A ARTE (9)

A ARTE (9)

Perante uma obra de Arte, suporte de meditação, meio de fixação da atenção e de excitação mental, o espectador sente-se obrigado a um exame de consciência e a uma necessidade de rotura com os seus velhos conceitos. A Arte é uma fonte de conhecimento e é tanto mais nova quanto mais novas forem as ideias que usa na concepção da realidade, quanto maior for o abalo que produz nas formas caducas de ver o mundo e a realidade. Como já se disse atrás, a Arte é impacto, desconcerto de espírito e agente de mudança das formas de pensar. Quando o público se identifica serenamente com a obra e mostra coerência com determinadas formas artísticas, é de temer que essas formas já tenham perdido a sua capacidade revolutiva. Assim se entende que não é a Arte que deve descer à compreensão do povo, mas é o povo que tem de ascender aos patamares da natureza revolucionária da Arte. Uma política cultural, isto é, o ensino de uma autêntica cultura formativa e digna, está longe da estafada ideia de que convém dar ao povo o que o povo pede. É escandaloso ouvir dizer que se deve servir o povo com coisas que lhe dêem prazer e não com intelectualices! Esta luta é uma luta de todos, um verdadeiro e poderoso sentir da necessidade desta ascensão como uma das prioridades da estruturação humana. Uma luta travada pelo saber de todos os tempos, uma luta perpétua contra a ignorância dos que não sabem, dos que julgam que sabem tudo e dos que não sabem aquilo que não sabem. (Continua).

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POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Não é fácil ser gente
entre o clamor de vozes que nada dizem
e o troante silêncio
das bocas que não têm voz.

QUADRA DO DIA

Por isso erguem aos céus
Suas preces lacrimosas
Não é dinheiro o que roubam
Ó meu S. João são rosas.

Um filme de Hayao Miyazaki é sempre um acontecimento

Um filme de Hayao Miyazaki é sempre um acontecimento. Enfim, é um filme de Hayao Miyazaki. Ponto. Bastava ter sido o génio criador do fantástico "Conan, o rapaz do futuro” para merecer um lugar especial na história do cinema animado. Mas Miyazaki fez mais, muito mais.

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Às salas nacionais chegou a sua, até agora, última produção: “Ponyo à Beira-Mar”.

Realizado por processos tradicionais de animação e inspirado em “A Pequena Sereia”, este é mais um exemplo do estilo de Miyazaki. Conta-nos uma história fantástica através de desenhos elaborados à mão, muitos dos quais feitos pelo mestre, apesar dos seus mais de 70 anos. Foi o responsável pelo mar e as ondas neste filme.

Miyazaki é o autor de A Princesa Mononoke, do brilhante A Viagem de Chihiro e de O Castelo Andante. Voltou a deixar de lado os efeitos de computador e faz tudo à sua velha maneira.  responsável pelo mar e as ondas.

Co-produzido por John Lasseter, da Pixar/Disney, e por Frank Marshall e Kathleen Kennedy, habituais produtores de Spielberg, “Ponyo à Beira-Mar” continua repleto da magia da arte de contar histórias.

Como está bom de ver, um destes dias vou parar ao escurinho do cinema.

QUE PAÍS É ESTE?

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PARTIDOS GASTAM MAIS DE NOVENTA MILHÕES
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Que País é este, que aceita sem se revoltar, que os partidos políticos gastem em ano de crise, mais de noventa milhões de euros numa campanha eleitoral?
Afinal que mais valias para o País, trazem estes gastos? Mais emprego? Mais investimento? Melhores condições de vida? Menos fome? Melhor distribuição da riqueza? O quê?
Os partidos estão-se marimbando para o bem estar dos Portugueses. Os partidos que nos (des)governam só se interessam por si mesmos, pelos “tachos” que vão conseguir para eles e para os seus amigos, pelo dinheiro que vão conseguir ganhar durante os anos que os mandatos que conseguirem, durarem.
E nós, o povinho lusitano, aceitamos, como uma fatalidade, tudo isto. Não olhamos nem sabemos olhar para os que se diferenciam pela positiva, restringindo gastos nas campanhas, embora em abono da verdade, em todos os restantes campos, não sejam em nada diferentes dos outros. Todos, mas mesmo todos, sem qualquer excepção, querem votos para atingirem os objectivos a que se propuseram. Ganhar, para ganharem mais do que possuem.
Que contas prestam estes partidos, ao povo português?

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Eleições e Educação – as respostas dos partidos

Às perguntas da FENPROF no jornal deste mês (página 12 e em formato pdf)

Santarém, Capital do Gótico (VIII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

A MAIS FREMOSA DE QUANTAS VEJO / EN SANTAREN, E QUE MAIS DESEJO

Na Idade Média, Santarém foi um dos principais centros da poesia galaico-portuguesa e provençal. Um género literário que se desenvolveu e germinou muito por obra e graça do lirismo islâmico, que teve na cidade muitos dos seus representantes. A sua posição geográfica facilitava o intercâmbio de culturas e aumentou com a chegada dos cruzados franceses, no contexto das guerras da Reconquista.
As cantigas de amigo eram uma forma de «fazer falar» as mulheres. Dos seus sentimentos – alegrias, tristezas, amor e ciúme. Os trovadores escreviam-nas como se fossem as mulheres a fazê-lo.
Constituindo a variedade mais importante e original da nossa produção lírica da Idade Média, estas composições enquadram-se na poesia trovadoresca, mas incluem a particularidade de conferirem estatuto de enunciação à mulher, embora sejam sujeitos masculinos a compô-las.
«As «cantigas de amigo» de forma mais simples apresentam-nos, em geral, a mulher integrada no ambiente rural: na fonte ou na romaria, lugares de namoro, sob as flores do pinheiro ou de avelaneira; o rio, onde lava a roupa e os cabelos, ou se desnuda para tomar banho; na praia, onde aguarda a regresso das barcos. Inspira-se em geral uma desenvoltura inocente de ar livre e fala nelas uma voz impessoal que apela para os sentimentos mais básicos e constantes da emotividade humana. Uma curiosa fraternidade com os bichos, as flores e as ondas deixa adivinhar uma mentalidade animista, mal tocada pela influência cristã. Este grupo de cantigas pertence certamente a um fundo muito primitivo, que se esconde sob as águas do tempo. Noutras cantigas, é mais denso o ambiente doméstico. A moça canta enquanto torce o fio do linho; sucedem-se as discussões com a mãe, que recebe o namorado e autoriza o namoro. Neste segundo grupo, menos primitivo, o ambiente é mais caracterizadamente burguês. A uma terceira camada, enfim, pertencem as cantigas de estrutura rítmica mais complexa, embora baseadas no esquema paralelístico aqui encontramos uma verdadeira dialéctica dos sentimentos, uma gama que vai desde o ciúme à «coquetterie». Dispostas ordenadamente, os monólogos e diálogos em que se desenvolvem as situações comporiam um verdadeiro romance sentimental, antecipando Menina e Moça de Bernardim Ribeiro.» (António José Saraiva)
Um tipo peculiar de cantigas de amigo é o das paralelísticas, que aliam uma simplicidade de motivos e recursos semânticos ao elaborado arranjo da sua expressão. O esquema de repetitividade enriquece o sentido pela sugestão encantatória que cria, muitas vezes magoada, perplexa ou interrogativa. Típicas da poesia galaico-portuguesa, encontram-se também nas cantigas de amor e noutras variedades poéticas medievais, persistindo até muito tarde na literatura medieval.
«A cantiga de amigo tem espontaneidade, graça, ingenuidade, alegria franca. Em imitação da verdadeira poesia popular, o trovador usa do artifício de falar como menina namorada, do povo, que se dirige ao amigo e amado, que fala dele à própria mãe, às irmãs, às companheiras ou ao santo da sua devoção, ao pé da fonte, à beira-mar, no terreiro das bailias, a caminho da santuário, no pinheiral, sempre em íntimo contacto com a natureza. Muita vez nas festas primaveris de Maio. Sempre de refrão, essas cantigas femininas compõem-se de quadras, de tríadas ou de dísticos. Esta última espécie consta muita vez de duas redacções paralelas, distintas apenas pela rima, entoadas alternativamente por dois coros nas evoluções da dança.» (Carolina Michaëlis de Vasconcelos)
As cantigas de amor, por seu lado, um outro género poético da lírica galego-portuguesa, distinguem-se das cantigas de amigo principalmente por nela ser o trovador quem fala, dirigindo-se à sua senhora, que elogia e cujas qualidades exalta. Trata-se, aqui, da expressão do chamado amor cortês, em que o trovador se sujeita a uma relação de vassalagem perante a senhora amada. Deve dominar o seu amor, para não desagradar à dama, e guardar em segredo a identidade desta, que é, muitas vezes, ao contrário do que sucede nas cantigas de amigo, uma mulher casada. O trovador expressa o seu sofrimento amoroso por não poder atingir o objecto do seu amor. A expressão desse amor é feita de acordo com as convenções – espiritualizando o sentimento amoroso, considerando a mulher como uma deusa inacessível à qual só em sonhos se tem acesso.
É o caso da canção que se segue e que tem Santarém como pano de fundo, como cenário de um amor impossível:
«A mais fremosa de quantas vejo
en Santaren, e que mais desejo,
e en que sempre cuidando seio,
non ch’a direi, mais direi – ch’amigo:
Ay Sentirigo! Ay Sentirigo!
Al é Alfanx e al Seserigo.»
Nesta balada, o poeta revela que em Santarém se encontra a mais bela de quantas mulheres já viu. Suspira por ela, suspira por Santarém.
«Amigos, des que me parti
de mia senhor e a non vi,
nunca fui ledo, nem dormi,
nem me paguei de nulha ren.
Tod’este mall soffr e soffri
Des que vin de Santaren.»
Nesta balada, o troveiro exprime as saudades que sente desde que deixou Santarém e a sua senhora, que tanto amava. Nunca mais foi feliz desde então.
As cantigas de amor tiveram origem nas cortes senhoriais da Provença (sul de França), estendendo-se ao território galego-português e a outras regiões da Europa pela vinda de jograis provençais. Esta lírica provençal tornou-se depois modelo para os trovadores galego-portugueses, que adoptaram alguns dos seus processos técnicos, mantendo outros mais próximos dos que já conheciam e utilizavam nas cantigas de amigo (como a repetição de versos, de acordo com regras específicas).
«A nota característica da cantiga áulica de amor; em estrofe de mestria, sempre dedicada a uma senhora (=senhora solteira) da alta-roda, venerada ou cortejada pelo trovador; é a mesura. A moderação como ideal daqueles rudes tempos, bárbaros em muitos sentidos, levou os amantes a artificialmente evitarem todas as notas fortes. Restringiram-se a uma terminologia muito seleccionada. Sem serem frios, são por isso enervantes de convencionalismo e monotonia. Falhos de plasticidade, simbolismo, imagens, e mesmo de sensualismo, já deixam todavia transparecer o sentimentalismo fundamental da saudosa alma portuguesa que morre de amor. (Carolina Michaëlis de Vasconcelos)
Desde que chegaram da Provença, trazidas pelos jograis, tais músicas, de amigo e de amor, tornaram-se inseparáveis companhias de reis (dos quais D. Dinis é o melhor exemplo), nobres, clérigos e povo. «Foram dados os primeiros passos na rua, ao som das cantigas insertas nos primitivos cancioneiros, quando a dança era ainda plebeia, com D. Pedro I, o grande louco do amor, que usava despertar altas horas da noite quantos dormiam no paço (nas proximidades da igreja de Alcáçova), para percorrer as ruas da vila de Santarém, de mistura com a arraia-miúda que pasmava ao vê-lo dançar!» (Bertino C. Martins)
Os mais importantes poetas e trovadores medievais escolheram Santarém para sua morada e para sua musa inspiradora. Alguns eram de cá, outros por cá ficaram. Rui Fernandes, João Aires, João Soares Coelho, Requeixo, João Zorro, João Peres de Aboim ou Aires Pires Vuitorum foram apenas alguns deles.
Foi entre os reinados de D. Sancho I e de D. Dinis, principalmente, que este género literário, sempre associado à nobreza cortesã, atingiu o seu período de maior brilhantismo em Santarém. De resto, D. Dinis, o mais letrado dos monarcas portugueses da primeira dinastia, foi ele próprio autor de muitas canções de amor e de amigo. Quando D. Afonso IV foi coroado, em Janeiro de 1325, segréis e trovadores deliciaram a assistência com as suas cantigas, de amor, de escárni
o
e de maldizer.
Havia ainda as cantigas de escárnio e maldizer, um género musical que também fazia parte da poesia trovadoresca galaico-portuguesa. A sua temática incide sobre pessoas, mas também sobre alguns problemas da época — por exemplo a decadência da nobreza rural, através de meios como os trocadilhos, a ironia ou a sátira. A cantiga de escárnio distingue-se da cantiga de maldizer pelo facto de nunca referir a pessoa que está no centro da canção. Quanto à cantiga de maldizer, não esconde o nome do visado e chega a ser grosseira.
As primeiras cantigas foram interpretadas na rua. De popular, a dança vai passar a ser também aristocrática na corte da inglesa Filipa de Lencastre, mulher de D. João I. Mas nunca deixou de ser popular e nunca o povo deixou de cantar e dançar.
Por esta altura, já Santarém tinha escolas e mestres de música. A aprendizagem e a divulgação da música era mesmo incentivada por decisões reais, ao contrário do que viria a acontecer mais tarde. De 1442 é uma carta régia a isentar do pagamento das dízimas «aqueles que trouxessem harpas, aludes e guitarras.»

De Maria Moura: Small is beautiful

Desde o micro-crédito até às pequenas e médias empresas, tudo isso alimenta as comunidades próximas. E dá vida às vilas e aldeias, que actualmente estão a ficar desertas.

Desertas de vida, desertas de actividade económica e desertas de esperança e emoção positiva.

Estaremos perigosamente a enveredar por um caminho sem saída? O do capitalismo desenfreado e selvagem?

Para mim, selvagens, só as praias desertas…mas infelizmente tambem estão desertos os sentimentos, as emoções, o que faz do homem um ser solidário mas que se transformou num ser profundamente egoísta.

Há cada vez mais um retorno às coisas simples da vida, ao tempo de “deixar passar o tempo”, à medida que nos apercebemos que estamos a ficar escravos das necessidade que nós próprios criamos.
Lembro-me do episódio com Sócrates, o filósofo, que estaria a apanhar sol, quando dele se aproximou o Imperador que muito o admirava. Pede-me tudo o que desejas ! E Sócrates, não me tires o que não me podes dar, que era o sol que a sombra do  cavalo do Imperador lhe tirava.
Dependemos de tudo, desde o esquentador, ao carro, do cimbalino, ao telemóvel, até do Aventar…

Recebido da nossa leitora Maria Moura

Santarém, Capital do Gótico (VII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

Entre os séculos XII e XVI, Santarém assumiu-se como uma das mais importantes cidades do país, ao lado de Lisboa, Coimbra e Évora. Pode-se mesmo dizer que estes foram séculos de ouro para Santarém.
Em 1186-87 e em 1198, D. Sancho I concede novos forais a Santarém, renovando os privilégios anteriormente concedidos. Em 1204, estes são ampliados com novas concessões. Os últimos meses da sua vida, passou-os D. Sancho I em Santarém. Atormentado pela doença, procurava nos médicos da cidade o alívio para o seu sofrimento.
D. Afonso II, em 1214 e 1217, e mais tarde D. Afonso III, confirmam tudo o que antes fora fixado. A autonomia municipal ia-se afirmando a cada dia que passava, muito por acção dos procuradores e outros oficiais do concelho, que assim a reivindicavam.
Ainda em relação a D. Afonso II, a trágica história da sua vida está indelevelmente ligada a Santarém, cidade que visitou frequentemente desde 1217 e onde passou a viver em 1221 e até à data da sua morte, dois anos depois. Através dos documentos, é possível saber o nome de seis médicos que trataram da sua doença, a lepra: dois cónegos de Lamego, dois mestres de Évora, um de Lisboa e outro do Porto.
Em Santarém se reuniram as cortes por treze vezes, entre 1273 (D. Afonso III) e 1477 (D. Afonso V). Pelo meio, as de 1331, 1334 e 1340 (D. Afonso IV), 1383 (D. Fernando), 1396, 1406, 1413 e 1418 (D. João I), 1433 (D. Duarte), 1451 e 1468 (D. Afonso V). Tão grande número de cortes demonstra que Santarém rivalizava com Évora no título de segunda cidade do país.
A presença da família real em Santarém, durante longas temporadas, contribuiu largamente para o prestígio que a cidade adquiriu. Várias razões justificam que assim tenha acontecido com Santarém e não com qualquer outra cidade: a localização geográfica, a importância estratégica, a riqueza agrícola e cinegética, a organização administrativa, as condições de alojamento e o contacto com a religião.
Em relação à localização geográfica, a proximidade de Lisboa e a posição de charneira entre litoral/interior e norte/sul contribuiu de forma decisiva para as escolhas reais.
A importância estratégica de Santarém há séculos que era conhecida. Não foi por acaso que os primeiros povos a escolheram para viver. Quanto aos nossos reis, começaram por reforçar a sua vertente simbólica e defensiva, fazendo obras nos paços da porta de Leiria e declarando-a sua sede política.
A riqueza agrícola e cinegética ajudou a que Santarém se tornasse naquilo que foi. Terra da abundância, de fácil acesso por terra ou por rio, proporcionava aos monarcas e à sua extensa plêiade os intensos prazeres da caça de montaria.
Para além de tudo, Santarém era uma vila muito bem organizada do ponto de vista administrativo, ao ponto de os reis utilizarem frequentemente os seus escrivães, tabeliães e notários.
Tinha palácios reais, nobres e burgueses e o serviço de aposentadoria, pelo que dispunha de todas as condições para receber, com frequência, tão numerosa comitiva.
A forte presença clerical na cidade ajudava, evidentemente, ao forte sentimento de ligação entre o poder espiritual e o poder real, que nunca os reis deixaram de utilizar em seu proveito. Obviamente, a Igreja Católica beneficiava também desta situação através de privilégios, fundação de mosteiros e conventos, instituição de capelas reais, apresentação de clérigos ou utilização de espaços religiosos para usos palatinos.
«Outra razão da expansão da cidade medieval foi a presença real, configurada no eixo governativo do reino de Portugal, basilado entre Coimbra-Santarém-Lisboa e depois, já no século XV, Santarém-Lisboa-Évora. A presença do rei, da corte e a reunião de cortes na vila atraem vagas de missionários, pregadores cristãos e das ordens monásticas para vincularem as populações locais – de formação e herança moçárabe – aos princípios religiosos do cristianismo europeu. A luta contra as heresias, fossem quais fossem, transforma Santarém num dos mais importantes centros religiosos do país no século XIII-XIV. (…)
As procissões, associadas não apenas aos cultos prestigiados, mas também aos «milagres» sabiamente explorados pelas novas ordens, tornam as ruas e os adros das igrejas locais de acontecimentos, onde a vida social e cultural se extroverte em manifestações públicas. A quantidade de procissões realizadas no espaço urbano de Santarém faz da vila uma urbe de grande dinamismo e mobilidade social, talvez em correspondência com a actividade comercial e portuária e a realização de feiras, uma das quais se constitui em feira franca» (José Augusto Rodrigues)
Em finais de 1273, D. Afonso III reúne a primeira das muitas cortes que se realizaram em Santarém, cortes essas que se prolongaram até meados de 1274. Aqui se tomaram medidas importantes sobre a administração do reino e sobre os domínios da igreja.
Data do seu reinado a primeira referência aos novos paços reais, construídos junto à porta de Leiria e que tiveram como função substituir os velhos paços da Alcáçova. Um dos principais objectivos era construir um novo complexo defensivo que pudesse garantir a segurança da parte norte da vila.
Por esta época, já Santarém se assumira como um dos mais importantes centros religiosos de Portugal e da Europa medieval. A razão, encontramo-la na chegada de pregadores dominicanos e franciscanos mas também no Santíssimo Milagre da Hóstia, de 1266, que pareceu confirmar as expressões utilizada na Idade Média para designar a cidade. «Paraíso deleitoso» chamaram-lhe no tempo de D. Afonso Henriques, «paraíso de Portugal» no de D. Dinis. Clérigos, frades e teólogos scalabitanos ascenderam então à categoria de santos e bispos, no nosso país e no estrangeiro. S. Frei Gil de Santarém, Bernardo de Morlans e Santo António de Santarém chegaram mesmo a atingir projecção internacional. O primeiro destes viu a sua vida descrita em romances históricos da autoria de João Grave e Teófilo Braga.
Para além de tudo o mais, fundaram-se ao longo da centúria nada menos de cinco instituições religiosas: o convento da Trindade em 1208; o convento de S. Domingos cerca de 1220; o mosteiro das Donas em 1240; a casa dos Franciscanos dois anos depois; e o mosteiro de Santa Clara em 1259.
Nos inícios do século XIII, eram sete as paróquias constituídas em Santarém, sete na parte alta da cidade e cinco na parte baixa. Duas delas unir-se-iam em breve, Santa Iria a Velha e Santa Maria de Palhais, para dar origem a Santa Iria a Nova. Mas logo surgiriam outras quatro: S. Bartolomeu de Alfange, Santa Cruz da Ribeira, S. Mateus da Ribeira e S. Lourenço.
Cada uma das zonas em que o burgo se divida na Idade Média desempenhava o seu papel específico. Alcáçova fora o gérmen da cidade cristã e era agora o centro da fixação aristocrática; Marvila era sede de cavaleiros e mercadores, com o aljube, o açougue velho e as estalagens; S. Martinho era zona de mesteirais e comerciantes, incluindo a judiaria; S. Nicolau era zona de feira e também de prostituição. A seguir a Lisboa, Santarém assumia-se como a mais importante e mais monumental cidade do reino.
Desde que Santarém fora definitivamente tomada aos mouros, uma outra instituição católica vai assumir importância crescente: a colegiada de Santa Maria da Alcáçova. Um símbolo dos novos tempos, um símbolo do cristianismo que a partir daí dominou toda a região. Mandada construir em 1154 por D. Hugo, a igreja de Santa Maria destinava-se aos Templários, pela sua valiosa participação nas acções de Reconquista.
Os membros do Templo acabaram por se transferir para o castelo de Ceras, pelo que a igreja foi transformada em capela real. Foi a partir deste momento que se começou a formar o amplo co
nj
unto patrimonial da instituição. Um património que, ao longo dos séculos, foi possível reunir graças às habituais doações feitas pelos fiéis, que dessa forma se procuravam livrar da ameaça do inferno, mas também através da presúria e da compra.
Essas doações patrimoniais atravessavam transversalmente toda a sociedade portuguesa, da mais humilde população anónima ao próprio rei. Aliás, muitos dos monarcas, sobretudo da primeira dinastia, agraciaram a instituição em troca da celebração dos seus aniversários e dos dos seus antepassados. D. Sancho I, por exemplo, doou em 1209 mil morabitinos para a compra de herdades. Curiosamente, a lei de 1211 que proíbe a futura aquisição, por parte das corporações religiosas, de propriedades fundiárias, deixa de lado aquelas que têm como contrapartida os tais aniversários reais anteriormente referidos.
Naturalmente, a primeira situação ocorreu em maior número, como seria de esperar. Quanto à presúria, foi feita sobretudo à custa das terras conquistadas aos mouros. A compra, por seu lado, ocorreu poucas vezes na história de Santa Maria de Alcáçova, mas ainda assim, representou cerca de 7,5% do total de terrenos adquiridos até aos inícios do século XIV. Quanto à natureza destas compras, dir-se-á que desde os anos de duzentos que os cónegos de Santa Maria de Alcáçova se preocupavam sobretudo com a aquisição de património urbano. Muito mais do que com as vinhas ou com qualquer outro bem rural.
Qualquer que tenha sido a forma de aquisição patrimonial, o certo é que, em pleno século XIII, já a circunscrição da colegiada abrangia toda a região periférica de Santarém, de norte a sul e de oeste a leste. Incluíam-se nos seus bens, entre outros, a ermida de Santa Maria do Monte, o padroado de Santa Iria e Santa Cruz, um moinho no Alviela e casais em Alpiarça e em Trava. Já no século XIV, vem juntar-se àquele património a quinta do Lavradio, rendimentos sobre bens nas aldeias de Cerveira e Marmeleira, domínios em Almada, Lavradio do Ribatejo, Cortes, Seteais e Lisboa.
Dado o notável conjunto de terras de sua propriedade, a colegiada de Santa Maria de Alcáçova tinha a possibilidade de diversificar as suas culturas. Ainda assim, a vinha e a oliveira predominavam, aquela com grande implantação na zona de Alvisquer, esta em Manteigas. Quanto aos cereais, acompanhavam o curso do rio Tejo, desde Valada a Alpiarça e Traça.
As rendas dos locatários dos domínios da colegiada eram pagas através de um contrato de arrendamento, aforamento ou emprazamento. O pagamento podia ser fixo (em dinheiro ou em géneros) ou variável (percentagem das colheitas). Dezembro era o mês eleito para a maior parte das cobranças.
A partir de 1394, em virtude de uma disposição papal, o padroado da igreja passou para a Ordem de Avis. Foi nesta altura que começaram a surgir conflitos relativamente à titularidade dos bens da colegiada. A solução para resolvê-los foi clarificar os limites entre os bens que pertenciam aos cónegos, os que eram do prior e ainda os que deviam ser divididos entre as duas partes.
Mas voltemos ao século XIII. Se D. Afonso III dirigiu as suas atenções para Santarém, D. Dinis não o fez menos. Como forma de substituir a Ordem dos Templários e a sua influência no país, D. Dinis tentou junto do papa que, com os bens dos Templários, se constituísse uma nova milícia, exclusivamente portuguesa, à qual seria doada a vila fronteiriça de Castro Marim, no Algarve.
O objectivo era o de evitar que os extraordinários bens da extinta ordem fossem agora parar a mãos estrangeiras. E assim foi conseguido, em especial graças aos enviados de D. Dinis a Roma. Perante o Vaticano, conseguiram provar que a anexação dos bens dos Templários pelos cavaleiros da ordem do Hospital, como Clemente V transitoriamente fizera, seria prejudicial ao país, pelo que esses bens deviam ser incorporados numa nova ordem totalmente portuguesa.
João XXIII, em Março de 1319, autoriza, pela bula Ad ea ex quibus, passada em Avignon, a criação da ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, que D. Dinis já formara em 14 de Agosto do ano anterior. O monarca estava em Santarém quando, a 5 de Maio, chegou o documento pontifício, de imediato ratificado.
A insígnia dos cavaleiros de Cristo era uma cruz vermelha, de braços quase iguais, fendida no meio com outra branca. Em 1789, as insígnias de grã-cruz e comendador foi aumentada com um coração, em memória do monumento ao Santíssimo Coração de Jesus, culto que a soberana pretendia restabelecer. Viria a ser extinta em 15 de Outubro de 1910, poucos dias depois da instauração da República, e restaurada, com alterações, em 1 de Dezembro de 1918. A sua sede inicial foi Castro Marim, conforme prometido por D. Dinis, mas em 1356 voltaria para Tomar.
O «rei lavrador» já não chegaria a assistir a essa transferência de sede, pois a sua missão ficara cumprida muito antes. Morreu a 7 de Janeiro de 1325 em Santarém. O seu sucessor, D. Afonso IV, era aclamado dois dias depois, ainda e sempre em Santarém. De resto, ambos travaram lutas violentas na cidade, que chegaram a incluir a vinda de um emissário de Santiago de Compostela, vindo pelo papa, para apaziguar os ânimos e celebrar, com a sua presença, a ansiada paz.
Em 18 de Abril de 1331, D. Afonso IV vai tomar a iniciativa de transcrever integralmente o articulado do foral de 1179 e os Costumes Subsequentes. Erradamente conhecido como o Foral de D. Fernando, foi uma decisão que patenteia a ocorrência de agravamentos, por parte do rei e dos seus funcionários, às liberdades vicinais.
De resto, também D. Constança, mulher de D. Pedro I, viria a morrer na cidade em 1345; o seu filho, o rei D. Fernando, que recusou o panteão do pai em Alcobaça, viria a fazer-lhe companhia, em 1383, no seu sarcófago do convento de S. Francisco. Para tal, mandara construir alguns anos antes um coro-alto a meio da nave central, que segundo Mário Tavares Chicó é «a mais bela manifestação de arte gótica do país antes da construção do mosteiro da Batalha».
Em 18 de Janeiro de 1359, catorze anos depois da morte da esposa, D. Pedro I manda executar em Santarém Pero Coelho e Álvaro Gonçalves, conselheiros de seu pai D. Afonso IV e assassinos de Inês de Castro, o grande amor da sua vida.
D. Fernando vai assinalar de diversas formas a sua predilecção por Santarém. O chamado tratado de Santarém, de 19 de Março de 1373, foi assinado na vila e representou mais uma das muitas derrotas fernandinas face a Castela, sendo que neste caso o opositor era Henrique II, que chegou a deslocar-se a Santarém, em episódio assaz humilhante, para exigir o cumprimento do clausulado. Dois anos depois, em 1375, estava o «rei formoso» em Santarém no momento em que foi publicada a lei das Sesmarias. Finalmente, fez questão de se sepultar ao lado de sua mãe no coro-alto do convento de S. Francisco, como já se disse.
Quando o rei morre, D. Leonor Telles, a viúva, manda gritar pela cidade «Real pela rainha D. Beatriz de Portugal, nossa Senhora!», no que é apoiada pelas classes sociais superiores, interessadas nos cargos políticos e nos títulos que daí podem advir. O rei de Castela chegou a eleger Santarém sede da causa castelhana e a cunhar aqui uma nova moeda, o real de D. Beatriz, mas D. João I de Portugal viria a conquistar a cidade depois de Aljubarrota.
Para além de D. Beatriz, filha do rei D. Fernando, que era menor de idade e casada com o rei de Castela, tinham ambições os infantes D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro e Inês de Castro. A alta nobreza e a maior parte do clero apoiava o infante D. João ou, se este não o pudesse ser, o infante D. Dinis – argumentavam que Pedro e Inês casaram em clandestinidade, logo os filhos eram legítimos.
Quanto aos representantes dos concelhos e da baixa nobreza, apoiavam o Mestre de Avis. Durante as cortes convocadas para resolver o delicado problema, João das Regras defende que D. Beatriz era ilegítima, porque Leon

or Telles casara com D. Fernando quando ainda era casada com outro homem. Os infantes D. João e D. Dinis também eram ilegítimos, porque nunca houvera casamento entre D. Pedro I e Inês de Castro – e mesmo que tivesse havido, esse enlace era considerado nulo.
Por vir da linhagem real de D. Pedro e pelos serviços que prestara desde 1383 como Regedor, período no qual se incluiu o Cerco de Lisboa, o Mestre de Avis conseguiu obter a concordância dos presentes nas cortes e tornou-se, em 6 de Abril, depois de mais de um mês de discussão, o primeiro rei da segunda dinastia.
Numa das cortes, as de 1433, D. Duarte, que acabava de iniciar o seu reinado, fez publicar a Lei Mental. Tratou-se de uma medida de centralização régia, que tinha como objectivo defender o património da coroa e até aumentá-lo. Aliás, em virtude da publicação desta lei, muitos bens de privados foram revertidos a favor do Estado. Uma medida que fora idealizada no reinado do seu pai, D. João I, por conselho de João das Regras. Na prática, impedia-se o acesso à sucessão dos bens das esposas, dos ascendentes e dos colaterais. Apenas os filhos primogénitos e legítimos teriam acesso àquela prerrogativa. Uma forma de enriquecer a coroa, como se disse, ainda uma forma de «pôr em respeito» as classes privilegiadas, de lhe cortar as unhas e encolher os braços», no dizer de Alexandre Herculano.
Em 1449, foi de Santarém que D. Afonso V partiu para combater o infante D. Pedro, num recontro que teria lugar em Alfarrobeira e que culminaria com a morte de um dos membros da Ínclita Geração.
A 10 de Novembro de 1477, o príncipe D. João é aclamado rei em Santarém, depois da abdicação de Afonso V, que decidira dedicar-se à religião, mas só virá a suceder-lhe verdadeiramente em 1481, por morte do monarca.
Finalmente, é D. Manuel I que vai conceder foral a Santarém, em 1 de Fevereiro de 1506. Numa política de centralização da política régia, que se estendeu a todo o país, o foral foi adaptado à lei geral em vigor no país. Esta reforma, que se estendeu a todo o país, era há muito reivindicada, pelo menos desde o reinado de D. Afonso V, pelos vários concelhos do reino, que se sentiam pressionados e oprimidos por disposições muito antigas.
As preocupações centralizadoras modernas estão bem presentes no texto do foral, mas as tabelas tributárias arcaicas, aproveitadas de um passado distante, mantêm-se. É dado grande destaque à portagem, imposto pago ao rei pela entrada e saída de mercadorias da vila. Estavam isentos do seu pagamento ermitães, clérigos das ordens sacras, frades, freiras e beneficiados das várias igrejas. Para além disso, produtos como pão cozido, bolos, biscoito, queijadas, folares, farelos, cal, cinza, bagaço de azeitona, ovos, leite, nata, queijos frescos, requeijões, manteiga crua, gado e outros animais, uvas, figos verdes, favas verdes, hortaliças, carqueja, tojo, palha, vassouras e outros também estavam isentos.
Em termos judiciais, o assalto à residência alheia, o homicídio e a violação eram os crimes considerados mais graves. A pena podia variar, consoante o crime fosse cometido dentro ou fora da cidade. Mulheres e indivíduos com menos de doze anos não poderiam ser castigados em nenhuma circunstância.

Santarém e os Descobrimentos

Santarém participou activamente na grande gesta dos Descobrimentos. Não foi daqui que partiram as caravelas, mas foi aqui que se tomaram muitas das mais importantes decisões políticas e estratégicas; e foi aqui que se reuniram muitos dos meios materiais e humanos necessários à consecução dos objectivos propostos e das directrizes traçadas.
É possível, dentro da cidade, fazer a rota do norte de África, do Oriente ou do Brasil, como propõem alguns roteiros, evocando figuras que nasceram ou viveram em Santarém, obras de arte oriundas daquelas regiões, túmulos de descobridores, conquistadores e governadores. Não é por acaso que no Brasil há cidades com os nomes de Santarém (do Pará) e Almeirim.
Foi uma das povoações que mais gente forneceu para a expansão marítima. É visível esta realidade no número de escudeiros scalabitanos que estava na casa do infante D. Henrique e no número de famílias nobres daqui naturais que se envolveram nas guerras de África, das quais o melhor exemplo é o caso de D. Duarte de Meneses na batalha de Alcácer-Quibir.
Três governadores de Ceuta, dois capitães de Tânger, um capitão de Alcácer-Ceguer, um governador da Mina e vários vice-reis e governadores da Índia nasceram em Santarém. Foi em Santarém que, em Maio de 1487, D. João II organizou parte da viagem que no ano seguinte culminaria com a chegada à Índia de Vasco da Gama. Naquela data, o monarca incumbia Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva de irem à Índia por terra para recolherem informações sobre as rotas das especiarias e o poder militar dos reinos orientais. Em Santarém viveu e morreu, em 1520, Pedro Álvares Cabral. Fernão Lopes de Castanheda, o mais importante historiador dos Descobrimentos, era também natural de Santarém.
De Santarém partiam manufacturas (panos, linho e curtumes), minérios (metálicos ou não) e produtos agrícolas e silvícolas (madeiras, vinhos, cereais, azeite, mel e cera). Partiam inicialmente para Lisboa, mas o destino final era os territórios ultramarinos.
Foi no concelho de Santarém que, a partir do século XVI, se procedeu às primeiras plantações de pinhais, para acorrer às necessidades da construção naval e de madeira e lenha para Lisboa.
De todos os territórios ultramarinos, foi com a Mina que Santarém estabeleceu laços mais fortes. Dali vinha o ouro, os escravos e a pimenta de rabo. Os dois navegadores que a descobriram, em 1471, estavam ligados à vila. João Afonso de Santarém era daqui natural, Pero Escobar tinha ligações familiares. Fernão Lourenço da Mina, tesoureiro da feitoria em meados do século XVI, tinha propriedades em Santarém.
Com a Índia, Santarém estabeleceu também um contacto estreito. Daqui partiram por terra, rumo à Índia e à Abissínia, em Maio de 1487, Pero da Covilhã e Afonso de Paiva. Naturais de Santarém eram muitos dos portugueses que viveram na Índia, entre 1500 e 1530, como capitães (Rui de Brito, Vasco de Lima, Tristão de Paiva e Lopo de Sousa Coutinho), pilotos (João Leite, Fernando de Lima), escrivães de naus (Garcia Mendes, João Fernandes de Sau e Gonçalo Gil Barbosa, escrivão da armada da Pedro Álvares Cabral) e soldados (António de Sá, Rui de Melo, João Guedes, Jorge de Mascarenhas), muitos deles com vasto património na vila. Os Bobadilhas, os Saldanhas, os Anaias, os Patalins, os Cabrais e os Noronhas, todos com ligações à vila, andaram pela Índia. A própria toponímia é o reflexo desta realidade. Nomes como Paul do Arroz não existiam antes do século XVI.
Alguns missionários naturais de Santarém encontram-se entre os ocidentais que se fixaram no Japão, como Gabriel de Maria, autor das Cartas do Japão (1603-1614) e da Relação da perseguição que teve a cristandade do Japão desde Maio de 1612 até Novembro de 1614, livro impresso em Lisboa em 1618.
Quanto ao Brasil, a ligação é reforçada pela toponímia e pela genealogia. Daqui eram naturais Francisco Pereira Coutinho, primeiro donatário da capitania de Salvador da Baía, Estácio de Sá, fundador da cidade do Rio de Janeiro, e D. Diogo de Meneses, governador do Brasil.
A vida quotidiana de Santarém foi muito influenciada pela expansão e em especial pela Mina. Era necessário abastecer o comércio com aquela feitoria, sobretudo através da produção de tecidos listados, os alambéis, que iam servir para as trocas comerciais com os africanos. O maior centro de produção de alambéis em Portugal era a Ribeira de Santarém, sendo que a cidade tinha o monopólio da sua venda para a Mina.
A actividade era tão importante que o foral de 1506 refere-se expressamente aos alambéis, como um dos panos a pagar portagem, a exemplo da restante «roupa

mourisca». Em 1537, estão registados em Santarém vinte e um empresários que se dedicavam à produção dos alambéis. Sob a jurisdição daqueles, trabalhavam certamente muitos tecelões e tintureiros. Para os fabricantes de alambéis, os privilégios concedidos por D. Manuel I eram grandes, desde que vivessem em Santarém.
Outra das importantes consequências da expansão em Santarém foi a acumulação de capital. O dinheiro era usado para comprar objectos de luxo ou que, pelo menos, reflectissem um nível de vida que os seus proprietários não tinham: castiçais, copos, colheres, taças, anéis e relicários, tudo em ouro e prata.
O enriquecimento de igrejas e conventos vai ser uma das consequências imediatas destas vastas riquezas que, muitas das vezes, lhes eram deixadas em testamento. Foi o caso de D. Margarida de Aragão, viúva de Pêro Vaz Soares, que em 1506 deixou um cálice de prata à igreja do Salvador, entre outras doações.
Ao mesmo tempo, à medida que a agricultura ia empobrecendo, as terras iam-se tornando mais baratas. E as instituições religiosas aproveitavam para investir, aumentando dessa forma o seu património imobiliário.
«Mas são muito mais impressionantes os objectos que afluem dos novos mundos: pentes, espelhos e colheres de marfim; peças de brocado, esteiras e catres da Índia, mesas de cedro, panos da Índia, alcatifas de Cambaia, vasquinhas de Cataio, bandejinhas da Índia, porcelanas, grãos de aljôfar, especiarias e tantas outras sugestões exóticas que povoavam as imaginações de fascínio e abarrotavam de gente as naus da Índia.» (Maria Ângela Beirante)
Desse período de grandeza da história de Portugal, Santarém guarda inúmeros vestígios. Os seus monumentos, que adiante descreveremos em capítulo próprio, são o testemunho vivo dos séculos de ouro da cidade.
Com esses monumentos, é possível seguir uma verdadeira rota dos Descobrimentos. Também lhe poderíamos chamar rota da Memória, porque é disso mesmo que se trata, de recordar em conjunto a memória de um povo e de uma nação que foi grande e que hoje se ufana, porque mais nada lhe resta para se orgulhar, das suas recordações.
Podem-se estabelecer três itinerários nesta rota dos Descobrimentos: o itinerário de África, o itinerário do Oriente e o itinerário do Brasil e Novo Mundo. São três etapas que, no fundo, simbolizam um único momento, o momento expansionista português.
O itinerário africano inclui a igreja de Santa Maria da Graça (onde se encontra sepultado, entre outros, o primeiro capitão de Ceuta, D. Pedro de Meneses), a igreja de S. João do Alporão (túmulo do capital-general Duarte de Meneses), a igreja de Santa Cruz da Ribeira e o convento de S. Francisco (vários túmulos de figuras ligadas à exploração e conquista do norte de África).
O itinerário oriental é composto pela igreja do Santíssimo Milagre (arte), pela igreja da Misericórdia (túmulo de um vice-rei da Índia), pela igreja da Nossa Senhora da Graça, pelo convento de S. Francisco e pela ermida da Senhora do Monte (vários túmulos).
O itinerário do Brasil e do Novo Mundo, por fim. A presença de Pedro Álvares Cabral, em Santarém para morrer, será o facto mais significativo da ligação entre Santarém e as terras de Vera Cruz. Neste itinerário, pode ver-se a igreja de Santa Maria da Graça, com o túmulo do descobridor, e logo ao lado a Casa do Brasil, centro cultural de apoio à divulgação da epopeia de Pedro Álvares Cabral e das relações luso-brasileiras que ocupa o espaço eventualmente habitado pelo navegador. Num dos lados da praça, a estátua daquele, da autoria de Soares Branco (1971). Visite-se ainda a igreja do convento da ordem terceira de S. Francisco (lápide de D. Joana Coelho, filha do capitão de Cabo Verde Jerónimo Coelho); a igreja do colégio da Companhia de Jesus de Santarém (várias pinturas relativas à expansão, entre as quais a de um ameríndio do Brasil); a ermida da Senhora do Monte (renovada por Lopo de Sousa Coutinho, militar do primeiro cerco de Diu e capitão de S. Jorge da Mina, conserva a sepultura de Duarte Sodré, um ascendente de Vasco da Gama).

A ARTE (8)

A ARTE (8).

Para que serve a Arte?
Para quem cria, a obra é um processo de aprendizagem permanente. A criação espevita a nossa reflexão, desenvolve todo o processo de humanização, cria uma singular afinidade com a consciência, aproxima-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, afina as emoções e os sentimentos, apura o sentido da beleza, da ética, da estética e até da justiça, dado que esta se pode considerar fruto da harmonia e do equilíbrio, as grandes traves da Arte e da verdadeira vida.
A Arte é uma relação de vida. A montante e a jusante da Arte existem as emoções e os sentimentos. A montante prevalecem as emoções e os sentimentos do autor da obra, a jusante predominam as emoções e os sentimentos daqueles que contemplam a obra criada. Pode dizer-se que a Arte é uma espécie de degrau entre este desnível do mundo interior e do mundo exterior, uma espécie de portal entre duas dimensões, o principal factor na equação que um dia poderá resolver o problema da paz individual e colectiva.
Quando alguém produz uma chamada obra de Arte, neste caso uma pintura, introduz na tela toda a sua vida, ainda que inconscientemente, todas as suas vivências, todas as suas memorizações, todas as suas aprendizagens, todas as suas emoções, todos os seus sentimentos, paixões e devaneios, todas as suas frustrações, todas as suas potencialidades reflexivas, toda a sua cultura, toda a sua visão do mundo e das coisas. Quem contempla essa obra não vai ver a obra do autor mas a sua própria obra, a obra de quem a vê, dado que vai contemplá-la através das suas próprias vivências, através da sua cultura, das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua visão do mundo e das coisas, que podem não ter nada a ver com os elementos da estrutura mental do criador da obra. A contemplação de um quadro não exige forçosamente uma análise intelectiva. É muito mais importante o impacto que a obra produz no espectador. Ela actua sobre o seu sentir e não só sobre a sua inteligência. Claro que um espectador pouco inteligente, sem imaginação, sem sentimento artístico, vazio de ideias e de ideais, não verá nada. A obra funciona de estímulo, mais ou menos poderoso e profundo, capaz de desencadear toda uma cascata de sentimentos no observador, por vezes muito mais intensos do que os do criador, podendo ter a força requerida para desnudar o seu íntimo e arrancar-lhe emoções muitas vezes desconhecidas, apagadas ou esquecidas no mais recôndito dos seus arquivos mentais. (Continua).

                     (adão cruz)

(adão cruz)

TRIBUNAIS? JUSTIÇA? O QUE É ISSO?

Ratzinger

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Passei a vida a correr
tropeçando nas sombras
arrumei ao canto da luz mil horas vazias
a curricular futuros
para ser gente na praça dos homens.
Pisei os passos pequeninos
nos avessos da verdade
e palmilhei léguas
a tossir poeira.
Peregrino de ilusões
fui renascendo de amor
nos infinitos da fantasia
que os outros mataram.

                            (adão cruz)

(adão cruz)

QUADRA DO DIA

Jardim e outros que tais
Lá da opus e quejandos
Aprenderam bem de mais
Que costumes não são brandos.

ISTO DÁ-ME QUE PENSAR

.

JOVEM RETIRADA AOS PAIS, POR… QUERER VELEJAR SOZINHA

.

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Até daqui a dois anos, Laura, se tudo correr bem, poderão dizer os pais, que vêm a sua família destruída pela justiça do seu país.

Há crueldade neste caso? Da parte de quem?

E se a menina decidir ir de qualquer maneira, sem apoio seja de quem for? De quem é a responsabilidade?

Estado demasiado proteccionista, ou Estado como deve ser?

.

Desde os seis anos que a pequena veleja.

Tem quase quatorze. Uma vida inteira no mar.

Há três anos, com onze de idade, Laura já passara todo o verão a velejar sozinha.

Agora queria ser a pessoa mais jovem de sempre a dar uma volta solitária ao mundo.

Os pais, da menina holandesa, cientes das capacidades da sua filha, apoiam-na e pediram uma licença especial à escola, para que pudesse faltar durante dois anos.

As entidades holandesas, meteram-se no assunto e não só impedem a jovem de realizar o seu sonho, como retiraram a seus pais a sua tutela.

O caso está em tribunal para que cesse a autoridade dos pais sobre a menor, conforme pedido do Conselho Holandês para a Protecção da Criança.

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Decididamente, isto dá-me que pensar.

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CHEGOU O PROGRAMA A4

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SUCINTO E OBJECTIVO
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A classificação não é minha, é da sra dra Manuela Ferreira Leite.
O programa não é remédio para os males do nosso País.
A palavra de ordem é suspender e reavaliar.

Não é possível fazer tudo ao mesmo tempo.

Os cinco eixos principais do programa  são, a economia, a solidariedade, a saúde, a justiça e a segurança.

CAV e auto-estradas, suspensas e reavaliadas.
Novo aeroporto será feito aos soluços.

Avaliação dos professores será imediatamente suspensa.
Aumento do emprego e redução do número de deputados para 180.
Fomentar o investimento privado, nacional e estrangeiro, e eliminar os constrangimentos que se põem às empresas.
Afinal há programa, apesar do que se tem ouvido por aí.
O programa está apresentado, havendo agora trinta dias para que os votantes o estudem e reajam em conformidade.
Os outros partidos, como é evidente, vão achar mal, demagógico e populista.
A última palavra é a do povo, no dia 27 de Setembro.

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Quem dá esmola a um rico empresta a Manuela Ferreira Leite

Da blogosfera…

“O Aprendiz de Jurista

28 Agosto, 2009 às 2:47 am

«O mesmo se pode dizer das proclamações de combate à corrupção – o melhor seria anunciar, desde já, o dr. Preto para ministro da Justiça para dar melhor credibilidade à coisa.»

Meu caro CAA não lhes dê ideias…”.

Da blogosfera…

O Aprendiz de Jurista

28 Agosto, 2009 às 2:47 am

«O mesmo se pode dizer das proclamações de combate à corrupção – o melhor seria anunciar, desde já, o dr. Preto para ministro da Justiça para dar melhor credibilidade à coisa.»

Meu caro CAA não lhes dê ideias…

Colocações de professores ja sairam

Ver aqui.
(Aqui o vosso amigo ficou em Valbom, a 5 minutos de casa. Ao fim de 16 anos, já merecia, eh, eh).

Não podem entrar todos, mas sair já podiam?

Desde que o homem é homem e a mulher é mulher que se nasce num lugar e se morre noutro. Foge-se da miséria e da desgraça. Procuram-se vidas melhores. Muito antes de haver fronteiras, países, Estados, governos, leis. As migrações não são um fenómeno novo, nem velho. Fazem parte da condição humana: a da luta pela sobrevivência. As fronteiras vieram depois. Combater a imigração é como combater a chuva ou o sol. Sempre existiram, sempre existirão. E, talvez seja necessário dize-lo, ainda bem.

Daniel Oliveira escreve tudo o que eu gostaria de escrever sobre migrações. Leiam, sff.

A ARTE

A ARTE (7)

A descodificação de uma obra de Arte, ainda que parcial, pode ser um fenómeno redutor que empobrece a obra. Pode mesmo anular a sua própria hermenêutica, isto é, a força indutora das capacidades interpretativas. Qualquer explicação verbal terá de ser extremamente cautelosa pois pode substituir-se à obra, paralisar a sua essência ou cegar o espectador. Este deve enriquecer e iluminar a sua vida através do saber ver, do saber ouvir e sentir, e não se limitar à análise dos processos formais, simples elementos da construção desse mesmo sentir. O espectador deve deixar-se levar pelo que ecoa dentro dele, sem pretender colar-se ao que deve ser, ou àquilo que nos disseram que é ou que lá existe. A obra pode ser o que somos e muito pouco do que lá está. É por isso que não aceito de bom grado que se disseque uma obra de Arte em termos interpretativos, por vezes vincadamente objectivos, como fazem alguns críticos, historiadores e cicerones de museu. Que o façam em termos técnicos, históricos, museológicos vá que não vá, mas em termos sentimentais, em termos interpretativos, tantas vezes sob a forma de gastos e banais artificialismos de catálogo, massificando as formas de ver e de interpretar, em vez de tentarem estimular a individualização das formas de sentir, custa-me a aceitar. Ninguém vê com os nossos olhos, ninguém sente com o nosso íntimo, ninguém pensa com o nosso pensamento. (Continua).

                        (adão cruz)

(adão cruz)

CARTA ABERTA A BARACK OBAMA

CARTA ABERTA A BARACK OBAMA (7)
Ao sentir-me arrepiado, penso que uma boa parte dos povos do mundo e mesmo do povo americano e israelita, provavelmente se sentirá tão arrepiada como eu. Metade do mundo não é nem burra nem atrasada mental. Os criminosos sabem disso, mas têm nas mãos as armas que lhes permitem chafurdar em sangue e rir-se dos que se arrepiam, ainda que o façam do intocável alto da sua brutalidade, tão grande como a sua pequenez. Homens destes respiram fumo de pólvora, alimentam-se de sangue, corre-lhes petróleo nas veias e as circunvoluções cerebrais são armazéns de dólares. Longe de mim pensar que o Senhor poderia vir, um dia, a ser um desses!
Onde pára a comunidade internacional, aquela que se reclama de humana, equilibrada e defensora dos direitos humanos e do Direito internacional? Onde param os mandantes dos outros países que se dizem melhores? Onde se encontram esses melhores que nem coragem têm para ladrar quando a caravana passa? Ao tornarem clara a sua falta de coragem e dignidade para se imporem como contra-poder de humanidade e justiça, transformam-se em miseráveis cúmplices deste martírio universal.
Já repararam quantos milhares de bandeiras americanas e israelitas foram queimadas por esse mundo fora? Para qualquer ser humano deste planeta era motivo para parar e pensar. Para qualquer político humano, honesto e medianamente inteligente era razão para parar e pensar. Para qualquer cidadão americano que se considere pertencer a esta frágil espécie que, ao contrário dos outros animais, caminha na vertical, era motivo para parar e pensar. Para qualquer América que tivesse o mínimo de inteligência e respeito por si própria, era razão para parar e pensar. A esta América e a Israel, seu tentáculo direito, nenhuma razão os faz parar para pensar. Não tenho dúvidas de que há-de chegar o dia em que terão de pensar para parar. Mas nessa altura já não existem bandeiras para queimar.
Amigo Obama, não deixe que a lágrima de alegria que nos aflorou aos olhos no dia da sua eleição, se transforme em lágrima de sangue.
Um grande abraço amigo Obama. (Conclusão).

                         (adão cruz)

(adão cruz)

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Não sei o que nasce e renasce em mim.
Sei que na ilha deserta onde há muito naufraguei
por teimar na rota certa
não entra sol que acenda as ruas do meu intento.
Sei apenas que sendo meu barco de sonho e loucura
teu rosto reaparece
e diz-me
que a vida sabe a fel
e não vale a gota de mel
que deixas na minha boca.

                           (adão cruz)

(adão cruz)

QUADRA DO DIA

Dizem que está do seu lado
Até a justiça divina!
Lá no céu ó S. João
Olha bem quem é que assina!

Santarém, Capital do Gótico (VI)

(primeira parte e expicação do «bodo aos pobres» aqui)

OS SÉCULOS DE OURO

Depois de definitivamente integrada em Portugal, Santarém continuou a ser alvo de grandes privilégios e atenções. Foi escolhida diversas vezes para morada da família real; aqui decorreram muitas das cortes que nessa época se realizaram; foi terra preferida de nobres, poetas e trovadores, e por isso mesmo importante foco cultural. A «princesa das nossas vilas», expressão que acompanhava os actos públicos, era também designada como a «mui nobre e sempre leal vila de Santarém» (e invicta quase sempre, já agora). No fundo, para os primeiros reis, Santarém era muito mais do que uma vila. Até no brasão essa realidade era evidente. Mesmo que a promoção administrativa tenha chegado apenas no século XIX, Santarém foi cidade muito antes de o ser.
«Na Idade Média, o critério que distinguia as cidades das vilas não era demográfico, socioeconómico, cultural nem urbanístico. Mas histórico-eclesiástico ou político. As povoações-sede de bispado eram incondicionalmente cidades. Mesmo minúsculas, como a Guarda ou destituídas de muros como Viseu. Bragança é um exemplo de promoção por razões políticas – o único exemplo medieval. D. Afonso V, com efeito, deu-lhe o título e a carta para agradar ao duque. Santarém, rival de Évora e até, veladamente, de Lisboa, com corregedor privativo às vezes, residência régia amiúde, sede frequente de altos órgãos da monarquia, titular de assento no primeiro banco das cortes, nunca deixou de ser vila. Costumamos dizer que só lhe faltou para cidade sé e bispo titular.» (Armindo de Sousa)
Os cristãos, depois de tomarem Santarém – já poderemos chamar-lhes portugueses – aproveitaram grande parte das estruturas urbanísticas muçulmanas e visigóticas. Por esse tempo, já a herança romana fora deixada para trás em definitivo.
Mas houve algumas adaptações aos novos tempos que se viviam. A defesa militar foi uma preocupação constante, daí a entrega dessas funções às ordens militares: aos Templários, mesmo depois de saírem para Tomar, aos Hospitalários e aos da ordem de S. João do Pereiro.
Quanto à relação com os vencidos, a maior parte dos pró-islâmicos foi embora, mas alguns ficaram. Isolados em locais próprios da cidade, mais tarde vedados por muros próprios e completamente segregados, surgiram assim as mourarias de Santarém. O mesmo se dirá em relação à judiaria.

A Reconquista Cristã

O ano de 1093 pode ser considerado decisivo para a história de Santarém. A 30 de Setembro, o rei de Leão Afonso VI conquista todas as terras até à foz do Tejo e forma um condado, com capital em Santarém, cujo primeiro responsável vai ser Soeiro Mendes. «Era MCXXI secundo cal. Maii sabatho hora nona Rex donnus Aldephonsus cepit civitatem Santarém».
Data sensivelmente desta altura o primeiro foral de Sancta Herena, de 13 de Novembro de 1095, uma prova da grande importância que Santarém já adquirira. A despeito de alguns autores defenderem que foi o conde D. Henrique a atribuir o foral, não há dúvidas de que foi Afonso VI de Leão o seu autor. O objectivo era encorajar os cavaleiros da cidade a defenderem-na vigorosamente, visto que a sua localização, próxima de Lisboa, era propícia a um ataque dos almorávidas.
Um documento fundamental e que, mesmo no futuro, iria servir de modelo e de fio condutor para outros documentos do género, até porque foi um dos primeiros em todo o território nacional. Da mesma época, só S. João da Pesqueira (1055-1065) e Coimbra (1095). Mais de sessenta anos depois, em 1159, o articulado desse foral ainda serviu para ser aplicado ao território de Ceras (Tomar), dado aos Templários por D. Afonso Henriques.
Sob a tutela de Leão, Santarém passa a ser comandado, a nível militar, por D. Raimundo, e por Soeiro Mendes da Maia a nível administrativo, como alcaide. No entanto, a cidade não deixava de ser «uma ilha leonesa num autêntico mar islâmico até à linha do Mondego» (Jorge Custódio). Ou seja, se alguns territórios tinham já sido conquistados aos mouros, a maior parte continuava na sua posse.
Assim, em 25 ou 26 de Maio de 1111, Santarém voltaria a cair em poder dos muçulmanos sem que o conde D. Henrique pudesse fazer algo para o evitar. Consciente da importância estratégica da cidade, Sir Ben Abu Bakr adverte o seu califa Yusuf de que o destino de terras como Lisboa ou Sintra está completamente dependente do sucesso que se conseguir na manutenção de Santarém.
Andava bem avisado, o preocupado governante. Na manhã de 15 de Março de 1147, D. Afonso Henriques conquistou definitivamente a cidade e Mem Ramires hasteou no castelo o pendão de Santiago. Para o êxito da iniciativa contribuiu a comunidade moçárabe da cidade, que em muito apoiou a invasão e que, após a conquista, ocupou cargos importantes no campo das letras e da administração local.
Como não tinha forças suficientes para atacar Santarém, D. Afonso Henriques decidiu surpreender os ocupantes, atacando-os pelo lado nascente, de forma a que as suas forças não fossem detectadas.
Nos dias anteriores, o já referido Mem Ramires fora enviado para estudar as condições de defesa do castelo e a melhor forma de o atacar. Poucos sabiam dos preparativos, a não ser Lourenço Viegas, Pero Pais, Gonçalo de Sousa, D. Teotónio e alguns outros.
As tropas portuguesas saíram de Coimbra a 10 de Março de 1147, acompanhado por 250 homens de armas e por um número indeterminado de cavaleiros. No dia 13 estavam na serra de Albardos e no dia seguinte no alto de Pernes. À noite, desencadeou-se o ataque. «Concertadas todas as cousas necessárias para o assalto, e tomada a conclusão no modo dele, deixou el-rei a bagagem, e gente de serviço embrenhados na mata de Pernes.» (Crónica de Cister)
Mem Ramires atacou por Atamarma, D. Afonso Henriques pelo castelo principal. A vitória foi fulminante. Quando o sol nasceu, os cristãos já tinham conquistado Santarém.
A definitiva conquista da vila contribuiu decisivamente para a formação de Portugal, dada a sua importância estratégica e a forma como, assente lá no alto, dominava visualmente o vale do Tejo, servindo de sentinela à futura capital do reino.
«O cruzado franco Afonso Henriques conquistou a cidade inexpugnável. A tomada de Santarém de 15 de Março de 1147 (num assalto rápido, aproveitando por um lado a quebra das tréguas e por outro a surpresa da cilada táctica não prevista nos códigos habituais de guerra e que passou doravante a ser utilizada nas iniciativas guerreiras dos cristãos, acabando por se impor na estratégia medieval dos cavaleiros portucalenses), constituiu uma referência fundamental que distinguiu a actividade dos fundadores do Estado português antes e depois desse acontecimento. O seu significado reafirmou-se em sucessivos momentos da história de Portugal como acontecimento original e fundador da nova realidade política.» (Luís Mata)
Se até aí Santarém funcionara como cidade de fronteira, tanto para cristãos como para muçulmanos, a partir daí vai continuar a ser. Os limites do Condado Portucalense iam caminhando para sul e a linha do Tejo cada vez mais defendida.
Em Maio de 1179, D. Afonso Henriques concede foral a Santarém. Da leitura do mesmo se percebe a importância da cidade. Quanto ao texto, compreende-se bem a alteração de muito do que fora escrito no foral de 1095, até porque a realidade administrativa era totalmente diferente. O novo documento integrava as instituições concelhias entretanto criadas e em que desempenhava papel de destaque o grupo dos homens-bons da cidade. Estes tinham a seu cargo as principais funções governativas e administrativas e era a partir deles que se constituía o Senado.
Concedido ao mesmo tempo que às cidades de Lisboa e Évora, o foral de Santarém esteve na base daqueles e é c
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siderado o mais minucioso foral português, com privilégios maiores e mais apropriados a zonas urbanizadas como já eram as cidades referidas. Para além da organização da vida económica, a administração da cidade era definida de forma mais clara do que acontecera até então. Um dos principais objectivos era a fixação populacional num sítio que estava a ser constantemente atacado pelo inimigo.
Em Julho de 1184, Yussuf-Abul-Iucube, emir marroquino, ataca o castelo, mas a defesa aguerrida do príncipe D. Sancho, futuro D. Sancho I, afasta o invasor. Há quem diga que foi ainda D. Afonso Henriques, que morreu em Dezembro do ano seguinte, a defender o castelo.
Quanto ao califa, viria a morrer na sequência desse ataque. O seu exército até era um dos maiores que algum dia se tinha formado na Península Ibérica. Mas, para além do reforço das muralhas na Alcáçova e na medina, a fortificação cristã começava logo em baixo, no arrabalde de Seiserigo. Aí se construíram várias fortificações em madeira e se estabeleceu um palanque que dava acesso à Alcáçova. Ou melhor, que cortava o acesso à Alcáçova.
A derrota mourisca ficou na história, pela dimensão de que se revestiu, e prolongou-se pelo tempo. Foi aqui que a recessão do Islão começou de forma definitiva.
O motivo daquele ataque prendeu-se com os fossados de D. Sancho sobre as terras da Andaluzia. Na Idade Média, os fossados tratavam-se de expedições militares cristãs nos territórios vizinhos, ocupados pelos mouros, para saber das novidades, apreender gado e destruir. Geralmente, eram feitas quando os campos agrícolas estavam na fase da ceifa e as searas quase maduras. O nome fossados vem do facto de os exércitos, que atacavam de surpresa, se entricheirarem em fossos, cavados para proteger aqueles que tratavam de se apossar de colheita alheia.

Andamos a pagar impostos para esta merda?

“A viagem sozinho a Fátima corria bem até que, de noite, ‘António’ decidiu parar só para tentar comer qualquer coisa. Voltou com um hamburguer ao carro e, sentado ao volante, mal se distraiu já tinha uma pistola e facas apontadas à cabeça. Acabou sequestrado hora e meia pelos quatro homens que, enquanto roubaram o que puderam do seu multibanco, ainda o espancaram e fecharam-no dentro da mala do carro. A Polícia Judiciária já apanhou três, mas uma juíza libertou-os. E continuam a viver do Rendimento Social de Inserção. De resto, há muito que conciliam os enormes rendimentos no mundo do crime com uma vida recheada de subsídios à custa do Estado – que vai pagando sempre, apesar dos longos registos criminais por roubo, furto e tráfico de droga. Um deles até já cumpriu duas penas de prisão por vários crimes violentos”.

Notícia do Correio da Manhã de hoje.

À pergunta inicial, ficam outras: As milhares de leis que os nossos dedicados parlamentares e governantes aprovam todos os anos (é verdade, temos uma produção legislativa de fazer inveja aos escandinavos) resultam nisto? E ainda querem a nossa confiança?

Os partidos da ala esquerda ainda defendem que estes pobres desinseridos e que nunca tiveram uma real oportunidade na vida devem continuar a ser subsidiados?

O trabalho infantil do Miguel Abrantes

O funcionário governamental que se esconde sob o nome de guerra de Miguel Abrantes conseguiu, num simplex muito aflito onde tenta amortecer os textos do Paulo Guinote desmontando a recente manipulação estatística sobre sucesso escolar, escrever uma frase que subscrevo integralmente:

Manter os alunos na escola com aproveitamento em formações mais longas é muito mais útil e importante para eles e para a sociedade do que deixá-los sair precocemente para o mercado de trabalho.

Deve ter sido pela mesma causa que o Partido Socratista fez aprovar na AR o regime jurídico que regula o trabalho no domícilio que permite a menores de 16 anos executarem “trabalho doméstico“, desde que tenham completado a escolaridade obrigatória, o que na versão governamental está cada vez mais fácil, e é mesmo uma grande vitória da socióloga Rodrigues.

É que não estão bem no mercado de trabalho, estão em casa, embora talvez precisassem de uma formação mais longa. Não sei se entendem: cosem botas para a Zara, mas é em casa, não é no mercado. Não entenderam? Eu também não.

Visitas a escolas em Agosto

Que diabo levará a Ministra a trocar o sol e as praias pelas escolas? Nunca vi uma Ministra a visitar tantas escolas em Agosto… Será para não se encontrar com alunos ou com Professores?

ANO DE CRISE 2

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E VÃO MAIS 50 MIHÕES, SÓ PARA OS MAIORES
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Pensando bem, é uma verdadeira vergonha.
Não há dinheiro, não há emprego, a economia está de rastos, as empresas falem todos os dias, e gasta-se dinheiro desta maneira.
Estamos em ano de eleições e os partidos que nos querem governar, seja a nível nacional, seja a nível regional ou autárquico, precisarão de fazer as suas campanhas, de modo a convencer-nos das suas razões, mas será preciso gastar tanto?.
As pessoas que nos ficarão a governar, em todos os níveis, são tantas, mas tantas que mais parece que não sobra mais ninguém para ser governado. E vai ser preciso pagar a essa gente toda, durante quatro anos.
Dias atrás, escrevi aqui, sobre os gastos nas eleições Legislativas deste ano.
Já na altura, os valores anunciados pelos partidos, para os custos dessas eleições me deixaram arrepiado. Agora vimos a saber que nas eleições Autárquicas, os mesmos partidos se vão dar ao luxo de gastar, em conjunto, mais de sessenta e cinco milhões de euros. É uma perfeita e completa enormidade. Diria até, uma obscenidade.
Será que esta gentinha não vê que estamos em anos de crise e que o dinheiro faz muita falta para fazer subir a economia, para criação de empresas e emprego, para matar a fome aos mais carenciados e por aí fora numa quantidade enorme de situações necessitadas de auxilio?
E nós queremos votar em gente assim? Que não nos liga nenhuma? Que só olha para o umbigo próprio? Que só se importa com o tacho que irão conseguir apanhar?
Será que saberemos escolher bem, e separar o trigo do joio, na hora de votar? Saberemos ver quem se conteve nos gastos e quem não olhou a meios para obter os fins ansiados?
Falta pouco para saber.
Qualquer dia só haverá mandantes no meu País, e não tendo ninguém em quem mandar, vão viver em eterna campanha e pré-campanha e pós-campanha eleitoral, virados para dentro de si mesmos. Nessa altura, cada um se irá governando a si mesmo, e todos viveremos felizes e contentes.
Será que não estará na hora de se modificarem as regras, encolhendo prazos, encolhendo o número de pessoas a eleger, alterando as leis?

(In O Primeiro de Janeiro, 27-08-2009, pag. 2, Opinião)

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(In

Sporting…

chuveiro