Liberdade de escolha – mais um embuste na Educação

Este texto do Fernando Moreira de Sá é elucidativo do modo de pensar de alguns (muitos?) empresários portugueses: o Estado deve estar ao serviço das empresas e não ao serviço do país. Nada que a prática governativa desminta.

Curiosamente, Pinto Balsemão frequenta um campo ideológico que defende a concorrência como uma solução absolutamente virtuosa. Para os sucedâneos portugueses do neoliberalismo, na esteira dos simplórios da direita americana, é o mercado que tudo resolve, com os consumidores a escolherem o melhor produto, obrigando as empresas a melhorarem continuamente ou a morrerem.

Não interessa muito saber se os simplórios são necessariamente mal-intencionados, mas são demasiado simplórios para que as propostas que apresentam – ou as decisões que tomam – se possam constituir como soluções aceitáveis, porque se limitam a impor ideias sem se preocuparem em analisar a realidade.

Atente-se no caso das televisões generalistas. Será que a concorrência introduzida pela chegada das privadas trouxe consigo um aumento da qualidade do produto? A verdade é que a televisão só poderia aumentar as audiências à custa de um abaixamento da qualidade, como se pôde verificar pela introdução dos reality shows ou pela telenovelização do horário nobre. A própria televisão pública, com a chegada das privadas, entrou na caça ao espectador e tornou-se numa coisa indecisa, sem ser serviço público de qualidade nem empresa de sucesso (embora, para isso, tenha contribuído, também, o facto de ser uma das muitas entidades para uso das clientelas partidárias).

No Público de ontem , Dani Rodrik faz uma síntese da herança de Milton Friedman e tem estas palavras judiciosas, devedoras, no fundo, do adágio antigo que afirma que a virtude está no meio: “No seu zelo em promover o poder dos mercados, traçou uma distinção demasiado marcada entre o mercado e o Estado. Na verdade, apresentou o governo como o inimigo do mercado. Assim sendo, impediu-nos de ver a evidente realidade de que todas as economias prósperas são, de facto, mistas. Infelizmente, a economia mundial continua a ter de lidar com essa cegueira no rescaldo da crise financeira que resultou, em boa medida, de deixar os mercados financeiros demasiado à solta.” (o texto pode ser lido aqui, em Inglês)

O caminho para a resolução de muitos problemas contemporâneos só pode passar pelo meio. O paradigma em que vivemos, com a obsessão de privatizar, a crença cega no poder auto-regulador dos mercados, o pensamento único que leva à aplicação cega de instrumentos da gestão empresarial a todas as actividades, é de um reducionismo destruidor. Como se isso não bastasse, sabemos bem que todos os praticantes destas ideias o fazem em benefício de privados que dominam os governos, sabendo-se que, em Portugal, ainda por cima, a passagem pelo governo tem sido, para muitos, um degrau do cursus honorum que leva a lugares bem pagos em empresas e fundações.

Mesmo depois de uma crise financeira provocada pela aplicação cega destes mesmos conceitos, os governantes e respectivos satélites insistem em aplicá-los a todas as áreas, como é o caso da Educação. Os crentes desta seita vêem um mundo em que a livre concorrência entre escolas será suficiente para que os problemas educativos de um país subdesenvolvido fiquem resolvidos. O problema é que as escolas, tal como as televisões, passarão a preocupar-se com lucros e/ou com rankings, transformando a Educação num negócio e não num desígnio. Os que acreditam que não será assim ou são ingénuos ou não são nada ingénuos.

Comments

  1. José Galhoz says:

    De acordo. Ingénuos podem apenas encontrar-se entre o povo anónimo (e pagante), onde muito boa gente ainda acredita nas soluções da corrente dominante dos binómios Estados-Privados (ultimamente, com grande preponderância do sistema financeiro global). Entre os que detêm o poder e tomam as decisões (e os seus arautos de serviço) juraria que não há nem vestígios de ingenuidade.

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