Milicianos – Os peões das nicas, de Rui Neves da Silva – I

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Um livro que conta a história dos militares que foram duas vezes para a vida militar. Pela primeira vez como aspirantes milicianos. Pela segunda vez como Capitães. Foram estes a quem foi oferecida a possibilidade de passarem ao Quadro Permanente da Carreira Militar e que levou às primeiras movimentações dos oficiais do quadro permanente contra o regime.
Este livro conta a história do ninho mais longínquo do 25 de Abril.
Rui Neves da Silva foi um desses Milicianos que esteve sete anos na vida militar, sem preparação. Enviaram-no com 126 homens para a guerra. Este livro fala dessa história.

Miguel Chaves já tinha quase seis meses de comissão no Leste de Angola quando teve o primeiro contacto com guerrilheiros do MPLA. Até então, por mais que patrulhasse o naco do distrito da Lunda que os altos comandos militares lhe haviam confiado, só tinha encontrado trilhos abertos na mata, alguns com sinais que evidenciavam a passagem recente de seres humanos. E isso punha-o doente de raiva, pois nas circunstâncias tudo apontava para a existência de grupos armados a deslocarem-se com alguma regularidade e aparente impunidade em terrenos que era suposto deverem evitar dada a sua proximidade do aquartelamento da Companhia.

Como queria seguir a carreira militar, entendia o capitão miliciano Miguel Chaves que as melhores credenciais que no futuro lhe atestariam a competência seriam umas baixas do lado do inimigo, comprovadas com a apresentação das armas individuais dos falecidos. Mas nessa perspectiva a sorte não lhe sorrira, sentindo-se o transmontano frustrado nos seus intentos de dar ao gatilho e mostrar serviço.

Ao ver que a falta de sorte se eternizava, Miguel tinha acabado por admitir que naquele jogo do gato e do rato ele estava a utilizar muito músculo e pouco cérebro. E chegara a essa conclusão mediante um processo retrospectivo que o conduzira à adolescência, à fase da sua vida em que ao lado do pai se aventurava na raia de Espanha e se ria dos carabineiros… Pois não era verdade que antes de se atreverem na devassa dos trilhos eram informados dos locais que em cada noite a “guardia” patrulhava e das furnas onde sem receio poderiam acoitar-se em caso de perigo?

Tal como em Moimenta da Raia, onde contrabandistas e carabineiros confraternizavam, também em Biula, a aldeia indígena mais próxima de Chimbila – local onde a Companhia estava acantonada -, guerrilheiros e aldeãos viviam paredes meias, ademais de se confundirem por razões epidérmicas e culturais. E como era em Biula que os militares mais esquecediços dos alertas dados procuravam nos braços das jovens autóctones algum consolo dos tantos males que a saudade provoca, não fora difícil a Miguel Chaves concluir que em alguma altura dos devaneios amorosos um ou outro filho da puta acabava por, ainda que inocentemente, dar com a porra da língua nos dentes.

Partilhando essa conclusão apenas com os seus alferes, Miguel Chaves tinha decidido que, ao invés de proibir as incursões dos seus pequenos aos quimbos de Biula, o melhor seria deixar que elas prosseguissem com naturalidade. A única diferença estaria na natureza de informação que os militares, no antes, no auge ou no após das suas proezas sexuais, veiculariam até aos ouvidos atentos das suas conversadas.

Eram quatro horas da madrugada quando Miguel saiu a pé do aquartelamento, fazendo-se acompanhar na sua surtida por cerca de quarenta homens fortemente armados. Caminhando em silêncio, o grupo rodeou as instalações da Companhia antes de avançar para a picada, que percorreu durante alguns minutos como se fosse em direcção a Biula. O grupo de homens ainda não tinha andado um quilómetro quando se deteve e infiltrou na mata. Afastando-se na perpendicular da picada, o grupo foi então dividido e reorganizado em quatro secções de dez elementos, cada uma delas sob o comando de um furriel. Das quatro secções assim formadas, duas ficaram sob as ordens de Miguel Chaves, sendo as outras coordenadas por um alferes.

As instruções do comandante da patrulha foram claras: nada de palavras, nada de ruídos e nada de medos. No que tocava às duas primeiras advertências, vá que não vá; mas aquela coisa do não ter medo era mais complicada. Ainda que ninguém se atrevesse a confessá-lo, todos os elementos da patrulha deslizavam na noite com a angústia aferrada no peito e o medo a saburrar-lhes a língua e a ressequir-lhes a gorja.

Flectindo para nordeste, o grupo de soldados avançou através da mata, pouco densa nessa zona, indo deter-se a curta distância da margem de um afluente do rio Cassai. A um sinal de Miguel Chaves, um dos soldados aproximou-se e ficou de ouvido quase colado à boca do capitão; depois, sem fazer o menor ruído, afastou-se até se confundir com as sombras que não tardariam a diluir-se nos alvores da manhã.

Sentados, e alguns dormitando, esperaram pelo regresso do batedor. Miguel Chaves não conseguia ver-lhes o rosto, mas adivinhava-lhes o nervoso. Conhecia-os a todos, e a todos tratava pelo primeiro nome, incluindo aqueles que na Companhia eram mais conhecidos pelas alcunhas: o Coxo, o Galego, o Pichas, o Vinhais… E por aí fora. Gente boa. Gente do melhor. Estavam ali quando podiam estar em França, no Luxemburgo ou na Alemanha. O seu pai ajudara tantos a atravessar a raia espanhola…! Claro que eles também iriam para fora, que o apego à terra era coisa do passado, mas só depois de, como diziam, “verem como era para poderem contar como foi”.

Em cada uma das posições que as secções ocupavam nos extremos da meia-lua tinha sido montada uma metralhadora “MG-42”, cuja cadência de tiro era deveras impressionante. Quanto ao local onde se posicionara a secção comandada por Miguel Chaves, tinha sido instalado um morteiro de 60 milímetros, que seria utilizado no caso de haver guerrilheiros que, tendo escapado da zona de morte, conseguissem regressar à protecção da mata.

Miguel não podia voltar atrás. A emboscada estava montada e os seus homens só aguardavam o seu sinal – um tiro de pistola – para a desencadear. Os dois primeiros carregadores já estavam na margem onde se encontrava a tropa, as águas do rio abriam-se agora para deixar passar mais carregadores e guerrilheiros e toda a zona na outra margem estava a ser percorrida por cerca de uma vintena de homens, embora apenas alguns deles empunhassem armas. Quando o fluxo de homens que provinha da orla da mata oposta foi definitivamente interrompido, o capitão miliciano voltou-se para Ramiro e deu-lhe instruções em voz baixa:

– Entra em contacto com os furriéis e diz-lhes que contei onze homens armados e vinte carregadores, mas é possível que tenha ficado alguém para trás. Um dos bandidos traz um lança-granadas foguete, um RPG, que pode causar-nos baixas, pelo que é conveniente que os atiradores especiais o despachem em primeiro lugar.

– É tudo? – inquiriu o soldado.

Miguel Chaves ia a confirmar com a cabeça quando se lembrou dos carregadores.

– Diz-lhes que tentem poupar os homens desarmados.

Ramiro percorreu em poucos segundos a distância que o separava dos seus camaradas, os quais se mantinham nos seus postos de arma aperrada e ansiosos por entrar em acção. Transmitidas as últimas instruções de que era portador, regressou á sua posição a tempo de ver Miguel Chaves, que da orla da mata vigiava a zona de morte, erguer a “Walther P38” para disparar o tiro que seria o sinal para os homens começar
em
a matar-se…

Ainda o som do disparo não fora ouvido na outra margem do rio e já caía sobre os desprevenidos guerrilheiros uma saraivada de balas. Os que mais perto se encontravam da cercadura da mata que tinham abandonado minutos antes a ela quiseram apressadamente regressar, mas foram derrubados e espostejados pelo fogo cruzado das metralhadoras antes de lograrem os seus intentos.

Enquanto as “MG-42” entoavam cânticos de morte em brutal cadência, em pontos vários da mata protectora explodiam granadas de morteiro vindas do céu sem aviso prévio, as quais, à falta de seres vivos para estraçalhar, ao fragmentarem-se cortavam em finas lâminas troncos de árvore com a grossura de um pescoço humano. Daí que, mesmo que iludissem o fogo das metralhadoras, os guerrilheiros que tinham saído em último lugar da mata não ganhariam grande sossego físico se a ela tivessem retornado.

Melhor sina não tiveram os guerrilheiros que, no momento em que soou o tiro de pistola, ou já tinham atravessado o rio, ou estavam dentro dele ou se aprestavam para nele entrar. E como a sua primeira reacção foi a de procurarem abrigo e à mão só tinham os carregadores, vai de utilizar os desgraçados como resguardo, porventura convencidos de que a tropa se coibiria de disparar.

Pura ilusão! Para os soldados emboscados aquele era o seu baptismo de fogo, era o desfranjar dos nervos que vinham acumulando desde que tinham abandonado a protecção do aquartelamento na Chimbila… Poderia esperar-se de tropa tão inexperiente que tivesse o discernimento de separar o trigo do joio em pleno combate? Era óbvio que não, mais a mais quando, utilizando os carregadores como parapeito, os guerrilheiros ripostavam com rajadas das suas espingardas automáticas “Kalashnikov”, de fabrico soviético.

Em consequência desta atitude cobarde por parte dos guerrilheiros, a quase totalidade dos carregadores finou-se no campo de batalha. Eram já carne morta e as balas continuavam a retalhar-lhes os corpos, esbulhando-os das vísceras e da dignidade de aspecto que todo o ser humano, mesmo já cadáver, deveria conservar; mas não ficaram a rir-se quem deles se aproveitara de forma tão desumana, pois que, desfazendo-se em pedaços o oportuno abrigo, ficaram expostos aos tiros certeiros dos atiradores especiais.

Quem acabou por ter sorte foram os carregadores que se encontravam dentro de água no início da emboscada. Abandonando os fardos que carregavam, deixaram que a corrente os afastasse para longe, levando nos olhos a imagem do encarniçamento dos soldados emboscados contra os guerrilheiros.

Comments

  1. Luíis Marques says:

    Boa tarde. Gostava de saber qual a editora do livro Milicianos, do Rui Neves da Silva, já que o não encontro à venda, ou se for possível o contacto do autor.
    Cumprimentos e obrigado.