e na sua congénere do Sul, reduzimos aquela gente à condição de ilotas que assistem sem esperança, a uma sucessão de regimes onde pontificam idiotas, criminosos de delito comum, coristas alçadas à condição de santas e vigaristas de toda a ordem e feitios. Na Ásia, quisemos "democratizar" a Índia, mantendo-lhe o sistema de castas – honra seja feita à excepção lusa nos territórios que administrou -, sugando-lhe a outrora pujante força pré-industrial que nos inundou de luxos durante séculos, ao mesmo tempo  que desenhávamos as fronteiras conflituosas que hoje ameaçam o mundo com a tragédia nuclear. Na Indochina, a estúpida e republicana França dos Iluminados, liquefez o ancestral substrato em que harmoniosamente assentavam as populações que desgraçadamente caíram sob o domínio da força das suas canhoneiras e o resultado oferecido pelo Vietname, pelo Laos ou Camboja, são afinal, o completo desmentido de uma certa ideia das luzes que afinal jamais existiu. Por onde passaram, deixaram a fome, a guerra e uma devastação jamais vista nas suas milenares sociedades e História. Na China, foi o que sabemos: durante mais de um século tudo tentámos para liquidar um império ancestral, inventando lendas e estorietas de cordel e afinal, acabámos por conseguir condescender com um regime espúrio de doutrina alemã que chacinou mais de um cento de milhões e que hoje qual vaga de tsunami, ameaça arrasar-nos com uma inundação de produtos industriais que enviam os europeus e americanos para o desemprego maciço. Para não mencionar detalhadamente os crimes que os portadores do "facho da cultura ocidental" cometeram durante a investida aos monumentais centros históricos chineses, esmagando porcelanas, reduzindo a pó preciosidades de jade, queimando ancestrais edifícios de rendilhada teca e profanando o trono imperial com o sujo traseiro do parisiense diplomata de serviço.

 

Porque ameaçava a nossa periclitante e já ultrapassada supremacia, fizemos cair o Xá. Encolhemos os ombros perante o massacre inútil de milhões de japoneses em 1945. A propósito do Iraque, houve quem batesse as palmas em louvor do massacre do adolescente Faiçal II, substituído por uma progressista cáfila de bandidos a soldo dos armeiros de Moscovo, Paris, Washington e Londres. Na China, fechámos os olhos à mortífera aplicação da assassina ideologia europeia que engendrou o maoísmo. E podíamos continuar noite adentro, indefinidamente, tal é  a lista de imundícies a apontar.

 

Agora, parece ser a vez da Tailândia, o único país da região que jamais foi colónia europeia. Um país onde os brancos foram populares e tratados como iguais, sem os constrangimentos impostos pelos complexos de inferioridade herdados da colonização.  Os brancos querem impor ao povo, as mesmas cinzentas, feias e desprezíveis criaturas que na sua versão ocidental, vemos todos os dias desfilar em páginas e páginas de roubos, escândalos, manipulações e vigarices de toda a ordem. O senhor Thaksin tem os seus irmãos de sangue em Paris, Washington, Londres, Madrid e até nesta Lisboa em que vivemos. Como eles, controla bancos, televisões e "centros de aplicações financeiras", nome etéreo para antros de falcatruas. Liquida inimigos, tem as mãos medonhamente sujas. É farinha do mesmo saco, ou vinho da mesma pipa.

 

Ah, como às vezes compreendo a revolta dos boxers!

 

 

 

 

Comments


  1. De ler e repetir ao longo do dia.

  2. Dal-Tónico says:

    NUNO PARA TI, DAS COISAS MAIS LINDAS QUE SE FEZ….DEDICO ISTO À MONARQUIA VENHA ELA,…:

    (http://www.youtube.com/watch?v=SFbDhbl3QPY) Come Undone Mine, immaculate dream made breath and skin I’ve been waiting for you Signed, with a home tattoo, Happy birthday to you was created for you Can’t ever keep from falling apart At the seams Can’t I believe you’re taking my heart To pieces Oh, it’ll take a little time, might take a little crime to come undone now We’ll try to stay blind to the hope and fear outside Hey child, stay wilder than the wind And blow me in to cry Who do you need, who do you love When you come undone Who do you need, who do you love When you come undone Words, playing me deja vu Like a radio tune I swear I’ve heard before Chill, is it something real Or the magic I’m feeding off your fingers Can’t ever keep from falling apart At the seams Can I believe you’re taking my heart To pieces Lost, in a snow filled sky, we’ll make it alright To come undone now We’ll try to stay blind to the hope and fear outside Hey child, stay wilder than the wind And blow me in to cry Who do you need, who do you love When you come undone Who do you need, who do you love When you come undone Who do you need, who do you love When you come undone…


  3. Só espero que não entendam isto como paternalismo.  Já vi cenas absolutamente lamentáveis e até aqui, em Portugal. As pessoas não têm juízo nenhum!


  4. De onde veio isto, Dalby? Muito bonito.

  5. Dal-Tónico says:

    NUNO-CHATEAU BLANC, ROI DU PORTUGAL ET DE GUIMARÃES ET DE LA CAPITALE DE LA NATION: Ainda bem que gostou…é um dos vídeos da minha vida..«come undone» dos Duran Duran (VINDO DESFEITO), que por sinal nem são lá grandes músicos, mas têm uma estética pop-nova clássica-rócócó  muito rara e sofisticadamente sensual…(vá a youtube e ouça é uma delícia para os sentidos. Para gostar só não pode é ser da Maia, senão melhor ouvir o caceteiro de Rio Tinto a tocar pratos, quando está deprimido!!)…«Come undone» dos Duran Duran…resume todo o  verão da minha vida do sec XXI: 3 meses em Madrid, Barcelona, Sevilha, Galiza etc etc Espanha e todo o país ..Amores, paixão, marcas no corpo de sensualidade e de gosto e prazer, muita viagem e sonho, uma só razão para ter vivido teria bastado esse ano com os maiores desaires da vida e os maiores prazeres e sonhos cumpridos.. e voltando a minha casa, saindo e voltando e saindo e passando meio mundo pela minha casa e eu pela cama das outras pessoas (assim num movimento de auto deslumbramentoe noutro de arrivista e de pós moderno, tendo começado o doutoramento com o Teixeira Lopes, tudo corria bem e tudo corria mal na minha vida, era o viver no fio da navalha (mas cá estou vivo para meter nojo à tartaruga de Rio Tinto!) de vai e vem ao ninho e saltitando para o MUNDO, porque eu, ao contrário dos inteligentes da Maia, de Rio Tinto e do Areeiro, sou um homem do Mundo e com muito Mundo em mim…Eles ainda começaram há pouco e eu de pequenino ainda nem sabia dizer o «bê-à-Bá e já entrava no avião Porto-Lisboa-Copenhaga-Estocolmo somente porque a Karina Tabaczinsky e o Per-Arne Frediksson, suecos de gema ao verem-me nuzinho na praia do principío do que era Troia da altura, gostaram de mim!!! E Era tão novinho, timido inocente mas tão precode DalbyNatura..E depois lá fui enviado para um centro giro em Copenhaga (as autoridades, Embaixada…INOCENTES!!!POIS!! da altura já eram muito mazinhas mázinhas e davam contactos para a gente ir lá dormir que não deviam..resultado..em vez de dormir lá numa noite de vinda de Estocolomo fugi com o rabinho à seringa e fui para o aeroporto porque aqui o dalpardal só dorme com quem quer e não forçado!!!if you know what I mean!!)…Bem, mudando de registo e lá foi o verão quenteeee seguindo…de 2003 eterno visceralmente belo!!!!…e lá…Espanha sobretudo mas não só…num verdadeiro frenesim sexual e sensual, OLHANDO PARA TRÁS, NEM ACREDITO QUE FUI EU QUE ESTIVE NESSE «FILME» aquilo foi Monarquia, Anarquia, República e Ditadura (foi uma parte boa oh yeah aquela parte do filme sobre a ditadura oh se foi!!!)…O video…è lindíssimo e eu não consigo deixar de, ao ouvir este video, ser remetido imediatamente para o colégilo católico jesuita Loyola em Madrid, 42 graus, Julho, 2003, e as traseiras do colégio as 6 h da manhã..eu estava a estudar no curso de verão com uma bolsa…e a piscina nudista de la elipa e a gente de todo o mundo lá na Universidad Complutense comigo, e a festa da marquesa não sei quantos no Barrio Salamanca, um chique total…E as repreensões do gerente no colégio pelo meu vestuário (NÃO POSSO DESCREVER COMO ME VISTO SE É QUE AQUILO É VESTIR-SE QUANDO O MEU CORPO SOFRE 43 GRAUS E ESTÁ LONGE DA FAMÍLIA A 700KM!! ou os ufffs que ouvia daquele povo maravilhoso e quente espanhol… no MetroMadrid de pessoas que vão à minha frente, todo bronzeado todo perfumado lindissimo e praticamente…’nu’…ou se vestido quase transparente..ou com a roupa d emodo a configurar tudo mas tudinho o que vai lá dentro assim num misto de lánguido, animal, sensual, provocador ah muita provocação, cara de anjo, isso absolutamente, porque se não tivesse cara de anjo seria uma azeiteirice..mas il faut avoir ça…..hummm sinto.me nesses momentos tão homem tão viril tão selvagem tão sensual e absolutamente incapaz de o fazer, poucas vezes, na vida, mas quando o faço é a própria pele que se eriça e que explode..) e as saidas para o HOT até às tantas oh..lembrar isto num inverno é uma dádiva generosa de suco de Anjos Gabriel misturado com outros anjos menos celestiais….DE MADRID AL CIELO , DALBY DE ANGELITO HASTA EL DIABLO MÁS ROJO DEL PECADILLO! abraço dal-tónico «who do you need, who do you lo

  6. dal-TÓNICO says:

    We’ll try to stay blind to the hope and fear outside Hey child, stay wilder than the wind And blow me in to cry Who do you need, who do you love When you come undone duran duran COME UNDONE DAL-TÓNICO

    (http://www.youtube.com/watch?v=Mo6iwTRLy94)  


  7. Acho que tens de começar a escrever umas memórias. Best seller, de certeza, desde que lá coloques TODOS os detalhes. Todos, mesmo, ehehehehehe.