Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. As primeiras negociações com o FMI

continuação daqui

«Nas negociações que conduziu com Portugal, o Fundo Monetário Internacional não exigira ao governo do Partido Socialista que apresentasse uma moção de confiança e existia mesmo, por parte dos países que avalizariam esse empréstimo, uma grande pré-disposição para ajudar Portugal. Mário Soares era visto com enorme simpatia quer nos EUA quer na Alemanha, principais parceiros do chamado «grande empréstimo» de 1,5 mil milhões de dólares.
Francisco Salgado Zenha tinha sido o pioneiro dessa ajuda internacional, quando em Março de 1976, enquanto ministro das Finanças, estivera nos Estados Unidos com o embaixador Frank Carlucci que apoiava plenamente a ideia. Nessa altura «Francisco Salgado Zenha sensibilizou Kissinger para esse assunto, quando visitou Washington em Março de 1976, e Carlucci deslocou-se especialmente aos Estados Unidos para advogar medidas de emergência, tendo a sua acção sido decisiva, designadamente pelos esclarecimentos que prestou ao Congresso, deixando de Portugal a imagem de um país em recuperação».
Tendo assistido e até participado em grande parte das conversas e negociações sobre o chamado grande empréstimo e seus antecendentes, posso assim garantir que se deve essencialmente a Salgado Zenha todo o trabalho pioneiro nesta área. 0 que revela uma tese completamente diferente da que os «serviços de contra-informação do PS lançariam em 1976, para justificar o seu afastamento do I Governo.
Desmentem igualmente outras teses serôdias que visam objectivos meramente propagandísticos, mas a que falta por completo o pudor e o sentido da história. Chegaria a ser afirmado que «no final do ano de 1975, o ministro das Finanças do VI Governo Provisório, Francisco Salgado Zenha, convoca para o seu gabinete do Terreiro do Paço, em Lisboa, uma reunião de urgência com todos os responsáveis das pastas económicas do executivo. Convida ainda para estarem presentes o governador do Banco de Portugal, Silva Lopes e o secretário-geral do Partido Socialista. Mário Soares não fazia parte do VI Governo.
Salgado Zenha dá início à reunião com uma larga exposição sobre a situação financeira do Estado. E dramática. Não há sequer dinheiro para pagar aos funcionários públicos… Mário Soares sabe porque é que foi convidado para aquela reunião. Pergunta: “Quanto é que é preciso?” O ministro das Finanças vira-se para Silva Lopes, à espera da resposta. São trezentos milhões de dólares.
O líder socialista fica lívido…
No dia seguinte, parte para Bona onde encontrará junto do governo oeste-alemão, do seu camarada Helmut Schmidt, o dinheiro necessário para evitar a bancarrota e a ruptura cambial. Cena idêntica repetir-se-á mais uma vez durante a vigência do mesmo governo provisório. Dessa segunda vez, Soares tem de ir mais longe, a Washington, e aí lançará as bases para o “grande empréstimo” que o país virá a negociar mais tarde com o aval do FMI.
Francisco Salgado Zenha iria especialmente ao Congresso do SPD em Manheim, nos dias 11 e 12 de Novembro de 1975, para conversar com Helmut Schmidt de quem era amigo e por quem tinha admiração. Seria eu quem marcaria os pormenores do encontro e lhe organizaria a viagem. Só não o acompanharia porque tinha instruções para receber «CH» do MI6. Recordo-me aliás de lhe ter enviado uma mensagem de Mário Soares para não regressar da Alemanha uma vez que se esperava um golpe para o dia seguinte. Era então ministro das Finanças do VI Governo e tinha a preocupação de encontrar meios financeiros para resolver a situação de bancarrota em que o país se encontrava. E, na sequência da sua visita, depois de a Comunidade Económica Europeia ter concedido um empréstimo de emergência de duzentos milhões de dólares ao nosso país, em Janeiro de 1976, o então ministro das Finanças, seguindo os conselhos de Frank Carlucci, iria a Washington em Março e os EUA «prontificaram-se a conceder um empréstimo de 300 milhões de dólares».
Nessa viagem seria, aliás, acompanhado dos governador e vice-governador do Banco de Portugal, Silva Lopes e Vítor Constâncio, respectivamente.
Mas é evidente que o assunto da ajuda alemã seria retomado por Mário Soares, de facto, no encontro que teria com Schmidt, Brandt e a Fundação Ebert durante a visita que efectuaria primeiro a Bona e depois a Estocolmo, Oslo e Londres, de 15 a 20 de Dezembro. Nestas capitais seriam abordadas a situação em Portugal e pedida ajudas para o PS e para Portugal. Se bem que não tenha então participado em todos os encontros, não tenho memória de que este assunto tenha sido tratado com Kissinger, em Janeiro de 1976, durante a viagem aos Estados Unidos. Mas na altura Soares não estava no Governo e ainda se não discutia em Portugal o chamado «grande empréstimo».
E como já afirmei anteriormente, a viagem foi totalmente paga pelos americanos por iniciativa de Carlucci. A ideia do «grande empréstimo», um empréstimo bonificado a conceder pelos principais países democráticos aliados de Portugal, seria primeiro aventada por Carlucci e transmitida, de facto, a Helmut Schmidt, a James Callaghan e outros líderes europeus pelo presidente Cárter, em 1977. Portanto, como confirma o então embaixador de Portugal em Washington, foi Zenha quem «sensibilizou Kissinger» para o empréstimo dos 300 milhões de dólares e foi «Cárter, após receber Carlucci em 25 de Fevereiro de 1977 [que] autorizou que fosse emitida uma declaração reafirmando o seu apoio “firme e activo” à democracia portuguesa». E portanto nesta data, no seguimento da visita de Zenha e de Carlucci, e não durante as visitas de Soares, que para «além daquela ajuda de emergência no valor de 300 milhões de dólares, é posto em movimento um plano mais ambicioso visando a constituição de um consórcio internacional que coloque à disposição de Portugal 1,5 biliões de dólares». Já a ideia do consórcio estava em marcha, quando o I Governo Constitucional tomou posse em Julho de 1976 e já Zenha tinha estado nos Estados Unidos em Março de 1976 com Vítor Constâncio e com o governador do Banco de Portugal, Silva Lopes, para tratar do empréstimo de emergência dos 300 milhões de dólares.
De novo se fica com a sensação de que a constante procura de um certo tipo de protagonismo «heróico» conduz à deturpação da história mas, por outro lado, é compreensível que não existindo então no PS lugar para mais do que um «herói», Zenha nunca pudesse aspirar a um lugar no I Governo Constitucional!»

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  1. […] Não. A Troyka, quer dizer, a delegação técnica dela, o que deve ter é necessariamente uma enorme relutância em sentar-se à mesa com o PS, Partido que a convocou em primeiro lugar, Partido que se comporta como se a não tivesse […]

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