Comer no McFrito’s

Ninguém acredita mas eu juro: nunca comi no McFrito’s.

Melhor dito: nunca tinha comido até este fim-de-semana. E a que se deve esta rendição? Aos tempos que correm, à pressão social, à moda? Não, rendi-me a uma criança de seis anos, que  ficara à minha guarda, e que ansiava por lá  ir. E lá tive que levar também a minha criança, que nunca lá ido e que, no que de mim depender, tão cedo não voltará lá.

Se entendo os que se deixam vencer de quando em vez pela pressão das crianças e adolescentes, tenho mais dificuldade em entender os adultos que, podendo ir comer a qualquer outro sítio, escolhem aquele. E havia por lá todo o tipo de gente: adolescentes, casais de namorados, casais de setentas e muitos, yuppies engravatados.

O problema começa logo com o cheiro a fritos que circunda o local, uma espécie de círculo espesso, ainda que invisível a olho nu, que contorna o restaurante e que embate nos narizes que pela primeira vez franqueiam as portas automáticas. Quem, apesar disto, decide entrar deixa à porta a esperança de comer decentemente.

No McGordura’s a comida vem em embalagens que se assemelham às das más refeições de avião. As batatas, os hambúrgueres, os mcnãoseiquê, feitos de uma substância semelhante a frango, todos eles vêm com sal a mais, todos foram banhados em óleo a ferver, todos sabem a gordura e a plástico. Os legumes sabem a nada, as sobremesas sabem a nata demasiado açucarada.

Comer ali é um suicídio das papilas gustativas. É abdicar do prazer da comida, é dispensar de uma vez esse nobríssimo costume de fazer da refeição fora de casa um acto cultural e social, é rejeitar a partilha da mesa com amigos (mas como, naquelas pobres mesas sem toalha, cada qual com o seu tabuleiro mal jeitoso?), os dois dedos de conversa com os donos do restaurante e com os empregados já conhecidos, e que aqui são substituídos por adolescentes de pala na testa que nos despacham com uma simpatia treinada em cursos de marketing de duas horas, e nos bombardeiam com a necessidade de tomar decisões rápidas sobre os menus que queremos.

E tão aturdidos ficamos que acabamos com o tabuleiro cheio de caixas de conteúdo suspeito, que nos dizem com robótica frieza quantas calorias vamos ingerir, como se comer fosse simplesmente um acto de reposição calórica.

Pois neste fim-de-semana, no McÓleo’s onde fui parar, as pessoas comiam o que estava dentro das caixinhas de cartão com gosto e aparente alegria. As crianças comiam fritos e bebiam refrigerantes. A garrafa de água que havia em cima da minha mesa era a única de um restaurante cheio, como se dar água às crianças fosse uma excentricidade.

Lembrei-me de um dos filmes do Indiana Jones, em que, no coração da Índia, ele era convidado a participar num banquete em casa de um marajá, onde eram servidos pratos tão nauseabundos como miolos de macaco (servidos ainda na cabeça do bicho), para gáudio dos locais que se comportavam como se estivessem perante o mais refinado manjar. Mal comparando, porque miolos de macaco são difíceis de superar, eu sentia a mesma estranheza perante o entusiasmo alheio.

Até porque ia fazendo comparações mentais que só me faziam lamentar ainda mais ter ido ali parar. Pensava que poderia estar no Casa Nanda, para não ir mais longe, pensava no arrozinho de feijão, nos filetes branquíssimos de pescada, na robusta massa à lavrador, no perfumado arroz de tamboril, no guisado de javali, nas divinas tripas, no bacalhau à Gomes de Sá, nos jaquinzinhos, no arroz de polvo, e mais raiva me dava trincar o mcSucedâneo-de-frango-frito e meter a mão, cada vez mais gordurosa e áspera de sal, no recipiente manchado de óleo das batatas fritas.

Mas quem no seu perfeito juízo trocaria o mais simples prato da cozinha portuguesa por um hambúrguer mal amanhado, por muito marketing que se lhe ponha à volta?

E nem sequer se pode aceitar o argumento económico porque há por aí muitas tasquinhas que por idêntico preço ao do McHipertenso’s servem um prato decente, bem cozinhado, que vem para a mesa num prato de louça e com direito a talheres.

Comer no McEnfarte’s é a forma mais triste de engordar. Porque se retira à comida a sua suprema vocação de ser prazenteira, relegando-a para a mera soma de calorias a que se resume a “fast-food”.

É o vislumbre de um futuro distópico, em que os humanos ingerem calorias que até poderiam vir sob a forma de pastilhas, como as dos astronautas, mas se apresentam como fritos que se ingerem com a ajuda de meio litro de refrigerante açucarado. E no final se levantam ordeiramente para ir arrumar o seu tabuleiro, não sem antes separar o seu lixo para os recipientes certos, como um bom robot agradecido por ter sido alimentado. Ou melhor, por ter sido reposto o seu equilíbrio calórico.

Comments

  1. Luís Moreira says:

    Aqui, na Praça de Londres, há um tão nauseabundo que mudo de passeio! A cozinha portuguesa é um delírio de criatividade e sabores. Se vamos em modas vindas da “estranja”…

  2. Miguel Andrade says:

    que belo texto! tenta não voltar mesmo ao McEnfartes porque depois começas a não sentir a diferença entre sabor e excesso de sal/gordura/açucar.
    Estive sem comer lá 7/8 anos e não fazia falta nenhuma!

  3. Ricardo Santos Pinto says:

    Tu até gostaste, diz lá a verdade.

  4. maria monteiro says:

    O da Praça de Londres era uma pastelaria onde parava muitas vezes.
    Quanto a mudar de passeio não posso porque gosto de ir ao Magnolia do Londres… além do ambiente, tem umas tartes deliciosas

    Houve uma altura em que o Tomás me pedia para ir a um desses (era no Olivais Shopping) mas era por causa do brinde

  5. Pedro says:

    Eu tenho um contrato com a minha criançada, McCoiso só uma vez por ano. Há anos em que acaba por ser duas porque, enfim, eles sabem persuadir.
    Houve um ano em que, perto da passagem de ano, o meu filho jurava que eu não tinha cumprido a minha promessa. Estavamos em Espanha e ele insistia, insistia, insistia. No fim já nada importava – paisagem, edifícios, etc.- só as tabuletas McLoquesea. Lá tivemos que ir a las hamburguesas


  6. Muito bem descrito, Carla. Aprecio mais a peça literária do que a informação. Esta é mais do que sabida, mas a cultura das pessoas é muito rasteira. É, no entanto, um bom relato de uma experiência que deveria servir de lição a muita gente, mas não serve. Por isso, há coisas que deviam ser, pura e simplesmente, proibidas. Não só os macOleo’s mas também essa quantidade de mijocas embotilhadas em coloridos plásticos que mais parecem detergentes. Se o tivessem sido, há muito tempo, não haveria esta quantidade quase increditável de obesos disformes, e o futuro desta gente não se presumiria tão negro do ponto de vista da saúde.

  7. Ricardo Santos Pinto says:

    Já que falas da Casa Nanda, fui lá noutro dia e gostei. Comida muito boa, simpático atendimento. Só achei o preço exagerado em relação ao que foi o meu jantar.

  8. Carla Romualdo says:

    Prometo ficar afastada do antro da gordura e não será sacrifício nenhum. O Casa Nanda às vezes sai um bocado carote, é verdade, mas nunca se come mal naquela santa casa. E a dona Fernanda recebe-nos como se estivéssemos em casa, há aquele ambiente muito portuense que eu aprecio muito… enfim, é uma das minhas fraquezas

  9. Carlos Fonseca says:

    It’s the american way of fooding.
    Eu, no Porto, antigamente preferia ‘A Regaleira’, mas estou desactualizado e à espera que o Ricardo me pague um jantar no ‘Tonho’…

  10. graça dias says:

    comer bem, e caro so
    na casa nanda no porto.
    mas só para alguns.coitados da maior parte do portuenses? “luxo” de minorias

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