Mulher a crescer, machismo a tremer. A filiação da criança

nova forma de machismo organizado ao extremo...

(reedição)

…para a mulher que amo e me ama… ainda que não estejamos sempre quites…

1. Introdução em forma de fandango.

A temática é imensa. O debate com a minha equipa nunca mais acaba. Porém, encurralo as ideias para começar apenas com a do título. O meu título é uma hipótese. Uma hipótese depreendida da experiência da minha pesquisa, como é habitual. Pesquisa que analisa crianças, necessária para os adultos entenderem o seu contexto. Adultos a mudarem vertiginosamente nos últimos tempos. Na década de Setenta do Século XX, o objecto da nossa investigação (minha e equipa) foi um grupo de mil mulheres casadas, residindo nas suas casas. As casas serviam para cuidar dos pequenos e alimentá-los. Lares dominados pelos homens, maridos ou não, pais das crianças ou não, mas lares dominados contra o prazer das mulheres. Ainda me lembro da mulher que falava do  orgulho que sentia pelo seu lar e pelo seu homem ser capaz de lhe dizer o que fazer. E a raiva que sentia, ao mesmo tempo, porque tudo o que ela fazia, não era da sua

satisfação. Mulher que não viveu a era do amor, mas sim da servidão. Mulher com raiva do marido, mas com o orgulho de sentir que tinha um homem que mandava e entendia o mundo. Mundo que ela parecia não perceber. Mulher que falava enquanto as outras senhoras do grupo calavam a olhar para o chão. História já referida por mim num outro artigo deste sítio de debate.

Trinta anos depois, esta história aparece diferente no meu sentir. Faz-me pensar que o homem procurava amparo na mulher e vice-versa. Homem que não queria ter mais uma outra voz em casa a dizer o que fazer. Homem criado para governar o lar com palavras, sem entender as horas vazias da mulher mãe, da mulher empregada de cozinha, da mulher varredora do chão, da mulher lavadora de roupa e, no fim do dia, da mulher que aquece a cama à espera do homem que quer amar. Homem criado para mandar e aparentemente sábio na sua autoridade. Eis a filiação da infância cujo estudo me interessa e absorve. E, enquanto penso, sinto a solidão do homem, pai, companheiro e culturalmente autoritário. Machismo, dirá o leitor? Machismo, dirá a leitora? Machismo, digo eu, da mulher e do homem. Mulher a crescer, a entender o mundo além do lar. Homem habituado a ser o único a perceber o mundo fora do lar. Batalha travada há séculos, ganha hoje em dia pela luta feminina. Feminismo, onde não se trava luta nenhuma pela masculinidade. Ideia esta, a da masculinidade, certa e segura durante séculos e em várias culturas. Até que um dia a economia faz tremer, faz tremer a sociedade e o homem perde a arrogância pelo desamparo no qual fica. Desamparo que o homem sofre por parte da mulher, que entra na economia. Esse domínio definido sempre como masculino. Enganado ou não. Certo ou não. Festa ou drama. Triunfo ou derrota. Dança espalhada pelo mundo, quer no fandango, quer na lei, quer na doutrina: da costela do barro do homem, foi feita a mulher, diz o Livro Génesis da Bíblia Cristã e, também, o Alcorão. Da licença do marido para a mulher trabalhar, dependia a liberdade da mesma, dizia o Código Civil Napoleónico, organizado como Código Civil Português em 1867, reformulado nos anos setenta do século XX, e em 2007, para autonomizar a mulher. Da orientação do homem depende a opção da mulher diz o Código de Direito Canónico de 1917 e de 1983 (até 1917 a Igreja Católica era regida por um conjunto disperso de normas jurídicas tanto espirituais como temporais. O Concílio Vaticano I fez referência à necessidade de realizar uma compilação onde se agrupassem e ordenassem essas normas, se eliminassem as que já não estavam em vigor e se codificassem as restantes com ordem e clareza. Fonte: Introdução ao Código de direito Canónico de 1983).

A Doutrina Católica, que governa grande parte do mundo, regulamenta a interacção social e, consequentemente, as formas sociais de entender. Recebes uma mulher, não uma escrava, dizia o oficiante que presidia o ritual sagrado do matrimónio. No entanto, o machismo vivia também na mulher, exprimido em frases como esta: vou a casa preparar a comida do meu homem, como ouvi dizer a mulheres oriundas de vários sítios onde tenho estudado, as suas ideias, o seu comportamento, faz já quarenta anos. O machismo é uma relação de vice e versa: o homem manda a mulher obedece. No obedecer reside o machismo feminino, não no mandar: não é costumeiro mandar e se manda, não seria feminina. Antes, hoje em dia, o machismo do homem e da mulher caminham a par e passo

2. Mulher a crescer.

Mulher a crescer? Essa, uma entidade adulta? Sim senhor, mulher a crescer desde o minuto que entendeu que sem o seu contributo económico (em dinheiro e actividades do lar), a casa, o grupo doméstico e as crianças, não conseguiam ser sustentadas apenas com o trabalho ou contributo de um dos membros da casa: largamente o masculino. O masculino mais adulto, o masculino mais velho. Trabalho produtivo, porém, criado para uma mentalidade específica, a mentalidade que sabe comandar e tem tido autoridade ao longo de milénios. A nossa cultura greco-judaica, cristã ou não, escolheu a mulher para ser a parte da economia reprodutiva de seres humanos. Seres humanos a serem dados à luz, como Teresa Joaquim debate em 1983 e dedilha de forma mais aprofundada em 1997, como Berta Nunes analisa em 1997 e Lígia Amâncio distingue em 1994. Formas de trabalho que coagem a mulher para um canto da casa, tal e qual comenta Pierre Bourdieu, em 1998, no seu texto La Domination Masculine, Seuil, Paris, editada em português pela Celta Editora, Oeiras, em 1999. Aristóteles entendia que todo o ser penetrado não tinha direito a voz, fosse masculino ou feminino. A mulher, esse ser, destinada à penetração de forma concebida pela fisiologia que nos governa, tem continuado a existir relegada ao domínio do doméstico. Quer nos factos, quer no pensamento social. Prova é o quotidiano das pessoas no Ocidente, mesmo na língua, veja-se, a título de exemplo, a designação dada ao cargo, mesmo quando exercido por uma mulher, de Primeiro-ministro ou Presidente da República, entre outros casos. No Chile, país que teve a primeira mulher na presidência da república, Michele Bachelet, foi imperativo criar o género feminino para o cargo, surgindo assim o termo presidenta, abrindo caminho para novas atitudes, em ruptura com as Presidências dos Bancos, das indústrias, das Reitorias das Universidades, da direcção dos hospitais ou da gestão dos trabalhos da terra. Madame Curie, já não precisa de se vestir de homem para frequentar a Universidade, nem de perder o seu nome pelo casamento. Com as mulheres a lutarem pela igualdade com o homem, começando nas que reclamavam o direito ao voto, invocando a declaração de princípios da Independência dos USA, escrita por Benjamim Franklin (1775): Todos os seres humanos nascem livres e iguais. Mulher a orientar o lar a partir da lei do divórcio. Casos históricos e públicos. Os mais cobiçados pelas pessoas que gostam do poder para controlar o que entendem (entendam ou não); os mais desprezados pelas pessoas que procuram entender que a legitimidade da autoridade está no entender com amor e sem poder… Mulher a crescer, porém, entre duas formas de perceber a feminilidade: o pensamento social patriarcal e o pensamento social feminista. Feminismo construído como movimento, feminismo fabricado pela economia que nos governa desde 1979, essa de Milton e Rose Marie Friedman e dos seus discípulos da escola de Chicago. Escola que se estendeu pela Europa, pela África, pela América Latina, especialmente pela União Europeia que concorre com a união mais poderosa dos Estados Unidos da América. Mulher que cresce (queira ou não), dentro do pensamento (ainda muito presente) apenas masculino, do tecido social que fabricamos. Mulher a crescer e a deitar culpas ao homem que a enclausurou, que a reduziu a uma reprodutora dele e das crianças. Mulher que cresce sem o norte milenário do pensamento masculino, introduzido no seu pensar faz trinta anos, ou mais. Pensar que não tem tido outra prática que a de orientar o lar portas adentro. O homem a governar de portas afora. Fêmea crescida à pressa, ao som da economia que faz dançar os acordes da conta bancária, dos juros, do carro a comprar, das jóias a exibir (sempre que necessário), do preço do dinheiro, do valor do que sabe fazer e que aprendeu, de forma nova, dentro do seu grupo social. Mulher masculinizada com esta gestão da concorrência das ideias patriarcais que agora também possui. Ideias a bater na antiga forma patriarcal Ocidental e Oriental. Mulheres a crescerem e a mudarem de forma e maneira, que nós homens, e várias mulheres ainda, acabam por não entender como merecem. Nem eu, que tenho observado e estudado o caso, com as já citadas autoras. Que, como pai e marido, eu próprio, ficara sempre imbricado no meu entender cultural da vida, traído pela educação que nos foi transferida desde a infância. A nós, em plural por ser para seres humanos, macho ou fêmea. Nós, os de todos os sexos e orientações. Filiação a dar origem a uma infância que percebe melhor por não ser geração de transição, como a nossa, entre a igualdade ou desigualdade entre homem e mulher.

3. Machismo a tremer.

Um conceito delicado, este de machismo usado no presente texto. Machismo é um sentimento que gosto de definir como o de mandar nas emoções da pessoa que se penetra, seja física, seja idealmente. Com o corpo ou com as ideias. Sentimento de dominação do espaço social e dos afazeres. Comando sobre a lei costumeira e a lei positiva. Sentimento necessário, como o etnocentrismo, de pensar que somos os melhores, os que mais sabemos, os que entendemos o contexto e o definimos. Machismo, conceito aplicável a toda a idade e a toda a relação entre seres humanos, quando há um ser que diz e define a lei da família, e outro que deve ver, ouvir e calar. O machismo que treme, porém, não é o masculino do homem. É o masculino da economia que nos vê agir e manda nos nossos comportamentos. Os homens, habituados como estão à forma patriarcal do comportamento social, ficam perdidos. Bem gostamos de ser gentis e sedutores, oferecer flores e carícias, visitar, convidar, apalpar… A resistência é dura por ser a sedução um comportamento distribuído de forma igual entre as pessoas, machos ou fêmeas. Essa distinção acabou… Até é difícil, num texto como este ou noutros semelhantes que tenho escrito, diferenciar entre homem e mulher. Entre heterossexual, bissexual, andrógino, efeminado e outras classificações semelhantes. Desde 16 de Setembro do ano 2000, dia em que a Holanda aprovou a lei do matrimónio entre pessoas do mesmo sexo, lei justa e largamente esperada por tantos e em tantos países, como invoca o jornal que a anuncia, o machismo deixou de ser o privilégio dum sexo para passar a ser um conceito passível de ser aplicado a todos os que, na relação emotiva, comandam sem autoridade e com força subversiva. Este é o machismo que levou muitos seres masculinos a perderem as pessoas femininas das suas vidas, por não terem entendido a liberdade real que essa pessoa companheira merecia. Pessoa companheira que não entendeu essa liberdade; não entende como a utilizar. Não entende como acompanhar e completar o outro ser que, no seu ver, a limita, a fecha e a abandona em casa. A viver essas horas mortas de criar uma pequenada que mama, come, chora, procura formas para explorar a vida. Meios que apenas encontra no adulto que fica com essa criança, em casa, seja uma ela ou um ele; seja uma mãe, um pai; sejam duas mães, dois pais, avôs, uma empregada ou nana. O machismo está a tremer e a crescer dentro de toda a população dos Estados Ocidentais, enquanto nós machistas, ficamos sós e desamparados. O sentimento social mudou e nós, os adultos de hoje, criados na infância de ontem, não sabemos qual o modelo para nos orientar ou para dar apoio à geração seguinte, essa que pede conselho e começa a ser tão patriarcal, meninas e meninos, como nós adultos e os nossos ancestrais…Qual é o comportamento adequado que podemos dar? Será preciso reler Tomás de Aquino, Adam Smith e Milton Friedman? Autores por tantos ignorados e, no entanto, por todos praticados, saiba-mos ou não.

4. Coda final.

Será que o leitor vive este sentimento? Sentimento que é um feito observado por mim durante trinta anos em Continentes e gerações diferentes. Gostava de lhe dizer que as temáticas sobre a emotividade do nosso Século XXI são muito difíceis, são apenas uma exploração do agir da transição que começa a aparecer junto de nós. Nos tempos da nossa juventude e da nossa maturidade, o comportamento machista é um elo central para analisar e entender as crianças: ficamos a saber mais de nós, dos nossos aparentes fracassos individuais e do seu contexto. Factos resultantes apenas de uma mudança na forma de ser, no acontecimento do dia-a-dia, das formas de amar, das formas de gerir os raros recursos que a economia nos permite. Há quem diga que é o Governo, há quem diga que é o Diabo, ou Deus. Ninguém quer ver dentro de si para entender que a História mudou e alastrou-se à individualidade. Mudança normal quando lemos sobre o passado, difícil de entender se na nossa época. Essa que nos faz forma e reforma. A filiação das nossas crianças é heterogénea. Apenas cabe aceitar. Sem raiva. Como essa mulher da minha história, que um dia, no começo dos anos setenta, me dissera, gritando no meio das outras analisadas: quem me dera que a minha casa desaparecesse, que as suas paredes esbatessem e eu pudesse vir para rua…a fazer…o quê? Não sei, mas deixar esse lar que me asfixia. Era a mulher do meu amigo inquilino Ventura Galván, Rosa, da expropriada fazenda de Huilquilemu, perto de Pencahue, em Talca, Chile. Mulher que foi para a rua, e na rua ficou só. A aprender até hoje,  como viver a vida gerida por ela, sem mais ninguém. Só. No dedilhado da suite de Bach, com som de fandango. Queira o leitor responder…

Raúl Iturra

Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa ou

Instituo Universitário de Lisboa

ISCTE/IUL/Lisboa

Bibliografia.

Amâncio, Lígia, 1994: Masculino e Feminino. A Construção Social da Diferença, Afrontamento, Porto.

Aquino, Tomás de, (1267-1273) 1969: Summa Telogica, University of Nôtre Dame, Indiana.

Bourdieu, Pierre, (1998) 1999: A dominação masculina, Celta, Lisboa

Friedman, Milton e Rose, (1979) 1980: Liberdade para Escolher, Europa -América, Lisboa.

Franklin, Benjamin, 1775: Declaration of Independence, varias edições.

Iturra, Raúl, 1972: Elementos para el Estudio de la Movilización Campesina, CEAC, Universidad Católica de Chile, Talca.

2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo, Afrontamento, Porto

Junho, 2000: Os meus pais não são pessoas, in A Página da Educação, Profedições, Porto.

Joaquim, Teresa, 1983: Dar à Luz, Dom Quixote, Lisboa

1997: Menina e Moça, Fim de Século, Lisboa

Nunes, Berta, 1997: O Saber Médico do Povo, Fim de Século, Lisboa.

Smith, Adam (1776) 1874: An enquiry into the nature and causes of The Wealth of Nations, Murray. A., Londres. Há versão portuguesa pelo Instituo Gulbenkian de Ciência

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