As infidelidades do PISA e as coisas verdadeiramente importantes


Os que reivindicam a paternidade do sucesso nos últimos testes internacionais são apenas maridos enganados que não conseguem ou não querem ver que o filho que reclamam como seu tem nitidamente a cara de outros, o que faz da Educação aquilo que deve ser: uma insaciável oferecida ou uma oferecida insaciável. Os pobres maridos, evidentemente, são os primeiros a não saber ou, no mínimo, a fingir que não sabem. Por outro lado, são os últimos a querer saber, preferindo ilusões a análises.

De qualquer modo, num país de ignorantes atrevidos, é natural que todos se julguem capazes de fazer testes de ADN e, sem análises, as atribuições de paternidade têm sido mais do que muitas. Dêem-se as voltas que se quiser, mas isto resume-se assim: o sucesso educativo (ou outro qualquer sucesso) de um país resulta de múltiplos factores. Quem acredita um ministro possa ser tão genial que arrancasse o país ao descalabro é parvo; quem finge que acredita não é nada parvo, mas confia que todos os outros o sejam.

O que é verdadeiramente importante continua por fazer ou por desfazer. Entretanto, há dados que não chegam a ser noticiados: recentemente,  a Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência publicou algo sobre a descoberta da pólvora, ao apresentar um estudo sobre a relação entre a condição socioeconómica e os resultados escolares dos alunos no terceiro ciclo; posteriormente, apresentou um outro sobre o Segundo Ciclo. Novidades? Nenhumas: o meio socioeconómico em que vivem os alunos é, muitas vezes, determinante para o seu sucesso escolar.

Recentemente, no meio das reclamações de paternidade do PISA, o o JN de há alguns dias dedicava uma página e meia a um estudo  do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia para o Think Tank da Fundação Belmiro de Azevedo (uma busca talvez demasiado rápida não me permitiu ler o estudo ou, então, não estará disponível). O título (“Pais com quarta classe não ajudam os filhos nos TPC”) não é dos mais felizes por não fazer jus ao conteúdo do texto.

De acordo com o JN, ficamos a saber (confirmamos, mais uma vez, portanto) que há uma relação entre o estatuto socioeconómico/sociocultural dos encarregados de educação e os resultados escolares dos alunos: quanto mais formação têm os primeiros, melhores são os resultados. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP) introduz um outro factor reconhecível por qualquer pessoa que ande com as mãos na massa: “Os filhos de pais interessados pela sua vida escolar são mais motivados.”

Transcrevo, ainda, as declarações de Orlanda Tavares, uma das autoras do estudo:  “Se [as políticas educativas] não forem acompanhadas de políticas sociais e de políticas económicas, que mexam também com o mercado de trabalho, as políticas educativas, por si só, não têm o condão de fazer magia. Terão de ser conjugadas com políticas sociais.” Escritos e leituras mais antigas já iam nessa direcção, porque há muito tempo que não há nada a inventar nesta área.

Estas palavras chegam-nos de uma investigadora ligada ao ISCTE, de má memória para a Educação em Portugal, e explicam aquilo que deve estar na base de uma análise séria, incompatível com gente que quer ser pai à pressa ou com pressa de ficar na História.

Comments

  1. Gustavo Afonso says:

    Se calhar essa influência do estatuto sócio económico dos pais sempre existiu, e os melhores resultados advêm das políticas educativas.

    Ou então o governo anterior melhorou a condição social da “maioria da população menos favorecida”, ou pelo menos da “maioria da população menos favorecida com filhos em idade escolar e que participou no estudo do PISA”.

    • António Fernando Nabais says:

      Vou considerar que não está a brincar e respondo:

      1 – a influência do estatuto socioeconómico sempre existiu e foi estudada, entre outros por Pierre Bourdieu;
      2 – as melhorias dos resultados dos alunos resultam de um processo muito complexo e não podem depender apenas de políticas educativas, como concluirá quem perceba (ou queira perceber) um mínimo de História;
      3 – a ideia de que o governo anterior melhorou a vida da maioria da população menos favorecida é uma piada espectacular, tendo em conta o empobrecimento geral causado pelo governo (governo apoiado por alguém que chegou a reconhecer que as pessoas não estavam melhores, ao contrário do país, que estava muito melhor);
      4 – mesmo que não fosse uma piada espectacular, essa melhoria não poderia ter tido efeitos imediatos nos resultados dos alunos, porque, repita-se, essa melhoria resulta de um processo muito complexo;
      5 – além disso, mesmo que não fosse uma piada espectacular, as melhorias dos alunos portugueses nos vários testes internacionais são constantes (o país que viveu quase 50 anos na escuridão só pode estar a melhorar);
      6 – de qualquer modo, e embora não devamos desvalorizar os resultados destes testes, a verdade é que há muitas variáveis que não são medidas: assim, não há necessidade de depressões nem de histerias;
      7 – o Ministério da Educação, especialmente desde 2005, só tem servido para atrapalhar a vida das escolas.
      8 – eu sou professor há 27 anos. E o Gustavo faz o quê?

  2. Gustavo Afonso says:

    8 – Professor universitário, se bem que não perceba a relevância da questão

    Deixe-me ver, se refere que além das políticas educativas, contribuem para a melhoria dos resultados as políticas (e condições) econômicas e sociais, e tendo em conta que refere em 3 (piores condições sócio econômicas), só posso concluir pela melhoria das políticas educativas.

    Mais, deixe-me apontar a sua contradição, porque em 1 refere que sempre existiu a influência sócio econômica => estamos a comparar populações em que esse factor tem a mesma influência (dai a minha primeira afirmação no primeiro comentário)

    Já agora, se calhar também está enganado no ponto 5 … https://oinsurgente.files.wordpress.com/2016/12/pisaevol.png

    • António Fernando Nabais says:

      A partir do momento em que aponta como referência “o insurgente”, estamos praticamente conversados, uma vez que, no que se refere a esta discussão, o único objectivo desse maravilhoso blogue é atribuir os méritos dos resultados dos testes internacionais a Nuno Crato. Ainda assim, gaste-se mais um bocado de latim.
      A relação entre o estatuto socioeconómico e/ou sociocultural e os resultados dos alunos é uma realidade (estudos sociológicos afirmam-no e verificações empíricas feitas por quem anda no terreno confirmam-no). A alteração das condições económicas para pior poderá ter sempre influência em algumas escolhas familiares, mas o fundamental, a preocupação com a vida escolar referida por Filinto Lima, manter-se-á, se existir. A evolução educativa de um país não poderá ser substancialmente alterada por quatro anos de políticas educativas, por muito espectaculares que fossem (e Nuno Crato foi um desastre absoluto, um fiel continuador de Maria de Lurdes Rodrigues na destruição da Escola Pública).
      Não está verificado que a influência do estatuto socioeconómico ou sociocultural tenha sempre o mesmo valor, ao longo dos anos, mas será sempre um factor a ter em conta (e a escola deverá servir, o mais possível, para compensar as insuficiências que possam vir do exterior). Mesmo que nem sempre pelas melhores razões, o número de pais preocupados com a vida escolar dos filhos terá aumentado (esse seria um estudo interessante), o que será também fonte de melhorias.
      No gráfico dos seus amigos insurgentes não se verificou um melhoria ao longo dos anos? Os resultados, independentemente de umas estagnações ou de uma única descida não foram no sentido da melhoria, com realce para os anos em que estiveram no ME Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato (percebe-se bem o colorido dado a dois marialvas tão do gosto insurgente)?
      Faltam-lhe demasiadas variáveis, conhecimento do terreno e sobra-lhe muita areia ideológica nos olhos. Limpe isso e verá que tem sido a sociedade no seu todo a evoluir, ao longo de 40 anos de abertura ao mundo, de desobstrução de mentalidades e mesmo com políticos a atrapalhar: muito trabalho dos alunos, das famílias e das escolas. Além disso, repita-se, estes testes não são suficientes, longe disso, para que fiquemos devidamente esclarecidos acerca do verdadeiro estado em que se encontra a Educação em Portugal.

  3. Gustavo Afonso says:

    Ai ai, continua a dar-me razão sem querer admiti-lo (se calhar é a tal cegueira ideológica) 😉
    Há dois tipos de tendência, a longo prazo e a curto prazo. A longo prazo tem a ver com o que refere no final, uma evolução da sociedade como um todo.
    A curto prazo, quanto muito as condições socioeconomicas teriam piorado com o anterior governo correcto? Vamos ignorar tal facto e esquecê-lo, até porque é favorável a Crato (conseguiu o que conseguiu APESAR das condições econômicas do país).
    Aí sobram as políticas educativas. Se eu vou fazer exames para o 9o ano, apesar da influência de tudo o que aprendi na primária, com certeza a MAIOR influência será dos anos mais próximos do exame.
    Acho que não há muito a fugir a isto. Se acha que é um acaso os resultados destes dois períodos (crato e Rodrigues) serem melhores, pois é livre de o fazer. E eu sou livre de concluir que essa crença é fruto da educação do nosso país 😉

    • António Fernando Nabais says:

      Gustavo, somos livres de dizer o que nos apetecer, com certeza, incluindo disparates. Argumentar com conhecimento de causa é outra coisa e o Gustavo não fez nada disso, porque não está interessado ou porque não é capaz, pelo menos no tema em debate.
      Apesar de eu ser de esquerda, saudei a nomeação de Nuno Crato (https://osdiasdopisco.wordpress.com/2011/06/17/nuno-crato-um-homem-da-educacao/), mas a desilusão foi muito rápida. Quem perceber alguma coisa sobre Educação saberá que Nuno Crato foi um péssimo ministro e não apenas no que se refere às questões laborais dos professores (embora esteja tudo ligado, como foi o caso do aumento do número de alunos por turma, medida cujo objectivo serviu para despedir professores, prejudicando os alunos).
      O Gustavo vive numa torre de marfim e é mais uma prova de que a ignorância é muito atrevida, mas antes assim, porque, lá está, devemos ser livres de dizer o que nos apetecer. Muito a propósito, aconselho-lhe a leitura do editorial de hoje do “Jornal de Notícias”: intitula-se “Estudasses” – http://www.jn.pt/opiniao/ines-cardoso/interior/estudasses-5546780.html. Fique bem.

      • Gustavo Afonso says:

        É curioso que continua a apresentar argumentos que não distinguem os últimos três dos restantes anos. É curioso que os factores diferenciadores que refere apontam a resultados que seriam piores (mais problemas económicos e aumento do número de professores).

        Só é possível tirar uma conclusão: algum factor ou factores contribuiu para não só evitar que tal sucedesse, como permitiu a melhoria dos resultados. Só vejo que possa ser a política educativa. Eu, e qualquer pessoa que queira ver a realidade. Pior que o cego só aquele que não quer ver.

        • António Fernando Nabais says:

          Ó Gustavo, você é um cómico! Reconhece que os responsáveis pelas políticas sociais e educativas tomaram medidas que fariam com que os resultados fossem piores e, depois, afirma que os resultados foram melhores por causa dessas mesmas políticas. Já agora: se houve políticas boas, diga lá quais foram, na sua óptica de especialista.
          Não, homem, os resultados vão melhorando, há anos, apesar das políticas. Pior do que aquele que não quer ver é aquele que quer ver e não sabe que é cego.

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