Deputados de outro patrão

O Diário de Notícias avançou ontem que cerca de um quarto dos deputados portugueses trabalha para outro patrão que não o povo e o Estado português. Desses 59 deputados em regime de não-exclusividade, a maioria exerce advocacia, sendo que muitos deles representam escritórios com interesses que, não raras vezes, estão em conflito directo com o Estado e o país. Outros são avençados do Estado e das diferentes autarquias, participando, directa e indirectamente, nos mais variados negócios e na produção de leis. Outros ainda, que não são advogados, trabalham para empresas com interesses em comissões parlamentares das quais fazem parte. Mas não se passa nada. O problema são os familiares e os boys do bloco central. Os impolutos deputados que decidem sobre o nosso dinheiro, em função dos interesses de outros patrões, são para ser deixados em paz. Era o que mais faltava, não poderem fazer pela vidinha com o dinheiro da malta que vive acima das suas possibilidades.

Passos Coelho foi deputado em exclusividade

Passos Coelho assinou pelo seu punho declaração de que estava em exclusividade

Demite-te, salsicha!

basta já
Não espero que se demita quem não hesita em, chegado ao poder, desdizer TUDO o que disse nos anos anteriores.
Não espero que se demita porque esse tipo de gente não tem qualquer vergonha na cara. O rigor e a justiça é só para os outros. E porque no final os documentos oficiais vão desaparecer do Parlamento. E porque o pobre homem não sabia que estava a fazer mal. E porque já prescreveu. E porque a Procuradoria garantirá em tempo oportuno que não corre qualquer investigação contra o homem que desgoverna Portugal.
E da mesma forma que Pinto Monteiro foi o Cunha Rodrigues de José Sócrates, Marques Vidal será o de Passos Coelho. Tudo está bem quando acaba bem.

Essa coisa da representatividade

José Seguro tardava em resvalar para a demagogia. Tardava mas lá chegou. Como manda a boa cartilha da pior política que há décadas se faz em Portugal. Reduzir o número de deputados não tem qualquer interesse prático para resolver os actuais problemas do país. Nem, em bom rigor, levanta questões de representatividade. Isto, porque há muito que a representação do povo nas esferas do poder, cedeu lugar aos compromissos para se atingir o desejado poder: ninguém chega à chefia – primeiro do partido e depois do Governo – sem, pelo caminho, se comprometer com os patrocinadores que, mais tarde cobram a esmola ao santo pelos milagres convenientes. Veja-se, recentemente, os avanços e recuos do PSD e do CDS, na proposta de lei sobre o crédito à habitação, em sede de entrega directa da casa para pagamento total do empréstimo. Mais um a juntar ao rol dos exemplos do poder das vozes de dono. Não há bem ou interesse públicos que resistam. E se isto vale para os partidos do rotativismo governativo – PS, PSD e CDS -, também vale para aqueles cuja cegueira doutrinária e vassalagem externa, não se coibiram de tomar decisões absolutamente contrárias aos interesses de Portugal – sim, não esqueço que o PCP votou contra a entrada de Portugal na CEE. Por tudo isto, há muito que não temos quem represente o povo no poder, que cuide do bem e o interesse públicos. Temos partidos políticos que, ora por razões de praxis ideológica ora por ganâncias pessoais, particulares ou corporativas, há muito que não representam o povo. E, já agora, exigir exclusividade aos deputados da nação, impedindo-os de estar em simultâneo na defesa do interesse público e de interesses privados, talvez fizesse muito mais pela representatividade do povo, do que reduzir o número de parlamentares.

Ele faz tudo pelos meus amigos

O chefe do governo da Mota-Engil acaba de tentar desmentir a capa do Público de hoje. Afirma que a sua actividade residual como engenheiro técnico civil na especialidade de mamarrachos, exercida enquanto deputado e que abarca pelo menos 21 aberrações e não apenas as 4 até agora conhecidas foi feita à borla, para amigos.

O secretário geral da Teixeira Duarte tenta assim ilibar-se de ter exercido uma actividade que para ser ilícita nem precisa de ser remunerada, segundo a leitura que a Procuradoria-Geral da República faz do ser-se deputado em situação de exclusividade.

O líder da Somague aproveita mesmo para tecer algumas considerações sobre as opções editoriais do referido jornal, “que desistiu da ambição de um jornalismo de referência.

Desconfio que para os lados da Soares da Costa já poucos sobram que acreditem no seu chefe. Mas enquanto o pau vai e vem folgam as costas, e ainda restam algumas oportunidades de negócio durante a vigência do actual governo. E estejam descansados que Pedro Passos Coelho, a quem sobra a vantagem de não assinar projectos de arquitectura, não deixará de vos dar boas oportunidades de negócio a seguir.

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