O Vaticano e o período da pornocracia. 1 – De Sérgio III a Estevão VIII


A Origem do Mundo, de Gustave Coubert

O Xico da Amora e outros leitores do Aventar ficaram muito incomodados pelo facto de, em post anterior, eu me ter baseado na Wikipedia para fazer uma resenha histórica da ligação entre o Papado e o Putedo. Esquecem os nossos prezados leitores que o Aventar é apenas um blogue e que enciclopédias, obras especializadas e quejandos devem ser servidas em locais próprios que não este. Utilizo-os muito, sim, mas na minha actividade profissional paralela ao ensino (ui, se o Miguel Abrantes sabe!)
Mas como os clientes têm sempre razão, prometo não me basear apenas na Wikipedia no post que agora escrevo sobre o período da Pornocracia no Vaticano. Um período que ocupou uma parte substancial do séc. X e os pontificados de Sérgio III, Anastácio III, Lando, João X, Leão VI, Estevão VIII, João XI, Leão VII, Estevão IX, Marino II, Agapito II e João XII.

Comecemos pela origem da palavra. Segundo a «Encicopédia Lello», Pornocracia é a influência das cortesãs, ou seja, das putas, na governação de um país ou instituição. Uma palavra de origem grega – kratos significa poder e porne cortesã. O Cardeal italiano César Baronius, no séc. XVI, foi o primeiro a referir-se a este período, baseando-se nos escritos de Liudprando de Cremona, diácono de Pavia que viveu entre 922 e 972.

A fase da pornocracia no Vaticano iniciou-se com o Papa Sérgio III. Conhecido como o Boca de Porco, foi eleito no ano de 904. Foi amante de Teodósia e da sua filha, Marósia,que estava casada com um nobre italiano desde 905 e que voltaremos a encontrar na história de outros pontificados. Com Marosia, teve Sérgio III vários filhos ilegítimos, um dos quais viria a ser eleito com o título de João XI. Durante a sua governação, mandou degolar o seu antecessor, Leão V.

Falecido em 911, foi sucedido por Anastácio III. Só governou dois anos, pois foi envenenado pelo Clero romano.

Seguiu-se-lhe o Papa Lando, eleito graças a intrigas no interior da Igreja. Só esteve 7 meses à frente do Vaticano, pois viria a morrer de forma misteriosa em Fevereiro de 914. Mesmo assim, teve tempo para passar à história, segundo documentos coevos, como «corrupto, criminoso e fornicador». Mostrava especial predilecção pelas duas filhas de Teodósia, Teodósia II e Marósia, que continuava assim a influenciar o quotidiano do Vaticano. Também gostava de boa comida e bom vinho.

João X foi o seu sucessor e governou durante 14 anos, entre 914 e 928. Chegou ao poder graças à influência de Alberico I, o nobre italiano marido de Marosia. No entanto, durante o longo período do seu pontificado, foi amante de Teodósia II, preferindo-a relativamente à irmã Marosia. Esta, que enviuvou na sequência da política de João X contra os sarracenos , viria a casar com Guido de Túscia, que liderou um Exército que entrou em Roma, matou o irmão do Papa e prendeu o próprio João X. Morreu no ano seguinte na prisão.

Marozia

Leão VI, o seu sucessor, governou durante 7 meses, tempo suficiente, ainda assim, para se tornar amante de Marosia, que influenciou em muito a sua eleição. Foi morto por Marosia quando ela descobriu a sua segunda amante. Primeiro embebedou-o num encontro íntimo e em seguida sufocou-o com uma almofada. Seja como for, a sua nomeação terá sido ilegal, porque João X ainda estaria vivo à data.

Estevão VIII foi o seu sucessor. Governou o Vaticano durante mais de 2 anos, tendo chegado ao poder por imposição dos condes de Túscolo – o primeiro conde de Túscolo era pai de Marozia, Marquesa de Túsculo. Foi eleito numa altura em que João X ainda não tinha morrido. Foi assassinado nos inícios de 931.

Nesta altura, o apogeu da cortesã no Vaticano atingira o seu apogeu. Corria o mês de Março de 931 quando Marosia conseguiu que fosse eleito Papa o seu próprio filho, fruto da relação com o antigo Papa Sérgio III. Relembre-se que Marosia fora amante dos 5 Papas anteriores. O facto de João XI ser seu filho não a impediu de continuar na mesma linha…

continua

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Olha que não havia promiscuidade, só três mulheres e uma delas com 90% do apetite…
    Só aquele jovem argelino muçulmano tem quatro ao mesmo tempo. Haja coerência!


  2. Bom trabalho Ricardo. Este Vaticano tem uma honrosa tradição que vale a pena trazer à luz do dia, a ver se abre os olhos aos que são cegos porque não querem ver. Mas esta tradição vai prlongar-se por muitos séculos, muito provavelmente até aos nossos dias, no Vaticano e em todas as instituições que dele dependem. Fornicações por esses conventos fora e não só, devem ser mato. O mal não está na fornicação, que lhes saiba muito bem, o mal está na hipócrita pregação da castidade e na sórdida predação de crianças indefesas.

  3. Miguel Andrade says:

    Muito obrigado pelo artigo, caro Ricardo!

    Mesmo que os crimes sejam outros a influência no mundo continua, alicerçada no mito da santidade das decisões.
    É importante trazer a dimensão humana, que não raras vezes se expõe com exemplos destes.
    Paguemos com os nossos impostos e com o nosso tempo de trabalho/tolerância de ponto a esta corja tal como fazemos desde há 900 anos.
    e convém não esquecer quem foi a primeira pessoa que ele citou mal chegou a portugal… Pedro? Paulo?Jesus?… nada disso… Cerejeira

  4. Luis Moreira says:

    É importante que as pessoas percebam que estamos perante simples mortais, com os defeitos e as qualidades habituais. Têm é muito poder!

  5. S Maria says:

    O que é que tem o tal muçulmano a ver com isto? É Papa? Haja paciência!

    http://quartarepublica.blogspot.com/2007/04/padre-francisco-costa-abade-de-trancoso.html

  6. maria monteiro says:

    com um titulo desses é sabido que este texto é lido mas imagino o “estado de choque” ao depararem com a pintura

  7. maria monteiro says:

    pois é luís e até foram “abarbatados” alguns livros

  8. Luis Moreira says:

    É verdade, em Braga, pelos cívicos de serviço…

  9. Joaquim Rocha says:

    Pois é.
    Sendo muitos anos catequista vi muita coisa. desde brincadeiras manuais dos Srs padres até boas cristãs a tirar a cueca para o sr padre. E não fui uma vez dar com uma freira a rezar de joelhos em frente do Sr padre?. Não sabia é que isto é tão velho como o mundo no Vaticano, ou se quizerem no seio da Igreja. Continuo a ser CRISTÃO mas não me falem em padres e muito menos em freiras.

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