Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os amigos. Como conheci Pacheco


Eu era assumidamente um amigo de «vintes». As cartas e postais que me mandava, terminavam com frequência assim: «Um abraço (manda vintes!)». Houve um período, na década de setenta, em que fui promovido – passei a mandar «cinquentas» e às vezes «cens». Nos últimos tempos, o Pacheco não precisava já destas ajudas – tinha a reforma, todos os filhos criados e relativamente bem na vida. Tinha colaborações pagas em jornais. E estava mais sereno, menos propenso às loucuras. Só a língua e a prosa continuavam soltas, aceradas e certeiras como setas de zarabatanas. Na minha relação com Pacheco houve três marcos – o Café Gelo, onde nos conhecemos, a revista Pirâmide, de que fui um dos coordenadores e onde eles colaborou activamente e Tomar, onde ele me visitou e onde, com um grupo de amigos, vivemos uma noite épica de copos.
Foi em 1957 ou 1958, quando comecei a frequentar o Café Gelo que o conheci. Ele era na altura funcionário da Inspecção-Geral de Espectáculos, fiscal, segundo julgo saber. È difícil imaginar o Pacheco de fato e gravata, mas naquela altura a função pública implicava manter rígidos padrões de comportamento e de apresentação. Trabalhava no Palácio Foz, ali a dois passos, e aparecia cedo no café. Por ali paravam também, além do Pacheco, o Mário Cesariny de Vasconcelos, o Raul Leal, sobrevivente do «Orpheu» , o Herberto Hélder, o Manuel de Lima, o António José Forte, o Virgílio Martinho, o Ernesto Sampaio, o João Rodrigues, o Manuel de Castro, o Renato Ribeiro, o Pedro Oom e muitos outros, entre os quais eu. O Pacheco aparecia, pouco depois das seis da tarde, estragando o formalismo do vestuário com uns sacos e saquinhos onde transportava as suas edições que se punha imediatamente a vender (ou a oferecer). Maio de 1958 foi uma época escaldante, com o furacão Delgado a incendiar as imaginações daquele grupo de poetas, todos, ou quase todos, antifascistas
piramide
A Pirâmide surgiu nesse clima de entusiasmo e de exaltação política. O Pacheco colaborou no primeiro número, que saiu no começo de 1959, com um texto muito interessante – «Surrealismo e Sátira (de André Tolentino a Nicolau Breton)». No segundo número, que saiu no mesmo ano, dedicou um longo extra-texto a rebater a crítica que se abatera sobre o grupo, após a saída do primeiro numero – «A Pirâmide e a Crítica». No terceiro e último número, não colaborou. Entretanto, em 1962, saí de Lisboa e perdemos um pouco o contacto. Mas através do Forte e do Herberto Hélder, meus colegas na Fundação Gulbenkian, o Pacheco lá me descobriu e reatámos a correspondência. Ele enviava-me as suas edições e eu ia-lhe mandando «vintes» de cada vez que lhe escrevia – uma nota de dólar como ele às vezes também chamava às notas verdes com a imagem do Santo António.
Morava e trabalhava em Tomar. Um fim de tarde, quando cheguei do trabalho, quem estava em minha casa? O Luiz Pacheco. Sobre o tapete da sala, deitado no chão, ele e os meus filhos, na altura com cinco e três anos respectivamente, faziam desenhos com lápis de cores nas páginas de livros novos. Livros que o Luiz Pacheco adquirira com um crédito aberto por Manoel Vinhas numa livraria da baixa lisboeta. Acusado por Eduardo do Prado coelho de não ter ideias, respondera «Pois, só tem ideias quem lê livros». Obtivera assim uma espécie de bolsa para comprar livros. E era nesses livros novos, edições francesas, obras de Sartre, de Malraux, de Breton, de Merleau-Ponty, que os miúdos, incentivados pelo Pacheco desenhavam. «- Que bonito!», dizia ele – «Olha, uma aranha!». Os garotos adoraram-no.
A história desses livros é curiosa: na sua coluna semanal do Diário de Lisboa, Eduardo do Prado Coelho criticara desfavoravelmente o livro de Pacheco «Crítica de Circunstância», elogiando a forma como estava escrito, mas acusando o autor de «não ter ideias». Pacheco retorquiu dizendo que, efectivamente, tendo vendido os seus livros, tinha ficado sem ideias, pois os livros é que nos dão as ideias. Depois, a seta envenenada: dizia que os «Coelhos» eram para ele uma maldição – no liceu fora aluno do António Diogo do Prado Coelho, avô do Eduardo, que o obrigava a recitar a «Balada de Neve». Na Faculdade de Letras tivera como professor Jacinto do Prado Coelho, que só falava nos heterónimos do Pessoa. «Quando pensava que já estava livre dos Coelhos, aparece-me o Eduardinho…». Manoel Vinhas, o seu mecenas, terá achado graça à afirmação de quem não lê, não tem ideias e abriu um crédito de mil escudos (muito dinheiro naquela altura) numa livraria. E ali estava o Pacheco em minha casa com dois enormes sacos de livros que os meus filhos iam enchendo de desenhos – «Ficam muito valorizados», dizia-me o Pacheco, com ar grave, ante o meu olhar desolado ao ver as páginas cobertas de rabiscos.
pacheco
Depois do jantar saímos. Apresentei-o aos amigos tomarenses – o Arnaldo, o Manuel, o Camilo, o Fernando… O Pacheco causou sensação. Ainda há dias, o Manuel Simões me reproduziu o pachequiano discurso (confesso que a minha memória não é tão privilegiada – passaram mais de quarenta anos! – e tomei apontamentos). Num pequeno café, perorou sobre o trauma da «morte do pai». Recordou-se do dia em que o pai morreu. Começou a perguntar-nos, um por um, «Tu tens pai?», mais jovens, todos os cinco tínhamos ainda pai. Pacheco, não desarmou – gritou para o dono do café que atrás do balcão remoía pensamentos inescrutáveis: «O senhor tem pai?» – contou-nos ainda como, no dia em que o pai morrera, mergulhado numa indizível tristeza deitou-se sobre a cama no seu quarto, sozinho com a sua dor. Uma criada veio dar-lhe um beijo na face. E nunca mais esqueceu esse gesto afectuoso. Contou-nos a história dos livros oferecidos pelo Vinhas e a maldição dos Coelhos que o perseguia desde o Liceu Camões. E, entre histórias e copinhos diversos – ginjinha, amêndoa-amarga, eduardino, évora, anis, aguardente de figo… lá fomos percorrendo a via-sacra dos tasquinhos e botequins nabantinos. Os amigos foram-se despedindo. Quando ficou sozinho comigo, deu-me bons conselhos – eu fazia crítica semanal no Jornal de Notícias, crítica de poesia, e dizia mal de quase tudo (ao José Régio, por exemplo, na reedição da «Poemas de Deus e do Diabo», acusei-o de fazer «poesia de sacristia!»). Aconselhou-me moderação. «És um escritor! Há coisas que não se dizem!». Tinha toda a razão, claro. Embora o conselho também se lhe aplicasse – Fernando Namora, Vergílio Ferreira, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Eugénio de Andrade, Lobo Antunes, Saramago, entre muitos, outros que o digam. As quatro da manhã surpreendeu-nos a ambos em frente da estação de caminho de ferro onde ele ia apanhar o comboio que o levaria ao Entroncamento e daí partiria de regresso às Caldas. Os candeeiros de iluminação pública imersos numa neblina densa, típica da cidade do Nabão, criavam uma atmosfera irreal.
-Isto existe mesmo ou estamos bêbedos? – Perguntou-me.
– As duas coisas – respondi.
– Não. Isto é uma invenção tua.
O comboio chegou. Despedimo-nos. Mandou-nos depois um postal muito tocante, agradecendo a recepção que teve.
Outro encontro com o Pacheco, acho que o último, foi na Feira do
Li
vro de Lisboa. Fomos beber uma cerveja a uma das esplanadas do alto do Parque. Mostrou-me, com orgulho, o cartão de militante do Partido Comunista e contou-me o que motivara a (tardia) adesão. Tem sido referido por numerosos «cronistas»: assistiu ao funeral do Ary dos Santos, viu a bandeira do Partido cobrindo-lhe o caixão e pensou que friorento como era, lhe calhava bem aquele agasalho da bandeira. E no dia seguinte mandou um recado ao José Casanova, do Comité Central, para que lhe fizesse chegar um formulário. E ali estava ele, o libertino, duzentos por cento anarca, integrado num partido que primava pela disciplina. Ele que tanto condenara homens como Soeiro Pereira Gomes ou Alves Redol fora dar, por causa do frio onde eles tinham chegado por convicção política.
Por curiosidade incluo aqui o texto de uma carta que Pacheco me escreveu em 1998, uma das últimas que dele recebi – eu tive um grave acidente de automóvel que me deixou quase um ano «fora de jogo» e quando voltei à vida activa, Pacheco tinha mudado de lar e tive dificuldade em reencontrá-lo.
carta
Carta de Luiz Pacheco a Carlos Loures

Palmela, 7 de Outubro de 1998

Caríssimo e Velho Amigo
(do Gelo, da Pirâmide, de Tomar, etc.)

Gostei muito de ler a tua carta. Achei que te devia uma explicação desta minha edição do Dostoievski. Não creio que saibas tudo: em 1995, ainda em Setúbal, num quarto bera como uma tumba, achei que ou fazia mais algum com edições ou estava tramado. Daqui este ressurgimento, canto de cisne final ou de corvo maluco da Contraponto. Não era por gracinha literária: era por «vai, Maria, com as outras», isto é, entrar no jogo de escrever para o mercado (aquele mínimo mercado que há…). Falas dos teus trabalhos de forçado das letras com tradutor. Mal podes imaginar que, aí por 78,79, me tramaste sem querer. Foi assim: eu preparava para a LER, livraria e delirante editora de Campo de Ourique (onde, por então, também morava em casa de uns amigos, «asilava», melhor dizendo, trabalhos de tradução, conselhos literários e dois volumes de compilação de artigalhadas minhas, que foram os «Textos de Guerrilha», I e II (ainda há, eram a 200$00 e 300$00, estão, parece, a 1 conto. Mas eram malta amiga, o Luís. pai e filho, este depois na Gradiva e, agora, com outra editora, parece que a Bizâncio (?). Davam-me todos os dias uma nota de 50$00. A certa altura, recomendei-lhes uma versão de «La bête humaine», do Zola, que eu achava giro traduzir (havia, parece-me, uma edição de 1910 ou 1920, da Guimarães. Compro o francês e caio para o chão quando o Luís pai me mostra uma edição quase recente da Europa-América e em versão tua!
Adiante – a tua versão.
Esta coisinha do Dost, trouxeram-ma da Biblioteca de Santarém (a tua versão), eu apenas tinha a da Inquérito, do José Marinho Mas era esta que me convinha, mas naquele processo do scanner, que fotografa ou filma ou como é? As páginas iguaizinhas. Era mais rápido, mais barato e dispensava a minha revisão (a minha vista está bera). Não foi assim. Tiveram de ir pró computador, 3 provas – a edição saiu caríssima. Tive de rever, tive de comprar a edição da Pleïade, de pedir a versão espanhola. Já te terei contado isto. Mas ficou muita coisa por emendar. É assim: por mais escrúpulos, dúvidas, boas intenções de traduzir pelo melhor, chega aquela data em u o livro tem mesmo de ficar despachado, pronto a vender-se, a recuperar o que já se gastou, pagou.
És editor, estás no meio há que anos, sabes que é assim. E depois nem dá gosto olhar para a edição, saber-lhe os defeitos, o muito que falhou. E eu fiz 73 anos em Maio. E já estou neste lar há 2 anos e dias (Vim a 1 de Outubro de 1996.
E tenho 2 títulos mais. E uma versão do Umberto Eco. E planos que chegavam para outra vida. LOUCURA! Tenho é que parar. Conheces o meu sistema. Com um bom ficheiro, sempre actualizado (repara na informação que me deste hoje sobre a tua nova morada – e como é que eu iria adivinhar, saber?…), consigo recuperar em poucos meses. Mas o livro não tem a expansão que devia – ou podia – ou, até, merecia. Dei uma edição à Audil… Será que pagam? E quando? Perdi, agora, um amigo fixíssimo de há 40 anos, o Fernando Fernandes, da Leitura, do Porto. Não morreu, felizmente! Reformou-se. O Joaquim Machado, de Coimbra, está tão velhadas como eu. São duas pessoas, estas, que me ajudaram muito, in illo tempore, e de 95 para cá.
Próximos títulos: Viva a Alegria: Prazo de Validade, L.P., Isto de Estar Vivo, do mesmo. Talvez a 3ª edição dos Exercícios de Estilo, na Estampa. E o Agostinho de Macêdo, o Padre Lagosta – beberrão, fodilhão, aldrabão, reaccionário. Mais do que o Padre Milícias.

Abraço do

Luiz Pacheco

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida – Alguns casos

O caso da quadrilha dos selos

Em Fevereiro de 1959 dera-se o caso do sobretudo – usara, sem autorização do proprietário, um opulento sobretudo do Chefe da Secretaria da Inspecção-Geral de Espectáculos – processo disciplinar e condenação a cinco dias de multa. No final de 1959, Pacheco pede a demissão do seu cargo de fiscal da Inspecção-Geral de Espectáculos. Antes disso houve uma nova bronca – a da falsificação dos selos. Luiz explica: «Um gajo está numa repartição a lidar com requerimentos e selos fiscais de duzentos, trezentos paus, um conto de réis – na altura era muito dinheiro. Ora não se põe um gajo a ganhar seiscentos paus por mês quando lhe passam diariamente pela mão dezenas de contos de réis pela mão sem a mínima fiscalização. Aliás, não era um gajo, eram dez.»
E conta como um filho de família numa atmosfera de corrécios adere a uma quadrilha – um inspector dos mercados, um colega, foi quem teve a luminosa ideia – não havia controlo dos selos que entravam Então eram limpos com lixívia e novamente vendidos. Alguns tinham de ser reformados porque começavam a ficar amarelados. A matéria-prima era abundantíssima. Um deles especializara-se a imitar a assinatura do director. Havia um outro especialista em falsificar passaportes – um novo ramo do negócio, que ia de vento em popa: «Arranja aí um passaporte dos nossos!». «Passa-me aí uns selos dos nossos!» «Aquilo tinha-se tornado uma instituição paralela ao Estado português!», diz Pacheco resumindo a situação. Funcionários com ordenados miseráveis compravam automóveis, tinham amantes, faziam uma vida de ostentação. Pacheco apenas fez duas extravagâncias – comprou uma mota e foi jogar ao Casino Estoril – saiu a ganhar na roleta e nunca mais lá voltou com medo de apanhar o vício (mais um). Mas os membros da quadrilha estavam a desleixar-se. Não havia cuidado. Pacheco apercebeu-se de que, mais tarde ou mais cedo, tudo iria desabar. Foi então que entrou um novo inspector… Damos de novo a palavra ao Luiz: «Até era um gajo giro, e perguntou-me: -“Então como vai isso?” – E eu mandei uns bitaites. Ele ficou fodido: – “Eu não preciso dos seus conselhos para nada, era o que faltava!” – Ora este cabrão! Apanhei o gajo sozinho e disse-lhe: “- O senhor inspector não precisa dos meus conselhos, mas vou dar-lhe alguns». E descreveu por alto o que se passava. «Você também pertence à quadrilha? – Pertenço, mas isto não pode continuar, senão vai tudo parar à cadeia.». O homem começou a ficar roxo, com as veias a inchar. «Ai que este gajo vai-me ter aqui uma congestão e eu fico com a morte dele na consciência», pensa Pacheco. Mas não. O inspector começa de imediato a pôr em prática os conselhos de Pacheco. A mama acaba-se, mas ninguém é preso. O chamado crime perfeito.

Os casos da gravata escocesa e do sobretudo do director

Como já disse, Pacheco trabalhava na Inspecção-Geral de Espectáculos, organismo estatal que fazia parte do dispositivo de repressão, a par do Secretariado Nacional da Informação e da Comissão de Censura, entre outros apêndices institucionais orquestrados pela polícia política e dirigidos pelo parido único. Era, pois, um departamento do Estado com funções repressivas embora actuasse a níveis modestos, inspeccionando salas de espectáculos, teatros e cinemas, zelando porque as directivas superiores, de carácter político e de carácter burocrático, fossem cumpridas. Funcionava no Palácio Foz, onde funcionava também o Secretariado Nacional da Informação. Quando em Abril de 1951morreu o marechal Carmona, presidente da República, foram decretado os regulamentares dias de luto nacional. Aos funcionários públicos era exigido que usassem gravata preta e roupas de tons escuros. Era algo que talvez não estivesse escrito em nenhuma ordem de serviço, mas que toda gente sabia.
Pois Luiz Pacheco apresentou-se ao serviço no dia seguinte ao da morte do marechal com uma gravata colorida, de padrão escocês em cores vermelha e castanha. Tal enormidade foi objecto de movimentações e de indignação a nível das chefias. O caso foi mesmo enviado ao ministro da Presidência! Veja-se o ofício abaixo:
gravata
O Caso do sonâmbulo chupista logo seguido pelo dos «Clandestinos»

Sobre o meio literário, Pacheco disse: «O meio literário é de cortar à faca, mas muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc. andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides.» Houvera uma controvérsia lançada por Pacheco que acusou Fernando Namora de ter plagiado no seu romance «Domingo à Tarde», o livro de Vergílio Ferreira «Aparição». «Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… O Namora era um vigarista, o gajo que mais plágios fez em toda a história da literatura», diz numa entrevista a Guilherme Pereira. Em 1972, Namora lança um romance, «Os Clandestinos», editado pelas Publicações Europa-América. Uma tarde, na livraria da editora na Avenida Marquês de Tomar, o editor Francisco Lyon de Castro repara num sujeito, alto, magro, semi-calvo e de óculos que folheia livros com ar interessado. Lyon de Castro aproxima-se e vê que o homem está a ler passagens do recém lançado romance de Namora.
– Gosta dos livros de Namora? – o sujeito faz um gesto passível de ser interpretado como um sim (ou como um não). Tagarela e gabarola Lyon de Castro continua: «- Sabe? Esse livro foi praticamente escrito por mim… » – por detrás das grossas lentes os olhos do cliente abrem-se de espanto «– Ah sim?» Castro não se faz rogado e explica com grande cópia de pormenores como descreveu a Namora as suas aventuras quando, nos anos trinta, fugindo à polícia política, se escapou para França. Namora tomou apontamentos, gravou cassetes, em suma, colheu a história de Lyon de Castro e transformou-a num romance. Foi uma coisa normalíssima, muito comum – os escritores não podem viver as vidas de todas as suas personagens. Porém o exagero de Lyon de Castro sobrevalorizando a história (que nunca foi capaz de escrever) e subestimando o trabalho do escritor que efabulou algo que, de outro modo, ficaria para sempre sepultado na cabeça do editor, e a aversão de Pacheco (pois era ele o cliente) a Namora, transformaram uma coisa normal num escândalo. No dia seguinte o Diário Popular, no seu suplemento cultural, trazia a toda a largura das páginas centrais a afirmação de que Namora roubara a trama do seu novo romance a Lyon de Castro. Resultado – Namora zangou-se com o editor e passou para a Bertrand.

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os amores e os desamores de Pacheco


Com 18 anos, Luiz Pacheco arranja o primeiro problema da longa série de problemas em que a sua vida se vai transformar. Tem uma ligação sexual com uma jovem criada de seus pais, Maria Helena Alves, com catorze anos. Um tio da menor processa Pacheco. As coisas parecem arranjar-se – Maria Helena é emancipada e Luiz compromete-se a casar com a moça. Tudo solucionado? Não – Pacheco apaixona-se por Maria de Fátima, estudante de piano em casa de uma vizinha, com a qual não pode ter um namoro convencional dado o compromisso de casamento com Maria Helena. Mas é uma paixão escaldante, com encontros secretos em quartos alugados e casas de passe. Tudo isto ocorre por volta de 1945. A relação clandestina com Maria de Fátima durará até 1948.
Em 1947, ainda relacionado com o caso de Maria Helena, é emitido um mandado de captura em seu nome. Refugia-se numa casa que alugara no Mucifal, em Colares, fugindo depois para casa de uma tia, no Campo de Santana. Acaba por ser preso na Estefânia, em casa de seus pais. Na cadeia do Limoeiro recebe o nº 420-47, ficando ali mês e meio. Em Abril, na sexta-feira Santa, desposa Maria Helena no Limoeiro – é provisoriamente liberto. No sábado de Aleluia, o jovem casal, parte em viagem de núpcias para a casa do Mucifal, donde vem depois para Lisboa onde se instala numa casa da Rua Andrade. Porém, o caso não está resolvido. É julgado, acusado pelo crime de estupro e condenado a dois anos e meia, com pena suspensa, visto ter casado com a «vítima». No ano seguinte nasce Maria Luísa, a primeira de uma «comunidade» de oito filhos.
Em Maio de 1950, nasce João Miguel, o segundo. Morre sua mãe, Adelina Maria Machado Gomes. Zanga-se com Maria Helena (que terá sabido do affaire Maria de Fátima?). Mantém uma relação homossexual com um rapaz do Sindicato dos Artistas.
A relação com Maria Helena, que entretanto se formará como enfermeira, piora; no entanto, engravida, enquanto Pacheco arranja outro namoro – agora é Maria do Carmo, a quem a família se apressa a desterrar para a Sertã. Luiz já está de olho noutro sarilho, sob a forma de Maria Eugénia, filha da dona da casa onde mora, na Almirante Barroso. A menina tem 13 anos. Em Maio de1958 nasce Fernando António, terceiro filho de Luiz e de Maria Helena. A evidência de um iminente envolvimento com Eugénia está à vista, e, antes que seja tarde, uma criada denuncia o caso a Maria Helena e à mãe da rapariga. Expulso de casa, instala-se com Maria do Carmo na Rua Jorge Colaço.
pacheco - foto
Em 1959, a mãe de Maria Eugénia move-lhe um processo. É condenado por atentado ao pudor de uma menor. Em Agosto nasce o seu quarto filho Luís José, o primeiro da união com Maria do Carmo. Ameaçado por novo mandado de captura (caso Maria Eugénia) anda fugido pelo Porto, Ermesinde, Setúbal, acabando por ser capturado e recolher de novo ao Limoeiro. Ali passa o Natal. Natália. É absolvido do caso Maria Eugénia (à qual, afinal, apenas terá beijado e talvez acariciado), mas condenado por faltar à audiência. Estamos em 1960. Maria do Carmo está grávida.
Em Fevereiro de 1961 nasce Adelina Maria, a quinta. Este 1962 é ano de novo sarilho: engravida Maria Irene, irmã de Maria do Carmo. Novo processo. No ano seguinte, será julgado e condenado à revelia pelo Tribunal da Comarca da Sertã. Pacheco nem sequer tomara conhecimento da existência do processo. Em Maio nasce Paulo Eduardo, o filho de Pacheco e Irene. Em 1964, vive agora nas Caldas da Rainha. Em Maio nasce Maria Eugénia, sétima, segunda da ligação com Irene. Pacheco é preso nas Caldas devido ao processo de Maria Irene, saindo sob caução.
Desentende-se com Irene e fica a viver sozinho nas Caldas da Rainha. O abuso do álcool provoca-lhe o agravamento da asma. Em Novembro de 1967, o casamento com Maria do Carmo é dissolvido «por abandono do lar». Em 1968 é de novo preso nas Caldas da Rainha, sendo depois transferido para o velho Limoeiro, uma segunda casa para Luiz. No ano seguinte, já em liberdade, apaixona-se por Elsa Isabel com quem tem uma ligação. Num breve passeio às Caldas tem um envolvimento de alguns dias com Isabel Valadares. Na véspera de Natal apanha uma monumental bebedeira e passa a consoada no banco do Hospital de S. José. Em Janeiro de 1970 é internado no Hospital de Santa Marta Pacheco continua e intensifica o tratamento ambulatório de desintoxicação alcoólica. Tratamento que, com acidentes de percurso e muitas recaídas, prosseguirá até 1980. Até 1975, Luiz continua a publicar, a fazer traduções e… a beber. Mantém uma política de porta aberta, entrando «toda a bicharada» (expressão sua) – «malucos, marginais, bêbedos, paneleiros, lésbicas» a fama da casa onde vive, em Massamá, é terrível. Luiz Pacheco, sempre segundo regista no diário, tem ligações episódicas com algumas mulheres, engata uns rapazes – «a fome, a solidão, a tristeza, a velhice e a decadência». Sai de Massamá. Até 1980, não tem paradeiro certo. Deambula pelo Montijo, Campo de Ourique, Algarve. Afectado pela subnutrição é internado no Hospital Curry Cabral. Em 1977 é internado na Clínica Psiquiátrica de Celas, com a visão e o raciocínio afectados pelo álcool. Em 1980 faz uma tentativa de suicídio, atravessando de olhos fechados a Avenida de Berna na hora de ponta. Travões guincham, pneus chiam, automobilistas furiosos insultam-no, mas a morte não quer nada com ele.

Luiz Pacheco – Um Libertino passeia pela vida. 2 – Cronologia

LuizPachecoLibertino
No início desta série de «episódios» sobre este libertino genial, vejamos uma cronologia sumária da sua vida:
A vida de Luiz Pacheco em datas
1925: À uma e quarenta da madrugada de 7 de Maio nasce em Lisboa, num velho prédio da Rua D. Estefânia (no nº 91-1º), Freguesia de São Sebastião da Pedreira, Luís José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, que virá a adoptar o nome de Luiz Pacheco, filho de Paulo Guerreiro Pacheco e de Adelina Maria Machado Gomes. 1932: Entra no Ensino Primário. 1936: No Liceu Camões, começa o curso dos Liceus. 1943: Conclui o curso Completar dos Liceus (antigo 7º ano). 1944-45: Obtém boa classificação no exame de admissão à Faculdade de Letras de Lisboa, ficando isento do pagamento de propinas. Matricula-se no curso de Filologia Românica. 1945: Começa a colaborar em diversos jornais e revistas. 1946: Emprega-se na Inspecção-Geral dos Espectáculos. Com Jaime Salazar Sampaio, dirige o volume antológico Bloco. Assina as listas do MUD. 1947: É preso no Limoeiro, acusado do crime de estupro. 1948: Nasce Maria Luísa, sua primeira filha. 1950: Nasce João Miguel, o segundo filho. Cria a editora Contraponto onde irá publicar textos de escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires. António Maria Lisboa. Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Virgílio Martinho, António José Forte, entre outros.
1951: No dia seguinte ao da morte do marechal Carmona, presidente da República, apresenta-se ao serviço com uma gravata colorida, sendo repreendido e punido.1953: Morre sua mãe. 1958: Nasce o terceiro filho: Fernando António. Publica Caca, Cuspo & Ramela (textos de Luiz Pacheco, Natália Correia e Manuel de Lima; de sua autoria, edita Carta Sincera a José Gomes Ferreira. 1959: Publica na revista Pirâmide o texto «A Pirâmide e a Crítica» em que defende a revista dos ataques de alguns críticos literários. Nasce Luís José, quarto filho. Demite-se da Inspecção-Geral de Espectáculos. 1960: Em Maio, morre seu pai. Publica na revista Pirâmide o texto «A Pirâmide e a Crítica» em que defende a revista dos ataques de alguns críticos literários.1961: Nasce a quinta filha, Adelina Maria. 1962: Publica o conto O Teodolito. 1963: Nasce Paulo Eduardo, o sexto. Edita na Contraponto o livro Surrelismo/Abjeccionismo, uma antologia organizada por Mário Cesariny. 1964: Nasce Maria Eugénia, a sétima. Publica o seu livro mais divulgado A Comunidade.1965: Nasce Jorge Manuel, o oitavo e último filho. 1966: Publica Crítica de Circunstância.1967: Edita os seus Textos locais. 1970: Sai O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor. Visita a Tomar.
pacheco - cesarinypacheco - chupista
1971: Publica Exercícios de Estilo. 1972: Edita Literatura Comestível.1974: É a vez de Pacheco versus Cesariny 1977: Publica Carta a Gonelha e Textos de Circunstância. 1979: Sai Textos de Guerrilha 1. 1980: Publica O Caso do sonâmbulo chupista, sobre o alegado plágio de Namora a Vergílio Ferreira.1981: Saem os Textos de Guerrilha 2. 1984: Publica Textos do Barro.1985: Baptista-Bastos entrevista-o para o Jornal de Letras. 1986: Edita O Caso das Criancinhas Desaparecidas. 1988/89: A Comunidade é adaptada ao teatro e levada a cena pelo Teatro da Cornucópia.
pacheco - cornucopiapacheco - comunidade
1989: Adere ao Partido Comunista Português. 1991: Publica Textos Sadinos. 1992: Saem O Uivo do Coiote e Carta a Fátima. 1995: Concede uma longa entrevista à revista Ler. Sai Memorando, Mirabolando. 1996: Em 7 de Maio, por ocasião do seu 70º aniversário os filhos organizam uma festa de homenagem familiar. É publicado Cartas na Mesa. 1998: Publica Prazo de Validade. 2000: Sai Isto de estar Vivo. 2001: Uma Admirável Droga. 2002: Reedita Crítica de Circunstância, agora com o título Os doutores, a salvação e o menino Jesus – Conto de Natal. O Mano Forte. 2003: Raio de Luar. 2004: Figuras, Figurantes e Figurões. 2005: É entrevistado pelo Jornal de Letras. Sai o seu Diário Remendado (1971-1975). Cartas ao Léu.
2006: Vai para um lar no Montijo. 2007: É operado às cataratas. É entrevistado pela RTP. Dá também uma entrevista ao Correio da Manhã. 2008: Dá uma entrevista ao semanário Sol. Saem O Mito do Café Gelo e O Cachecol do Artista. É publicado O Crocodilo que voa. No dia 5 de Janeiro, acometido por doença súbita, morre na ambulância a caminho do hospital do Montijo. São 22 horas e 17 minutos quando o óbito é declarado.
pacheco - diariopacheco - crocodilo

Luiz Pacheco – Um Libertino passeia pela vida. 1 – Apresentação


Luiz Pacheco nunca quis ser uma «pessoa respeitável». Fez tudo para não merecer essa classificação pela qual tantos se batem durante as suas vidas – foi repetidamente preso, não por política, mas por crimes de delito comum. A cadeia do Limoeiro foi para ele uma segunda casa. Passando em revista as suas «proezas», encontramos «abuso» de menores – embora tanto quanto se saiba não fosse um pedófilo; foi preso por crime de rapto e de estupro, alcoólico, abusando do vinho tinto e da cerveja, pediu dinheiro a toda a gente, chegou a andar a pedir esmola pelas ruas, ia aos quartéis pedir os restos do rancho para alimentar a família, falsificou selos, publicou textos teoricamente impublicáveis (mas de autores que depois se vieram a tornar famosos como Vergílio Ferreira, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Herberto Hélder, ganhando o rótulo de «editor maldito», fez repetidas incursões na homossexualidade. Disse ter feito sexo com uma cadela… – «proeza» que depois desmentiu – Tudo isto nos chegou em depoimentos do próprio (pois foi ele o seu melhor biógrafo).
Nunca escondeu estas coisas e nem há como saber se tudo foi verdade – com ele, a profissão de chantagista deixaria de fazer sentido, pois enquanto muita gente inventa heroísmos e esconde o que não é bonito nas suas vidas, Pacheco fez gala (e inventou-os?) em ter cometido actos sórdidos. Embora os que comprovadamente praticou fossem suficientes para lhe ornamentar o currículo. Nunca experimentou drogas, fez questão de salientar – o bagaço, o vinho tinto e a cerveja foram suficientes para lhe causar problemas.
Esta luta incessante pela irrespeitabilidade, numa permanente e dir-se-ia que voluntária, descida aos Infernos, valeu-lhe, surpreendentemente, o respeito generalizado da comunidade literária. Não teria nada a aprender com François Villon ou com Bocage. Em todo o caso, é bom que se diga, citando Pacheco em entrevistas, falando dos seus amores por adolescentes – «as miúdas eram mais adultas do que eu, não havia pedofilia» e, outra coisa muito importante, «o libertino tem regras, por exemplo, não se mete com a mulher do amigo». Apesar deste «código deontológico do libertino», não é possível ignorar que algumas das proezas de Pacheco, nomeadamente o seu envolvimento com raparigas menores são hoje, ainda mais do que na época, crimes reprováveis. Porém, sem querer encontrar desculpas, há que contextualizar as coisas – o conceito de pedofilia não estava, por aquela primeira metade do século XX, implantado (os dicionários, os que registavam o termo, ainda diziam: «Pedófilo, s. m. – Amigo das crianças…»). Quando cometeu o primeiro crime de «rapto e estupro» tinha 18 anos, apenas mais quatro do que a «vítima». Casou com a sua a primeira mulher no Limoeiro. Reincidiu. Várias prisões, vários filhos – oito – três da primeira mulher, dois da segunda, mais três da terceira. Filhos, delitos e prisões confundem-se. Estão intimamente relacionados. Não gostava que lhe chamassem «escritor maldito» – «Maldito é o gajo que escreve mal», exclamava. Pacheco nunca quis quer ser respeitável e, sobretudo, não quis respeitar as convenções. É um mundo que não merece ser respeitado – «todos somos culpados até prova em contrário», afirmou.
Porém, de delinquentes estão as prisões cheias. Não é pelas suas incursões no submundo e na face oculta da moralidade instituída que o recordamos. Porque esta faceta da sua reincidente transgressão das normas sociais, esconde outra realidade mais profunda e duradoura – a grande qualidade da sua escrita. Luiz Pacheco é um grande escritor. A sua libertinagem tem muito de quixotesco, transmutando acontecimentos sordidamente banais em episódios épicos. Quando a bruma dos tempos desvanecer as suas aventuras de modesto libertino, transformando-as em lenda (como aconteceu com Bocage), dele ficar-nos-á, além da memória de um ser estranho, irreverente e associal, belas páginas, das melhores que se escreveram no seu século – O Teodolito, por exemplo, é obra literária de elevada qualidade. E foi um grande editor – além dos nomes acima citados, António Maria Lisboa, Manuel de Lima, António José Forte, Virgílio Martinho, foram publicados por Pacheco – tal como os anteriores.

A Ginjinha do Rossio

Tenho a certeza que há aqui muita gente que percebeu que o meu texto ” Ó Carolina arredonda a saia…” tem a ver com a ginjinha nada com patrocínios…

Até porque está ali há quase um século e faz parte do Rossio, não precisa que se fale dela, impõe-se pelo seu carisma, até lá tem uma história (escrito como o Loures ensinou) da sua criação com mosteiros e monges à mistura como não podia deixar de ser estando como está em lugar tão especial.

Eu tenho que voltar sempre ao Rossio, à Igreja de S. Domingos onde se diziam as missas e se preparavam os desgraçados para a fogueira, o Palácio da Independencia com o traidor ainda dependurado na varanda, o Teatro D. Maria II onde estavam os calaboiços da Santa Inquisição e, antes disso, as cavalariças reais, o que não deixa de ser bem demonstrativo das hierarquias da época.

As portas de Santo Antão onde terminava a cidade ainda hoje fervilham “de muitas e desvairadas gentes” como no tempo de Luis de Camões e, ali perto, o Paço do Tronco onde o “mais português dos portugueses” esteve acorrentado por andar à espadeirada (decerto por alguma dama).

Logo ali a Praça da Figueira assente no leito seco de duas ribeiras que descem a Av Almirante Reis e a Av. da Liberdade, e nos escombros de um dos primeiros edificios do mundo a ser construído para acolher doentes,o Hospital de Todos- os- Santos, hoje o S. José e que vai voltar a ser de Todos -os-Santos agora na ribeira de Chelas . Tudo a desaguar no Largo do Rossio onde a multidão crente e religiosa se juntava para ver assar os seus semelhantes.

E, quando a mesma emoção de sempre, começa a subir-me pela garganta ( não sei porquê mas é o único lugar onde sinto que faço parte de uma caminhada com sentido)a ginja (pequeno, o copo) apazigua-me a ansiedade, a angústia que comecei a identificar quando li Cesário verde, ” uma incompreensível vontade de morrer ” ver o fim da tarde de Lisboa, a pressa das pessoas para voltarem para suas casa sem nada verem, o voltar as costa a um sítio que nunca mais verei da mesma forma, mesmo que lá volte todos os dias.

…e os ranchos de jovens raparigas, que voltam ao sol- pôr a cantar, levai-me para o meu doce lar…” chorava o Cesário Verde, o poeta de Lisboa, a despedir-se da gente e da cidade que amava, adivinhando que íria partir tão cedo. Quando voltar costas, já com a ginja para o caminho, percebo que é só o que posso levar comigo, manter por mais tempo aquela mágoa que se apodera de mim, a nostalgia do que há-de vir sem refúgios.

O ritual da ginja e do caroço faz parte de um lugar cheio de história, de alma, não é coisa que não se queira ou que se deite fora, assim com as graínhas da fruta.

Antologia de pequenos contos insólitos: Crimes exemplares

Hoje trazemos até vós um autor pouco conhecido em Portugal, o escritor espanhol Max Aub, com alguns dos seus CRIMES EXEMPLARES.
Max Aub, escritor nascido em 1903, em Paris. Filho de uma francesa e de um judeu alemão, emigrou com a família em 1914 para Valência, vindo a adoptar a nacionalidade espanhola. Durante a Guerra Civil, combateu no Exército republicano, exilando-se, em 1942, no México. Autor de uma obra vasta, entre a qual se destacam o romance «Las buenas intenciones» (1954) e os seis volumes de «El laberinto mágico» (1943-1968). Morreu na cidade do México em 1972.
Esta selecção de micro-contos foi extraída de «Crímenes ejemplares» (1956). Segundo o autor diz no prefácio da primeira edição, este é material que «passou da boca ao papel, aflorando o ouvido» – confissões de crimes recolhidas em Espanha, em França e no México. Vamos deixar que aflorem aos vossos olhos, ressoando depois aos ouvidos da vossa imaginação. Meus amigos – Max Aub:
max aub
« – Antes morta! – disse-me. E eu só quis fazer-lhe a vontade!»

«Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer um. Até me atrevo a dizer que sou um bom barbeiro. Cada um tem as suas manias. A mim, incomodam-me as borbulhas.
Foi assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-lhe o rosto com destreza, afiei a navalha no assentador, experimentei a suavidade do fio na palma da minha mão. Sou um bom barbeiro! Nunca desiludi ninguém. Além disso, aquele homem não tinha a barba muito cerrada. Mas tinha borbulhas. Reconheço que aquelas espinhazitas nada tinham de especial. Mas incomodam-me, põem-me nervoso, revolvem-me o sangue. Fiz a primeira passagem, sem problemas; na segunda sangrou um pouco. Não sei o que então me deu, mas acho que foi uma coisa natural, aumentei a ferida e depois, não pude resistir e, de um golpe, decepei-lhe a cabeça.»

«Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido aflorava o bordo do copo, levado pela acção violenta do utensílio de alumínio. (O copo era ordinário, o lugar barato, a colherzinha gasta, roída de tanto utilizada.) Ouvia-se o ruído do metal contra o vidro. Riz, riz, riz, riz. E o café com leite dando voltas e mais voltas, com uma concavidade no centro. Maelstrom. Turbilhão. Eu estava sentado na sua frente. O café estava cheio. O homem continuava a mexer e a remexer, imóvel, sorridente, olhando-me. Algo crescia dentro de mim. Olhei-o de tal maneira que se sentiu na obrigação de explicar:
– O açúcar ainda não se dissolveu.
Para mo provar, deu umas pancadinhas no fundo do copo. Voltou depois com energia redobrada a mexer metodicamente a beberagem. Voltas e mais voltas, sem descanso, e o ruído da colher no bordo do vidro. Raz, raz, raz. Sempre, sempre, sempre sem parar, eternamente. Volta e revolta e volta. Olhava-me sorrindo. Então, puxei da pistola e disparei.»

«Abri-a de alto a baixo, como se fosse uma rês, pois olhava indiferente o tecto enquanto fazíamos amor».

«Íamos como sardinhas em lata e aquele homem era um porco. Cheirava mal. Todo ele cheirava mal, sobretudo os pés. Garanto-lhe que não se podia suportar. Além disso tinha o colarinho da camisa negro de sujidade e o pescoço ensebado. E olhava-me. Uma coisa asquerosa. Ainda quis mudar de lugar. Pode não acreditar, mas aquele indivíduo seguiu-me. Era um cheiro a demónios e pareceu-me ver sair bichos da sua boca. Talvez o tenha empurrado com um pouco de força a mais. Agora não me culpem pelas rodas do autocarro lhe terem passado por cima!»

«Matei-o porque julguei que ninguém estava a ver.»

«Era tão feio, o pobre tipo que, cada vez que o encontrava, era como que um insulto. E tudo tem um limite.»
«Você nunca matou ninguém por tédio, por não saber o que fazer? É divertido.»

«Matei-o porque me doía a cabeça. E ele, zás, falava sem parar, sem descanso, sobre coisas que nada me interessavam. E mesmo que me interessassem. Ainda olhei seis vezes ostensivamente para o relógio: não fez caso. Creio que é um atenuante a tomar em consideração.»

«Era mais inteligente do que eu, mais rico do que eu, mais desenvolto do que eu; era mais alto do que eu, mais bonito, mais esperto; vestia melhor, falava melhor; se os senhores julgam que isto não são atenuantes, é porque sois tontos. Pensei sempre na maneira de me desfazer dele. Fiz mal em tê-lo envenenado: sofreu demasiado. Isso, lamento. Queria que morresse depressa.»

«Se o golo estava feito! Era só empurrar a bola para dentro da baliza, o guarda-redes estava batido… Chutou-a por cima do travessão! E aquele golo era decisivo! Aviávamos os sacanas do Nopalera. Se devido ao pontapé que lhe dei foi parar ao outro mundo, talvez lá aprenda a chutar como mandam as regras.»

«Era a sétima vez que me mandava copiar aquela carta. Tenho o meu diploma, sou uma dactilógrafa de primeira. E uma vez por um ponto final, que ele disse que devia ser ponto parágrafo, outra vez porque mudou um «talvez» por um «quiçá», outra porque trocou um b por um v, outra porque se lembrou de acrescentar um novo parágrafo, outras não sei porquê, o facto é que tive de a escrever sete vezes. E quando a levei, olhou-me com aqueles olhos hipócritas de chefe de administração: “Olhe, menina…”. Não o deixei acabar. Há que ter mais respeito pelos trabalhadores.»

«Matei-o porque não pensava como eu.»

«Matei-o porque me doía o estômago.»

«Matei-o porque lhe doía o estômago.»

«Tinha jurado fazê-lo ao próximo que voltasse a passar-me uma cautela da lotaria pela corcunda».

«Negou que eu lhe tivesse emprestado aquele quarto volume… E o buraco na prateleira da estante, como um nicho…»

«De mim ninguém se ri. Pelo menos esse, já não volta a rir-se.»

«Matei-o porque bebi o suficiente para o fazer.»

«Penso, logo existo, disse o tal homem famoso. As árvores do meu jardim existem, mas não creio que pensem, pelo que fica demonstrado que o senhor René não estava bom do juízo e que o mesmo acontece com outros seres: o meu sogro, por exemplo – existe, mas não pensa. Ou o meu editor, que pensa, mas não existe. E se pomos isto ao contrário, também não fica certo. Não existo porque penso ou penso porque existo. Pensar, pensa-se, existir é um mito. Eu não existo, sobrevivo, porque viver – aquilo a que se chama viver – só os que não pensam. Os que se metem a pensar, não vivem. A injustiça é por demais evidente. Bastaria que pensássemos para nos suicidarmos. Não; senhor Descartes: vivo, logo não penso, se pensasse não vivia, se vivesse não pensava, senhor… etc., etc. Se para viver fosse necessário pensar, estaríamos lúcidos. Mas, enfim, se os senhores estão convencidos de que assim é, estou inocente, completamente inocente, pois não penso nem quero pensar. Logo, se não penso não existo e, se não existo, como diabo posso ser responsável por essa morte?»

(Traduções de Carlos Loures, feitas a partir da edição da Espasa Calpe, Madrid, 1999.)

Antologia de pequenos contos insólitos: O Peão

Apresentamos um conto do grande escritor norte-americano Ray Bradbury (1920), autor de livros de ficção-científica, sendo The martian chronicles, 1950 – «O Mundo Marciano», na edição portuguesa, o mais conhecido. Escreveu também «Fahrenheit 451», adaptado ao cinema por François Truffaut. «O Peão» é extraído de «S is for space» (1970). Uma noite, ao sair de um restaurante em Los Angeles, apeteceu-lhe passear a pé. Um polícia mandou-o parar, perguntando o que fazia ele andando pela cidade. Nessa mesma noite escreveu «O Peão».
ray
Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de Novembro, pousar os pés sobre o sólido passeio de cimento, pisar as fendas com ervas, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as ruas banhadas pelo luar nas quatro direcções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só. Tomada uma decisão definitiva, escolhido um caminho, começaria a andar, soltando baforadas de ar congelado à sua frente, como o fumo de um cigarro. Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com as suas janelas escuras; era como caminhar por um cemitério, pois só leves clarões de luz fantasmagórica eclodiam por detrás das janelas. Súbitos e cinzentos espectros pareciam surgir sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-túmulo estava ainda aberta.
O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, os pés sem fazer ruído no pavimento irregular. Há muito que, prudentemente, passara a usar sapatos de ténis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam a sua caminhada com latidos, se usasse calçado com sola de couro, as luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, toda uma rua se alvoroçar com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de Novembro.
Nesta noite, em particular, tomara a direcção Oeste, rumo ao mar, invisível. Havia um frio cristalino no ar que cortava o nariz e fazia os pulmões arder por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava com prazer o calçado macio empurrando delicadamente as folhas de Outono, assobiava frio e baixinho, entre dentes, arrancando ocasionalmente uma folha de passagem, examinando o desenho esqueletal, à luz de um raro candeeiro público, enquanto caminhava, aspirando seu odor ferruginoso.
— Ó da casa — murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava. — O que passa hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Para onde estão correndo os “cow-boys”, e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?
A rua silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, no meio de uma planície. Fechou os olhos, e permaneceu imóvel, gelado. Podia imaginar-se no meio de uma planície, numa pradaria americana, sem ventos, inverno, sem qualquer casa num raio de mil milhas – só leitos secos de rios, como aquelas ruas.
— E agora, o que temos? — perguntou para as casas, olhando o relógio de pulso — Oito e meia? Hora de uma dúzia de episódios de assassínios? Um concurso? Um musical? Um comediante tropeçando e caindo do palco?
Terá ouvido um murmúrio de risos, vindo de uma das casas brancas ao luar? Hesitou, mas continuou, quando nada mais aconteceu. Tropeçou numa irregularidade maior do passeio. O cimento estava a desaparecer, sob flores e mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa passeando, nunca, nem uma só vez. Chegou a um cruzamento deserto, onde duas avenidas principais atravessavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insectos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo dos tubos de escape, corriam para casa, nas mais diversas direcções. Mas agora, estas estradas, eram como os leitos de rios secos no Verão, banhados pelo luar.
Virou numa rua secundária, de regresso a casa. Estava a um quarteirão de chegar, quando, subitamente, um carro solitário dobrou a esquina e fez incidir um forte cone de luz branca sobre ele. Deteve-se, aturdido, como uma borboleta, atordoado pela luz, mas por ela atraído.
Uma voz metálica advertiu-o:
— Fique onde está! Não se mova!
Parou.
— Levante as mãos!
— Mas… – disse ele.
— Mãos para cima! Ou atiramos!
A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões de habitantes, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava a desaparecer; não havia necessidade de polícia, excepto este carro solitário vagueando pelas ruas desertas.
— O seu nome? — disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte nos seus olhos.
— Leonard Mead — respondeu.
— Mais alto!
— Leonard Mead!
— Negócio, ou profissão?
— Acho que me pode considerar um escritor.
— Sem profissão — disse o carro-patrulha, como que falando sozinho. A luz mantinha-o fixado como um espécime de museu, com uma agulha espetada no meio do peito.
— Pode-se dizer-se assim — afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Já não se vendiam livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-túmulos, à noite, pensou. Os túmulos, mal iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas se sentavam como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca tocando o seu íntimo.
— Sem profissão — chiou a voz fonográfica. – O que está a fazer cá fora?
— A passear — disse Leonard Mead.
— A passear?
— Só a passear — disse, simplesmente, percorrido por um arrepio.
— Passeando, passeando, passeando?
— Sim, senhor.
— Indo para onde? Para quê?
— Para apanhar ar. Passeando para ver.
— A sua morada.
— Onze, Sul, rua Saint James.
— E não há ar na sua casa; o senhor não tem ar condicionado, Sr. Mead?
— Sim.
— E tem uma tela visora, na sua casa?
— Não.
— Não? — Houve uma interrupção crepitante, que em si era já uma acusação.
— É casado, Sr. Mead?
— Não.
— Não casado — disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas escuras e silenciosas.
— Ninguém me quis — disse Leonard Mead, sorrindo.
— Não fale, a menos que seja interpelado!
Leonard Mead esperou, sob a fria noite.
— Apenas passeando, Sr. Mead?
— Sim.
— Mas ainda não explicou com que propósito.
— Já expliquei; para apanhar ar, ver, e simplesmente pelo prazer de andar.
— Já fez isso muitas vezes?
— Todas as noites, há anos.
O carro-patrulha estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.
— Bem, Sr. Mead — disse.
— Isso é tudo? — perguntou, polidamente.
— Sim — respondeu a voz. — Por aqui. — Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. — Entre.
— Olhe lá, eu não fiz nada!
— Entre.
— Protesto.
— Sr. Mead.
Avançou como um homem subitamente embriagado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para o interior. Como esperava, não havia ninguém no ass
en
to dianteiro, não havia ninguém no carro.
— Entre.
Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma pequena cela escura, com grades. Cheirava a aço rebitado e a anti-séptico forte; um intenso odor higiénico, metálico. Nada era macio, ali dentro.
— Se tivesse uma esposa que lhe desse um álibi — disse a voz de aço. — Mas…
— Para onde me vai levar?
O carro hesitou, ou melhor, houve um zumbido abafado, como se a informação, algures, fosse dada por cartões perfurados, e olhos eléctricos — Ao Centro Psiquiátrico de Pesquisa sobre Tendências Regressivas.
Entrou. A porta fechou-se com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, a meio à noite, com os faróis acesos.
Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.
— Aquela é minha casa — disse Leonard Mead.
Ninguém respondeu.
O carro foi pelas ruas vazias, como leitos de rios secos, afastando-se, deixando as ruas vazias, com os seus passeios vazios, sem som nem movimento, na fria noite de Novembro.(1)

(1) Extraído de E de Espaço © 1978 by Hemus-Livraria Editora Ltda -Título original: S is for Space © 1966 by Ray Bradbury.

O ponto e a minha exclamação de protesto

Dois anos e qualquer coisa na adolescência a ler, distribuir e mesmo escrever panfletos onde no mínimo a oração final berrava 3 ou 4 patetices revolucionárias destacadas com o pontinho de exclamação (tipo: Estudantes! ao Lado do Povo! e sob a Direcção da Classe Operária!) tiveram como efeito um ódio ao dito que ainda não me passou, nem passará!

Nas dezenas de teclados que já destruí garanto que o 1 foi a única utilização da tecla segunda da primeira linha das teclas a sério onde meti o dedo.

Vivia eu muito bem com esta opção de género, pontual, quando algumas almas refrescaram a estação insurgindo-se contra o uso do dito ponto, que pode ser tão inútil, e chato, como os emoticons, eroticons, ou lá como se chama aos bonecos.

Se por via do tal trauma não podia estar mais de acordo, há contudo uma utilização do ! que me parece indispensável, inultrapassável e insubstituível, levando a que o apelo à sua abolição me leve a exclamar, com um simples final parágrafo: censura não, meus senhores.

Citando por exemplo Apollinaire:

“- Agora… agora… agora… vou vir-me… Ah! Oh! Oh!…”

e podendo ir por aí fora, desbragadamente, a literatura erótica precisa, aliás depende, do ! e das reticências, sendo um facto que baixando a qualidade literária o seu uso passa a abuso, ou seja a mesma frase ficaria assim:

“- Agora… agora… agora… vou vir-me… Ah!!!!!!!! Oh!!!!!!! Oh!!!!…”

numa versão mais pindérica. Convém lembrar que a net democratizou a produção deste tipo de textos, hoje ao alcance de qualquer um que se proponha narrar as suas proezas, em particular as que não cometeu mas tem pena.

Como não alinho em teorias de conspiração não diviso aqui a mão invisível das campanhas anti-masturbação que por aí andam mas, e usando uma frase batida, relembro que “os adultos necessitam de livros eróticos como as crianças de contos de fadas”. Além disso, o dito ! é o sinal ortográfico mais fálico que temos, e isto anda tudo ligado, pois anda.

Falando de democracia: A televisão e o computador significarão a morte do livro?


Livraria Lello, no Porto – uma das mais belas do mundo.

A democracia é indissociável do livro. Hoje, falando de democracia, vou falar do livro. E começo por transcrever palavras de José Afonso Furtado em O Que é o Livro: «Uma das imagens recorrentes em diversas obras que se dedicam a problemas de História ou da Sociologia do Livro e da Leitura é uma passagem clássica do romance Nôtre-Dame de Paris, de Victor Hugo. Nela, o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.». Embora como José Afonso Furtado diz, este imagem seja recorrente, utilizo-a mais uma vez porque facilita a compreensão do que quero expor. Segundo o próprio Victor Hugo explica depois, a frase dita pelo arcediago Claude Frollo (o protector de Quasímodo), reflecte o espanto e o receio do sacerdócio, naquele final do século XV, perante o “prelo luminoso de Gutenberg”, o confronto entre a palavra escrita e a palavra falada. Por outro lado (como refere McLuhan) a arquitectura gótica, a escultura, a iluminura ou a glosa medievais eram suportes da arte da memória e o eixo da cultura da escrita. Temia-se que o advento da imprensa pusesse tudo isso em causa e em risco de extinção.
Tal como nesse fim do século XV se temia que um avanço como o que a imprensa significava, pusesse em risco a forma mais popular de comunicar com as massas – a arquitectura gótica, através das quais multidões de gentes iletradas, que faziam das catedrais o seu local de encontro e de passeio dominical (tal como hoje as famílias vão ao centro comercial) «liam», nos elementos escultóricos de pórticos, túmulos, capelas e retábulos, passagens das Sagradas Escrituras, teme-se agora que as novas tecnologias da informação ponham o livro em risco de extinção. Penso que se trata de um falso receio e de um falso problema. Embora, indubitavelmente, o cenário mude – já mudou – e os editores tenham de se adaptar a ele. O feeling que têm usado como sistema, vai deixar (se é que não deixou já) de ser suficiente – vão ser necessários investimentos, nomeadamente na área da formação. As novas tecnologias só podem ser aliadas do livro, nunca adversárias. Concorrentes, sim, inimigas, não. Mas isto, se os editores estiverem apetrechados, inclusive com formação específica que desde há cerca de quinze anos existe, tendo começado com um curso de especialização na Faculdade de Letras de Lisboa e existindo agora outros cursos na Católica e na Nova. Na realidade, do mesmo modo que é impensável um médico ou um engenheiro autodidactas, deveria pôr-se na gaveta das recordações o editor «sem mestre, mas com jeito», como diria o José Fanha. Os editores continuam a publicar por feeling. E não nego que existem pessoas no mundo da edição com uma espécie de sexto sentido. Mas até esse sobredotados às vezes se enganam. Vejam só o perigo que seria se os farmacêuticos, em vez da formação científica que recebem, actuassem por feeling. Ele era aspirina para a queda do cabelo, xarope anti-tússico para as varizes e por aí fora. A edição é uma ciência. A vocação é necessária, mas a formação é indispensável.

Porque a crise do livro é endémica. Quando, há muitos anos, cheguei ao meio editorial a crise do sector era já um dado adquirido. Ironicamente, dir-se-ia que Portugal está em crise desde que o nosso Afonso I derrotou D. Teresa na escaramuça de São Mamede, em 1128, e o que a indústria e o mercado do livro no nosso País estão em crise desde que, em 8 de Agosto de 1489, se imprimiu em Chaves o «Tratado de Confisom», primeiro incunábulo português. As causas apontadas para a crise são numerosas. Umas crónicas, outras que vão surgindo. Há umas décadas, a persistência de uma larga percentagem de analfabetismo entre a população, o baixo poder de compra e a censura, eram três argumentos recorrentes (e todos eles reais). A televisão não se usava ainda como desculpa, pois a oferta desse meio era escassa. Actualmente, o analfabetismo é residual, o poder de compra não é famoso, mas os concertos de música rock enchem-se, para falar só num concorrente do livro. Não há censura, mas há televisão com múltiplos canais, computadores e Internet – as pessoas não ficam com tempo para ler, pois não podem perder os seus programas, os sites ou blogs favoritos. A pouco e pouco a leitura on line dos jornais vai pegando. O que significa que os jornais, ligados geralmente a grandes grupos, já estão a aprender a conviver com a mudança. Também há grandes grupos editoriais, grandes multinacionais da edição, e aí não se brinca às edições – cada projecto é minuciosamente analisado, antecedido de estudos de mercado. Nessas grandes empresa não se usa o velho sistema dos editores clássicos – «eu acho que»… – «Em marketing, não se acha, testa-se!», é uma dos axiomas do Professor Jorge Manuel Martins que lecciona Marketing do Livro na Faculdade de Letras de Lisboa, numa das tais pós-graduações de que falei. Por causa do «eu acho que», os armazéns estão cheios de livros que não se venderam e que, muito provavelmente, não se vão vender. Milhares de árvores inutilmente abatidas.

O empirismo dos editores e a falta de especialização das editoras médias e pequenas, a tentação generalista, a ausência de especialização em linhas editoriais específicas – direito, medicina, culinária, pedagogia, economia – a busca de nichos de mercado, que seria a grande solução para as pequenas e micro editoras; mas não, os pequenos editores, mesmo aqueles que publicam vinte ou trinta títulos por ano, persistem em abarcar todo o imenso leque do conhecimento – do romance à astrofísica. Eles divertem-se, mas arruínam-se. É um suicídio.

Porém, penso que mais do que uma crise no mercado do livro, creio que há a ausência de uma política do livro que induza os cidadãos a ler e a colocar o livro na sua lista de prioridades. Como é que isso se fará? Será coisa para o Ministério da Cultura resolver? Também, mas não só. Para falar só nos últimos cinquenta anos, nem o Estado Novo, nem os governos democráticos souberam criar uma política do livro. E o que será isso? Pitágoras disse. «Educai as crianças par que não seja necessário punir os homens», o que aplicado ao tema que estou a abordar seria «Educai as crianças para que não seja possível em adultas castigá-las com romances da Margarida Rebelo Pinto ou com uma televisão concebida para imbecis». Claro, dirão logo alguns, mas os programas escolares contemplam a literatura. Mas não é de programas escolares que estou a falar. É de educação integrada – uma das minhas utopias, claro. Voltemos à temática da crise do livro.

Resumindo: a verdade objectiva tem contornos estranhos: por um lado, os editores têm razão – há uma crise. Sempre houve. Porém, nunca se vendeu tanto livro como actualmente. Não me perguntem se a qualidade média das edições subiu ou baixou. Estou só a falar de quantidade. Crise do livro? – Sem dúvida! Também crise de mentalidades a afectar os pequenos e médios editores e impedindo-os de se adaptarem às novas realidades.

Sobretudo e sempre, crise de valores da sociedade. Para falar num facto recente, lembremo-nos Cristiano Ronaldo a ser saudado por multidões, com os canais de televisão a seguir todos os seus passos. E se toda aquela força e energia mediáticas fossem postas ao serviço da cultura? Cultura no sentido lato, não no sentido livresco. Embora a disseminação da cultura nesse sentido lato de aquisição de valores e de saberes, se traduzisse também na venda de mais livros

Antologia de pequenos contos insólitos: O Conde Drácula

O Aventar inicia hoje a publicação de pequenas jóias da literatura, contos insólitos, pérolas do non-sense e do fantástico. Aceitam-se sugestões. Inauguramos a série com um conto de Woody Allen, o Conde Drácula.
drácula

Algures na Transilvânia, Drácula, o monstro, jaz adormecido no caixão à espera que a noite caia. Como a exposição aos raios solares lhe causariam, por certo, a morte, ele protege-se na câmara orlada a cetim, com o nome da família gravado a prata. Quando o momento da escuridão chega, através de algum instinto miraculoso, o Demónio emerge da segurança do seu esconderijo e, assumindo as abomináveis formas do morcego ou do lobo, vagueia pelos campos, bebendo o sangue das vítimas. Por fim, antes que os primeiros raios do seu arqui-inimigo, o Sol, anunciem um novo dia, regressa sem demoras à segurança do caixão escondido e dorme. O ciclo recomeça.
Ei-lo que começa a mover-se. O estremecimento das pálpebras é uma resposta a um qualquer instinto remoto e inexplicável que lhe diz que o Sol está prestes a ocultar-se e que é chegada a sua hora. Esta noite, sente-se particularmente esfomeado e enquanto permanece deitado, agora completamente desperto, com a capa e o casaco de Inverno debruados a vermelho, à espera de sentir, com misteriosa percepção, o preciso momento da escuridão antes de abrir a tampa e sair, decide quais vão ser as vítimas da noite. O padeiro e a mulher, pensa de si para si. Suculentos, disponíveis e insuspeitos. Pensar no incauto casal, cuja confiança tinha cuidadosamente cultivado, excita febrilmente o seu desejo de sangue e quase não consegue aguentar os últimos segundos antes de trepar para fora do caixão em busca da presa.
Subitamente apercebe-se de que o Sol se pôs. Como um anjo do Inferno, ergue-se com rapidez e, transformado num morcego, voa atabalhoadamente em direcção à casa das vítimas que longamente esperara.
– Conde Drácula, que bela surpresa – diz a mulher do padeiro, abrindo a porta para o deixar entrar.
(Tinha de novo assumido a forma humana, quando entrou na casa, dissimulando com charme os seus objectivos rapaces.)
– O que é que o traz cá tão cedo? – pergunta o padeiro.
– A nossa combinação para jantar – responde o conde. – Espero não me ter enganado. Convidaram-me para jantar esta noite, não foi?
– Sim, esta noite, mas não dá para sete horas.
– Desculpe? – inquire Drácula, olhando em torno, embaraçado.
– Ou veio para ver o eclipse connosco?
– Eclipse?
– Sim, o eclipse total de hoje.
– O quê?
– Alguns momentos de escuridão desde o meio-dia até dois minutos depois. Olhe pela janela.
– Oh! Oh! Estou metido em trabalhos.
– Hem?
– E agora, se me dão licença…
– O quê, conde Drácula?
– Tenho de ir andando…mm… Oh, meu Deus… – Freneticamente, apalpa o puxador da porta.
– Já vai? Acabou de chegar.
– Sim, mas… penso que fiz mal…
– Conde Drácula, está pálido.
– Estou? Preciso de um pouco de ar fresco. Prazer em vê-los…
– Venha. Sente-se. Vamos beber um copo.
– Beber? Não, tenho de me apressar. Eh, está-me a pisar a capa.
– Claro. Acalme-se. Um pouco de vinho.
– Vinho? Oh!, não, deixei de beber; o fígado e todas essas coisas, sabe. Tenho mesmo de me despachar. Lembrei-me que deixei as luzes do castelo acesas; a conta vai ser enorme…
– Por favor – diz o padeiro abraçando o conde com firme amizade. – Você não está a incomodar. Não faça cerimónia. Portanto veio mais cedo.
– Na realidade gostava de ficar, mas há um encontro de velhos condes romenos na cidade e eu sou o responsável pelas carnes frias.
– Sempre com pressa. É um mistério como não arranja um ataque de coração.
– Sim, tem razão. E agora…
– Estou a fazer pilaf de galinha para esta noite – badala a mulher do padeiro. – Espero que goste.
– Esplêndido, esplêndido – diz o conde, sorrindo enquanto a empurra para cima da roupa suja. Então, abrindo por engano a porta do armário, entra. – Jesus, onde é que está o diabo da porta da rua?
– Ah! Ah! – ri a mulher do padeiro. – Que homem divertido que é o conde.
– Estava à espera que gostasse – diz Drácula, forçando um sorriso amarelo. – Agora deixem-me passar. – Enfim abre a porta da rua, mas o tempo tinha-o ultrapassado.
– Oh! Olha, mamã – diz o padeiro -, o eclipse deve ter acabado. O Sol está a aparecer outra vez.
– Exacto – diz Drácula, batendo com a porta da rua. – Decidi ficar. Baixem as persianas depressa, depressa! Mexam-se!
– Quais persianas? – pergunta o padeiro.
– Não há nenhumas, certo? Imaginem. Têm uma cave?
– Não – diz a mulher afavelmente. – Estou sempre a dizer ao Jarslov para fazer uma, mas ele nunca me dá ouvidos. Sabe lá como é o Jarslov, o meu marido.
– Estou a sentir-me mal. Onde é o armário?
– Já fez essa, conde Drácula. E a mamã e eu achámos muita graça.
– Ah, que homem divertido que é o conde.
– Olhem, vou para o armário. Batam às sete e meia.
– E com estas palavras o conde entra para o armário e bate com a porta.
– Eh! Eh! Ele é tão engraçado, Jarslov.
– Oh, conde. Saia do armário. Deixe-se de disparates. – Do interior do armário chega a voz abafada do Drácula.
– Por favor, palavra de honra. Deixem-me ficar aqui. Sinto-me bem. A sério.
– Conde Drácula, deixe-se de maluqueiras. Já estamos fartos de rir.
– Posso garantir-lhes, adoro este armário.
– Sim, mas…
– Eu sei, eu sei… parece estranho, e no entanto aqui estou eu em grande. Dizia justamente, um dia destes à senhora Hess: «Dêem-me um bom armário e eu sou capaz de ficar lá dentro durante hora.» Deliciosa mulher, a senhora Hess. Gorda mas deliciosa… E agora porque é não se vão embora e discutimos isso ao pôr do Sol? Oh, Ramona la da da di da da di, Ramona…
– Eis que chegam o presidente da Câmara e a mulher, Katia. Estão de passagem e decidem retribuir uma visita aos bons amigos, o padeiro e a mulher.
– Olá, Jarslov. Espero que eu a Katia não incomodemos.
– Claro que não, senhor presidente. Venha, conde Drácula! Temos visitas!
– O conde está cá? – pergunta o presidente surpreendido.
– Está e adivinhe onde – diz a mulher do padeiro.
– É raro vê-lo por aí tão cedo. De facto, nem me consigo lembrar de o ter visto de dia.
– Pois bem, está cá. Saia, conde Drácula!
– Onde é que está? – pergunta Katia, sem saber se havia de rir ou não.
– Saia agora!, vamos lá! – A mulher do padeiro começa a ficar impaciente.
– Está no armário – diz o padeiro apologeticamente,
– A sério? – pergunta o presidente da Câmara.
– Vamos lá – diz o padeiro, trocista e bem humorado, enquanto bate na porta do armário. – Já chega. O presidente da Câmara está aqui.
– Saia lá, Drácula – grita Sua Excelência -, vamos beber um copo.
– Não, vão-se embora. Tenho aqui que fazer.
– No armário?
– Sim, não estraguem o dia por minha causa. Eu consigo ouvir o que dizem. Vou ter com vocês se tiver algo a acrescentar.
Entreolharam-se e encolheram os ombros. O vinho soltou-se e todos beberam.
– Um pouco de eclipse hoje – diz o presidente da Câmara, beberricando no copo.
– Sim – concorda o padeiro. – Incrível.
– Sim. De meter medo – diz uma voz de dentro do armário.
– O quê, Drácula?
– Nada, nada. Deixe.
E assim o tempo passa, até que o presidente da Câmara já não suporta mais e, forçando a porta do armário, grita:
– Saia lá, Drácula. Sempre pensei que você era um homem com maturidade. Pare com este disparate.
A luz do dia entra, fazendo guinchar o monstro demoníaco, que lentamente se dissolve num esqueleto e dep
oi
s em pó diante dos olhos das quatro pessoas presentes. Inclinando-se para o monte de cinzas brancas no chão do armário, a mulher do padeiro grita:
– Isto quer dizer que cancelamos o jantar desta noite?
dracula 2

Woody Allen (Nova Iorque, 1935), grande actor, escritor e realizador norte americano, dispensa qualquer apresentação. Este conto é extraído da colectânea Getting even, editada em 1966. O título escolhido para a edição portuguesa foi Para Acabar de Vez com a Cultura.
A tradução é de Jorge Leitão Ramos e a edição da Livraria Bertrand (1981).

Poemas com história: Natureza morta

Discussão recorrente foi, nos anos sessenta e setenta, a da dicotomia entre forma e conteúdo. Bati-me sempre pela prevalência do conteúdo, sendo da opinião que «o que se diz» é mais importante do que «como se diz». Mas não era, nem é, uma opinião compartilhada pela maioria dos escritores e artistas. Segundo eles, a arte constitui uma linguagem autónoma, independente da realidade do quotidiano, vale por si mesma. É uma posição respeitável. Entretanto, particularmente na literatura, foi vingando um tipo de escrita enovelada sobre si mesma. Os poetas e escritores, sem liberdade de expressão, jogavam com as palavras e, às vezes, no meio de uma floresta de palavras descobria-se um significado. É contra esse tipo de escrita (e de arte) que este poema, escrito por esses tempos, mas apenas publicado em 1990 em O Cárcere e o Prado Luminoso, se batia. Uma arte ligada à vida e à realidade é o que pretendo defender com esta Natureza morta:

Olhando a natureza morta,

frias laranjas dormindo

numa fruteira inerme,

silenciosa,

que o azul cerúleo recorta

na quadrícula branca

da janela,

recuso a natureza

assim estagnada,

sem dentes, sem fome, sem desejo,

sem nada que triture as laranjas:

sem dedos que a esmaguem,

nem crianças que partam

a puta da fruteira;

sem sequer um grito de revolta

que trespasse a gélida fronteira

entre a morte e o silêncio

emoldurados

e a vida que se agita,

grita, ruge e dói

deste lado de cá

da maldita moldura.

Recuso a natureza

pálida, parada,

sem aves, vento ou sons

que sulquem o azul do céu

desta natureza, assim

tão contra-natura

como a que assassinada

a tiros de pincel,

jaz fria, morta e enterrada

na tela e nas cores

desta pintura

Apontamentos & Desapontamentos: Os nossos queridos irmãos brasileiros


Há um livro do Mario Vargas Llosa, «A Tia Júlia e o Escrevedor», que deu lugar a um magnífico filme americano, realizado por Jon Amiel e interpretado pelo Peter Falk, o velho Columbo, pelo Keanu Reeves e pela Barbara Hershey – Tune in Tomorrow (1990). O livro é delicioso e o filme uma pérola. Falk representa o papel de «criador» de folhetins radiofónicos que não perde uma oportunidade para dar alfinetadas nos albaneses (no livro, passado no Peru, o alvo são os argentinos). As referências maldosas vêm sempre embrulhadas em elogios como, «os nossos queridos imigrantes albaneses que, como se sabe, têm a antiga tradição de urinar na sopa antes de a começar a comer»… Não sei se esta frase concreta existe, apenas quis dar um exemplo dos maldosos elogios a albaneses (argentinos) que a personagem central vai debitando ao longo da história. Ora bem, quando digo, os «nossos queridos irmãos brasileiros» não é com a intenção de em seguida os denegrir. Apraz-me que haja em Portugal um fluxo de imigração brasileira. Acho que, tanto quanto possível e cada um de per si o mereça, os devemos tratar tão bem como tratamos os nossos compatriotas. Nunca esquecendo os milhões de luso-descendentes que vivem no Brasil.

Aprecio muito a cultura brasileira, as obras de Machado de Assis, Graciliano Ramosl, João Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, alguns dos livros de Jorge Amado, Ruben Fonseca, a pintura de Cândido Portinari, a arquitectura de Óscar Niemeyer, a obra musical de Heitor Vila-Lobos, de Tom Jobim, de Caetano Veloso, de Chico Buarque, os programas televisivos de Jô Soares, a mestria dramática de Paulo Autran… Poderia encher todo o espaço que vou dedicar a esta crónica com nomes de brasileiros que admiro. E muitos ficariam por referir. Para não falar nos muitos amigos. Contudo, custa-me compreender a razão por que gastamos dinheiro a importar lixo televisivo brasileiro, tão competentes que nós somos a produzi-lo. Ruy de Carvalho disse há tempos numa entrevista que se sentia ofendido de cada vez que ouvia dizer que «No Brasil é que há bons actores». Não que não os haja – os maus, porém, são em muito maior quantidade (como cá, aliás).

Os portugueses dos níveis culturais mais «desfavorecidos» adoram «falar brasileiro». Sempre é mais fácil do que ter o trabalho de aprender inglês, francês, alemão ou castelhano – basta falar abrindo vogais, usando expressões como «vou pégá um cineminha!» ou o meu filho anda na «escólinha», em vez de «vou ao cinema» ou «o meu filho anda no infantário». Já aqui disse – gosto muito de ouvir os brasileiros falar – portugueses a macaqueá-los é um espectáculo degradante. Até porque não conseguem. Uma amiga brasileira com quem estava a ver um programa do Herman, afirmou-me que o «sotaque brasileiro» dele é deplorável.

A nossa diplomacia e os mecanismos culturais de que dispomos, deveriam, no entanto, esforçar-se por esclarecer os brasileiros (os do Brasil e os de cá) que as chamadas «piadas de português» são uma grosseria que não merecemos. É conhecido o episódio de Collor de Mello quando em 1990 fez uma visita a Portugal, em pleno jantar no Palácio das Necessidades, resolveu contar uma «piada de português». É curioso que qualquer brasileiro, mesmo os das camadas culturais mais baixas, entendem que «português é burro». Uma arquitecta brasileira que trabalha num gabinete de projectos em Lisboa, ao concluir uma pós-graduação em que obteve uma excelente classificação final, felicíssima, telefonou aos pais dando-lhes a boa nova. Resposta do pai: «Ó minha filha, isso não tem valor, não. Você não sabe que português é burro? O que vale um pós-graduado feito aí?» Dos brasileiros que dizem estas coisas, não gosto mesmo e não preciso de embrulhar em papel de seda – burrice não usa passaporte nem respeita oceanos ou fronteiras! E este tema da burrice dos portugueses já viaja pela blogosfera a todo o gás.

Para falarmos com a franqueza que entre irmãos deve ser usada e, sempre generalizando, claro, a maioria de nós gosta dos brasileiros, acha graça à maneira como falam, às suas expressões. Em contrapartida, a maioria dos brasileiros não gosta de nós. Às vezes são sinceros e reconhecem que assim é – «É uma recordação do período colonial», dizem. Mas de qual período colonial? Os angolanos, os moçambicanos, sim, tiveram de lutar para conquistar a independência. Os brasileiros não – a independência foi-lhes dada. Porque, nas tropicais cabeças, se gerou a lenda de que os portugueses escravizaram os brasileiros, os quais em 1822, num arroubo de valentia, se libertaram. Disparate. Os portugueses escravizaram negros importados de África, tratados como gado. Mataram índios. Fizeram tudo isso e muito mais. Porém, os «brasileiros» que proclamaram a independência (começando pelo imperador), não eram escravos africanos, nem índios – a independência foi proclamada por portugueses que, rendidos às delícias do Rio de Janeiro, não estavam pelos ajustes de voltar a uma Lisboa bisonha e onde muitos deles perderiam o estatuto que ali, naquela corte de circunstância, tinham alcançado.

Isto mesmo disse, por palavras mais elaboradas, Eduardo Lourenço num colóquio que há anos se fez no Centro Nacional de Cultura e em que um brasileiro fez uma intervenção na base do «nós, oprimidos/vocês, opressores». Eduardo Lourenço, muito delicadamente, perguntou-lhe o nome. Por sorte, tinha um apelido português. E o professor desfechou-lhe esta: «Sabe? Foram os seus antepassados quem escravizou e quem oprimiu. Os meus, nunca saíram de Portugal e, portanto, não podem ser culpados disso».

A política cultural do nosso país é deficiente (aí está uma inegável burrice dos sucessivos governantes). Até no seio das colónias de emigrantes, no Brasil, em França, na Alemanha, existe a ideia de que Portugal é um país que parou no tempo. Com todas as deficiências que temos, com todos os atrasos endémicos, somos tão burros como os outros, que o mesmo é dizer, tão inteligentes como os outros. Claro, que não depende só de nós o haver no exterior uma avaliação correcta do que somos como povo – isso depende também da inteligência e do nível cultural de quem avalia. Porém, os nossos queridos irmãos brasileiros já deviam ter sido informados de que os emigrantes que daqui foram, sobretudo no princípio do século XX, eram gente muito pobre, completamente iletrada, muitos deles desembarcavam no Rio ou em São Paulo e era a primeira cidade que viam, pois de Lisboa ou do Porto só tinham visto o cais de embarque. Decorrido um século, as coisas mudaram; não tanto como gostaríamos que tivessem mudado, mas mudaram. Falando há tempos com imigrantes portugueses em França, pareceu-me (afirmar seria generalizar) que aquelas pessoas, vivendo em grandes cidades, mas em comunidades fechadas, mal falando a língua de acolhimento e nunca tendo verdadeiramente aprendido a sua, estão mais atrasadas do que os habitantes de qualquer aldeia do interior do País. Atrasadas no sentido cultural de compreensão das novas realidades. Os jovens, ajuizando Portugal pela pobreza cultural dos avós e dos pais, desprezam profundamente tudo o que é português.

De quem será a culpa desta incompreensão?

Enquanto pensam na resposta, ouçam um dos verdadeiramente grandes actores brasileiros, Paulo Autran (1922-2007) declamando Ricardo Reis. – «Vem sentar-te comigo, Lídia; à beira do rio» – Que maravilha quando nem nós nem eles
s
omos burros e trabalhamos em conjunto.

Poemas com História: Vinte anos, meu amor

Antes do poema, a História. Este vídeo, comentado em português do Brasil, com uma outra afirmação menos correcta (do meu ponto de vista), explica a quem não se lembrar e a quem não souber, o que se passou naqueles dias de Agosto de 1945:

O poema que hoje vos trago foi escrito em 1965, quando se completaram 20 anos sobre o bombardeamento nuclear das cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui. Foi publicado na antologia Hiroxima, uma antologia de poetas portugueses que organizei, de colaboração com Manuel Simões, e que foi publicada em 1967 e também na colectânea A Voz e o Sangue (1968).. O título é uma clara alusão ao script de Marguerite Duras, Hiroshima mon amour, para o filme de Alain Resnais. Foi reproduzido em numerosas antologias, algumas estrangeiras, e traduzido em diversos idiomas, nomeadamente em castelhano, em francês, em inglês e em catalão. Vamos ao poema:
Vinte anos, meu amor
O relâmpago da bomba que assassinou Hiroxima,
esculpiu sombras sobre a pedra e o cimento
e diz-se que uma delas foi a de um pintor
cuja silhueta ficou para sempre tatuada
no mármore da frontaria de um banco comercial.
O operário, no pedestal do seu escadote,
mergulhava o pincel na lata de tinta
quando o grande clarão se abateu sobre a cidade.
Isto é,
às oito horas e quinze minutos do dia seis de Agosto
de mil novecentos e quarenta e cinco
(enquanto outros homens lançavam bombas),
um homem que trabalhava deixava o seu protesto
esculpido a luz na fachada de um banco.
A sua sombra é talvez o mais evidente e doloroso
monumento à glória dos trabalhadores de todo o mundo.
Mas isto foi há vinte anos,
quando Hiroxima e Nagasáqui foram duas flores de fogo
em cujas corolas explodia a carne e o vidro,
o sangue e o betão – foi há vinte anos,
quando os SS fugiam de Weimar e de Auschwitz,
deixando barracões atulhados de esqueletos vivos
e pátios com montões de cadáveres – carne podre
e ossos amarelecidos que não houve tempo de cremar,
foi há vinte anos e dos barracões saíram filas
de esqueletos vivos que partiram para as suas pátrias
desembarcando nas gares cinzentas da Europa Central,
com a palavra esperança bordada nos seus brancos lábios.
Tudo isto há vinte anos e desde aí os homens,
com os lábios em que tinham hasteado a palavra esperança,
decoraram nomes de terras onde outros homens morriam
para que a esperança deixasse de ser apenas uma palavra:
– Coreia, Indochina, Argélia, Cuba, Congo…
As fachadas dos bancos de Orão, de Havana, de Leopoldville,
viram passar sombras reivindicativas de trabalhadores
e – embora não eternamente – elas projectaram-se sobre o mármore
numa ameaça do Trabalho à indignidade.
………………………………………………………………………………..
A esperança é como uma grande bandeira que os homens levam
nos lábios, nos olhos e na memória,
e as suas sílabas, como pombas invencíveis,
sobrevoam os fornos crematórios, as cidades assassinadas,
as câmaras de gás, as selvas e as celas dos presídios.
Os homens levam a esperança desfraldada nos seus lábios
e um dia hão-de hasteá-la sobre todo o Universo.

Falando de democracia: Um dia já não me lembrarei. De nada (sobre Hiroxima e Nagasáqui)


Foi há 64 anos. A era de um novo terror começara. Os Estados Unidos lançaram a 6 e a 9 de Agosto sobre Hiroxima e Nagasáqui, respectivamente, as primeiras bombas nucleares a atingir alvos civis. Em 1965, com o poeta, e agora professor universitário, Manuel Simões, organizei uma antologia com «depoimentos de poetas portugueses sobre o flagelo atómico, no 2º aniversário da destruição de Hiroxima e Nagasáqui». Mais de trinta escritores contribuíram com os seus poemas para esta edição que foi publicada em 1967 – nomes como os de António Cabral, António Rebordão Navarro, Casimiro de Brito, Eduardo Guerra Carneiro, Egito Gonçalves, Fernando J.B. Martinho, João Rui de Sousa, Manuel Alegre, Maria Rosa Colaço, Papiniano Carlos… Transcrevo alguns excertos do prefácio (estávamos a 7 anos de Abril e o livro foi proibido, não só pelo seu prefácio, mas também pela agressividade da maioria dos poemas):
«Agosto de 1945 é para o mundo, um fundamental marco miliário: é a partir dessa altura que é lícito falar-se dos Estados Unidos como da mais poderosa potência do Ocidente. A ambiciosa e florescente nação dos anos vinte, ressurge, já recomposta das cicatrizes que a crise económica de 1929 abrira. Poder edificado sobre os 130 000 cadáveres de Hiroxima e de Nagasáqui, consolidado com o sangue e com as lágrimas de tantas vítimas.
«Em nome da Liberdade, os E.U.A. deram o seu contributo para a destruição do nazi-fascismo, mas hoje, após a guerra da Coreia, após a invasão da Guatemala, após o desembarque na Baía dos Porcos, após a intervenção no Congo, em plena guerra do Vietname e em flagrante e escandalosa ingerência na política interna da República Dominicana, é oportuno perguntar até que ponto a «democracia» ianque se identifica com os fantasmas que ajudou a derrubar.» (…) «Os 130 000 mortos de Hiroxima e de Nagasáqui, são diariamente agitados ante os nossos olhos como um negro estandarte. A América serve-se dessa terrível recordação que inseriu a fogo na memória deste século, para amedrontar o mundo.»(…)«No Verão de 45, o Japão estava virtualmente derrotado – esgotara as suas fontes de energia humana e económica. Mas, nos Estados Unidos, temiam-se as consequências de uma batalha final em que o império nipónico empregasse desesperadamente as suas últimas forças.» (…) «É preferível que morram 100 000 japoneses a que morra um só Americano, eis uma explicação oficial citada num livro de J. Robert Oppenheimer.» (…)«Hiroxima, se é um terrível símbolo de morte, se é o aval do cheque com que os americanos exercem a sua chantagem atómica, é, para os homens verdadeiramente livres, e referimo-nos àqueles que o são em pensamento, ainda que os seus pulsos levem algemas, um símbolo de Paz.» (…)«Símbolo de Paz, porque nos ensinou, entre outras coisas, que Hiroxima pode, amanhã ou ainda hoje, acontecer em Londres, em Lisboa, em Moscovo ou (quem sabe?) em Nova Iorque.»
*
Mais de 40 anos depois, estas palavras continuam actuais Com pequenas alterações de circunstância e pormenor, voltaria a subscrevê-las. O que aconteceu de 1967 a esta parte não as desmentiu, antes as confirmou. Inclusive na medida em que o reflexo da prepotência norte-americana, apoiada pelos seus aliados da NATO, sob a forma do fundamentalismo islamista, atingiu Londres, Nova Iorque e Madrid. Porém, perdura, nos dias de hoje, 64 anos depois, a memória de Hiroxima?
Para nos recordarmos, vejamos acima algumas cenas de «Hiroshima mon amour», o inesquecível filme que, em 1959, Alain Resnais realizou com script de Marguerite Duras.

O professor Eduardo Lourenço, num artigo publicado no Público há vinte e quatro anos diz: «Desde Heródoto que a História existe como discurso contra o esquecimento, como estratégia para conferir um ¨sentido¨, uma plausível inteligibilidade inerente à vida e acontecimentos humanos. Para termos essa existência plena, semelhante à dos deuses gregos, imunes ao tempo, assumimos a vigília sem noite que chamamos História. Nela e com ela, sabemos de onde vimos e para onde vamos. Subsidiariamente, quem somos. Desta ilusão fundadora Hiroxima nos despiu. Os seus “cem mil sóis” não podem ser olhados sem morrer. Mesmo a sua recordação é mortal. Hiroxima impõe o esquecimento.» (…) «Hiroxima é um não-lugar, uma Pompeia fabricada de mão pensada pelos homens. Os japoneses deviam tê-la conservado assim, arrasada como Cartago pelos novos romanos, insuportável à vista e intolerável para o coração. Preferiram dissimulá-la e ninguém está no seu lugar para os julgar. Para sobreviver, incorporaram o esquecimento na sua história privada. Sem o saber, inauguravam a lúdica era da pós-modernidade que não é culto pedantismo de intelectuais europeus expulsos de uma História como fonte de sentido, mas tempo de gente que incorpora o esquecimento-Hiroxima por saber de mais que, sem ele, desembocaria descalça num terraço com vista privilegiada sobre o nada. Aquele onde tão festivamente estamos.» Vejamos mais um pouco do filme de Resnais.

Como Eduardo Lourenço, citando Marguerite Duras, lembra nesse artigo publicado no Público quando do cinquentenário da destruição atómica: «Un jour je ne me souviendrai plus. De rien». São palavras de Emanuelle Riva, a intérprete principal do filme: «- Um dia já não me lembrarei. De nada». Um dia, Hiroxima será uma data nos livros de História. Não nos lembraremos. De nada.

Homens-livro

Os fãs de "Fahrenheit 451" encontrarão hoje uma entrevista muito interessante a Ray Bradbury nas páginas do El País, na qual faz uma defesa apaixonada das bibliotecas e dos livros em papel. Da adaptação ao cinema realizada por François Truffaut

Para o infinito e além dele

Carl_Sagan_2007

Cheguei ao espaço pela mão de Carl Sagan. Era ele que aos sábados à tarde, se bem me recordo, me pegava na mão, me dizia para não ter medo e me transportava (tipo ‘beam up, Scooty’) para o seu e o meu Cosmos.

Como eu era um miúdo e ele uma pessoa crescida, limitava-me a olhar para ele esticando o pescoço o mais que podia, para escutar cada palavra dita lá no alto da sua sabedoria. Os sábados (se era mesmo aos sábados que a RTP transmitia Cosmos) eram os melhores dias das semanas.

Era nessa altura que partia à descoberta de novos mundos, de tudo aquilo que existia no nosso planeta, na nossa via láctea, na nossa galáxia, no nosso universo. Eram viagens fantásticas. Mas demasiado rápidas. Mal descolávamos já estávamos de regresso. Mas valiam todos os minutos que nelas aplicava.

Pouco tempo depois, o mesmo Carl Sagan estava ao meu lado a sussurrar as palavras dos seus livros. Li, de fio a pavio, mais de uma vez, ‘Cosmos’, ‘O cérebro de Broca’, ‘Os dragões do Edén’ e a ficção ‘Contacto’, onde me contava uma história acerca da descoberta de vida extraterrestre.

Foi graças a Sagan que descobri o espaço, as suas belezas e os seus mistérios. Os seus grandiosos mistérios. Apesar de toda a dedicação que ele me prestou, falhei. A terrível matemática atirou-me, em perfeito KO, para fora do ringue. Tentei resistir mas foi sol de pouca dura. Como um derrotado, atirei a tolha ao chão. Assumi o desaire e abandonei. A matemática ergue os braços, em sinal de vitória para com mais um incapaz de resolver equações.

Apesar de tudo, de vez em quando, ainda sonho com o espaço. Ainda Sagan, sempre ele, a tentar levar-me, como um Buzz Lightyear, “para o infinito e além dele”.

No Teu Deserto

“Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos – e esse é assustador. Será assim a morte, também, Cláudia?”

no teu deserto

No Teu Deserto, o quase romance de Miguel Sousa Tavares.

Já passava da meia-noite quando, hoje, o comecei a ler. Foi sem parar, até ao último paragrafo, derradeira linha, definitiva palavra. Nem sei que horas eram quando desliguei a luz e comecei a dormir. O deserto do Miguel e da Cláudia prenderam-me com toda a força, colaram-se como uma lapa da praia das Caxinas às minhas mãos e ao meu cérebro. Só quem conhece o Sahara (ou julga conhecê-lo pois nem mesmo os senhores do deserto, os Tuaregues, o conhecem) pode compreender o fascínio desta obra. O Sahara entrou na minha vida no ano 2000 e ainda hoje suspiro por a ele regressar. Está prometido para 2010. Ainda falta tanto, tanto tempo…

Na capa escreveram que “No Teu Deserto” é um “quase romance”. Não discuto. Pois que seja. Para mim é um livro belo, com uma história fabulosa e um hino ao “nosso” deserto. Procurando fugir aos habituais clichés sobre o deserto, o amor e a sociedade moderna, Miguel Sousa Tavares escreveu uma obra magnífica e que retrata, não sei se intencionalmente, a forma como hoje vivemos, à velocidade da viagem entre Algeciras e Alicante, sempre nos limites e sem olhar para trás. Sempre no fio da navalha.

Claro que eu sou suspeito, eu gosto do Miguel Sousa Tavares, mesmo quando não concordo com ele. O seu “Sul” é um dos meus livros preferidos, a sua “Grande Reportagem” é uma eterna saudade, o seu “Equador” um marco. Mas, “No Teu Deserto”, é uma obra de uma beleza comovente e que nos faz voar. Dei por mim a recordar Abril de 2000 e como fiquei aprisionado ao Deserto, como suspiro pelo meu “cimbalino berbere” de menta que tanto tento replicar em casa sem o conseguir – faltam-me as folhas de menta mal lavadas e as mãos sujas com unhas indescritivelmente pretas daquele estranho no meio do nada.

“Hoje já ninguém vai ao nosso deserto, Cláudia (…) A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto. Não sabem para que serve e, quando me perguntam o que há lá e eu respondo ´nada`, eles riscam mentalmente essa viagem dos seus projectos. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram”.

Eu vou, antes, irei novamente, meu caro Miguel e espero conseguir ver a estrela de Cláudia, lá bem no cimo, ao lado de outras estrelas da saudade.

Jan quando ainda era James

Não percam o artigo de hoje no Ípsilon acerca de Jan Morris, a propósito da publicação, que só peca por ter tardado tanto, do seu "Veneza", magnífico roteiro da Sereníssima. James Morris escreveu o livro quando ainda era homem mas quem responde hoje às perguntas da jornalista Alexandra Prado Coelho é a simpática octagenária Jan. Reparem na admirável delicadeza, a que não falta um rigor que apenas podemos intuir, desta descrição do seu processo de transformação: "O primeiro resultado não foi exactamente uma feminização do meu corpo, mas um despir da capa rugosa que cobre os indivíduos masculinos. Não estou a falar apenas dos pêlos ou da textura da pele, nem da saliência dura dos músculos: tudo isto desapareceu efectivamente nos anos que se seguiram, mas com eles desapareceu também algo menos tangível, que sei agora ser especificamente masculino: uma espécie de camada invisível de resiliência acumulada, que oferece um escudo para o lado masculino das espécies, mas ao mesmo tempo diminui as sensações do corpo".

Poesia hondurenha de anteontem

A semana passada dei uma boas googladelas para perceber o que se passa nas Honduras. Fiquei esclarecido e do lado dos que escrevem:

“Que fique claro de umas vez por todas: não somos nem políticos, nem revolucionários, nem nenhuma outra merda: apenas defendemos a dignidade, que neste momento está do lado de Mel Zelaya.”

Porque é de dignidade que se trata, a dignidade dos que gritam:

El pueblo: Su libertad para decir qué putas quiere

Dessas voltas guardei os feeds de algumas páginas de poetas, escritores e fotógrafos hondurenhos, o que me tem oferecido a experiência, fantástica, de os acompanhar durante um período tão complicado  para a vida do seu país.  Um período de sensações fortes, para usar uma expressão fraca, de onde naturalmente brotam palavras e imagens fantásticas.

Ao poeta Fabricio Estrada roubei esta foto e tentei verter para português o poema que aqui vos deixo.

Photo de Fabricio Estrada

Profundidade* das Termópilas

Há uma chuva que se enremoinha lentamente
ameaça e cai por fim
com a força de milhares, intensamente inevitável
todo o peso da transparência
num assobio
que vai ensurdecendo o vento
numa profundidade
que chega
às raízes das sumaúmas**
no percorrer de um rio tumultuoso.

.

Há uma chuva que trespassa a terra
e alimenta
o romper das árvores novas,
de bosques subterrâneos emergindo
de ossos que retomam
a figura primeira de homens e mulheres andando.
.

Há uma chuva
que esborrata os uniformes
encurrala, agita e lava o corpo,
amansa,
ordena,
cobre o céu
para que lutemos
debaixo da sua sombra.

.

Fabricio Estrada, poeta hondurenho,versão minha a partir do poema original publicado na sua Bitacora del Parvulo

*Em castelhano: Hondura
**“A sumaúma (Ceiba pentandra, da família Bombacacea) foi para os índios da América Central a árvore-da-vida.”

Poemas com história – Canção para Maria

A receita desta nova série é muito simples: pego num poema meu, já publicado ou inédito, e explico em breves palavras a sua génese, o sentimento ou o acontecimento que o provocou. Uma advertência: alguém me disse que devia chamar à série «poemas com estória». Há empréstimos da norma brasileira e do português falado no Brasil que aceito e outras que não. Essa de estabelecer diferença entre História, para definir a ciência que relata os factos públicos, militares ou políticos de uma nação ou estado, e estória, para qualificar a arte da ficção narrativa, diferença que, grande parte das pessoas (algumas muito respeitáveis) adoptou com o entusiasmo de quem descobriu a pólvora, a mim não me apanha. Uso o termo história nas duas acepções. O facto de em inglês se usar History e story, respectivamente, a mim não me diz nada. A única diferenciação que aceito (desnecessária pois, pelo contexto, logo se percebe do que estamos a falar), é utilizar o H maiúsculo no caso da disciplina científica. Em suma, gosto muito de ouvir falar os brasileiros a falar com o seu sotaque e expressões próprios e não gosto nada de ouvir os portugueses a macaqueá-los. Está explicado – poemas com história.

fanhais

Francisco Fanhais cantando Canção para Maria (Queria Um País de Sol Para te Dar) na FNAC do Fórum Almada.

O primeiro poema que apresento nesta série, intitula-se Queria um país de Sol para te dar e foi publicado no meu livro A Poesia Deve Ser Feita Por Todos. Escrevi-o no presídio do Reduto Norte de Caxias em 1968, dedicado a minha mulher. O Francisco Fanhais musicou-o e ainda hoje o canta com frequência. Mudou-lhe o título para Canção para Maria. Há uma história interessante relacionada com este poema, para além do facto das circunstâncias em que foi escrito e da forma como, com muitos outros textos, saiu comigo quando fui posto em liberdade, após seis meses de cativeiro – dentro de sapatos, entre a palmilha e a sola: o Francisco Fanhais cantava o poema por muitos lados e antecedia-o sempre da mesma história – o Carlos Loures uma tarde disse para a mulher: – Vou até ao café, venho já! – e o Fanhais fazia uma pausa e rematava – voltou passados seis anos! Isto tinha-se passado assim, eu de facto fui preso no café, mas foram seis longos meses e não seis anos. Quando, finalmente, já depois do 25 de Abril conheci pessoalmente o Fanhais, pedi-lhe para ele fazer a rectificação. Aqui vai o tal poema:

Queria um país de Sol para te dar

Para a Maria Helena

Queria um país de Sol para te dar,

com amantes e crianças nos jardins,

pássaros livres a cantar nas árvores

e a luz em liberdade pelas ruas

– as coisas nos lugares onde as sonhámos

e não nos sítios onde estão,

com armas aperradas a guardá-las.

Um país onde sulcássemos as límpidas manhãs

com sorrisos claros vestindo as faces.

Um país sem muros, sem medo

nem carimbos nas cartas que escrevemos

e ouvidos nas palavras que dizemos,

em segredo.

Mas, meu amor, nascemos cedo,

chegámos ainda a tempo de viver

este tempo que vivemos

com lágrimas ocultas no sorriso,

a raiva escondida nas carícias

e uma secreta esperança aprisionada

nos nossos corações aprisionados.

Viemos ainda a tempo de sofrer

Este tempo que sofremos

dia a dia e que sulcamos,

com os beijos vigiados,

com os nossos segredos desvendados,

com este amor amputado e prisioneiro

com que amamos.

Meu amor, não desertemos

Do tempo e do país em que nascemos

(e viver outro tempo dentro deste

ou estar fora do país

dele não saindo,

também é desertar).

Já que foi este o tempo que nos coube,

já que foi este o país que nos deixaram,

temos de conquistar o Sol que os ilumine,

roubando-o ao silêncio e à mordaça

que nos sufoca a voz – Não desertamos

– o ódio, o medo, a morte

que fujam, que desertem

se o amor os insulta e ameaça.

– Nós ficamos!

Com ao companheiros

e o amor dos companheiros,

o amor será mais forte

do que o ódio, do que o medo, do que a morte.

A luz também se constrói com os nossos beijos,

com as palavras clandestinas que escrevemos,

aquelas que a opressão não vê nem ouve.

A luz também se constrói com os nossos filhos,

eles tingem de luz nova

as sombras que com ódio vêm pôr

entre as carícias, os beijos e as palavras.

Neles se erguerá a luz para amanhã

e a liberdade prisioneira nos nossos corações

inundará de Sol as ruas,

meu amor.

Nota final: Este poema também ficaria bem na minha outra série Apontamentos & Desapontamentos. A democracia, esta «democracia», desapontou-me. Em todo o caso, não alimento saudosismos estúpidos por esse tempo de odiosa e criminosa repressão. Desse período negro, só invejo nostalgicamente a «mocidade perdida», como diz o faduncho.

Jesús Moñarriz – Niebla

jesus
En esta niebla espesa que uniforma y disfraza
y agrisa los colores de personas y cosas,
en esta niebla fría, pegajosa, bancaria,
se está adobando Europa.

Sobre montes y leyes, sobre normas y ríos
extienden su sonrisa las multinacionales
y dan su decidido apoyo a los políticos
si resultan rentables.

Con el siempre eficaz truco del todo o nada
se le pide que asienta al pueblo soberano
que, en limpio referendo, se hace cargo del trágala
sin sentirse estafado.

Mientras echa sus redes la pesca de bajura,
una niebla adherente va camuflando Europa.
¿Qué encubre? ¿qué protege? ¿qué presagia? ¿qué incuba?
Responderá la historia.

Es un poema de Jesús Munárriz, de su libro Rojo fuego nocturno, Hiperión, 2009.

Milicianos – Os peões das nicas, de Rui Neves da Silva

capa_rui_neves

Um livro que conta a história dos militares que foram duas vezes para a vida militar. Pela primeira vez como aspirantes milicianos. Pela segunda vez como Capitães. Foram estes a quem foi oferecida a possibilidade de passarem ao Quadro Permanente da Carreira Militar e que levou às primeiras movimentações dos oficiais do quadro permanente contra o regime.
Este livro conta a história do ninho mais longínquo do 25 de Abril.
Rui Neves da Silva foi um desses Milicianos que esteve sete anos na vida militar, sem preparação. Enviaram-no com 126 homens para a guerra. Este livro fala dessa história.

LIVRO SEGUNDO

A GUERRA: FÁBRICA DE HERÓIS

A seu lado, Felisberto Barroso parecia mais interessado no comportamento da assistência do que nos meneios eróticos das bailarinas, o que fez Rafael pensar que talvez o seu amigo estivesse a treinar-se para o recomendável adormecimento da líbido após ter sido avisado sobre os riscos que o exercício sexual naquelas terras comportava. Mas o interesse de Felisberto ao observar a excitação que levava homens adultos a portarem-se como feras esfomeadas residia tão somente no desejo de querer saber quanto tempo poderia ele resistir a ter igual comportamento se, como era esperado, ficasse privado de qualquer actividade sexual enquanto estivesse no mato.

– Vou passar um mau bocado – quase gritou ao ouvido de Rafael. – Ando cá a pensar que a descompressão manual não vai resultar.

O seu interlocutor fez uma careta. Gostava de Felisberto como de um irmão, mas aquela obsessão por sexo já começava a aborrecê-lo. Nos quase nove dias de viagem por mar, não deixara de lamentar-se. Farto daquela lengalenga, Rafael aconselhara-o a procurar o remédio dos solitários.

– Não me basta assistir ao desespero diário dos soldados a vomitar as tripas no convés como ainda tenho de levar com as tuas taras sexuais, pá! Se não tens pito à mão usa a mão como pito, porra! Ou estás com medo que te nasçam borbulhas?

– As mulheres de Moçâmedes são das mais bonitas de Angola. Não sei que raio de cruzamentos de raças foram ali feitos que o produto final é isso que vocês vêem: cabritinhas altas, de rostos bonitos, onde sobressaem uns olhos quase negros e sempre risonhos, e corpos esculturais e cheios de promessas… que para nós não passam disso mesmo. Quando as virem de mamocas ao léu vão dar-me razão, camaradas!

Não era necessário vê-las despidas para Felisberto poder ajuizar da beleza de formas das “strippers”; naquele negócio não entravam coxas nem marrecas, da mesma forma que para a tropa não iam fulanos que tivessem um cérebro bem calibrado e equilibrado. Curiosamente, sendo o capitão miliciano um apreciador, e um provador, do belo sexo, as mulheres que exerciam aquela actividade nada lhe diziam. Segundo ele, padeciam todas de um insanável exibicionismo, o que lhes circunscrevia o gozo sexual à excitação que o olhar guloso dos “voyeurs” lhes provocava, ficando-se, regra geral, por aí.

No estrado, as raparigas prosseguiam nos seus meneios de ancas, aparentemente alheias às paixões bestiais materializadas na vozearia em crescendo. A mesa onde os quatro oficiais se encontravam estava encostada a um dos lados do estrado; tinha a vantagem de quase se poderem tocar as pernas das raparigas, se tal lhes fosse permitido, mas o inconveniente de poderem levar com qualquer objecto contundente que algum dos clientes de ânimo mais exaltado decidisse arremessar para o palco.

– Quem são estes gajos? – perguntou Rafael ao braquicéfalo.

– Na sua maior parte são madeireiros das florestas do Alto Maiombe, do enclave de Cabinda. Fretam avionetas e vêm passar o fim de semana a Luanda, onde às vezes gastam numa noite o que ganharam num mês. Imaginem vocês que chegam a reservar toda a capacidade deste tipo de casas só para eles e para os seus amigos da capital! E quando não são eles são outros, como os traficantes de feijão branco, da região de Malange.

– Feijão branco?! – exclamou Rafael.

  • Diamantes – esclareceu-o o capitão Januário, que acrescentou: – A “Diamang” tem a concessão da exploração dos terrenos diamantíferos de Angola, mas passam mais diamantes pelos circuitos clandestinos a caminho da Holanda e da Suiça do que pelos cofres fortes da Empresa.

A Ministra de Miguel Real

Uma professora de Sociologia das Estatísticas autora de uma tese de doutoramento intitulada “Como manipular dados estatísticos de modo a evidenciar resultados não existentes na realidade” recebe um telefonema do novo primeiro convidando-a para ministra. Tem um dia para responder, e é nesse espaço que decorre a novela, com a senhora derramando as suas memórias, actualidades e alguns pensamentos profundos: “deve-se correr para onde sopra o vento” é um dos seus lemas de estimação.
Se Miguel Real se tivesse inspirado numa personagem menor mas real da política portuguesa o Manifesto Anti-Dantas ao pé disto ficaria ao nível de uma cantiga de embalar. Claro que não é o caso, o autor  sublinha o desenho ficcional da mulher “feia, triste, e de existência infeliz”, e ficamos todos mais descansados.
A leitura deu-me uma sensação estranha, de aproximação e repulsa pela personagem. De aproximação porque sentia uma proximidade difusa, tipo já vi esta tipa em qualquer lado não me lembro é quando e onde, e mesmo sem me recordar ia gozando com a forma como Miguel Real a desmonta, no que chamaria uma desmontagem cavalgada, já que monta muito bem a cavalgadura, que é outra personagem. Mas isso é problema meu, que me devo ter cruzado com alguém gémeo, e não deve afectar a maior parte dos humanos.
Ao mesmo tempo, claro, permanecia a repulsa que é suposto termos por uma personagem quando se trata de uma personagem repulsiva.

É uma obra que se aconselha aos candidatos a primeiro-ministro: ficam avisados quanto à conveniência em conhecer bem candidato a ministro que se convide, podem surgir surpresas desagradáveis, mesmo sob a forma de gestualidades taurinas compulsivas como se viu mais recentemente, na certeza de que o actual ocupante do cargo não precisa, porque todos sabemos que nunca convidaria uma abécula destas para ministra.

Para os não-candidatos também recomendo. Uma boa leitura de Verão, fresca, de humor leve, e todos sabemos como a gargalhada pesada e alarve pode ser indigesta depois de uma boa sardinhada.

Miguel Real é professor, e desconfio que os seus colegas de profissão vão esgotar a obra. Nalguns casos, os que já tiveram de recorrer aos psis, chegarão mesmo a ela por recomendação clínica, embora infelizmente se trate de um medicamento não comparticipado e sem genérico no mercado. É pena.

Rodapé: este é o meu primeiro avento, donde fica bem e não custa nada cumprimentar os colegas, sintam-se todos cumprimentados, e já agora apresento-me: João José Cardoso, empregado do Ministério da Educação, com formação em História, nativo e vivido em Coimbra, esquerdista desde miúdo, portista e da Académica, consoante os desportos e as temporadas. Não percebi muito bem para que lugar fui contratado, mas dou-me bem como apanha-bolas. Ah, e encontraram-me a ver um homem que viu ontem que viu o mar. Até já.

Milicianos – Os peões das nicas, de Rui Neves da Silva – I

capa_rui_neves

Um livro que conta a história dos militares que foram duas vezes para a vida militar. Pela primeira vez como aspirantes milicianos. Pela segunda vez como Capitães. Foram estes a quem foi oferecida a possibilidade de passarem ao Quadro Permanente da Carreira Militar e que levou às primeiras movimentações dos oficiais do quadro permanente contra o regime.
Este livro conta a história do ninho mais longínquo do 25 de Abril.
Rui Neves da Silva foi um desses Milicianos que esteve sete anos na vida militar, sem preparação. Enviaram-no com 126 homens para a guerra. Este livro fala dessa história.

Miguel Chaves já tinha quase seis meses de comissão no Leste de Angola quando teve o primeiro contacto com guerrilheiros do MPLA. Até então, por mais que patrulhasse o naco do distrito da Lunda que os altos comandos militares lhe haviam confiado, só tinha encontrado trilhos abertos na mata, alguns com sinais que evidenciavam a passagem recente de seres humanos. E isso punha-o doente de raiva, pois nas circunstâncias tudo apontava para a existência de grupos armados a deslocarem-se com alguma regularidade e aparente impunidade em terrenos que era suposto deverem evitar dada a sua proximidade do aquartelamento da Companhia.

Como queria seguir a carreira militar, entendia o capitão miliciano Miguel Chaves que as melhores credenciais que no futuro lhe atestariam a competência seriam umas baixas do lado do inimigo, comprovadas com a apresentação das armas individuais dos falecidos. Mas nessa perspectiva a sorte não lhe sorrira, sentindo-se o transmontano frustrado nos seus intentos de dar ao gatilho e mostrar serviço.

Ao ver que a falta de sorte se eternizava, Miguel tinha acabado por admitir que naquele jogo do gato e do rato ele estava a utilizar muito músculo e pouco cérebro. E chegara a essa conclusão mediante um processo retrospectivo que o conduzira à adolescência, à fase da sua vida em que ao lado do pai se aventurava na raia de Espanha e se ria dos carabineiros… Pois não era verdade que antes de se atreverem na devassa dos trilhos eram informados dos locais que em cada noite a “guardia” patrulhava e das furnas onde sem receio poderiam acoitar-se em caso de perigo?

Tal como em Moimenta da Raia, onde contrabandistas e carabineiros confraternizavam, também em Biula, a aldeia indígena mais próxima de Chimbila – local onde a Companhia estava acantonada -, guerrilheiros e aldeãos viviam paredes meias, ademais de se confundirem por razões epidérmicas e culturais. E como era em Biula que os militares mais esquecediços dos alertas dados procuravam nos braços das jovens autóctones algum consolo dos tantos males que a saudade provoca, não fora difícil a Miguel Chaves concluir que em alguma altura dos devaneios amorosos um ou outro filho da puta acabava por, ainda que inocentemente, dar com a porra da língua nos dentes.

Partilhando essa conclusão apenas com os seus alferes, Miguel Chaves tinha decidido que, ao invés de proibir as incursões dos seus pequenos aos quimbos de Biula, o melhor seria deixar que elas prosseguissem com naturalidade. A única diferença estaria na natureza de informação que os militares, no antes, no auge ou no após das suas proezas sexuais, veiculariam até aos ouvidos atentos das suas conversadas.

Eram quatro horas da madrugada quando Miguel saiu a pé do aquartelamento, fazendo-se acompanhar na sua surtida por cerca de quarenta homens fortemente armados. Caminhando em silêncio, o grupo rodeou as instalações da Companhia antes de avançar para a picada, que percorreu durante alguns minutos como se fosse em direcção a Biula. O grupo de homens ainda não tinha andado um quilómetro quando se deteve e infiltrou na mata. Afastando-se na perpendicular da picada, o grupo foi então dividido e reorganizado em quatro secções de dez elementos, cada uma delas sob o comando de um furriel. Das quatro secções assim formadas, duas ficaram sob as ordens de Miguel Chaves, sendo as outras coordenadas por um alferes.

As instruções do comandante da patrulha foram claras: nada de palavras, nada de ruídos e nada de medos. No que tocava às duas primeiras advertências, vá que não vá; mas aquela coisa do não ter medo era mais complicada. Ainda que ninguém se atrevesse a confessá-lo, todos os elementos da patrulha deslizavam na noite com a angústia aferrada no peito e o medo a saburrar-lhes a língua e a ressequir-lhes a gorja.

Flectindo para nordeste, o grupo de soldados avançou através da mata, pouco densa nessa zona, indo deter-se a curta distância da margem de um afluente do rio Cassai. A um sinal de Miguel Chaves, um dos soldados aproximou-se e ficou de ouvido quase colado à boca do capitão; depois, sem fazer o menor ruído, afastou-se até se confundir com as sombras que não tardariam a diluir-se nos alvores da manhã.

Sentados, e alguns dormitando, esperaram pelo regresso do batedor. Miguel Chaves não conseguia ver-lhes o rosto, mas adivinhava-lhes o nervoso. Conhecia-os a todos, e a todos tratava pelo primeiro nome, incluindo aqueles que na Companhia eram mais conhecidos pelas alcunhas: o Coxo, o Galego, o Pichas, o Vinhais… E por aí fora. Gente boa. Gente do melhor. Estavam ali quando podiam estar em França, no Luxemburgo ou na Alemanha. O seu pai ajudara tantos a atravessar a raia espanhola…! Claro que eles também iriam para fora, que o apego à terra era coisa do passado, mas só depois de, como diziam, “verem como era para poderem contar como foi”.

Em cada uma das posições que as secções ocupavam nos extremos da meia-lua tinha sido montada uma metralhadora “MG-42”, cuja cadência de tiro era deveras impressionante. Quanto ao local onde se posicionara a secção comandada por Miguel Chaves, tinha sido instalado um morteiro de 60 milímetros, que seria utilizado no caso de haver guerrilheiros que, tendo escapado da zona de morte, conseguissem regressar à protecção da mata.

Miguel não podia voltar atrás. A emboscada estava montada e os seus homens só aguardavam o seu sinal – um tiro de pistola – para a desencadear. Os dois primeiros carregadores já estavam na margem onde se encontrava a tropa, as águas do rio abriam-se agora para deixar passar mais carregadores e guerrilheiros e toda a zona na outra margem estava a ser percorrida por cerca de uma vintena de homens, embora apenas alguns deles empunhassem armas. Quando o fluxo de homens que provinha da orla da mata oposta foi definitivamente interrompido, o capitão miliciano voltou-se para Ramiro e deu-lhe instruções em voz baixa:

– Entra em contacto com os furriéis e diz-lhes que contei onze homens armados e vinte carregadores, mas é possível que tenha ficado alguém para trás. Um dos bandidos traz um lança-granadas foguete, um RPG, que pode causar-nos baixas, pelo que é conveniente que os atiradores especiais o despachem em primeiro lugar.

– É tudo? – inquiriu o soldado.

Miguel Chaves ia a confirmar com a cabeça quando se lembrou dos carregadores.

– Diz-lhes que tentem poupar os homens desarmados.

Ramiro percorreu em poucos segundos a distância que o separava dos seus camaradas, os quais se mantinham nos seus postos de arma aperrada e ansiosos por entrar em acção. Transmitidas as últimas instruções de que era portador, regressou á sua posição a tempo de ver Miguel Chaves, que da orla da mata vigiava a zona de morte, erguer a “Walther P38” para disparar o tiro que seria o sinal para os homens começar
em
a matar-se…

Ainda o som do disparo não fora ouvido na outra margem do rio e já caía sobre os desprevenidos guerrilheiros uma saraivada de balas. Os que mais perto se encontravam da cercadura da mata que tinham abandonado minutos antes a ela quiseram apressadamente regressar, mas foram derrubados e espostejados pelo fogo cruzado das metralhadoras antes de lograrem os seus intentos.

Enquanto as “MG-42” entoavam cânticos de morte em brutal cadência, em pontos vários da mata protectora explodiam granadas de morteiro vindas do céu sem aviso prévio, as quais, à falta de seres vivos para estraçalhar, ao fragmentarem-se cortavam em finas lâminas troncos de árvore com a grossura de um pescoço humano. Daí que, mesmo que iludissem o fogo das metralhadoras, os guerrilheiros que tinham saído em último lugar da mata não ganhariam grande sossego físico se a ela tivessem retornado.

Melhor sina não tiveram os guerrilheiros que, no momento em que soou o tiro de pistola, ou já tinham atravessado o rio, ou estavam dentro dele ou se aprestavam para nele entrar. E como a sua primeira reacção foi a de procurarem abrigo e à mão só tinham os carregadores, vai de utilizar os desgraçados como resguardo, porventura convencidos de que a tropa se coibiria de disparar.

Pura ilusão! Para os soldados emboscados aquele era o seu baptismo de fogo, era o desfranjar dos nervos que vinham acumulando desde que tinham abandonado a protecção do aquartelamento na Chimbila… Poderia esperar-se de tropa tão inexperiente que tivesse o discernimento de separar o trigo do joio em pleno combate? Era óbvio que não, mais a mais quando, utilizando os carregadores como parapeito, os guerrilheiros ripostavam com rajadas das suas espingardas automáticas “Kalashnikov”, de fabrico soviético.

Em consequência desta atitude cobarde por parte dos guerrilheiros, a quase totalidade dos carregadores finou-se no campo de batalha. Eram já carne morta e as balas continuavam a retalhar-lhes os corpos, esbulhando-os das vísceras e da dignidade de aspecto que todo o ser humano, mesmo já cadáver, deveria conservar; mas não ficaram a rir-se quem deles se aproveitara de forma tão desumana, pois que, desfazendo-se em pedaços o oportuno abrigo, ficaram expostos aos tiros certeiros dos atiradores especiais.

Quem acabou por ter sorte foram os carregadores que se encontravam dentro de água no início da emboscada. Abandonando os fardos que carregavam, deixaram que a corrente os afastasse para longe, levando nos olhos a imagem do encarniçamento dos soldados emboscados contra os guerrilheiros.

A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures

Aventar continua hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a sexta e última parte:

Chegaram, no final do corredor, a uma sala lugubremente iluminada por velas. Sentado a uma mesa estava um homem encapuchado. Fez um gesto com as mãos. Os raptores deixaram-nos sós. Era um sujeito aparentemente alto e forte e que, quando falou, revelou uma voz  de pessoa educada e habituada a comandar, utilizando uma linguagem cuidada e com boas maneiras:

– Não sei se o meu amigo conhece ou se recorda daquela fala do Hamlet em que ele diz, mais ou menos assim, salvo erro, para sua mãe, a rainha Gertrudes – «Talvez eu seja cruel, mas apenas quero ser bom» – suspirou – na vida e na política também é assim, muitas vezes, para sermos bons, temos de ser cruéis. Por isso, o trouxemos até aqui desta forma desagradável e a esta hora imprópria. Peço-lhe, desde já, imensas desculpas.

Sem saber porquê, Jorge, pareceu-lhe já ter ouvido antes aquele timbre de voz, aquela maneira de  pronunciar correcta e totalmente as palavras, ao contrário do que acontecia entre os lisboetas em que, sobretudo nas camadas populares, muitas das sílabas eram comidas e na sucessão de vogais mudas havia palavras que pareciam bizarras sequências de consoantes. Não falava também com as vogais abertas do Norte e eliminando os vês ou com a pronúncia da sua Beira, com ceceios e abundância de xis, nem com o característico português cantado do Sul. Aquele cuidadoso escandir das palavras, aquele silabar ritmado das frases, que lhe parecia já ter ouvido noutro lugar, estaria próximo de um hipotético português-padrão que alguns homens das gerações anteriores, geralmente formados em Coimbra, caprichavam em manter como traço cultural distintivo do português eivado de simplificações fonéticas e de modismos que os jovens gostavam de utilizar pelas mesmas razões: fidelidade à tribo. O seu pai falava assim também, embora não de forma tão pronunciada. Ele próprio utilizava um português filtrado em Coimbra, dificilmente identificável do ponto de vista regional, ao contrário de Luciano que gostava de exibir, de assumir com exuberância e orgulho a sua condição de beirão, falando ostensivamente axim, como diziam os alfacinhas. Mas não conseguiu lembrar-se onde ouvira já aquela tão correcta como estranha maneira de usar o idioma.

Fez um gesto de assentimento com a cabeça:

– Lembro-me bastante bem dessa fala. E Shakespeare até, salvo erro, diz a seguir, também pela voz de Hamlet: «Isto começou muito mal, mas o pior ainda está para chegar!», qualquer coisa neste género – Jorge recuperara a serenidade e a aparente lhaneza do encapuchado pusera-o, de certo modo, mais à vontade. «Pelo menos»,  pensou tentando tranquilizar-se, «parece ter sido ultrapassada a fase das navalhas».

Uma gargalhada sonora e expontânea saiu por detrás do balandrau negro:

– Essa é boa!  Esperemos bem que não. Esperemos que o pior já tenha passado.

Após uma pausa, o mação começou por indagar sobre as suas preferências ideológicas. Jorge disse a verdade, que era um ferrenho, um convicto adepto da República embora o assassínio do rei e do herdeiro do trono tivesse sido, na sua opinião, um excesso desnecessário e cruel. O homem pareceu ficar satisfeito com a resposta. E depois de um breve silêncio,  desbobinou o seu discurso. Estava completamente ao corrente da sua relação com Margarida e sabia que ele se referira a uma reunião que tivera lugar em casa da jovem actriz e que tinha conhecimento do que se dissera nessa reunião. A bem da Revolução que estava iminente, aconselhava-o a não dar com a língua nos dentes, sob pena de ele e a rapariga virem a ter graves problemas. Até mesmo as suas vidas ficariam em perigo, pois havia questões em jogo que tornavam completamente  irrelevantes as vidas de um jovem bacharel de Celorico da Beira e de uma insignificante actrizita do teatro de revista. «Como o amigo calcula, de ambos os modelos há à venda no mercado a três o vintém!», disse tentando fazer humor para quebrar a tensão que o ambiente e as circunstâncias haviam criado, o que, obviamente, não conseguiu. Jorge esboçou um pálido sorriso, mas não achou graça nenhuma. Cogitou: «Mau, mau, lá voltamos nós novamente às ameaças».

Depois de uma breve pausa, o sujeito disse-lhe também que nunca estivera nos planos da Maçonaria matar o rei e o príncipe real. Nem tal coisa pensar! Que o alvo do atentado sempre fora o João Franco. A mudança do objectivo definido pelas instâncias superiores, fora decidida exclusivamente pelos elementos do grupo à última hora. Isto correspondia inteiramente à versão que os conspiradores tinham combinado tornar oficial. Jorge assentiu com repetidos acenos de cabeça, como se acreditasse.

– Uma surpreendente e desagradável questão de indisciplina que, de modo algum, é habitual na nossa organização. Nunca tinha acontecido uma coisa assim – concluiu, acrescentando com uma nota de dramático pesar na voz – Mas, coitados, também, na verdade, os nossos pobres companheiros pagaram com as suas vidas esse indesculpável e trágico acto de indisciplina.

Na reunião, tinham dito mais ou menos o mesmo. Só que, em vez de indisciplina tinham usado outra expressão, menos respeitosa, mas talvez mais sincera, mais objectiva: «tontice militante», era assim que tinham dito. A versão referida na reunião  da Rua do Ouro  e que ele escutara era a que ficara a valer para efeitos de consumo externo. Jorge continuava a assentir com a cabeça.

Em seguida, o polido cavalheiro ralhou-lhe pedagógica e mansamente, como quem critica uma pequena travessura infantil,  por andar envolvido com a protegida de um senhor deputado, tão respeitável e poderoso:

– Não é coisa que um rapaz decente como o senhor, com os seus princípios, com a educação familiar e a formação académica que recebeu, deva fazer. Não é nada bonito, mas eu compreendo; também já tive a sua idade. Os sentidos imperam sobre a razão, é biológico e natural – fez uma pequena pausa e prosseguiu – Mas isso está ainda no começo, é apenas um devaneio juvenil com pouco mais do que um dia de duração, é melhor terminar já, senão depois vai custar-lhe bastante mais. Digo-lho, meu amigo, por experiência própria – disse, parecendo deveras preocupado com a vida sentimental do rapaz.

A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures

Aventar continua hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a segunda parte:

Agora, parado nos degraus da estação do Rossio, Jorge, um pouco aturdido e indeciso, cismando sobre o caminho a tomar enquanto contemplava a limitada nesga do Rossio que lhe era dado ver, lembrou-se da metáfora das inocentes carpas e do sinistro congro invocada por Luciano na tal agradável tarde do Outono anterior. Tentou apreciar através dos olhos críticos e cinicamente irónicos do primo o fervilhar daquele formigueiro de gente que, com gestos precisos, como se soubesse  exactamente para onde ia, atravessava a praça, o entardecer e a vida em todas as direcções. Gente, trens, carruagens, faetontes, anacrónicas caleches, tipóias de praça, pesados e chiantes eléctricos amarelos, um ou outro, muito raro, e buzinante automóvel, na desordem supostamente ordenada do fim da tarde daquela sexta-feira invernal.

A viagem fora longa e incómoda, estava ainda com as pernas entorpecidas pelas muitas horas em que estivera sentado no compartimento.  Saído de Celorico da Beira de madrugada, mudara de comboio na Pampilhosa, tomando depois o «rápido» que vinha do Porto para Lisboa através da linha principal. Monotonamente, as estações sucediam-se, Alfarelos, Soure, Pombal, Lamarosa, Entroncamento…  Como se, por qualquer prodígio divino ou tecnológico, se deslocassem meteroricamente à frente do comboio, as mulheres que vendiam água em bilhas, frutas ou bolos, pareciam ser sempre as mesmas em todas as paragens, percorrendo lentamente as plataformas e apregoando as suas mercadorias com gritos estridentes.  No Entroncamento tivera tempo suficiente para descer, beber um café e comprar alguns  dos jornais do dia, todos eles enxameados de preocupantes notícias, como, aliás, passara a ser normal nos últimos tempos.

Olhou o céu donde, por entre as nuvens, desciam agora as primeiras sombras da tarde. Havia um ar frio e um vento que, encaminhado pelas ruas Augusta e do Ouro, vinha desde o Tejo fazer que os repuxos dos lagos salpicassem com gotas de água os apressados transeúntes. Felizmente não chovia nesta altura, embora o empedrado da praça estivesse ainda molhado de um aguaceiro recente. Este vento e os salpicos de água, bem como talvez as chuvadas breves, mas fortes, tinham enxotado dos bancos de pedra, agora encharcados, que rodeavam a placa ornada, com ondas alternadas pretas e brancas de calcário e basalto, os seus habituais clientes, pedintes, velhos reformados, poetas desocupados, uma ou outra prostituta, velhotas que traziam milho para os bandos de pombos que enxameavam a praça…

Um homem corpulento, com grandes bigodes, com uma chapa metálica no boné de pala rígida e envernizada, vestindo uma pesada samarra, leu, sob o seu sorriso evocador das palavras do primo Luciano, algum acanhamento provinciano, que não, evidentemente, as interrogações filosóficas, e ofereceu-lhe, num galego-português não muito diferente do acento beirão a que Jorge estava habituado, os serviços de um hotel, o «Americano» logo ali, junto à estação, na Rua do Príncipe, ao lado da «Brasserie Príncipe». Recusou distraidamente com um sorriso ao mesmo tempo que agarrava com firmeza a  mala de viagem a que o galego procurava a todo o transe deitar a mão, na sua ânsia de apresentar serviço. Desceu os escassos degraus e, atravessando o Largo Camões, entrou no «Café Gelo» pela porta da Rua do Príncipe. A propósito do Largo Camões, refira-se que na toponímia lisboeta abundavam as referências camonianas, sobretudo desde 1880, ano em que se tinha comemorado  o tricentenário da morte do poeta.  Além de uma rua Luís de Camões, uma dos Lusíadas e outra rua Jau, todas em Santo Amaro,  Alcântara, havia ainda o mencionado largo, junto da estação do Rossio e a Praça Camões, onde, no cimo da Rua Garrett, em 1867, fora inaugurado o monumento ao vate, da autoria do escultor Vítor Bastos.

Circunvagou o olhar pela horda pardacenta de funcionários públicos, militares, estudantes, ociosos, burgueses na sua maioria: colarinhos engomados e engravatados,  paletós e sobretudos escuros, impermeáveis cinzentos,  coloridos aqui e além por algum casaco alvadio e pelos capotes e dólmanes  azuis, de golas vermelhas e botões dourados, de um ou outro oficial. Sentou-se numa mesa junto da janela, pousando a grande mala de cabedal no chão,  junto de si. Na mesa ao lado, um rapaz de cabelo cortado curto,  bigode alourado, grandes olhos castanhos, com uma expressão séria e triste, ainda jovem, com talvez um pouco menos de trinta anos, dissertava acaloradamente sobre o caos orçamental, sobre os escândalos dos tabacos e dos adiantamentos à casa real. Os companheiros, outros três, também jovens, embora menos, assentiam grave e distraidamente, como se escutassem uma litania por todos sabida de cor. Em  quase todas as mesas se discutia política.

A suspensão pelo Governo de cinco jornais, a grande vaga de prisões, incluindo as dos chefes republicanos e a do líder monárquico dissidente,  a  ida do ministro  da Justiça, a Vila Viçosa com o decreto do presidente do Conselho, João Franco, que iria permitir o desterro dos políticos da oposição para as Colónias, e as múltiplas especulações sobre a decisão que o rei iria tomar (assinaria, não assinaria?), os violentos confrontos armados entre a polícia e grupos de populares da terça-feira anterior, eram os principais temas da generalidade das conversas. Parecia haver fortes descargas eléctricas no ar que ali se respirava, uma atmosfera densa, quase palpável,  olorosa a roupas molhadas pela chuva, a tabaco, a cerveja, a café.

Jorge recordou os receios e as ânsias de sua mãe, que temia que ele corresse algum perigo no ambiente, agora já não apenas boémio e dissoluto, como também tumultuosa e perigosamente revolucionário, da capital. Embora a situação vista da Aveleira-de-Cima e descrita na linguagem seca do telégrafo ou no estilo empolado dos jornais parecesse ainda mais catastrófica, sob a aparência de normalidade, de um dia igual a todos os outros, respirava-se em Lisboa, realmente, um carregado e denso clima de tensão. Na mesa ao lado, o jovem louro e magro vociferava agora, com um perceptível acento alentejano, contra a família real, a «cambada», como ele se lhe referia, mas sobretudo contra o chefe do gabinete de ditadura, o alvo principal de todos os ódios e paixões que percorriam o país de ponta a ponta: João Franco.

A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures – I

Aventar inicia hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a primeira parte:

 

Uma noite de Verão, na serenidade indestrutível da sua aldeia serrana,  Jorge viu no telejornal as imagens da demolição por implosão do edifício de um grande hotel na Florida. Com a sua idade e com tudo o que lhe fora dado observar durante a sua longa vida, embora amasse muito mais o futuro do que o passado,  as inovações e descobertas científicas, os prodígios tecnológicos,  já quase não o surpreendiam,  por mais fantásticos que se apresentassem. Digamos, estava saturado de prodígios – se visse, por hipótese,  astronautas a pousar na superfície de Marte, não abriria a boca de pasmo. Talvez se limitasse a beber mais um gole de aguardente velha e a puxar uma fumaça ao seu cachimbo de boa madeira de bruyère, a vulgaríssima torga ou urze portuguesa, mas que nas tabacarias insistiam em tratar pela designação francesa. O francesismo da nossa sociedade era, aliás,  uma fatalidade,  dir-se-ia que quase atávica. Como  Eça de Queirós dissera anos antes, o Portugal do século XIX era um país «traduzido do francês em vernáculo».  Na primeira metade do século XX, continuava a sê-lo. Depois, o inglês ganhou terreno e substituiu o francês como língua franca. Mas essa é outra história. Entretanto, a frase de Eça aparecera numa revista do Teatro do Príncipe Real levemente modificada – «Portugal é um país traduzido do francês em calão» – e foi assim, nesta versão mais popular, mais chula, que a frase pegou e passou a ser citada por quase toda a gente,  mesmo até por aqueles que não suspeitavam sequer da existência do autor.

O cachimbo fora  comprado há mais de sessenta anos na «Tabacaria Orge»,  da Rua do Ouro. Ali estabelecera, durante dias,  o seu posto de observação à porta da casa de Margarida, situada no lado poente da rua e, à falta de outros pretextos, fora comprando coisas a esmo, entre as quais diversos cachimbos que, durante muitos anos, apenas serviram de ornamentação à consola da lareira do salão. O hábito de fumar cachimbo era relativamente recente, posterior ao início da Segunda Guerra,  pois começara apenas quando deixara de conseguir facilmente no mercado os únicos cigarros que, não sendo um fumador inveterado, apreciava – os egípcios Abdulla – «Imperial Preference»,  que comprava em belas caixas de folha-de-flandres, ornamentadas e coloridas a verde e a dourado.

Fumar um Abdulla, não era bem um vício, era mais um ritual de comunhão com a imperecível memória de Luciano e com a recordação daqueles dias escaldantes, embora frios, do início de Fevereiro de 1908. Quando começara a usar os cachimbos, mais de trinta anos após os ter comprado,  tivera de lhes queimar devidamente os fornilhos, incendiando rum de boa qualidade no seu interior, como mandavam as regras. As boquilhas não serviam já, pois,  ou tinham-se dilatado e estavam demasiado apertadas ou, pelo contrário, haviam-se contraído e  caíam dos fornilhos,  e, deste modo, por uma razão ou por outra,  tiveram de ser todas substituídas.

Voltando à notícia da televisão. O que causara algum impacto no seu espírito fora que, ao descrever a demolição do grande edifício, o comentador tivesse utilizado aquele termo, implosão, numa acepção substantiva pertencente ao foro da Engenharia, ou, talvez  mais propriamente, ao da Física. Era um conceito novo para ele. Embora a sua formação académica fosse de raiz jurídica, as questões linguísticas sempre lhe tinham interessado muito.  Conhecia, sim, a palavra  como substantivo, mas da área específica da fonética e da fonologia. Era assim que o seu velho Morais e outros  bons dicionários o registavam – como sendo uma fase da articulação de uma consoante oclusiva, anterior à tensão, durante a qual os órgãos fonadores assumem a posição para o fechamento de que resulta a oclusão. Nesta nova acepção devia provir,  por certo, de uma americanice. Mais uma das muitas que tínhamos de suportar, pensou.  Por isso, procurou num dicionário de inglês, um Webster’s, e, os resultados foram nulos – implosion era também ali palavra afectada à área da fonética. Porém não desistiu e num dicionário enciclopédico ilustrado, de edição portuguesa muito recente que comprara sobretudo em intenção dos bisnetos, acabou por descobrir o significado que procurava – «fenómeno físico através do qual um meio sólido ou um corpo oco, submetido a uma pressão externa superior à sua resistência mecânica é esmagado violentamente e tende a concentrar-se num volume reduzido». Aí estava a resposta para o que vira no ecrã: um ruído seco e surdo e o que fora um grande e luxuoso hotel, sumira-se, como se o filme da sua construção estivesse a ser projectado de trás para diante, numa nuvem de fumo. Quando o fumo se dissipou, a imagem mostrava um concentrado monte de escombros,  reduzido face à enorme dimensão que o edifício tivera segundos antes.

Matutando em tudo o que vira acontecer ao longo da sua vida, concluiu que em Portugal, mais do que revoluções, tinham ocorrido implosões. Não ia ao ponto de afirmar que o domínio leonês, pressionado pela nobreza nativa que rodeava Afonso Henriques, implodira; nem que o mesmo acontecera às dinastias afonsina e de Avis, ou ao domínio castelhano sacudido em 1640. Era velho, mas não tanto que pudesse afirmar que o desaparecimento dos dinossáurios se devera a um fenómeno de implosão. Apenas passava agora em revista aquilo a que assistira desde que, quase setenta anos atrás, recém-formado em Direito, viera a Lisboa tratar de assuntos do pai, munido de procurações, atestados, de mil e uma recomendações da mãe, do pai e, sobretudo, das pícaras sugestões do seu primo Luciano. Pudera observar como o constitucionalismo monárquico, a ditadura franquista, a dinastia dos Braganças, a primeira República e agora a ditadura criada por Salazar e o domínio colonial tinham caído. Por implosão. Falta de resistência à pressão externa. Tal como o grande edifício do hotel de Miami, que sugado internamente quase desapareceu numa nuvem de pó. Também agora, quase sem tiros, um regime que durara meio século implodira e desaparecera numa nuvem de poeira, pairando no ar como um fantasma. Talvez também acontecesse assim noutros lugares. Em Portugal, pelo menos ultimamente,  as dinastias, os regimes, as ditaduras, implodiam. Oxalá não acontecesse agora o mesmo à democracia pela qual esperara tantos anos. Oxalá não se sumisse numa nuvem de preceitos constitucionais, de oratórias vazias, de «incontornáveis» alinhamentos internacionais… Oxalá os cravos, a onda fraterna que inundara as ruas e as praças do País não implodissem também.

Rui Neves da Silva – A Comendadora (III)*

Cp RNSilva AComendadora 03.p65

Hospedando-se no Grande Hotel Batalha, João de Almeida Coutinho contactou, na mesma tarde da sua chegada ao Porto, dois amigos de longa data – um antiquário com galeria aberta na Rua Barão de Forrester e o advogado que habitualmente tratava de todos os seus assuntos de natureza legal. A ideia era convidá-los para jantar e pôr as notícias em dia, pois como confidenciou ao Dr. Avelino Salcedo, em cujo escritório se encontrava, “estava a precisar de um banho de civilização”.

Nessa noite, enquanto saboreavam um Porto velho após uma refeição bem regada por um tinto da região do Douro, o Comendador confessou aos seus dois amigos o sentimento de solidão que experimentava e para o qual não via solução.

– Estou a perder com demasiada rapidez a alegria de viver, meus amigos! – E acrescentou, com voz amargada de tristeza: – Custa-me dizê-lo, mas até a satisfação moral que eu obtinha em ajudar os meus conterrâneos a viver melhor está a ceder lugar a um sentimento de tédio… Que Deus me perdoe, mas começo a ficar farto deste papel de Bom Samaritano!

Os outros dois convivas entreolharam-se. Um homem com a fortuna de João de Almeida Coutinho não podia penar de solidão.

Segismundo Pedrosa, que como antiquário ganhara o hábito de datar tudo, incluindo os estados de alma, levou o cálice do Porto aos lábios e deixou que o líquido rubiginoso lhe humedecesse o palato. Só depois de gastar-lhe o sabor indagou:

– Ó João, desde quando começaste a sentir esse apartamento do mundo?

O interpelado franziu o rosto, como se pensasse em datar o evento com todo o rigor. Mas a razão era outra… Receava que os seus amigos duvidassem da sua saúde mental quando lhes dissesse que tinha sido nessa manhã.

– Então? – Insistiu Segismundo.

Viciado na defesa dos seus interesses, Avelino Salcedo interveio em socorro do Comendador:

– Saber “desde quando” é o que menos importa para o caso, Segismundo. Até podia ter sido esta manhã que…

– Pois foi mesmo esta manhã, meus amigos! Não gostei do homem que vi reflectido no espelho… Morreu-me a mulher há seis anos, e a minha única família – um primo casado e com dois filhos – vive no Brasil. Dediquei-me tanto a cuidar dos outros que acabei por esquecer-me de mim. – Deteve-se por momentos, prosseguindo depois no tom de voz que utilizaria num confessionário: – Vivo como um anacoreta. Deito-me só e quando acordo continuo só. Vivo isolado naquele casarão imenso… apesar de ter ao meu serviço uma velha governanta, uma cozinheira, duas criadas, um jardineiro e um motorista.

Os seus dois interlocutores ouviram-no em silêncio. Quando João Coutinho se calou o antiquário assobiou baixinho. No entanto, foi o advogado que se atreveu a opinar sobre o mal de que padecia o seu cliente e amigo.

– Pesa-te a viuvez, o que é natural! Precisas de uma companheira, de uma esposa… Há mulheres livres, com idade entre os quarenta e os cinquenta anos, que são extremamente interessantes!

Segismundo Pedrosa franziu o sobrolho, agastado com a sugestão do causídico.

– Ó Salcedo, quem vende antiguidades sou eu…! Então isso é conselho que se dê? O João é um homem bem parecido, rico que nem Creso, forte como um touro e respira saúde. Se tem que arranjar alguém que lhe acabe com a solidão, que meta em casa coisa que se veja… uma mulher nova e bonita! E se for prendada, melhor! Não de dote, que o nosso amigo não precisa, mas de qualidades que a recomendem como uma boa companheira até ao fim dos seus dias. – Volveu depois o olhar para o Comendador, que o olhava com expressão indolente enquanto deixava que o fumo do “havano” lhe esbraseasse o rosto: – João, se investires numa mulher assim investes na cura de muitos dos teus actuais problemas. Que, a não tomares uma atitude, vão agravar-se com a passagem dos anos. Vais gastar uns tostões a mantê-la bem ataviada de roupas, jóias e perfumes?! É claro que vais! Mas a boa caridade, meu amigo, começa por casa!

Estavam no Renascença, o restaurante do Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina. O tinto da casa Ferreirinha que acompanhara a refeição e o vinho do Porto Taylor em que confiavam para os ajudar a apreciar melhor as trouxas de robalo com estufado de legumes envolto em pão de azeitona que tinham acabado de deglutir estavam a começar a fazer efeito. Não que estivessem a um passo da embriaguês, longe disso!, mas notava-se já nas faces dos três convivas um certo rubor que indiciava a perda de inibição que o álcool normalmente produz. E, à excepção do interessado, vai de abordarem a solidão do Comendador numa óptica de desejo sexual insatisfeito.

– Bem vistas as coisas, o Pedrosa é capaz de ter razão. Por que hás-de tu de comer galinha velha quando podes arranjar franga tenrinha? Porque ao fim e ao cabo a tua solidão tem a ver com falta de pito…!

Se outros fossem os seus convidados, João de Almeida Coutinho torceria o nariz a este tipo de gracejos, mas àqueles dois perdoava-lhes, pois sabia que por detrás daquelas observações brejeiras havia uma genuína intenção de o fazerem abstrair-se dos seus medos. E resolveu entrar na galhofaria.

– Já vi que vossemecês só querem o meu bem. Mas essa de eu ser forte como um touro, ó Pedrosa, tem que se lhe diga… Estamos a falar de um animal galhudo!

Segismundo Pedrosa engoliu em seco. Ao contrário de Avelino Salcedo, que era um indivíduo que já descansava parte do baixo-ventre em cima das coxas, o antiquário era enxuto de carnes. Mas numa coisa eram parecidos: na expressão manhosa dos olhos.

– Cruzes, canhoto! – protestou o antiquário, benzendo-se três vezes para, dizia ele, afastar o chifrudo. – Essas coisas não se dizem, João! Nem a brincar!

A pança do advogado começou a estremecer, antecipando um risinho malandro, quando recordou:

– Tu é que o aconselhaste a “meter em casa coisa que se veja”! É um risco, amigos! É um risco!

* Rui Neves da Silva é escritor e Revisor Oficial de Contas.

Rui Neves da Silva – A Comendadora (II)*

Cp RNSilva AComendadora 03.p65
– Lembras-te de mim?
O estudante estacou, assustado com aquela aparição. Quando viu que era uma rapariga, e ainda por cima diminuída fisicamente, o seu ritmo cardíaco estabilizou.
Clarimunda estava de frente para a luz, o que facilitaria a recordação do seu rosto se o recém-chegado tivesse perdido tempo a olhá-lo enquanto lhe arranhava o útero. Mas pelos vistos o sádico não se preocupara sequer em ver a cara do ser humano que feria e humilhava com tanta crueldade, constatação que acabou com a última hesitação da rapariga.
– Na cozinha do bordel, canalha…!
Aquelas palavras entraram-lhe pelo cérebro no exacto momento em que Clarimunda erguia a muleta e fazia saltar o punhal toledano. A ponta da lâmina enterrou-se até meio no pescoço do estudante e retraiu-se de imediato, o que fez o sangue escorrer aos borbotões do rasgão que lhe abrira na traqueia.
Clarimunda viu como a sua vítima caía de joelhos e levava as mãos ao pescoço numa vã tentativa de estancar a hemorragia. Num estertor, tentou falar… Mas o ar silvava-lhe através do ferimento e apenas conseguiu articular a palavra “ajuda-me” enquanto lhe dirigia um olhar suplicante.
Clarimunda não se comoveu. Empurrando-o com o pé, atirou para trás o corpo do moribundo e fez saltar novamente o punhal. Feriu-o uma e outra vez no ventre, vociferando em voz rouca:
– Morre no meio da merda, cabrão!
Quando viu que o corpo que apunhalava era já cadáver, Clarimunda retirou-lhe o relógio de bolso e a carteira, que deixou abandonada no chão do pátio depois de a esvaziar do dinheiro que continha.
Menos de um minuto mais tarde a rapariga esgueirava-se pelas ruelas, procurando ocultar-se com as sombras e deslocar-se colada às paredes até abandonar as imediações do local onde acabara de concretizar a sua promessa de vingança. Tinha retirado o dispositivo mecânico que mandara acoplar na muleta e recolhera o punhal, que apertava agora nervosamente entre as roupas, e afastou-se rapidamente e em passada quase escorreita em direcção à estação do comboio.

* Rui Neves da Silva é escritor e Revisor Oficial de Contas.