
a dificuldade do diálogo entre idades diferentes: as aula
Ao longo dos anos, tenho tido a experiência que dar aulas é um diálogo entre pessoas desiguais, que pensam e falam línguas diferentes, em idades e tempos diferentes. Enquanto a criança cresce, o docente também, até envelhecer.
Dar aulas é uma arte. Ainda que pareça simples, a parte mais complexa é ensinar as primeiras letras. As denominadas primeiras letras são as aprendidas cedo na vida, para os que podem ir às aulas, ou aprendem em casa onde se lê. São as palavras que abrem o mundo a um saber mais amplo e completamente alheio às formas de vida doméstica. A criança que começa a sua leitura em casa fá-lo pelo incentivo dos seus adultos que com o A, B ,C, vão soletrando o texto, com a intenção de que, juntando as palavras, elas têm um significado. A parte mais difícil de ensinar, é juntar as letras com significado. Eu diria que a parte mais difícil para um professor, pai, mãe ou irmãos mais velhos que ensinam, é dar um significado a todas as letras juntas. A título de exemplo, quando eu tinha quinze anos, quis dar uma mão aos filhos/as do operariado do meu pai e comecei a dar aulas de leitura a crianças entre 4 e 5 anos. Rapidamente reparei que ensinar letras não tinha sentido, nada diziam. Uma ilação de sentido entre as palavras, formando uma frase que contava uma história, ajudava, colaborava, dizia coisas interessantes para as crianças. Para minha surpresa, os cadernos com desenhos e uma só palavra, narravam tudo o que os mais novos queriam ver. Daniel Defoe e o seu Robinson Crusoe, era o rei da aprendizagem: aventuras narradas em revistas intituladas banda desenhada O desenho contava tudo, especialmente se estava organizado em desenhos sucessivos, associados a uma palavra ou um som. Narrar o que se via no desenho, definia a palavra ou o som que a acompanhava, como ugh, livre-me, crepitar, caçar, pescar e outras que começavam a ter sentido pelo desenho. Assim, as palavras eram repetidas ao brincarmos a Robison Crusoe e ao Sexta-feira, o índio que o salvara da solidão, da fome e do frio. Se o desenho passava a ser representado conforme o papel e deixávamos as crianças sós, essa distribuição de roles fomentava o debate entre quem seria quem, ensinava o sentido da palavra, sem ter que definir cada letra: as palavras passavam a ser uma realidade, como se ensina hoje em casa ou na escola.
Após meses de representar a personagem desejada e saber-se de cor e salteada, as palavras escritas no quadro da sala, ou em casa para quem tem a sorte de ter dinheiro, deve passar-se a outra história feita internacional como o Zé Povinho de Portugal, sempre que as crianças se identificaram com esse descosido que não atinava com as palavras e os factos, ou o heróico Roto Chileno do Chile. A minha experiência ensinou-me serem personagens de uma classe sem recursos. Os Padres Salesianos e a congregação Marista de Portugal, os Sagrados Corações e a Ordem Dominicana e os Jesuítas do Chile, nunca admitiriam ensinar por meio de façanhas de descosidos. Sempre usaram silabários (conjunto de símbolos de escrita que representam (ou aproximam) sílabas que compõem palavras. Um símbolo num silabário representa tipicamente um som consoante opcional seguido por um som vogal. Num silabário verdadeiro não existe nenhuma semelhança gráfica sistemática entre caracteres foneticamente relacionados (se bem que alguns possuam uma semelhança gráfica para as vogais). Isto é: os caracteres para “te”, “ta” e “to” não têm uma semelhança que indique a sua t-ice. Isto é diferente de um abugida, em que cada grafema representa tipicamente uma sílaba, mas onde caracteres que representam sons relacionados são graficamente semelhantes (tipicamente, uma base consonântica comum é alterada de uma forma mais ou menos consistente para representar a vogal da sílaba) especiais, com palavras e um desenho no meio do quadro das letras e palavras doutorais para explicar significados, aprendidos antes pelo docente e bem mais tarde, pelo discente ou estudante: Um silabário é um
O Silabário Larousse, que a minha mãe e uma professora especial paga para ir a casa duas ou três horas me ensinaram, foi o livro que usei para aprender a leitura. Silabário especial, que poucos podem pagar. O Silabário está explicado assim: O que começa com A? Uma aranha assanhada! E com a letra R? A raposa e o rinoceronte, rindo do rabo do rato. Divertido, não? É com estas e outras 24 aliterações que a autora Telma Guimarães, com o auxílio de uma colorida fauna, forma seu Bichodário, lançamento da Editora Larousse (selo Larousse Junior).
A ideia de ensinar o alfabeto com a ajuda de bichinhos fofos veio por meio de um devaneio infantil de Telma: “Meu pai sempre teve muitos livros em casa, alguns eram lindos, de capa dura, com animais enormes… dava impressão que num virar de página saltariam para o meu quarto”. Dito e feito: “… e alguns bichos realmente saltaram, voaram, voaram, sei lá, para fora das páginas daqueles livros. Na mesma hora, pensei: vou fazer um livro de animais! E o Bichodário foi surgindo completamente diferente, pêlo de um, peninha de outro, focinho aqui, dentão, garra e chifre por ali, pata acolá”. E o resto, de facto, é história, digo historinhas – cada letra do alfabeto corresponde a um animal que deixa seu recado.
Esta citação do Silabário faz dele um texto para uma classe social que entende as explicações das letras, especialmente porque em casa se fala assim. Se apenas repararmos a descrição dos livros de casa, Telma começou a sua leitura pela atracção da forma do livro.
Qual será atracção para estudar, se em casa não há livros que chamem a atenção de quem, por palavras, já sabe tanto, que é apenas juntar consoantes com vogais sob a supervisão de quem parece saber mais.
O problema de saber dar aulas, começa pelo preço dos livros, porque em casa se fala do Benfica, do Sporting, de filmes mais interessante…e outras aventuras deslocadas do saber.
Ensinar História precisa, paralelamente, ao saber do docente, da narração dos factos como aventura, colocar rivais no meio das datas, definir quem ganha e quem perde uma batalha. Era o que eu tinha do meu afamado professor e escritor, conhecido em tudo o mundo, Júlio Hesse. Sentava-se na carteira dos estudantes e começava o relato de textos previamente lidos pelos alunos, como uma conversa entre o docente e o discente. Há também os que atraem os estudantes ao enredar a História com estorias submetendo o mais novo à pergunta: qual será a verdade: os actos heróicos do nosso povo, que sempre ganha, ou a vergonha dos vencidos? Como será o ensino da História nos povos muçulmanos, que se orientam pela sua bíblia, Alcorão, que manda vencerem sempre, e nem sempre é possível? Como explicar as derrotas, especialmente na Faixa de Gaza ou no Afeganistão? Serão sempre povos de pessoas perversas ensinados a atacar o inimigo, definindo inimigo os que não praticam a fé muçulmana?
A minha questão central neste texto: como pode um professor explicar histórias não fantasiosas se não sabe religião? Ou um analista como eu, que por saber, entende a depressão e a subida à paz pelo Espírito Santo ou às Nossas Senhoras, sendo a mais importante em Portugal a de Fátima? Portugal, um país fatimizado que em nada ajuda ao docente a explicar os factos…por enquanto…
Saber dar aulas precisa de dois saberes: a luta de classes e o catecismo. Parecem desencontrados, mas é o que o povo vive, repare ou não.
Ao longo dos anos, tenho tido a experiência que dar aulas é um diálogo entre pessoas desiguais, que pensam e falam línguas diferentes, em idades e tempos diferentes. Enquanto a criança cresce, o docente também, até envelhecer.
Dar aulas é uma arte. Ainda que pareça simples, a parte mais complexa é ensinar as primeiras letras. As denominadas primeiras letras são as aprendidas cedo na vida, para os que podem ir às aulas, ou aprendem em casa onde se lê. São as palavras que abrem o mundo a um saber mais amplo e completamente alheio às formas de vida doméstica. A criança que começa a sua leitura em casa fá-lo pelo incentivo dos seus adultos que com o A, B ,C, vão soletrando o texto, com a intenção de que, juntando as palavras, elas têm um significado. A parte mais difícil de ensinar, é juntar as letras com significado. Eu diria que a parte mais difícil para um professor, pai, mãe ou irmãos mais velhos que ensinam, é dar um significado a todas as letras juntas. A título de exemplo, quando eu tinha quinze anos, quis dar uma mão aos filhos/as do operariado do meu
quando eu tinha quinze anos, quis dar uma mão aos filhos/as do operariado do meu pai e comecei a dar aulas de leitura a crianças entre 4 e 5 anos. Rapidamente reparei que ensinar letras não tinha sentido, nada diziam. Uma ilação de sentido entre as palavras, formando uma frase que contava uma história, ajudava, colaborava, dizia coisas interessantes para as crianças. Para minha surpresa, os cadernos com desenhos e uma só palavra, narravam tudo o que os mais novos queriam ver. Daniel Defoe e o seu Robinson Crusoe, era o rei da aprendizagem: aventuras narradas em revistas intituladas banda desenhada O desenho contava tudo, especialmente se estava organizado em desenhos sucessivos, associados a uma palavra ou um som. Narrar o que se via no desenho, definia a palavra ou o som que a acompanhava, como ugh, livre-me, crepitar, caçar, pescar e outras que começavam a ter sentido pelo desenho. Assim, as palavras eram repetidas ao brincarmos a Robison Crusoe e ao Sexta-feira, o índio que o salvara da solidão, da fome e do frio. Se o desenho passava a ser representado conforme o papel e deixávamos as crianças sós, essa distribuição de roles fomentava o debate entre quem seria quem, ensinava o sentido da palavra, sem ter que definir cada letra: as palavras passavam a ser uma realidade, como se ensina hoje em casa ou na escola.
Após meses de representar a personagem desejada e saber-se de cor e salteada, as palavras escritas no quadro da sala, ou em casa para quem tem a sorte de ter dinheiro, deve passar-se a outra história feita internacional como o Zé Povinho de Portugal, sempre que as crianças se identificaram com esse descosido que não atinava com as palavras e os factos, ou o heróico Roto Chileno do Chile. A minha experiência ensinou-me serem personagens de uma classe sem recursos. Os Padres Salesianos e a congregação Marista de Portugal, os Sagrados Corações e a Ordem Dominicana e os Jesuítas do Chile, nunca admitiriam ensinar por meio de façanhas de descosidos. Sempre usaram silabários (conjunto de símbolos de escrita que representam (ou aproximam) sílabas que compõem palavras. Um símbolo num silabário representa tipicamente um som consoante opcional seguido por um som vogal. Num silabário verdadeiro não existe nenhuma semelhança gráfica sistemática entre caracteres foneticamente relacionados (se bem que alguns possuam uma semelhança gráfica para as vogais). Isto é: os caracteres para “te”, “ta” e “to” não têm uma semelhança que indique a sua t-ice. Isto é diferente de um abugida, em que cada grafema representa tipicamente uma sílaba, mas onde caracteres que representam sons relacionados são graficamente semelhantes (tipicamente, uma base consonântica comum é alterada de uma forma mais ou menos consistente para representar a vogal da sílaba) especiais, com palavras e um desenho no meio do quadro das letras e palavras doutorais para explicar significados, aprendidos antes pelo docente e bem mais tarde, pelo discente ou estudante: Um silabário é um
O Silabário Larousse, que a minha mãe e uma professora especial paga para ir a casa duas ou três horas me ensinaram, foi o livro que usei para aprender a leitura. Silabário especial, que poucos podem pagar. O Silabário está explicado assim: O que começa com A? Uma aranha assanhada! E com a letra R? A raposa e o rinoceronte, rindo do rabo do rato. Divertido, não? É com estas e outras 24 aliterações que a autora Telma Guimarães, com o auxílio de uma colorida fauna, forma seu Bichodário, lançamento da Editora Larousse (selo Larousse Junior).
A ideia de ensinar o alfabeto com a ajuda de bichinhos fofos veio por meio de um devaneio infantil de Telma: “Meu pai sempre teve muitos livros em casa, alguns eram lindos, de capa dura, com animais enormes… dava impressão que num virar de página saltariam para o meu quarto”. Dito e feito: “… e alguns bichos realmente saltaram, voaram, voaram, sei lá, para fora das páginas daqueles livros. Na mesma hora, pensei: vou fazer um livro de animais! E o Bichodário foi surgindo completamente diferente, pêlo de um, peninha de outro, focinho aqui, dentão, garra e chifre por ali, pata acolá”. E o resto, de facto, é história, digo historinhas – cada letra do alfabeto corresponde a um animal que deixa seu recado.
Esta citação do Silabário faz dele um texto para uma classe social que entende as explicações das letras, especialmente porque em casa se fala assim. Se apenas repararmos a descrição dos livros de casa, Telma começou a sua leitura pela atracção da forma do livro.
Qual será atracção para estudar, se em casa não há livros que chamem a atenção de quem, por palavras, já sabe tanto, que é apenas juntar consoantes com vogais sob a supervisão de quem parece saber mais.
O problema de saber dar aulas, começa pelo preço dos livros, porque em casa se fala do Benfica, do Sporting, de filmes mais interessante…e outras aventuras deslocadas do saber.
Ensinar História precisa, paralelamente, ao saber do docente, da narração dos factos como aventura, colocar rivais no meio das datas, definir quem ganha e quem perde uma batalha. Era o que eu tinha do meu afamado professor e escritor, conhecido em tudo o mundo, Júlio Hesse. Sentava-se na carteira dos estudantes e começava o relato de textos previamente lidos pelos alunos, como uma conversa entre o docente e o discente. Há também os que atraem os estudantes ao enredar a História com estorias submetendo o mais novo à pergunta: qual será a verdade: os actos heróicos do nosso povo, que sempre ganha, ou a vergonha dos vencidos? Como será o ensino da História nos povos muçulmanos, que se orientam pela sua bíblia, Alcorão, que manda vencerem sempre, e nem sempre é possível? Como explicar as derrotas, especialmente na Faixa de Gaza ou no Afeganistão? Serão sempre povos de pessoas perversas ensinados a atacar o inimigo, definindo inimigo os que não praticam a fé muçulmana?
A minha questão central neste texto: como pode um professor explicar histórias não fantasiosas se não sabe religião? Ou um analista como eu, que por saber, entende a depressão e a subida à paz pelo Espírito Santo ou às Nossas Senhoras, sendo a mais importante em Portugal a de Fátima? Portugal, um país fatimizado que em nada ajuda ao docente a explicar os factos…por enquanto…
Saber dar aulas precisa de dois saberes: a luta de classes e o catecismo. Parecem desencontrados, mas é o que o povo vive, repare ou não.






prof li o seu texto.E confesso, tive que o ler novamente, para reter a “arte de ensinar” . Um bom texto para quem ensina.
Querida Graça,
O seu comentário fez-me acordar de madrugada para escrever um texto sobre o conteúdo do processo educativo. Uma grande surpresa a espera!
Obrigado pelos seus comentários e a sua paciência de ler os meus textos!
Cumprimentos
Raúl Iturra
lautaro@netcabo.pt