Lettres de Paris #43

L’amour court les rues

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Hoje não fui para o Ladyss. Tinha trabalhos para ler e em casa achei que estava mais sossegada. Fui, no entanto, beber um café ao Saint-André e caminhar um bocadinho, pequenino, aqui no quartier. Gosto da Place Saint-André des Arts, aqui ao fundo da estreitíssima Rue Suger. Sempre gostei. Não sei porquê, mas acho que concentra a essência de Paris. A estação do metro, os cafés com as suas esplanadas em anfiteatro, a tabacaria, a loja de ‘souvenirs’, as livrarias e o modo como se alarga à medida que vamos chegando à Place Saint-Michel, com a sua fonte imponente e mais cafés, livrarias, lojas e o Sena logo ali, ao atravessar a rua e a Notre Dame vista da Pont Saint-Michel.
De maneira que me pus a apreciar a pequena praça onde Paris se concentra, a partir da esplanada do Le Saint André. Nem a Julie, nem o empregado que fala português (e mais 6 línguas, disse-me ele outro dia), embora seja albanês (também me o disse outro dia) estavam hoje no café, mas o empregado que lá estava deu-me na mesma os bons dias. Depois do café e da contemplação da praça, decidi ir passear o tal bocadinho, pequenino, e meti pela Rue Saint-André des Arts, de que também gosto, com as suas creperies boulangeries, cafés, restaurantes, lojas de bric-a-brac, uma livraria da Actes-Sud, boutiques de roupa, ervanárias, e – descobri hoje – uma deliciosa ruazinha, cheia de cafés e galerias e restaurantes e encanto – o Cours du Commerce Saint-André. Tirei poucas fotografias porque só tinha a máquina fotográfica pequenina comigo. Numa dessas fotografias, que tirei na ruazinha que vai desembocar no Boulevard Saint-Germain, reparei só há bocado quando passei as fotos para o computador, via-se um escrito vertical numa parede: l’amour court les rues. Quando tirei a fotografia não reparei no escrito. O amor corre as ruas ou corre nas ruas ou pelas ruas.

É uma ideia bonita, sobretudo nas ruas de Paris que é, dizem, uma cidade romântica. Há certos sítios da cidade que sim. Suponho que nesses sítios o amor corra nas ruas. Mas é uma ideia bonita esta. Não apenas o amor romântico, mas o amor, ponto. Ainda mais é natal e essas coisas todas, não é? Ainda não comprei uma única prenda de natal, mesmo se planeio não comprar muitas, já devia ter começado essa tarefa, mas sei que a despacho normalmente numa tarde, por isso, pas de soucis, creio (e espero). O Natal não se nota muito em Paris, exceto em algumas ruas. Na Place Saint-André des Arts colocaram duas árvores de natal simples, com laços brilhantes azuis e aqui em volta há muito poucas ruas enfeitadas e iluminadas. Claro que quando passamos nas montras das lojas, percebemos definitivamente que é natal. Mas o natal nota-se pouco em Paris, creio eu, exceto na Place Vendôme e na Rue Royale e, sim, certamente, nos Champs Elysées onde, como já contei antes de ontem, está montada uma feira de natal. Depois da maravilha da Grand Place de Bruxelas, esperava, não sei, ver a mesma maravilha em Paris. Mas parece que não vou ter essa sorte toda. De qualquer modo, Paris, apesar de ter muitíssimos sítios fantásticos, não tem a Grand Place de Bruxelas, evidentemente.
Eu gosto do natal. Ou gostava do natal, já nem sei. Se calhar ligo cada vez menos a isso. Sei que gosto de estar com a minha família, mas na verdade – felizmente – não precisa de ser natal para isso acontecer. Gosto que os meus pais façam a árvore de natal e o presépio grande, como sempre fizeram desde que me lembro. Mas eu, numa fiz nenhuma árvore de natal em nenhuma das casas onde já morei. Nem me ocorre enfeitar a casa toda. Nunca ocorreu. No natal as pessoas não são melhores, apesar de as lojas nos dizerem que este é o dia mais bonito do ano, que esta é a época de se ser bom, que esta é a estação em que o amor corre nas ruas. Mas debaixo das luzes tudo continua na mesma, nos outros 364 ou 365 dias, depende dos anos.
Depois de ter chegado ao Boulevard Saint-Germain vinda pelo Cours du Commerce, andei só um bocadinho até à esquina com o Boulevard Saint-Michel e fui ao Monoprix. Onde o natal chegou completamente. O supermercado está cheio de luzes, laços, fitas, papel de embrulho, velas, caixas diversas de chocolates, cabazes de natal. Admiro estas coisas todas, ou quase todas, compro o que tinha para comprar e, no fim, mais uma velinha que cheira, dizem no rótulo, a flores brancas. Cheira bem, na verdade, já está ali acesa, como esteve uma parte da tarde, a ajudar a iluminar as minhas leituras. Não a acendi por ser natal, bem entendido. Gosto de acender velas em quase toda a parte, já sabemos. Mas depois de acender e agora que estou a olhar para ela, a verdade é que ficou mais natal também dentro do pequeno estúdio. Apaguei-a quando fui jantar, apaguei-a enquanto passei a ferro. Voltei a acendê-la depois e ali está. Lá em baixo, na rua estreita, quase debaixo da minha janela, há jovens que ouvem música, conversam e riem. Daqui a pouco irão dormir. Mas agora conversam de namorados/as e de amor. Quando se é jovem o amor corre nas ruas, mais depressa, quase galopa, que habitualmente.

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