O dia em que Cavaco Silva uniu a esquerda portuguesa

epa03796425 Portuguese President Aníbal Cavaco Silva addresses the country to announce his decision concerning the failure of a week long negotiations between the coalition government parties Social Democratic Party (PSD) and Christian Democratic Party ( CDS-PP) and the main opposition party Socialist Party (PS) to get an political agreement to solve the present political crisis started with the Finance Minister, Vitor Gaspar, resignation, in Lisbon, Portugal, 21 July 2013. The President Cavaco Silva decided to maintain in power the present coalition government.  EPA/PEDRO NUNES

O Presidente da República pediu aos portugueses um governo estável e duradouro. Em poucas palavras, pediu aos portugueses uma maioria absoluta, fosse ela oferecida à Coligação ou ao Partido Socialista. Um pedido veementemente repetido na sua mensagem antes das eleições legislativas. Os portugueses, esses teimosos, não lhe fizeram a vontade.

Depois de apurados os resultados, o Presidente da República, transformou o pedido em exigência aos partidos com assento parlamentar. A Coligação tentou mas não conseguiu. O Partido Socialista tentou e, aparentemente, conseguiu. Perante este cenário ao PR só restava um de dois caminhos: ou entender que o acordo apresentado pelo PS não era suficientemente cumpridor dos seus requisitos e nomear para Primeiro-ministro o líder do partido mais votado, no caso, Passos Coelho ou então, entender que o PS tinha conseguido a tal maioria absoluta (com o apoio do BE e CDU) e dar posse a António Costa. Até aqui, tudo muito bem. Cavaco Silva optou pela primeira hipótese e, sobretudo, em devolver à Assembleia da República a decisão soberana. Mas….

Pois é, infelizmente e como é hábito nosso, existe sempre um “mas”. O Presidente da República “borrou a pintura” com o seu discurso. Ontem, Cavaco Silva, informou os portugueses que não considera o BE e a CDU como dignos de fazerem parte seja de um governo, seja de um acordo de governo de mera incidência parlamentar. No fundo, explicou que quase 20% dos portugueses que cumpriram o seu dever cívico de ir votar são incapazes. E foi mais longe, de forma implícita, apelou à rebelião dentro do grupo parlamentar do PS. Pelo caminho, acaba de considerar António Costa igualmente incapaz. E com isso fez um enorme favor à esquerda. Enorme.

Alguns amigos de direita, pelo que me foi dado a ver nas redes sociais, não perceberam (na minha opinião) o que aconteceu ontem. Bastava ao Presidente da República tomar a decisão de nomear Pedro Passos Coelho, com a justificação da tradição na nossa democracia de governar quem ganha as eleições e depois esperar para ver o que aconteceria no seio do grupo parlamentar do PS. Acreditando nas conversas de salão de Lisboa (e o Presidente acreditou) alguns deputados do PS (os suficientes para a PàF) e o PAN iriam deixar passar o programa e até o orçamento. O problema ficaria resolvido para 2016 e a purga interna no PS que se seguiria trataria de resolver a questão para 2017 e 2018, no mínimo. Bastava a Cavaco Silva falar pouco e decidir bem.

Mas não, o que Cavaco Silva fez ontem foi acentuar a divisão do país em direita dura e esquerda dura. Transformou tudo numa espécie de Porto-Benfica que não interessa a ninguém. Humilhou o PS e António Costa, atacou violentamente o Bloco de Esquerda e a CDU e desrespeitou uma parte significativa dos eleitores portugueses. Com isso o que vai conseguir? Unir a esquerda e embaraçar a direita. Afirmando o que afirmou ontem perante os portugueses, colocou a oposição interna a António Costa numa situação delicada – se forem contra a disciplina de voto em vez de serem vistos como uma espécie de “patriotas” passam a reles traidores. Ao atacar o Bloco e o PCP da forma que o fez transformou-os em vítimas e deu-lhes uma importância bem superior àquela que os portugueses lhes atribuíram no passado dia 4 de outubro. E embaraçou a direita, pelo menos a direita porque entregou de mão beijada à esquerda o poder executivo nos próximos, pelo menos, três anos.

Mas posso estar equivocado, admito.

Comments

  1. António Melo says:

    Depois do dia de ontem, e de todos os que o antecederam, considero impossível ajudar o Prof. Cavaco a acabar com dignidade o seu mandato. Aliás, um mandato que começou sem dignidade e que sem dignidade continuou não poderia terminar de outra forma. Como Pilatos, Cavaco lavou daí as suas mãos e, sabendo que a solução é a mais instável entre todas as possíveis, persistiu na sua condição de chefe de facção (“de seita” disse ontem Catarina Martins na sua entrevista à TVI), procurando pressionar o PS e marginalizar definitivamente BE e PCP. Nada que não se esperasse de alguém que nunca soube dignificar o cargo.. Já agora, e para aliviar o tom negativo deste comentário, deixo algumas sugestões para o elenco do próximo governo pafioso:

    – Ministro das Finanças : Oliveira e Costa
    – Ministro da Economia : Dias Loureiro
    – Ministro da Educação e Ensino Superior : (obviamente) Miguel Relvas
    – Ministro da Justiça : Duarte Lima
    – Ministro para os Refugiados Sírios e Vistos Gold : Miguel Macedo
    – Ministro do Ordenamento do Território : Marco António Costa
    – Ministro do Trabalho : Carlos Silva (o da UGT)
    – Ministro da Solidariedade Social : o Peixoto da Guarda (o tal do “cisma Grisalho”)
    – Ministro da Informação e Propaganda : Fernando Lima

    Para os restantes Ministros e “ajudantes” deixo o critério de nomeação a cargo do Prof. Silva

    • martinhopm says:

      Elenco governativo inultrapassável. Do melhor que existe neste reino, à beira-mar plantado. Muito bem apanhado!

  2. José almeida says:

    Partilho o agradecimiento a Cavaco. Nao precisou de estar bêbado para mostrar o que lhe vai na alma.

  3. martinhopm says:

    Cavaco, neste memorável discurso, ‘falou oralmente’?