Poesia hondurenha de anteontem

A semana passada dei uma boas googladelas para perceber o que se passa nas Honduras. Fiquei esclarecido e do lado dos que escrevem:

“Que fique claro de umas vez por todas: não somos nem políticos, nem revolucionários, nem nenhuma outra merda: apenas defendemos a dignidade, que neste momento está do lado de Mel Zelaya.”

Porque é de dignidade que se trata, a dignidade dos que gritam:

El pueblo: Su libertad para decir qué putas quiere

Dessas voltas guardei os feeds de algumas páginas de poetas, escritores e fotógrafos hondurenhos, o que me tem oferecido a experiência, fantástica, de os acompanhar durante um período tão complicado  para a vida do seu país.  Um período de sensações fortes, para usar uma expressão fraca, de onde naturalmente brotam palavras e imagens fantásticas.

Ao poeta Fabricio Estrada roubei esta foto e tentei verter para português o poema que aqui vos deixo.

Photo de Fabricio Estrada

Profundidade* das Termópilas

Há uma chuva que se enremoinha lentamente
ameaça e cai por fim
com a força de milhares, intensamente inevitável
todo o peso da transparência
num assobio
que vai ensurdecendo o vento
numa profundidade
que chega
às raízes das sumaúmas**
no percorrer de um rio tumultuoso.

.

Há uma chuva que trespassa a terra
e alimenta
o romper das árvores novas,
de bosques subterrâneos emergindo
de ossos que retomam
a figura primeira de homens e mulheres andando.
.

Há uma chuva
que esborrata os uniformes
encurrala, agita e lava o corpo,
amansa,
ordena,
cobre o céu
para que lutemos
debaixo da sua sombra.

.

Fabricio Estrada, poeta hondurenho,versão minha a partir do poema original publicado na sua Bitacora del Parvulo

*Em castelhano: Hondura
**“A sumaúma (Ceiba pentandra, da família Bombacacea) foi para os índios da América Central a árvore-da-vida.”

Comments

  1. Adão Cruz says:

    Bravo JoãoDe facto a dignidade tem sempre um lugar. O mal está na incapacidade de se reconhecer o lugar da dignidade, como acontece com a igreja. Com uma história tão escura e sinistra, por vezes sórdida, a igreja perdeu neste momento mais uma oportunidade de se redimir, ainda que parcialmente. Para além de não acompanhar este renascer da América latina para um mundo mais justo e menos desumano, a igreja desceu à cavernícola posição da mais reles oligarquia da extrema direita hondurenha, apoiando o golpe. Como eu disse há dias, a igreja, com efeito, só se dá bem e só medra no caldo fedorento das mais sanguinárias e abjectas ditaduras.


  2. Depois do Irão, eis mais um caso de um conflito político e social que ganha uma dimensão especial graças à Internet.


  3. […] situação agrava-se Do poeta hondurenho Fabricio Estrada, acabo de receber esta informação: Fuertes enfrentamientos en los alrededores del Congreso […]

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