A injustiça social e os chás dançantes

Lembro-me de estar deitado numa cama de um hospital militar e receber a visita das senhoras do Movimento Nacional Feminino. As mesmas cujos filhos e genros não iam para a guerra. Foram lá oferecer-me um saco de plástico com umas bugingangas que nem sequer podia comer. Mas estavam ali a lavar a consciência junto dos que eram arrancados às famílias e que davam com o coiro na tropa! Famílias onde faltava quase tudo mas onde sobrava amor e afecto.
As minhas três irmãs mais velhas não puderam estudar para “o homem” da casa ir para a escola. Faltava tudo desde uma alimentação regular e suficiente, até ao médico que só se visitava quando o caso era para morrer. Os sapatos que não se tinham à roupa (pouca) que andava junto ao pêlo. Um país profundamente pobre e injusto, com meia dúzia de famílias a abocanharem grande parte da pouca riqueza que se produzia.
Mas esse mesmo “regime fascista” tentava compor o ramalhete social promovendo uma espécie de “caridadezinha” que os “ricos que comiam tudo” levavam à prática como branqueamento da injustiça de que só eles eram culpados. Nos tempos de crise vamos vendo quem sempre se calou perante o ataque organizado às empresas e às injustiças friamente cometidas, armar agora em “caloroso” irmão na miséria.
Felizmente que há muitas Organizações não governamentais (ONG) que fazem um grande serviço de apoio aos mais pobres, lançando mão dos desperdícios que esta sociedade injusta produz sem cessar! Mas que fique bem claro que não é de “chás dançantes” que esta sociedade precisa!
Precisa de um política de rendimentos justa e de meter na cadeia quem envia para o desemprego os mais frágeis!

Comments

  1. João Paulo says:

    Assino por baixo. Concordo também com Paulo Rangel quando disse hoje que o estado deveria ver o que se passa com as instituições particulares de solidariedade social.JP

  2. maria monteiro says:

    “Felizmente que há muitas Organizações não governamentais (ONG) que fazem um grande serviço de apoio aos mais pobres” Plenamente de acordo. Mas por via das dúvidas o melhor é usar o velho anúncio do Sonasol: porque o Sonasol nunca se engana (Nestes últimos anos tenho tido algumas surpresas com ONG e IPSS)

  3. Carla Romualdo says:

    Luís, este post fez-me lembrar uma crónica do António Lobo Antunes que começava assim (fui pesquisar ao baú):”Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.”

  4. Luis Moreira says:

    Carla, essas humilhações é que eram o fascismo.A caridadezinha,os grupos restrictos, “os clubes” onde as meninas eram apresentadas à sociedade em chás dançantes onde se gastava muito mais do que se reunia para dar…

  5. Adalberto Mar says:

    Eu trabalhei na Abraço e na AMI como voluntário. Não vou tecer comentários, mas JAMAIS ME METEREI NOUTRA! tout dit!


  6. Um grande texto, Luís. Daqueles que mexem.Já quanto às ONG, há de tudo. Mas, admitindo algum cinismo, mantenho a ideia que também nesta área não há almoços grátis.


  7. e como conseguir separar o trigo do joio?

  8. Luis Moreira says:

    Vítor, uma coisa é certa.Ninguem o fará por nós!

  9. Adalberto Mar says:

    Lá está ele a dar também opinião sobre as ONGs também..este gajo é o 5º vidente de Fátima!

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