Português Língua Não Materna – mais um disparate do Ministério da Educação

O que está a passar na minha escola deverá ser igual ao que acontece em muitas outras. Durante os últimos dois anos, nos 10º e 11º anos, uma aluna estrangeira frequentou a disciplina de Português Língua Não Materna, tendo direito a três blocos de noventa minutos que ficavam a cargo de um professor. Quando a aluna julgava, legitimamente, poder contar com mais um ano nas mesmas condições, eis que “esclarecimentos” vindos da DGIDC atiram com a referida aluna para uma turma de Português de 12º, criando uma de duas situações: ou a aluna fica sujeita ao programa de Português de 12º, para o qual não está preparada, sendo que, ainda por cima, irá realizar o exame de Português Língua Não Materna, ou o professor da turma será obrigado a leccionar duas disciplinas ao mesmo tempo, o que não faz sentido, ainda para mais, em ano de exame nacional. Segundo as referidas instruções, só seria possível formar uma turma de Português Língua Não Materna, caso houvesse, na escola, um conjunto de dez alunos estrangeiros, independentemente de estarem ou não no mesmo nível, o que também teria a sua graça, em termos pedagógicos.

Os responsáveis por ter criado esta situação quiseram apenas poupar dinheiro, com a habitual insensibilidade dos burocratas de gabinete e baseados naquilo que, de acordo com a terminologia do Ministério da Educação, se designa por “As escolas que se desunhem!”. Neste caso, haverá um professor que irá dar apoio à aluna, resolvendo, à custa do seu tempo particular, uma situação que nunca deveria ter sido criada, se vivêssemos num país civilizado. Para os burocratas, ter um professor ocupado apenas com uma aluna estrangeira durante três blocos de noventa minutos semanais constitui um gesto demasiado humanista. Era o que faltava permitir que uma sociedade receba as crianças estrangeiras como gostaria de ver os seus filhos recebidos em terras alheias.

(leitor devidamente identificado)

Comments

  1. Bruno says:

    O problema é a malta falar e depois não se assumir. Eu sou professor e ainda há dias disse que andamos a transitar alunos só porque um psicólogo, que vê um menino algumas vezes por ano, diz que é bom ele transitar de ano para ficar feliz. E também tive uma aluna estrangeira com língua portuguesa não materna e tinha que preparar aulas diferentese dentro do horário de trabalho, na componente de estabelecimento poderia dar apoio, pois o meu horário são 22 ou 25h lectivas e até às 35h da função pública ainda faltam algumas.

    • António Fernando Nabais says:

      O colega desculpe, mas não percebi bem o seu comentário. Em primeiro lugar, nunca ouvi a expressão “transitar alunos”. Depois, seria bom que soubesse se o seu horário é de 22 ou de 25 horas lectivas, porque isso faz bastante diferença. Para além disso, os professores não passam na escola apenas o tempo lectivo, especialmente desde o tempo em que Maria de Lurdes Rodrigues resolveu inventar actividades inúteis.Finalmente, nunca me dei ao trabalho de medir, mas quase de certeza que nunca trabalhei só 35 horas por semana.


    • Temos então aqui:
      a) o professor do privado demonstrando por números como o ensino é pior ali que no público.
      ou
      b) um exemplar do comentador toupeira, que se faz passar por professor para escrever disparates.
      Pelo “horário são” vou mais para a segunda hipótese.

      • António Fernando Nabais says:

        Inté parece qués bruxo, como diria o colega.


  2. Ainda bem que sabemos receber bem, tão bem ou melhor ainda do que quando fomos recebidos, aos montes, em frança… analfabetos… iletrados… toscos… mas com direito a ensinar a língua dos pais aos pais emigrados, ilegais quantas vezes.
    Somos bons. Ainda um dia nos cai a bondade em cima.

  3. Bruno says:

    Ora vamos lá entender: 22h ou 25h é a carga horária no 2º ciclo ou no 1º ciclo. Na primeira situação haverá redução de horas ao longo da carreira e na segunda situação não há redução de horas ao longo da carreira (e agora não se vai discutir quem tem menos horas ou mais). De seguida, no final de ano: os alunos transitam ou não transitam de ano; em situação de final de ciclo: aprovados ou não aprovados. De seguida toupeira não sou, pois estive em todas as manifestações contra o anterior executivo. Sempre que há ataques injustificados aos professores defendo a minha classe, mas quando alguém tem razão, tenho que a dar.

    • António Fernando Nabais says:

      Só vejo duas possibilidades: ou é um mau professor ou um mau actor. Prefiro, apesar de tudo, a segunda hipótese, porque tremo só de pensar que possa andar a ensinar alunos a escrever.
      Como não quero que saia daqui do mesmo modo como entrou, deixe-me elucidá-lo: diz-se que “os alunos transitam”; não se diz que “os professores transitam os alunos”, como estava no seu primeiro comentário. Finalmente, talvez não fosse má ideia ler o texto: o problema está naquilo que se fez à aluna e não ao professor. A conjugação dos seus dois comentários só dá para rir.