As escolhas de Sócrates para as eleições europeias

Tenho a convicção de que José Sócrates, ao seleccionar os candidatos do PS para as eleições europeias, subestimou os riscos de maus resultados. Do alto da arrogância e da imagem de autoconfiança em que é habitual empoleirar-se, não fez a leitura atenta do cenário em que actua; então, tratou de fabricar uma lista que lhe servisse pessoalmente, embora com eventuais palpites de indefectíveis – é legítimo suspeitar, por exemplo, que a escolha de Vital Moreira para cabeça de lista tenha tido a mãozinha do amigo Correia de Campos, ambos identificados com o fiel subgrupo de Coimbra, e em oposição à facção ‘alegrista’ da cidade.  

Também, com semelhante leviandade, integrou na corrida “Nós, Europeus” Elisa Ferreira e Ana Gomes, em acumulação com o anúncio da candidatura de ambas às Câmaras Municipais do Porto e de Sintra, respectivamente. Contou que as duas autarquias estariam no papo.

Sempre confiante na inesgotável certeza da decisão, e beneficiando do grande vazio do PSD, deu como facto consumado que teria consigo a larga maioria dos eleitores; e com os actuais nomes da lista, ou com quaisquer outros, uma vitória rotunda jamais lhe escaparia.

Agora, tardiamente, dás sinais de começar a aperceber-se dos erros de cálculo – isto, num “grande” político, e ainda por cima engenheiro, não parece admissível. Estará, porventura, a despertar para os riscos da desastrada escolha, tão desastrada quanto tem sido a política de derivas de um governo dito socialista. Resolveu envolver-se em agitadas rondas pelo País, e até por Espanha, contando com o gesto de solidariedade recíproca do camarada Zapatero. Visa colmatar, assim, a tibieza de um Vital Moreira, mau comunicador, sempre cheio de estereótipos e vazio de ideias.

As eleições europeias, valha a verdade, nunca significaram grande coisa para parte substancial do eleitorado, em Portugal e em muitos outros países. Mas mesmo com menor participação, um mau resultado, como, por exemplo, o empate técnico com o PSD, é motivo mais do que suficiente para ferir os objectivos e a vaidade do Primeiro-Ministro. E tanto quanto um resultado adverso, as derrotas, muito prováveis, nas Câmaras do Porto e de Sintra converter-se-ão em obstáculos à ida de gente muito incómoda para Europa. A ser preterida, Jamila Madeira será, porventura, um caso, entre outros.

Sócrates corre, pois, o risco de acelerar a própria queda em dois papéis: como governante, que iniciará a caminhada da perda da maioria absoluta, e como camarada, que acabará por se confrontar com a mais do que provável contestação de alguns fiéis apoiantes. No PS, como é normal nos chamados partidos de governo, a fidelidade termina quando termina o tacho.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Graves erros, o da Elisa é para quem não conhece as gentes do Porto.Sintra ,o Seara tem reputação de tipo sério e seguro.Tudo muito dificil.Nas legislativas vai pagar o desemprego galopante que só se pára com as PMEs e não com os bancos. O próprio António Costa não vai ter vida fácil aqui em Lisboa.O Rangel na TV dá cabo do Prof Dr. de Coimbra.Uma maioria absoluta para Sócrates era um desastre para o país!O que tinha já mostrou!


  2. Há quem prefira outro caminho: Sócrates escolheu bem, porque se ganhar, ganha a aposta dele; se perder, a derrota é do cabeça de lista.

  3. carlos fonseca says:

    José Freitas, essa hipótese é também plausível; no entanto, Sócrates é tão egocêntrico que até pode não prescindir da responsabilidade do mau resultado. Por outro lado, para as gentes do PS, ser-lhe-á díficil declinar a responsabilidade da escolha.

  4. Luis Moreira says:

    O desemprego é galopante, as pessoas vão perceber o que muita gente anda a dizer.Ele enterrou a massa nos bancos por medo do que lá se podia encontrar.E os bancos reagiram como se esperava.Fecharam a torneira e o dinheiro não chega à economia real. E ao nível a que o desemprego está a chegar haverá convulsões sociais!

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