Passos Coelho e a Democracia

 

Ao longo destes anos de Democracia têm-se conhecido os mais variados tipos de políticos e têm-se assistido aos mais variados dislates. Nem vale a pena fazer-se o rol das asneiras – dava um livro! – basta recordar, a título de exemplo divertido, o expressivo “bardamerda” do defunto almirante Pinheiro de Azevedo e o discurso de tomada de posse do Pedro Santana Lopes. Foram momentos de enorme gozo e hilariedade. Houve – e há – nesta matéria de políticos, um pouco de tudo. Uns mais fleumáticos, outros mais emotivos, até mesmo coléricos. Todavia, no meio de tantas personalidades e de tão distintas idiossincrasias, não creio ter havido – pelo mesmo que me lembre – nada de comparável ao desastrado Pedro Passos Coelho. A sucessão de erros e equívocos são contínuos e exemplares. Nunca, em tão pouco tempo, um político se desacreditou tanto. Ainda ontem, informado Francisco Louçã sobre a surpreendente posição do líder do PSD acerca da IVG, reagia este, irónico, à comunicação social: “Ai o Dr. Passos Coelho disse isso esta manhã?! Então à tarde já muda de ideias!”. E foi. À tarde já o líder do PSD amansava a posição sobre um referendo e suavizava o motivo de ter abordado o assunto, desculpando-se com o facto de uma entrevistadora lho ter perguntado. E ele, na modéstia das suas próprias palavras “que é um homem de enorme franqueza”, lhe ter confessado o que pensava. Ignorando-lhe a sinceridade o facto de estar a responder aos seráficos microfones da Rádio Renascença… e pelas razões que toda a gente percebeu. Entretanto, à noite, não fora o dia suficientemente conturbado, pegou-se-lhe outra vez a asneira à franqueza e vá de desancar no Pacheco Pereira acusando-o de “semanalmente fazer campanha contra o partido”. O que até nem é de todo mentira, só que confunde o partido com ele próprio e não era a ocasião indicada de o dizer. O que lhe vale, para já, por parte do Pacheco ofendido o epíteto de… “caluniador”. Já hoje, depois dos incidentes ocorridos num comício do PS de ontem à noite, incidentes esses que contaram com a presença de elementos ligados ao PSD como foi noticiado pela TVI, em vez de se demarcar claramente do ocorrido condenando de forma inequívoca comportamentos atentatórios da liberdade de reunião e de expressão, limitou-se ao sacudir a água do capote num simples “lamentar o sucedido”. Mais! Ainda veio implicitamente verberar o comportamento policial, tentando adoçar as provocações e o comportamento dos provocadores, travestindo-os em “manifestantes”, coitadinhos, vítimas do excesso de zelo policial. Será que Passos Coelho nunca ouviu falar em ordem democrática? Ou, tendo ouvido falar, não sabe o que esse conceito significa? Terá saltado para a história directamente do 24 de Abril? Assim não vai lá. Era o que (nos) faltava!

Comments


  1. Tem razão no que diz. Mas, sabe, eu não estou certa de que ele seja anti-democrático ou, sequer, má pessoa. Pelo que vejo, é afável, ajuda a mulher na lida da casa, cumprimenta os vizinhos, deve ser um bom pai. Parece ser o típico ‘vizinho da porta do lado’.

    A questão é que, ao que parece, não passa disso. Faz-me lembrar as pessoas que vão na rua e que lhes perguntam ‘Então já viu o aumento do pão? Para si vai ser difícil?’ e as pesssoas invariavelmente alinham ‘Claro, vai-me custar muito’. Reflexo condicionado, imediatismo. Atire um osso a um cão num sentido e aí vai ele; atire noutra direcção e aí vai ele. Sem pensar o cão vai na direcção em que lhe atiram o osso.

    O PPC é igual. Se o Louçã defender a reestruturação da dívida, PPC categoricamente diz que isso é impensável. Se uns segundos depois, a entrevistadora puser um tom de censura na voz e lhe perguntar se, ‘perante dificuldades, se não se conseguir pagar, então o senhor doutor não pede a reestruturação?, e ele, de imediato, ‘Claro que sim!’

    Não pensa. Não se informa antes de falar. Não elabora. Nada. Vai atrás do primeiro osso.

    Absolutamente destituído de perfil para desempenhar uma função em que se requer ponderação, equilíbrio, análise de vantagens e desvantagens, firmeza, persistência.

    Simpático, afável, sorridente, disponível mas um absoluto erro de casting para funções de governação.

    Pedro Santana Lopes, já o escrevi algumas vezes, quase parece atilado ao pé dele.

    JM

  2. bulimunda says:
  3. bulimunda says:
  4. bulimunda says:
  5. bulimunda says: