“A grande invasão”

– eis como chamam os partidos políticos alemães à entrada maciça de refugiados, sírios e outros (estima-se que sejam mais de 800 000, os que entraram na Alemanha apenas em 2015), que procuram uma oportunidade de vida na Europa. É um jornalista alemão que o escreve, explicando o consenso que há entre os partidos alemães relativamente à tragédia humanitária que tem aportado nos territórios europeus.

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(c) REUTERS | Ognen Teofilovski | Migrantes na fronteira da Grécia com a Macedónia

«Raramente os responsáveis políticos estiveram assim de acordo. Seja a extrema-direita, a direita, os social-democratas, os verdes ou o Die Linke, toda a gente usa a mesma palavra para designar o afluxo de refugiados – «grande invasão», «Völkerwanderung», em Alemão. (…) A expressão estimulará uma vez mais o ódio e a violência dos que não compreendem que os fluxos migratórios não emanam de Deus, antes são o resultado de más políticas, levadas a cabo durante séculos.»

Segundo a mesma fonte, «a única que ainda não usou a expressão é Angela Merkel. (…) Fiel aos seus hábitos, prefere esperar para ver como se comporta a «vox populi» antes de tomar uma decisão. Uma estratégia de uma ineficácia política absoluta, mas que a faz ganhar eleições. (…)»

«Como fazer face ao«maior desafio desde a reunificação alemã» (Sigmar Gabriel/SPD)? Antes de mais, parando de vociferar constantemente contra os refugiados, como faz o ministro do interior Thomas de Maizière; metendo um ponto final a debates aberrantes como o que pretende privar os refugiados do pouco dinheiro que têm nos bolsos; aplicando um discurso mais positivo; e libertando os meios financeiros necessários para poder acolher os que chegam.

Mas para isso, é preciso ousar. Ousar taxar as maiores fortunas, digamos, as que ultrapassam os 5 milhões de euros, impondo-lhes um imposto de solidariedade internacional de 5% sobre as suas fortunas. Para assegurar a dignidade da vida dos mais pobres, por que não fazer pagar os mais ricos?

Não nos reclamamos nós, os da Europa, herdeiros da doutrina social da Igreja? Não obrigará essa doutrina a ajudar o próximo? Então, será preciso recordar esse princípio, e até mesmo impô-lo, se necessário. E, antes de qualquer outra coisa, é preciso que os responsáveis revejam a sua maneira de falar. Não é possível denegrir permanentemente os refugiados e outros exilados e vir depois indignar-nos com os excessos de violência a que actualmente assistimos na Alemanha.»

E quem diz na Alemanha diz em França, no Reino Unido, em Itália, e, neste momento, em toda a parte. Sendo certo que em Portugal nunca ouvi ninguém referir-se ao êxodo de migrantes com destino à Europa como «a grande invasão». Acho isto interessante, e penso que quer dizer qualquer coisa: uma coisa que nos fica bem.

Comments


  1. É muito fácil entalar a Russia com “embargos” porém parece complicado empurrar os países de origem dos migrantes para uma solução… São intocáveis, como se não tivessem responsabilidades.
    É claro que não se trata de uma invasão, porém, a prazo – como é fácil de prever -, a partir do momento em que os “chegados” constituam uma percentagem significativa da população, terão a tentação (natural) de defender os seus valores culturais de origem. E estes não são são propriamente consentâneos com a tradição cristã. Estão muito mais próximos do “supremacismo” árabe cuja expressão “publica” dominante é o islão.

  2. joão lopes says:

    primeira ironia:enquanto foram os turcos a receber os refugiados as “boas consciencias cristãs europeias” assobiavam para o lado e diziam:não é nada comigo.segunda ironia:quando os gregos(que recorde-se foram massacrados pelos alemães devido ao resgate) tambem recebiam os refugiados tambem estava tudo bem.Agora que os refugiados se encaminham para a alemanha(que recorde-se é segundo os neoliberais o paraiso terrestre) eis que caí o carmo e a trindade e a alemenha até empresta dinheiro á hungria para construir o muro(da vergonha).conclusão:se os neoliberais alemães/ingleses fazem questão de infernizar o mundo ,pois tem neste momento o inferno à porta.e tudo isto porque o valor do dinheiro fala mais alto,certo chanceler merkl(leite).

  3. Rui_Silva says:

    Cara Sara,
    “Völkerwanderung” significa “migração em massa”.
    A Alemanha é o pais com mais refugiados neste momento.
    Julgo que a Inglaterra será dos grandes países aquele que tem menos (não tenho a certeza).

    cumps

    Rui Silva

    • Sarah Adamopoulos says:

      A tradução (para Francês) foi do jornalista alemão, não minha. Pelos vistos, será esse o sentido, pois o texto foi construído em torno da ideia de *invasão. Enviei-lhe a sua questão, aguardemos pelo seu (do jornalista) comentário, Rui Silva.

  4. Sarah Adamopoulos says:

    Deixo a mensagem de Kai Littmann relativa à sua tradução da palavra Völkerwanderung, que o leitor Rui Silva questionou: «Palavra por palavra, a expressão significa “marcha de um povo”, e historicamente faz referência às grandes migrações de há milénios. Claro que também pode significar “migração em massa”, mas o dicionário PONS traduz a palavra por “grande invasão”, e, sobretudo, é com esse significado que ela é referida na política alemã. Cumprimentos.»

    • Rui Silva says:

      Cara Sara,

      Não conhecia o dicionário PONS referido. Agradeço pois fiquei a conhecer uma boa ferramenta.
      No entanto e para encerrar este pseudo-assunto, consultei On- Line o referido dicionário e em todas as traduções alternativas que apresenta, em nenhuma se encontra “grande invasão”. Pode a Sara mesmo experimentar que deverá obter o mesmo resultado.

      cumprimentos

      Rui Silva


  5. A primeira dirigente dum país europeu a abrir, sem restrições as portas do seu país a imigração foi A.Merkl. Em Portugal, que por sorte nossa fica fora da rota e não é atraente para os refugiados, vamos passar por menos aflições. Somos solidários e lindos; tanto que o problema mais grave que a UE tem, nem do discursos dos demagogos em campanha faz parte das prioridades de muitos deles .
    Assim com holandinhos e camarao vamos ter uma linda UE.


  6. Quem deveria apoiar os refugiados a 100% era quem lá meteu as tropas: EUA! Onde estão??????

    • Sarah Adamopoulos says:

      Ando a pensar nisso desde o começo desda tragédia: onde estão que ninguém ouve falar neles?

      • Rui Silva says:

        Mas quando lá estavam (Afeganistão , Iraque etc) muita boa gente ( das esquerdas) fartavam-se de exigir a sua retirada…

        cumps

        Rui SIlva

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