A questão do Ser e do Ter, que é ao mesmo tempo pessoal e nacional, se entendermos o todo nacional como uma unidade histórica, impõe-se nesta o de encruzilhada a que fomos jogados por egoísmos europeus, ou mesmo mundiais, miopias políticas internas velhas de, pelo menos, 20 anos, e culpa nossa. Sabemos nós todos, 37 anos depois do derrube da ditadura, que os erros em política a palavra escrita os destapa por causarem sofrimento a milhões de pessoas e a indignação ser um direito inalienável do ser humano ao sentir-se enganado, traído, espezinhado.
Deitámos abaixo uma ditadura com 48 anos de maldade profissionalizada para termos mais liberdade e mais pão, o do corpo e o do espírito. Erguemo-nos em força, nos tempos que se seguiram a 1974, para correr com aqueles que, mais devotos da União Soviética do que de Portugal, nos queriam impor outra ditadura, a estalinista, que nos garantiria a mesma escravatura e mau passadio que subjugaram todos os países que o imperialismo vermelho abocanhou com métodos sanguinários que nada ficaram a dever a Hitler, esse com quem assinaram um pacto de amizade e entendimento. O atraso desses países e os milhões de mortes infligidas a quem teve a dignidade de pensar diferente, falam por si. A História já condenou os derrubados de todos os matizes. Mas depois deste esforço, parece que nos deixámos vencer pelo cansaço e pela insensatez de termos a democracia por miraculosamente imune a todos os perigos.Foi assim que, não tendo prestado atenção aos dirigentes partidários, profissionais do bacalhau a pataco, absolutamente indiferentes aos desígnios da Pátria, buscando apenas interesses partidários e pessoais, na cega boçalidade de serem eleitos para altos cargos e assim poderem encher os seus bolsos e os da sua familória, a de sangue e a de voto, foi assim desatentos que entregámos o ouro ao bandido, isto é, ao neoliberalismo criminoso, ao capitalismo selvagem, sem alma e sem respeito por nada e por ninguém. A História julgará cruamente este economicismo que se quer fazer passar por virtuosa ideologia. Mas também nos julgará, a nós todos, que nos deixámos enredar na engrenagem do Ter, levando a que, em Portugal, dívida pública e dívida privada sejam dois Himalaias que pedem meças um ao outro. Seremos julgados por não termos dado atenção a estes predadores políticos, por não termos metido na ordem os deputados que tão mal e perigosamente legislaram anos a fio, governantes e ex-governantes que fizeram da nossa terra uma vaca a cujas tetas se agarram dia e noite, sem terem a menor solidariedade com o povo a passar mal. Se tivessemos sido atentos, todos esses penduras da Pátria, para não lhes aplicar vocábulo mais vicentino, tinham recuado – como recuaram aqueles que, nos dias que correm, se viram apontados a dedo na comunicação social e na blogosfera, porque recebiam subsídios ilegítimos enquanto os trabalhadores vêem ser-lhes cortados os salários, os subsídios de Natal e férias. Ficou provado que dar um murro na mesa, e até virar a mesa, é útil e saudável. Além de ser um direito, é um dever.
Portugal tem de empobrecer, diz o primeiro ministro que a nossa desatenção votou. Foi para isto que se fez uma revolução, que se sofreu tanto? Todos nós, mesmo os que vivem longe, rejubilámos ao saber que as nossas crianças tinham escolas modernas, aquecidas, com bom equipamento, com refeitórios, e bolsas, e prémios para os melhores, tinham enfim tudo o que a geração dos pais e avós não tiveram. Rejubilámos também ao saber do incremento da investigação científica, das energias alternativas, das empresas sofisticadas e internacionais que nasciam em competência e prestígio, dos progressos obtidos na saúde, dos êxitos obtidos pelos nossos artitas. Tudo isto o neoliberalismo, bronco e sem cultura, resolveu eanular. É, de resto, revelador que a Cultura seja agora uma gata-borralheira ao serviço da madrasta.
Só por maldade e estupidez não se fez o que se devia fazer para manter estas conquistas: produzir e desenvolver. Mesmo à má cara com os figurões da UE que têm feito tão bons negócios à nossa custa.
Reconheçamos a nossa falha. Com coragem e serenidade, afrontemos estes anos de penúria sem deixarmos de SER portugueses orgulhosos da sua origem e património cultural, portugueses empenhados em tirar o país desta lástima e servidão, decididos a aprender cada dia mais, a sermos cada vez mais rigorosos no que fazemos, sempre de coração aberto a quem precisa mais do que nós, não em caridadezinha desenhada por aquela figura de Walt Disney que nos aparece, mas em verdadeiro amor pelos outros. Aceitemos ter, por enquanto, menos pão. Mas tenhamos mais alma. Uma alma até depois de Almeida.
Fernanda Leitão






Uma análise realista, objectiva e muito bem exposta. Subscrevo incondicionalmente.
Gostava de ter sido eu o autor deste texto!
Um texto fantástico! Parabéns!
Esse “nós”…
A “ditadura” – vá algum aluno escrever hoje num exame de História que Portugal teve uma ditadura no século xx e leva zero mas isso é outra discussão – a ditadura foi derrubada pelos mesmos que lá a puseram: os militares.
Esse romantismo do “nós fizemos o 25 de abril” como muitas vezes ouvimos, e eu ouvi-o até bastantes vezes na manifestação 15OUT no Porto, quase pintando um quadro de que foi o povo que se fartou da vida austera que levava, reuniu-se, e foi de lá tirar os fascistas do poder e fez-se a liberdade!! Apesar de muito bonita, a realidade foi muito diferente e teve que ser pensava no poder de fogo das chaimites.
A verdade é que a maior preocupação do povo era sobreviver. Grande parte da população vivia no campo sem quase ter o que comer, não havia instrução, pois só os filhos da pouca burguesia nos meios rurais podiam ter “direito” a estudar além da 4a classe. Os indignados desse tempo eram indignados silenciosos senão queriam desaparecer misteriosamente. Mas por outro lado, haviam muitos milhares de bufos um pouco por todo o lado. Às vezes penso como seria interessante conhecer muitas dessas pessoas, o que é feito delas, e em que partidos políticos estão agora. Ainda me lembro de ouvir a minha mãe dizer “a minha professora da 4a classe veio nas listagens….é uma bufa da PIDE”… E toda essa gente ainda não morreu, “andam todos por ai”.
Fernanda, coragem e serenidade não andam muito de mãos dadas!! Nestes momentos o povo não pode ser sereno.
Os nossos políticos são o reflexo das pessoas que somos. Temos políticos que se governam a eles, roubam o dinheiro de todos em prol deles e dos seus amigos e das maçonarias. Vão para a política sem nada e saem de lá podres de ricos. Tal qual o português comum gosta de fugir ao fisco, e, se sabe que o vizinho desvia dinheiro a primeira que coisa que faz não é denunciar, é saber como para fazer igual!!
Em Portugal alguém que denuncia outro é um invejoso, enquanto, por exemplo, nos países nórdicos é unicamente um cidadão a cumprir o seu dever. É tudo uma questão de cultura e civismo, coisa que não está de todo no nosso ADN.
Eu tenho orgulho da Terra onde nasci, afinal nasci num belo planeta verde e azul, mas ao lado da palavra português não é orgulho que coloco, é sim vergonha.
Posso ter vergonha de ser concidadão de muitos portugueses, mas nunca seria capaz de dizer que tinha vergonha do meu país! Fico sempre com muitas dúvidas sobre o carácter de portugueses que tecem rasgados elogios a países como o RU ou os EU e falam do seu próprio país com algum desdém. De duas uma: ou são incultos, não conhecem a História e falam do que não sabem, o que é mau; ou sabem e um por um espírito tacanho e provinciano, muito comum entre nós, acham sempre que o que é “de fora” é que é bom, o que é pior! Apesar de muitos erros cometidos, sobretudo durante o período de expansão, Portugal ficou muito aquém dos crimes cometidos contra a humanidade que a História atribui à Inglaterra daquela época e aos EU de hoje. Só dois exemplos para ilustrar esta afirmação: o genocídio praticado na Índia até 1947 e o holocausto nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Mas a lista é muito maior…