Impunidade parlamentar

Como perceber o voto num político que vive amparado numa rede em que o poder legislativo, o poder executivo e o mundo empresarial têm ligações tão próximas e tão evidentes, ao ponto de podermos falar de uma legalização da corrupção? Jardim representa tudo o que não devemos aceitar num político, desde o desbragamento reles até à assumpção de que gasta mais do que aquilo que tem, com a desculpa de que tem “obra feita”.

Jardim fá-lo porque sabe que isso lhe rende votos. A relação da maioria dos cidadãos com a política é a mesma de um elemento de uma claque com o clube que apoia, é uma relação afectiva, tribal no sentido mais básico do termo.

O chefe da tribo, porque usa as mesmas cores do eleitor, merecerá sempre o seu voto. Para além disso, numa atitude muito mediterrânica, a possibilidade de o mesmo chefe revelar pouca seriedade nesta ou naquela área é sempre relativizado com um sorriso malandro que reduz as críticas a mau perder, ao mesmo tempo que desculpa a desonestidade com os resultados alcançados.

Há quem garanta que, na Madeira, nada voltará a ser o mesmo, que Jardim será obrigado a actuar de outra maneira, graças à firmeza do governo da República. Como São Tomé, cá estaremos, durante os próximos quatro anos, para confirmar que até pode não ser assim. Entretanto, a maioria absoluta continua e parlamento madeirense continuará a legislar de acordo com os interesses pessoais de alguns deputados, sujeitos à impunidade parlamentar.

Comments

  1. Konigvs says:

    Colocando-me na cabeça de um madeirense que vive na região com mais qualidade de vida do país se visse o meu chefe do governo a pagar-me o salário, a gastar rios e rios de dinheiro na minha região, a levar-me de carro às urnas e depois tivesse uns otários, que quando não há dinheiro, fizessem aterrar na ilha mais uns milhões que nunca mais acabam, certamente que se Jardim não ganhasse por maioria absoluta é que ficaria surpreendido.
    A vergonha para mim como português não é ver Jardim ganhar umas eleições (mais ou menos) democráticas. A vergonha que sinto é que há mais de trinta anos nenhum político, seja primeiro-ministro ou presidente da república não ter tido os tomates no sítio e ter feito o que devia.
    E tenho vergonha do líder do PSD, que depois da cena do perdoa-me no congresso, não tenha tido agora tomates para lhe ter retirado a confiança política, como antecessores seus tiveram para com pessoas como Isaltino Morais ou Valentim Loureiro.
    E tudo continuará na mais perfeita normalidade nesta república das bananas portuguesa.

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  1. […] ultrapassado orçamentos ou recorrido a maiores ou menores corrupções: desde que seja da sua cor, qualquer atropelo à honestidade é compreensível “porque fez muito pela nossa terra”. Para além disso, há sempre outros que fizeram o mesmo ou […]