Quantos advogados são necessários para mudar uma lâmpada?

“Um advogado fará tudo para ganhar um caso, algumas vezes até dirá a verdade”, disse Patrick Murray numa das inúmeras frases e piadas em redor desta classe profissional. Há muito que os advogados têm má imagem pública, sobretudo nos EUA, em Itália e diversos outros países. Em Portugal eram, até há poucos anos, uma das classes mais respeitadas. Hoje o cenário não é o mesmo. Em parte por culpa própria, mas também por responsabilidades da justiça nacional, um dos sectores mais atrasados e miseráveis deste nosso país.

Há demasiadas leis, decretos, portarias, regulamentos, por vezes contraditórios, e, usando analogias automobilísticas, diversas escapatórias e rotundas que permitem aos advogados e alguns dos seus clientes contornarem decisões desfavoráveis ou utilizarem manobras dilatórias, que prolongam os processos ‘ad eternum’.

Há uns anos, José Miguel Júdice, enquanto bastonário da ordem, denunciou a existência de advogados que cobram “honorários que são autênticos assaltos à mão armada”. Esta semana contaram-me uma historias dessas. Três partes, um queixoso e dois à defesa, três advogados. O queixoso venceu o primeiro ‘round’. Os perdedores recorreram. Destes, um dos advogados, elemento de um grande gabinete, e representando um cliente, apresentou a documentação a tempo e horas e acabou por vencer a contenda. O outro, pequeno escritório, e representando outro cliente, não recorreu a tempo e o cliente voltou a perder. A conta do grande escritório foi de 750 euros. O pequeno escritório apresentou uma factura de 2500.

António Marinho Pinto, actual bastonário, sabe do que fala. Pode não ter a sensibilidade necessária para dizer o mesmo utilizando palavras diferentes mas, se calhar, não quer. O que diz não agrada aos elementos da sua corporação, talvez por ser verdade. Esta semana veio dizer que alguns advogados ou escritórios” são “quase especialistas em ajudar certos clientes a praticar determinado tipo de delitos, sobretudo na área do delito económico”. Os advogados não gostaram mas fiquem sabendo que é isso mesmo que pensam as pessoas que estão de fora das guerrinhas e tricas da classe. Claro que não são todos os que assim procedem. Será até uma minoria mas é sabido que uma maça podre pode estragar todo um pomar.

Hoje sabemos que a Ordem dos Advogados puniu, em 2008, “359 profissionais por infracções que vão desde abuso de confiança a faltas deontológicas várias, como faltas a julgamentos, abandono de clientes ou conflitos de interesses”.

Já agora, sabem quantos advogados são necessários para mudar uma lâmpada? Três. Um para rodar a lâmpada, outros para o atirar abaixo da escada e um terceiro para processar a empresa produtora da escada.

Comments

  1. maria monteiro says:

    E se olharmos para as seguradoras e para o seu apoio jurídico – ele há uma concertação tão concertada…


  2. os honorários “à mão armada” são o resultado de os advogados terem plena consciência que o vulgar cidadão bloqueia perante a complexidade da lei. é demasiada especialização e os advogados sabem bem disso. há demasiadas leis como dizes. e demasiadas leis conduzem a demasiada corrupção, precisamente por causa das “escapatórias e rotundas”.


  3. Nem mais Isac. Esse é um problema do país, da justiça neste nosso país e das pessoas que a procuram. Pelo meio, encontramos os advogados.

  4. Luis Moreira says:

    E quando se chega à barra do tribunal e se percebe que o advogado não tem nada para dizer e andou aquele tempo todo a receber honorários sabendo que é causa perdida?

  5. isac says:

    zé, mas aqui convém apontar o dedo para dentro também. o “problema advogado” é também um reflexo do “problema cidadão” seja ele pequeno e grande. é a nossa inclinação natural para a corrupção. para não querer respeitar as leis. “Dê lá um jeitinho”, não é o que dizemos? E os advogados tem o conhecimento e o meios para contornar a lei legalmente, por estranho que possa parecer. O Trauliteiro Pinto até tem uma certa razão no que diz e concordo que “Pode não ter a sensibilidade necessária” para ser bem recebido. Se calhar estamos demasiado habituados à eloquência dos nosso representantes. O sistema judicial é já um sistema demasiado remendado e mastigado para ser o mais correcto e justo, mas tenho a consciência que é quase impossível mudá-lo ou corrigi-lo nos moldes actuais.

  6. Adalberto Mar says:

    Só uso o do sindicato que é grátis..e depois o telefone..e os outros advogados meus queixavam-se que eu lá com os pedidos de infos’ via telefone em casa os queria explorar… porque queria saber sem pagar! DANADOS!

  7. isac says:

    luis, esses devem ser as tais “maçâs podres” que o zé fala. palhaços e ladrões há-os em todo o lado, de certeza absoluta. face ao desconhecimento dos clientes nesta matéria é preciso ter mesmo sorte para apanhar um bom profissional que não nos engane. é como ir ao mecânico ou contratar um picheleiro.

  8. Luis Moreira says:

    Sim, é uma profissão que exige elevados padrões deontológicos que a maioria não tem.Já viste o que é um advogado que sabe que o cliente vai ganhar um balúrdio com determinado negócio?A tentação de abocanhar uma parte é muito grande!

  9. Miguel Dias says:

    A tentação de abocanhar é algo de transversal ao genéro humano (não confundir com manuel germano). Bem como a todos os outros géneros, diga-se. Com os senhores doutores advogados, o problema, é que nunca se sabe o quanto vamos ser abocanhados.

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