Em defesa de Miguel Relvas


caa3

No Facebook, Carlos Abreu Amorim (CAA) spinou uma interessante teoria, procurando transformar o caso da licenciatura de Miguel Relvas num exemplo de ética e boas práticas do anterior governo, por oposição aos dois recentes casos envolvendo um adjunto e Costa e um chefe de gabinete da secretaria de Estado do Desporto e Juventude. Relvas até podia ter um canudo na mão, mas não o terá feito, conforme refere CAA, “de acordo com as regras que a própria universidade aplicou“. A menos que as regras aplicadas tenham sido desenhadas à medida de Miguel Relvas, porque mais ninguém teve a oportunidade de fazer cadeiras com base na discussão oral de sete artigos da sua autoria, discussão essa que foi tida com o reitor da universidade e não com o respectivo docente. E se as regras foram efectivamente desenhadas à medida de Relvas, então estamos perante uma pouca-vergonha e um insulto ao ensino superior.

No que diz respeito à investigação da licenciatura de Miguel Relvas, levada a cabo pelo anterior governo, por oposição à Geringonça que “negou, tentou esconder, mentiu, desvalorizou e agora faz spin“, confesso que ainda não sei bem quem terá negado, escondido e desvalorizado o quê, mas a verdade é que o processo de anulação da licenciatura de Miguel Relvas durou mais do que um ano, durante o qual foi devidamente protegido pelo seu superior hierárquico. Já os dois socialistas apresentaram a sua demissão no dia em que foram desmascarados. E importa recordar que, no relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência ao caso Relvas, é referido que existe “prova documental de que uma classificação de um aluno não resultou, como devia, da realização de exame escrito“, procedimento que, no entender da juíza à frente do processo, favoreceu Relvas e não os restantes alunos, “que fizeram exame escrito ou oral e que gostariam de ter tido a possibilidade de apresentar e discutir trabalhos“. Estaria Passos a par deste facto? Por quanto tempo o protegeu tendo conhecimento do mesmo? Terá tentado esconder? Confesso que também não sei. Talvez só o próprio saiba. Aos restantes, eu e o doutor Amorim incluídos, resta-nos especular.

Mas se vamos falar de mentiras, importa recordar o caso das cadeiras de Teorias Políticas Contemporâneas I e II, retiradas do plano curricular do curso do Ciência Política e Relações Internacionais da Lusófona pouco antes de Relvas ingressar no curso, mas que ainda assim constavam do certificado de habilitações de Miguel Relvas, que fez vista grossa ao facto de ter sido aprovado a cadeiras que não fez ou que sequer constavam no plano curricular. Um embuste, portanto. Talvez seja mais sensato não ir por aí.

Efectivamente, e aqui concordo com CAA, tratam-se de situações distintas. Os dois socialistas inventaram um curso (ou dois) que não tinham, ao passo que Miguel Relvas tirou um curso fraudulento com regras especiais e desenhadas à sua medida. Quanto à especulação, e a julgar verdadeiras as declarações do visado, por oposição ao momento de mau jornalismo do Observador, nem Wengorovius foi “corrido quando informou o ministro da mentira descabelada de um boy“, nem alegou “que o ministro sabia de tudo, foi conivente e mentiu“. Quanto ao ministro, não sei se mantém no cargo “por se vergar à Fenprof” ou se tal acontece em função do seu desempenho, ou até pelos seus elevados níveis de popularidade, nomeadamente pela forma corajosa como tem enfrentado os poderosos lobbys do ensino privado e das editoras que controlam o mercado dos livros escolares.

Finalmente, não me alargarei no que toca a governos “dispostos a tudo só para se manterem no poder“. Um apoiante tão convicto do anterior governo não tem grande moral para entrar por aí. E eu até nutro alguma simpatia por CAA, principalmente desde que, no final de 2014, afirmou ao jornal Público que já não era liberal e que o “Estado tem que ter força. Há esperança.

*****

P.S. É difícil de perceber se o ex-secretário de Estado Wengorovius terá feito algum tipo de declaração ao Observador, na medida em que, no link do jornal online publicado por CAA, não existe qualquer citação directa do próprio, ao contrário das declarações prestadas à TSF, que contradizem as informações avançadas pelo Observador e que citam declarações de Wengorovius e não do jornalista encarregue de montar a peça. Mas deixo os truques para quem os sabe desmontar.

Foto@Record

Comments

  1. Ricardo Almeida says:

    Querem mesmo fazer uma luta na lama entre os dois socialistas e o Relvas? Nesse aspecto tenho que dar a vantagem ao último. Ninguém passou mais tempo nem está tão confortável no meio de um lamaçal que o ex-ministro, ex-doutor Relvas.
    #vaiestudarorelvas É preciso elaborar?

  2. Rui Naldinho says:

    Carlos Abreu Amorim apesar de ter sido professor universitário, como deputado é uma inutilidade. Portanto, a propósito dos últimos acontecimentos, nós estamos perante um homem de canudo na mão, mas que na pràtica tem um discurso a roçar a boçalidade. Basta consultar o registos das suas intervenções públicas.
    Ele devia ser o primeiro a não pactuar com os atropelos à ética de Relvas.
    Já alguém pensou por que não o faz? E a razão por que o defende?
    Pois, ele não diz, mas eu sei que foi Relvas o responsável pela sua integração na listas do PSD como candidato em 2011 pelo partido de Passos Coelho. Ora, Amorim criticar o seu progenitor político seria algo impensável.
    Então:
    “Por qué no te callas, Abreu?”
    Este senhor é um bom exemplo de alguém que não consegue ter um pensamento político coerente. A sua credibilidade é idêntica à de muitos trauliteiros que passam fugazmente pelo parlamento.
    Mas também quer entrar para o “Clube dos Oprtunistas Vivos”!
    Não fosse o caso de ele ter sido candidatado à Câmara Municipal de Gaia, para perder, uma vez que o PSD nacional foi contra a estruturas locais do partido que desejavam outro candidato. Só um indivíduo sem classe, apesar de todos os títulos académicos e maçónicos, se sujeitava a uma humilhação destas.

  3. Ana A. says:

    …e, os eleitores, com um trabalho cada vez mais árduo para garimpar de entre: os bons, os maus e os vilões…

  4. Mas não se pode entrar para o governo, se não for doutor, mesmo que se seja inteligente e competente ?

    • Ana A. says:

      Na minha modesta opinião não será a inteligência e a competência que estará aqui em causa, mas a “chicoespertice” e a falta de ética, em que se mente para se conseguir lograr um fim! Parece que, apesar de tudo, isso ainda vai sendo reprovável…

  5. martinhopm says:

    «O ‘RÉVEILLON’ NO RIO DE JANEIRO
    No período temporal entre as referidas intervenções radiofónica (Maio de 2012) e televisiva (Setembro de 2013) por parte de Arnaut (José Luís), além da nomeação do ex-ministro (e presidente da Comissão Nacional de Auditoria Financeira do PSD, cargo que assumiu entre 2012 e 2014) como administrador da REN (Junho de 2012), importa salientar que a firma CMS (escritório de advogados Rui Pena & Arnaut) foi contratada pela TAP (Julho de 2012) para assessorar a companhia aérea no âmbito do respectivo processo de privatização.
    Mais, a privatização da ANA foi entretanto concluída (Dezembro de 2012), com o Governo (de Coelho) a optar pela proposta do grupo francês Vinci – por coincidência, assessorado nesse processo pela mesma sociedade de advogados: a CMS de Arnaut.
    Toda esta cronologia é colorida por um detalha exótico: o Governo decidiu vender a ANA aos franceses da Vinci no dia 27 de Dezembro de 2012, no âmbito de uma reunião do Conselho de Ministros; ora, quatro dias depois, Arnaut foi visto no Rio de Janeiro, Brasil, a celebrar o ‘réveillon’, juntamente como os amigos Miguel Relvas e Dias Loureiro.
    «O ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, foi passar os últimos dias do ano ao Rio de Janeiro, Brasil, e esteve num dos mais luxuosos hotéis da ‘Cidade Maravilhosa’, o emblemático Copacabana Palace.
    Mas não foi o único. O ex- administrador da SLN, ‘holding’ que era detentora de 100% do BPN, Dias Loureiro, e o ex-ministro das Cidades, Administração Local, Habitação e Desenvolvimento Regional, José Luís Aranut, também lá estiveram.»
    Transcrevo de «Os Facilitadores, como a política e os negócios se entrecruzam nas sociedades de advogados», do jornalista Gustavo Sampaio.

  6. Manuel Lopes says:

    Resta saber quem ou o quê financiou a “licenciatura”, porque de certeza não foi de borla. Vai uma ideia? BPN?

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