A Ministra de Miguel Real

Uma professora de Sociologia das Estatísticas autora de uma tese de doutoramento intitulada “Como manipular dados estatísticos de modo a evidenciar resultados não existentes na realidade” recebe um telefonema do novo primeiro convidando-a para ministra. Tem um dia para responder, e é nesse espaço que decorre a novela, com a senhora derramando as suas memórias, actualidades e alguns pensamentos profundos: “deve-se correr para onde sopra o vento” é um dos seus lemas de estimação.
Se Miguel Real se tivesse inspirado numa personagem menor mas real da política portuguesa o Manifesto Anti-Dantas ao pé disto ficaria ao nível de uma cantiga de embalar. Claro que não é o caso, o autor  sublinha o desenho ficcional da mulher “feia, triste, e de existência infeliz”, e ficamos todos mais descansados.
A leitura deu-me uma sensação estranha, de aproximação e repulsa pela personagem. De aproximação porque sentia uma proximidade difusa, tipo já vi esta tipa em qualquer lado não me lembro é quando e onde, e mesmo sem me recordar ia gozando com a forma como Miguel Real a desmonta, no que chamaria uma desmontagem cavalgada, já que monta muito bem a cavalgadura, que é outra personagem. Mas isso é problema meu, que me devo ter cruzado com alguém gémeo, e não deve afectar a maior parte dos humanos.
Ao mesmo tempo, claro, permanecia a repulsa que é suposto termos por uma personagem quando se trata de uma personagem repulsiva.

É uma obra que se aconselha aos candidatos a primeiro-ministro: ficam avisados quanto à conveniência em conhecer bem candidato a ministro que se convide, podem surgir surpresas desagradáveis, mesmo sob a forma de gestualidades taurinas compulsivas como se viu mais recentemente, na certeza de que o actual ocupante do cargo não precisa, porque todos sabemos que nunca convidaria uma abécula destas para ministra.

Para os não-candidatos também recomendo. Uma boa leitura de Verão, fresca, de humor leve, e todos sabemos como a gargalhada pesada e alarve pode ser indigesta depois de uma boa sardinhada.

Miguel Real é professor, e desconfio que os seus colegas de profissão vão esgotar a obra. Nalguns casos, os que já tiveram de recorrer aos psis, chegarão mesmo a ela por recomendação clínica, embora infelizmente se trate de um medicamento não comparticipado e sem genérico no mercado. É pena.

Rodapé: este é o meu primeiro avento, donde fica bem e não custa nada cumprimentar os colegas, sintam-se todos cumprimentados, e já agora apresento-me: João José Cardoso, empregado do Ministério da Educação, com formação em História, nativo e vivido em Coimbra, esquerdista desde miúdo, portista e da Académica, consoante os desportos e as temporadas. Não percebi muito bem para que lugar fui contratado, mas dou-me bem como apanha-bolas. Ah, e encontraram-me a ver um homem que viu ontem que viu o mar. Até já.

Comments


  1. histórias de travestis..que têm o seu lugar mas não no ME!|

  2. maria monteiro says:

    João José Cardoso, agradecida pela sugestão de leitura e por me ter dado a conhecer o “um homem que viu ontem que viu o mar”.


  3. […] meios, termino com a abertura. Ainda é o melhor filme português de sempre, e se-lo-á até que A Ministra (novela) seja transposta para […]

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